81 anos da bomba de Hiroshima
Passaram 81 anos sobre o lançamento da bomba de Hiroshima. Crescemos a ouvir dizer que foi uma coisa boa, ou ao menos necessária. https://alternativaportugal.org/81-anos-da-bomba-de-hiroshima/
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O "negócio" dos incêndios
Se a água lançada sobre os fogos fosse equivalente à torrente de palavras ditas e artigos escritos, o “negócio” dos incêndios não existiria. https://alternativaportugal.org/o-negocio-dos-incendios/
Nos 56 anos da morte de Oliveira Salazar
Os homens de génio aparecem esporadicamente, às vezes com intervalo de séculos... Nos 56 anos da morte de António de Oliveira Salazar. https://alternativaportugal.org/nos-56-anos-da-morte-de-oliveira-salazar/
Dia da Batalha de São Mamede e da Fundação
Foi em 24-06-1128, dia da Batalha de São Mamede e da Fundação, que D. Afonso Henriques iniciou a definição do território que é hoje Portugal. https://alternativaportugal.org/dia-da-batalha-de-sao-mamede-e-da-fundacao/
Portugal nasceu há 898 anos
A história de Portugal não existiria sem a Batalha de São Mamede: ela foi o seu berço. Foi nessa data que ali nasceu Portugal há 898 anos. https://alternativaportugal.org/portugal-nasceu-ha-898-anos/
Honrar a Pátria junto ao Monumento aos Combatentes
Construído para homenagear a memória duma época, é no dia 10 de Junho que os patriotas vão honrar a Pátria junto ao Monumento aos Combatentes. https://alternativaportugal.org/honrar-a-patria-junto-ao-monumento-aos-combatentes/
Encontro Nacional de Homenagem aos Combatentes
Dia 10 de Junho, junto ao Monumento aos Combatentes do Ultramar, em Belém, realiza-se o XXXIII Encontro Nacional de Homenagem aos Combatentes. https://alternativaportugal.org/encontro-nacional-de-homenagem-aos-combatentes/
Muito se tem escrito acerca da vida da virtuosíssima D. Isabel d’Aragão, esposa d’El-Rei D. Dinis de Portugal, mas há muito que se impunha a publicação de um texto com a história sucinta da vida, morte e excelsas virtudes da Rainha Santa Isabel, que, apesar de conciso na sua descrição, não deixasse de relatar os factos que mais distinguiram Àquela que a cidade de Coimbra escolheu para sua Augusta Padroeira e Protectora.PrólogoO que o autor deste texto teve em vista foi facultar aos fiéis, com grande economia de preço, um livrinho de leitura fácil e corrente, ao alcance de todos, onde a história sagrada da Rainha Santa possa deixar bem arraigada no espírito dos crentes a obra sublime, verdadeiramente maravilhosa, que lhe concedeu lugar na corte celestial.As notas que colhemos foram extraídas, principalmente, do monumental trabalho de investigação histórica do Exmo Sr. Dr. António Garcia Ribeiro de Vasconcelos, na sua tão apreciada obra “D. Isabel d'Aragão”.A fama de santidade da Rainha Santa Isabel estende-se por todo Portugal e por muitas terras de Espanha. Em Coimbra, porém, é tão grande que em parte alguma do nosso País se realizam festas tão pomposas em honra de um santo, como nesta cidade, onde concorrem para mais de 50.000 pessoas por essa ocasião.É nos momentos de luta pela adversidade da vida que os conimbricenses, principalmente, recorrem à protecção da Rainha Santa, na sua fervorosa súplica, e se nem sempre logram alcançar a satisfação das suas preces, é já poderoso lenitivo para a sua dor a lembrança de que Ela nunca desamparou os infelizes com a sua divina graça.Isabel d'Aragão, tendo sido um grande exemplo de virtudes, deu também uma prova bem frisante do seu amor a Coimbra, determinando em seu testamento que o seu corpo sagrado repousasse no Mosteiro de Santa Clara desta cidade, onde Ela esteve enclausurada, e donde foi trasladado o seu corpo para o novo mosteiro do mesmo nome.É, pois, pouco quanto façam os conimbricenses em honra da memória sagrada da Sua excelsa Padroeira.Capítulo I. Nascimento da Rainha Santa, da corte de Aragão ao trono de PortugalA Rainha Santa Isabel, que Coimbra se ufana de ter como desvelada Protectora e valiosa Padroeira, nasceu na cidade de Saragoça (Espanha), no ano de 1271.Filha do Príncipe real D. Pedro de Aragão e de sua esposa D. Constança, o seu nascimento foi desde logo iluminado pela graça divina, pois que seu avô, El-Rei D. Jaime, que até aí vivia em grande discórdia com D. Pedro de Aragão, imediatamente se congraçou com este, passando ambos a viver na mais doce harmonia.Assim demonstrou Deus aos homens que esta menina estava reservada a ser na terra a medianeira da paz, o Anjo predestinado a estabelecer a harmonia e a concórdia entre os desavindos; facto que mais tarde, quando Rainha de Portugal, se verificou nas diversas desavenças entre seu esposo, El-Rei D. Dinis, e seu filho, D. Afonso IV.A Rainha Santa Isabel foi, como já dissemos, aureolada desde o seu nascimento pela graça do Senhor. As suas preciosas virtudes bem cedo se revelaram, crescendo nela com a idade a fama que tanto a impôs à consideração de todas as cortes da Europa, facto que despertou em bastantes príncipes o desejo de possuírem como esposa tão excelsa senhora.Foi à corte de Portugal, felizmente, que coube a suprema ventura de ser a preferida entre todas as outras, merecendo El-Rei D. Dinis a glória de ter como consorte um tesouro de tantas virtudes e de tão preciosos encantos.O casamento de D. Dinis com D. Isabel celebrou-se por procuração na antiga cidade de Barcelona, tendo lugar este acto no dia 11 de Fevereiro de 1282, e contando a futura Rainha de Portugal apenas 11 anos de idade. Este auspicioso enlace constituiu um motivo de grande regozijo para todos os portugueses, antevendo estes os enormes benefícios deste casamento, o qual foi muito festejado e aclamado em todo o País, com demonstrações de grande alegria e verdadeira satisfação.A saída de D. Isabel para Portugal causou a seus pais grandes tristezas, custando-lhes imenso essa separação pelas profundas saudades que D. Isabel deixava em todos os corações, que muito a estremeciam.De Espanha até Coimbra foi a excelsa Rainha delirantemente aclamada por todo o povo que acorria à sua passagem, salientando-se mais essas carinhosas manifestações na antiga vila de Trancoso, onde, no dia 24 de Junho de 1282, no templo de S. Bartolomeu, se celebraram com toda a pompa as bênçãos nupciais.Em Coimbra, onde a esse tempo residia a Corte, juntamente com a principal nobreza do Reino, as manifestações de contentamento e alegria pela chegada dos régios nubentes atingiram o mais delirante entusiasmo, conquistando logo a Rainha D. Isabel a simpatia e o amor de um povo que, mais tarde, havia de herdar o seu mais precioso tesouro — o sagrado corpo que todos hoje veneramos — e que esta cidade conserva com a mais desvelada e respeitosa devoção.As manifestações de regozijo com que a cidade recebeu os régios consortes foram, pois, verdadeiramente grandiosas, vestindo a cidade as suas melhores galas para bem lhes significar o contentamento de que se achava possuída por motivo daquele enlace, cujos efeitos tanto se evidenciaram na vida da Nação portuguesa, e de que Coimbra coparticipou em larga escala pelos benéficos actos de caridade que a Santa Rainha espalhou por toda a parte.Foi nesta cidade, principalmente, que D. Isabel de Aragão manifestou mais claramente a pureza da sua alma. Os actos de caridade que praticou, os socorros por ela prestados à indigência, aos órfãos, às viúvas e às donzelas abandonadas, foram os primeiros labores que lhe teceram a sua coroa de glória; a fundação de asilos, de albergues e de hospitais, que a sua magnificência sustentou e onde se recolhia uma legião de infelizes, originou, sem dúvida, a fama de santidade que bem cedo a distinguiu e que, mais tarde, a 25 de Maio de 1625, dia da Santíssima Trindade, a Igreja confirmou, englobando-a no número dos eleitos do Senhor.Capítulo II. Actos de CaridadeSe durante a vida de El-Rei D. Dinis a ação da Rainha Santa foi um constante manancial de actos virtuosos, a partir do momento da sua viuvez, a sua ação tornou-se verdadeiramente exemplar.O número de factos que desde então assinalam tão gloriosa existência na terra, mais e mais fazem arraigar na alma do povo a convicção dos desígnios de Deus, por Ela tão santamente interpretados.Sem todavia esquecer os deveres de Rainha, que lhe absorviam uma grande parte dos seus cuidados, e não poucas vezes foram motivo de profundos desgostos, D. Isabel de Aragão cinge livremente o hábito de freira clarissa, e, volvendo os olhos piedosos para um mais largo horizonte, consagra-se completamente a obras de caridade, fundando e auxiliando hospícios e asilos, nos quais se albergam, sob a sua protecção, muitas infelizes que se regeneraram pelos seus conselhos e alcançaram na terra a felicidade que só sabem gozar as almas puras e simples.Querendo encaminhar-se pela estrada luminosa que da terra se eleva até Deus, um dos seus primeiros cuidados, ao ver-se cingida pela roupagem da viuvez, foi trocar os faustos das glórias terrenas pela humildade da clausura a que, como já dissemos, livremente se sujeitou.Junto dos seus paços reais corriam vagarosamente as obras para a fundação do Convento de Santa Clara, obras que prometiam eternizar-se por demandas entre os frades crúzios(1) e D. Maior Dias, fundadora daquele convento, e que certamente ficariam incompletas se não fosse o auxílio e protecção que a Rainha Santa dispensou para a sua rápida conclusão.Uma vez concluído, cuidou logo a Rainha Santa em fundar junto deste convento um asilo para órfãos e para a pobreza envergonhada, chamando para junto de si algumas amas de leite com o encargo de alimentarem as crianças desvalidas!A maior parte do seu tempo tinha-o a Rainha Santa distribuído por forma a satisfazer os seus deveres de Rainha e cristã; o restante, empregava-o no ministério da caridade, visitando os asilados, a quem não só consolava com a sua palavra, mas muitas vezes servia de carinhosa enfermeira, curando as chagas que lhes corroíam o corpo.Nesta e em muitas outras obras de verdadeira abnegação, despendia a Rainha Santa quase toda a sua fortuna. Com o auxílio de Deus, a quem firmemente procurava engrandecer com os merecimentos das suas preciosas virtudes, nunca a Rainha Santa lutou com dificuldades para desempenhar a sua nobre missão. Os proventos de que dispunha parece que tinham o condão de se multiplicar, e, se algumas vezes houve em que o seu socorro tinha de fazer face a maiores calamidades, então eram as rosas que, adquirindo a forma de ouro reluzente, premiavam os seus actos de caridade e satisfaziam os encargos adquiridos para garantir o pão aos famintos!Da sua vida, tão brilhantemente documentada na preciosa obra de S. Exa. o Sr. Dr. António Garcia Ribeiro de Vasconcelos, erudito professor da Universidade de Coimbra (D. Isabel de Aragão, Coimbra, 1894), constam muitos e importantes factos da vida gloriosa da Rainha Santa, traduzidos todos eles nos mais altos benefícios em favor dos desprotegidos.Capítulo III. Morte da Rainha SantaEm Junho de 1336, teve a Rainha Santa conhecimento de que seu filho D. Afonso IV e seu neto D. Afonso XI, rei de Castela, se haviam indisposto por motivo de graves acontecimentos, tendo-se declarado a guerra entre aqueles dois poderosos monarcas.Quando a Rainha Santa soube de tal resolução, imediatamente se resolveu a partir para Estremoz, lugar onde a esse tempo estava o seu filho acompanhado de toda a Corte.Este propósito foi prudentemente combatido pelos médicos da Rainha Santa, os quais, temendo mais o excesso do calor e a fadiga dessa longa viagem do que a idade da virtuosa Senhora, se apressaram a demovê-la dessa resolução. Inúteis rogos e infrutíferas tentativas! A Rainha Santa, desprezando esses bons conselhos e animada somente em restabelecer a paz entre os reis desavindos — filho e neto —, parte apressadamente de Coimbra, caminhando sob um sol abrasador, e chega finalmente junto das fortalezas de Estremoz, abatida e fatigada, mas cheia de ânimo para cumprir a sua carinhosa missão.Logo que a sua chegada é conhecida no acampamento de D. Afonso IV, imediatamente se suspendem as hostilidades e todos se abeiram do leito da Rainha Santa, para lhe prodigalizarem os cuidados que a sua melindrosa saúde exigia.Baldados esforços porque o mal agravava-se de momento para momento. Uma pústula que rapidamente lhe apareceu num braço tornou mais melindroso o seu estado, e, no dia 4 de Julho, manhã cedo, a Rainha Santa declarou que queria receber os últimos Sacramentos. Na tarde desse mesmo dia, as forças principiaram a faltar-lhe, a Rainha Santa vê que é chegada a sua última hora, e, erguendo o pensamento até ao Céu, encarrega a Mãe de Deus de lhe receber a alma, pronunciando com toda a suavidade estes versos do hino eclesiástico:Mãe de graças e MisericórdiaMaria piedosa e forte:Livra a minha alma, recebe-aNa hora da minha morte.A seguir, recita com visível comoção algumas orações; os olhos fecham-se lentamente, o peito deixa de arfar, e todos os presentes, estupefactos ante aquele quadro tão emocionante, compreendem que a alma pura da Rainha Santa, solta do seu venerável corpo, subia aos céus a receber o prémio das suas virtudes, descansando para sempre na paz do Senhor, onde eternamente gozará a bem-aventurança com que Deus premeia os seus eleitos.É, pois, no reino celestial que a nossa Santa Protectora está a receber o prémio das suas boas acções e dos seus constantes trabalhos. Ali, no seio de Deus, junto da Virgem Santíssima, intercede pelo seu povo, por aqueles que a ela recorrem com a alma angustiada pelas dores humanas, e que jamais esquecem o seu nome para lhe tributar as homenagens do seu reconhecimento. Essas homenagens concretizam-se no culto fervoroso de todos os portugueses pela Santa Rainha, e, mui especialmente, do povo de Coimbra que por Ela nutre o maior respeito e a mais significativa devoção.História da vida, morte e excelsas virtudes da Rainha Santa IsabelCapítulo IV. TrasladaçõesLogo após a Rainha Santa ter entregado a sua alma a Deus, o primeiro cuidado da Corte foi escolher o local para depositar o corpo de tão excelsa Senhora, opinando uns para que fosse sepultado no Convento dos Franciscanos, em Estremoz, e outros para que fosse trasladado para a Sé de Évora, a cidade mais próxima daquela terra. Por conselho de El-Rei, procurou-se o testamento de D. Isabel, e, vendo-se por ele que a Rainha Santa queria ser sepultada em Coimbra, na Igreja de Santa Clara, foi respeitada esta vontade, dando-se logo ordens para se pôr em prática o desejo ali expresso.Apesar das opiniões em contrário, prevaleceram as determinações de El-Rei.O préstito fúnebre saiu de Estremoz na tarde do dia 5 de Julho e, em marcha apressada, chegou a Coimbra no dia 11 do mesmo mês, tendo atravessado tão longo percurso debaixo de um sol abrasador.As inúmeras pessoas que constituíam o préstito fúnebre foram tomadas de verdadeiro espanto quando, ao terceiro dia de viagem, notaram que o ataúde onde vinha o corpo da Santa Isabel começava a abrir algumas fendas, escorrendo por entre elas um líquido que todos supuseram ser proveniente da decomposição do cadáver.Mas, feliz engano! Esse líquido, longe de exalar qualquer cheiro desagradável, antes era ameno e consolador, espalhando no espaço um tal aroma que, aqueles que a princípio se sentiam inquietos e desconfiados, logo se aproximaram do ataúde, louvando ao Senhor por esta manifestação da Sua omnipotência.Quando o cortejo chegou a Coimbra, deram-se então cenas comovedoras e lancinantes entre a população citadina. Todos, à porfia, queriam beijar o ataúde onde vinha a sua Protectora, a sua desvelada Benfeitora, ouvindo-se choros de verdadeiro compungimento pela morte da virtuosa Rainha, cujo passado tinha sido um manancial de graças e bondade!Quando o ataúde deu entrada na Igreja de Santa Clara, muita gente supôs que o corpo da Rainha Santa seria exposto à veneração do público. Tal não aconteceu. No dia seguinte, 12 de Julho, é que se celebraram os ofícios divinos por alma de D. Isabel, sendo estes actos revestidos de toda a solenidade e com a assistência de alguns prelados, professores da Universidade, Rei, cabido e muitos religiosos das diversas ordens.Logo que eles terminaram, foi o ataúde transportado para uma capela que a Rainha Santa havia mandado edificar ao fundo da Igreja e na qual estava o túmulo de pedra que em sua vida também mandara construir.Foi dentro deste precioso monumento de pedra, ricamente cinzelado, que se colocou o ataúde tal qual veio de Estremoz, envolvido numa pele de boi e com um pano de brocado repregado por cima.Sobre o ataúde colocaram o bordão de peregrina e uma bolsa que o arcebispo de S. Tiago da Galiza ofereceu à Rainha Santa quando ela visitou esta cidade, sendo em seguida fechado o túmulo com a pesada pedra que ainda hoje o cobre e na qual vemos representada a figura da Rainha Santa com hábito de freira.Assim se conservou até ao dia 26 de Março de 1612, 276 anos depois da sua morte, dia em que foi aberto por consentimento do Sumo Pontífice.Esta cerimónia, que se tornou necessária para se proceder ao processo de canonização de D. Isabel, foi presidida pelo bispo de Coimbra, D. Afonso de Castelo Branco, e, tendo como assistentes, D. Martim Afonso, bispo de Leiria, Dr. Francisco Vaz Pinto, dois médicos, um cirurgião e algumas testemunhas, a quem foi confiado o encargo de examinarem os restos mortais da Rainha Santa.Pedimos licença para reproduzir aqui o relato que sobre esta cerimónia encontrámos no autorizado livrinho — “História Popular da Rainha Santa Isabel” — Protectora de Coimbra.“Subindo à capela superior, onde estava o túmulo, e analisando-o com todo o cuidado por fora, acharam-no exatamente como havia ficado 276 anos antes, quando sobre ele se colocara a tampa, depois de introduzido o ataúde que encerrava o corpo. Apenas a piedade dos fiéis o havia rodeado de demonstrações da fé e amor que os prendia Àquela cujos restos ali estavam encerrados.“Ninguém sabia se o túmulo continha somente os ossos da Santa esposa de D. Dinis, se mais alguma coisa que ainda restasse do corpo e mortalhas; por isso, todos estavam ansiosos por que o túmulo se abrisse.“Retirada a pedra, encontrou-se a bolsa e o bordão de peregrina, que foram pelo bispo-conde entregues à guarda das religiosas.“O ataúde ainda se achava envolvido em restos da pele de boi e da tela vermelha que havia sido repregada por cima.“Com dificuldade se despregou a tábua superior do ataúde, cortaram-se à tesoura os numerosos envoltórios em que a Santa Rainha fora amortalhada em Estremoz, antes de ser metida no caixão, os quais, se encontraram com admiração de todos, em perfeito estado de conservação, como se ali tivessem sido colocados pouco tempo antes.“Por fim descobriu-se o rosto, peito e braço direito da nossa excelsa Protectora. Todos caíram de joelhos, estupefactos pelo grande milagre que viam!“O corpo achava-se inteiro e incorrupto, branco como se fosse de cera, a cabeça coberta de louros cabelos, perfeitamente seguros na pele, a boca e olhos fechados e bem compostos, tendo impresso na fisionomia o cunho da bondade e majestade que haviam sido apanágio da Rainha Santa. Vestia o hábito de estamenha(2) das freiras de Santa Clara, e um pano branco de linho envolvia-lhe a cabeça. Do ataúde saía um aroma suave.“À vista de tal milagre, as religiosas cantaram o hino do velho Simeão, dizendo: ‘Agora, Senhor, já podeis deixar-nos morrer em paz, porque os nossos olhos viram as grandes maravilhas do vosso poder’.“Feito pelos médicos e cirurgião o exame minucioso que se lhes pedia, consertaram-se de novo as mortalhas, o túmulo fechou-se, e de tudo se lavrou o auto competente”.Com o decorrer do tempo e as sucessivas enchentes do Rio Mondego, muito grave se tornou a vida monástica no convento fundado pela Rainha Santa. Como as invernias(3) ameaçassem sepultar nas areias daquele rio as paredes do convento, as religiosas receavam, e com razão, ficar sepultadas sob os seus escombros, perdendo-se neles todas as preciosidades que enriqueciam a igreja e entre as quais devemos destacar o precioso corpo da Rainha Santa.Em vista, pois, dos graves e constantes perigos a que estava sujeita a comunidade do velho mosteiro, dignou-se El-Rei D. João IV ouvir os rogos das religiosas clarissas e mandou erigir no Monte da Senhora da Esperança um novo convento para sua habitação.As obras deste grandioso edifício, que se prolongaram durante muito tempo, foram iniciadas no dia 5 de Julho de 1649, e só no dia 29 de Outubro de 1677, 28 anos depois, ele estava apto a receber as referidas religiosas.Por ordem do Príncipe regente D. Pedro, segundo filho de D. João IV, procedeu-se no dia 27 de Outubro daquele ano à abertura do túmulo da Rainha Santa, assistindo a este acto alguns representantes da Corte, 8 bispos, professores da Universidade e muitos religiosos das diversas ordens de Coimbra. Read the full article
O nosso primeiro objectivo: Vencer Abril
Longe vão os tempos da vitoriosa insubordinação do 25 de Abril. Pelo caminho ficaram milhões de mortos. Atolados nesta lama de sangue os gloriosos militares vencedores ainda agora blasonam o seu glorioso feito. É a estupidez a tentar justificar a covardia. É tempo de fazer as contas e de avaliar os desgostos. Vencer o 25 de Abril continua a ser o nosso primeiro objectivo.O orgulho maior do abrilismo é a "descolonização". Fartos de andarem com a casa às costas, de serem cornos e de se passearem pelos quatro cantos do mundo a defenderem Portugal, os abrilinos resolveram acabar com a guerra para regressarem a penates. Aproveitando-se da fraqueza de Marcelo Caetano, da torpeza de Costa Gomes e da estupidez vaidosa de Spínola organizaram-se celularmente. Numa manhã chuviscosa tomaram conta do poder. Entregaram-no a um epiléptico compensado, coronel de engenharia, chamado Vasco Gonçalves e, num ápice, desfizeram uma obra de cinco séculos. Diz-se que o medo guarda a vinha. Neste caso arrancou-a e destruiu-a. De Julho de 1974 a Novembro de 1975, Portugal viu-se amputado do melhor do seu território histórico do Ultramar, e completamente arruinado na Metrópole. Um misto de loucura furiosa e de ignorância política emporcalhou repulsivamente toda uma gesta heróica, antiga, moderna e contemporânea. É difícil encontrar outro povo que, em tão pouco tempo, tenha sido de tal forma enxovalhado e menorizado.Tratou-se de libertar povos africanos da férula do colonialismo português. Houve quem recebesse dinheiro por isso. Entregaram-se milhões de pessoas à tirania feroz de uns quantos reizetes negros que, divididos por infindáveis guerras tribais, se comeram uns aos outros. O que se passou em Angola e Moçambique é uma das grandes tragédias do nosso tempo. Conscientemente planeada! Para que se pudessem explorar lucrativamente e sem entraves políticos as matérias primas das duas antigas províncias portuguesas, tornava-se necessário criar vazios de poder, com governos fantoches, ineptos e corruptos a facilitarem o desenvolvimento do processo. Tornadas à selva as populações morreriam de inanição, vítimas da guerra endémica e larvar. Regressava a África à configuração geopolítica do século XV.O nosso primeiro objectivo: Vencer AbrilComo se tal não bastasse inverteu-se deliberadamente o sentido histórico da nossa política externa, tradicionalmente virada para o Mar, para a revirar para a Europa. Perdeu-se capacidade de defesa — e perdeu-se soberania. Portugal é hoje apenas uma província da Europa inteiramente dependente dela por intercessão da Espanha. Numa situação de guerra continental ficaremos bloqueados. Perdido o Ultramar, integrados nas Comunidades, limitados aos interesses estratégicos de Bruxelas, deixámos de ser um Estado independente, sem agricultura que preste, sem indústria que nos valha, sem nada que nos defenda.Segundo António José Saraiva o 25 de Abril foi a maior derrota de Portugal depois de Alcácer Quibir. Tal como em 1578, perdemo-nos em África e por causa de África, com a diferença moral e catastrófica de não termos lá ficado mortos, mas termos morrido na fuga, um exército inteiro retirando em debandada coberto de opróbio e borrado de medo.Cinquenta e um anos volvidos aguardamos aviltantemente o fim — a não ser que, num momento de revolta e de vergonha consigamos libertarmo-nos das quadrilhas que nos sugam o sangue e a alma. Discutir tudo o que está, desde as fronteiras geográficas às formas políticas do sistema, é o que nos sobra de esperança. A todo o instante é possível recomeçar Portugal, não cedendo um milímetro daquilo que sempre foi português.Vencer o 25 de Abril continua a ser o nosso primeiro objectivo. Read the full article
25 de Abril: uma história negra
Cinco mil homens estiveram envolvidos directa ou indirectamente no golpe do 25 de Abril. Muitos não foram membros activos, limitando-se a uma passividade conivente. As poucas unidades sublevadas desencadearam um golpe de Estado que colocou o país na iminência de uma guerra civil. A sociedade foi polarizada até hoje. Na verdade, o 25 de Abril não é mais do que uma história negra — e de traição. Todos foram cúmplices do crime de Lesa-Pátria.Em 1960, no seguimento da renegociação do acordo da Base das Lajes, a visita de Eisenhower desanuvia as relações entre Portugal e os Estados Unidos da América. Marcello Mathias exigia maiores contrapartidas, conseguiu algumas, mas ficou insatisfeito. Porém, a questão do Ultramar português continuava sem resolução e os EUA assumiram sempre um papel dúbio.Em meados dessa década surge a oposição “democrática” nas universidades, sobretudo em Lisboa. Incluía maoístas, marxistas-leninistas, trotskistas, hippies ecologistas, geralmente oriundos de famílias abastadas. Do meio empresarial e jurídico emergiu um grupo de liberais com interesses nos negócios e na política. Ambas as facções se posicionaram, ora à Esquerda ora à Direita, no sentido de salvaguardar o seu futuro.A entrada de jovens tecnocratas na SEDES, para quem o eldorado era a CEE, marcou uma nova fase na contestação ao Estado Novo. O aparecimento da Ala Liberal, dos grupos comunistas e de extrema-esquerda, facilitou o relacionamento destas forças com os diferentes blocos internacionais. A Ala Liberal, oriunda da alta burguesia, formada entre outros por Francisco Sá Carneiro, Magalhães Mota, Mota Amaral e Francisco Pinto Balsemão, defendia um regime parlamentarista de partidos políticos e a adesão à CEE. Não consideravam a defesa do Ultramar como algo importante. Este grupo recebeu fortes apoios de alguns sectores do Estado Novo ligados à tecnocracia, à banca e aos grandes meios monopolistas, assim como aos meios empresariais e firmas jurídicas.A década de 60 ficou sobretudo marcada pela Guerra do Ultramar. Em 15 de Março de 1961, no norte de Angola deu-se o genocídio de largas centenas de pessoas — brancas, negras, mulatas — por hordas de mercenários vindos do Congo Belga, aliciadas pela UPA, depois FNLA, de Holden Roberto, que era apoiado ostensivamente pela esposa do Presidente Roosevelt e pelo Committee on Africa. Na ONU, Portugal era injuriado por nórdicos e ingleses, e até o representante do Nepal boicotava o nosso país.O Estado Novo poderia, deveria e estava a ser renovado gradualmente, com índices de crescimento anuais a rondar os 6%, mas o surgimento destas organizações subversivas, a fossilização da Assembleia Nacional, a acção doutrinária clandestina levada a cabo pelos comunistas, a politização radical promovida nos meios académicos e militares e a intromissão estrangeira, precipitaram os acontecimentos.A partir de 1973, as manobras políticas aceleram-se. Em Abril ocorre o III Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro, onde se concretiza um acordo prévio entre socialistas e PCP. Duas semanas mais tarde, com o alto patrocínio do Governo alemão da RFA, é fundado o Partido Socialista, em Bad Munsterfeld (arredores de Bona). No seguimento, ocorre um encontro dos liberais em Lisboa.Entre 1 e 3 de Junho, realiza-se no Porto o I Congresso dos Combatentes do Ultramar, favorável à defesa do espaço ultramarino “em nome da grandeza e unidade de Portugal”. A frase mobilizadora é: “Não seremos a geração da traição”. Em resposta, 400 oficiais contestatários fazem um abaixo-assinado contra o Congresso e um grupo de oficiais na Guiné envia inclusive um telegrama de desagrado. Por essa altura, é promulgado o Decreto-Lei 353/73 que diminui o tempo do curso de oficiais da Academia Militar e permite a incorporação de milicianos no Quadro Permanente, devido à falta de capitães. Os oficiais da Academia Militar protestam, recebem melhores salários e o decreto é revogado. Mas o protesto continua e, em Dezembro, no seguimento de uma reunião em Óbidos, surge o Movimento dos Capitães.Uma peça fundamental de toda esta história, e que permite descortinar a real dimensão daquilo que estava em jogo, foi o IV Plano de Fomento para o período de 1974-1979, publicado em 26 de Dezembro de 1973, e que por via do golpe não se implementou. Esse, era o instrumento basilar em matéria de desenvolvimento económico. O que dizia então de tão importante? No capítulo X, alínea b), com o título Energia Nuclear, o Governo estabelecia como prioritária, “a construção, manutenção e condução de reactores nucleares industriais, licenciamento e segurança de centrais nucleares”, prevendo três núcleos em Portugal Continental, na Urgeiriça, Guarda e Nisa, para entrada em funcionamento entre 1976 e 1984. Perante isto, cada um tire as devidas conclusões.No início de 1974, os generais Kaúlza de Arriaga e Silvino Silvério Marques reúnem-se e concluem que o Presidente do Conselho, Marcello Caetano, já não estaria em condições de liderar o processo da Guerra do Ultramar. O general Spínola foi chamado a participar na mudança, mas afastou-se, regressando porém no dia 25 de Abril.A NATO, a CIA e a Internacional Socialista comunicavam com o chamado Grupo dos Liberais e Socialistas, enquanto o Partido Comunista era uma marioneta nas mãos da URSS. Não houve nada de português no 25 de Abril: tratou-se de uma acção estrangeira hostil, levada a cabo por forças internas colaboracionistas. Sabemos inclusive que o recém-fundado PS tinha ligações aos Serviços Secretos da RFA e de França. A extrema-esquerda estava divida numa dezena de facções antagónicas, desde o MRPP à LUAR, recebendo apoio de nações tão díspares quanto a Holanda, a Checoslováquia e os países nórdicos. Este era o jogo de forças nas vésperas do golpe. A China e Cuba operavam sobretudo no Ultramar.Houve jogadas e manobras políticas, no mesmo momento em que as operações militares se desenrolavam. O bluff foi o elemento central dessas operações, pois os golpistas tinham um poder militar muito reduzido. Dentro das Forças Armadas, surgiram várias facções lutando entre si sem qualquer preocupação com a segurança e continuidade histórica de Portugal. A operação foi de tal forma montada que muitos, devido à sua ingenuidade, idealismo ou, em muitos casos, fanatismo, nem se deram conta de que estavam a ser instrumentos de forças antiportuguesas. A actuação psicótica das forças políticas então surgidas lançou o País numa anarquia e numa crise de identidade e sobrevivência que dura desde então.Nos dias e meses seguintes ao golpe, embarcações de guerra da NATO, porta-aviões norte-americanos, submarinos holandeses, alemães e franceses, aportaram no estuário do Tejo. O aparato parecia o de uma ocupação estrangeira. Na realidade, alguns até já cá estavam antes, a coberto de um exercício dessa mesma NATO. Quando o sistema parlamentarista foi implantado, em final de 1976, levantaram âncora. A infiltração e persuasão dera resultado. Portugal podia começar a ser desmantelado, vendido a retalho, a preço de saldo.Começou no imediato a lavagem ao cérebro das populações, uma propaganda subversiva, tão ou mais perniciosa do que aquela que pretendia abolir e injectada em grandes doses através dos meios de comunicação social e das escolas.A “descolonização exemplar”, ou seja, o abandono cobarde e precipitado do Ultramar por parte da nova situação política, conduziu a um traumatismo equivalente ao de Alcácer-Quibir, gerando uma das mais graves agressões à identidade nacional e viciando igualmente as relações entre Portugal e os novos países africanos, situação que se prolonga até à actualidade.Conclui-se, pois, que o relato oficial do 25 de Abril não trata da verdade dos factos, mas sim da propaganda, doutrinação ideológica e formatação da opinião pública. A versão que consta dos manuais escolares é retorcida e elimina tudo aquilo que é embaraçoso e contradiz a narrativa vigente.É para nós por demais evidente que Marcello Caetano estava ao corrente das jogadas que se desenrolavam na sombra. O inevitável iria acontecer, o golpe militar estava iminente, faltando então assegurar que o lado vencedor fosse o menos oneroso para o país — o que parece ter sido a sua última tarefa enquanto Presidente do Conselho. Entre a integração no espaço mais próximo dos países da NATO, projecto político defendido pelo general Spínola, e o comunismo dissimulado do Movimento dos Capitães, a escolha era óbvia. Mas Marcello e Spínola não deram conta de que estavam a cair numa armadilha engendrada por poderes sombrios exteriores a Portugal.Os acontecimentos são estranhos. Na verdade, houve duas tomadas da PIDE, uma pela facção próxima de Spínola e outra pela facção dos capitães. Significa isto que dois golpes ocorriam em simultâneo: a transição para Spínola e o movimento dos capitães. Os elementos da PIDE renderam-se porque pensavam estar a entregar-se às forças de Spínola. Não se deram conta da manobra e caíram na armadilha.O grande erro de Marcello Caetano foi não ter decretado o recolher obrigatório, o estado de sítio e o estado de emergência. No Largo do Carmo, a massa de populares na rua lançados pelo PCP, MRPP e gente dos futuros sindicatos (UGT e CGTP) impediram as medidas de contragolpe (sobretudo a acção de um helicanhão) no sentido de dispersar as forças revoltosas em redor do quartel aí situado. As forças do MFA, vindas de Estremoz e Santarém, não conhecendo Lisboa, eram guiadas por estudantes universitários ligados a grupos maoístas e da extrema-esquerda.Um dos muitos factos curiosos (e pouco explorados) é a participação activa no golpe de pessoas como o tenente de Infantaria Andrade e Silva (parente do Ministro do Exército, general Andrade e Silva, que, sabemos hoje, de acordo com documento de Vasco Gonçalves — actualmente no Centro de Documentação do 25 de Abril — estava ao corrente das intenções do Movimento dos Capitães e nada fez para o impedir), bem como do major de Cavalaria Fernandes Tomás ou do capitão de Infantaria Ferreira do Amaral, ou ainda dos oficiais da família Santos Silva. Todos eles membros de famílias com ligações à Maçonaria, a qual esteve historicamente envolvida na transição de todos os regimes em Portugal, desde o Liberalismo.25 de Abril: uma história negraRefira-se que o Movimento dos Capitães, depois do sucesso do golpe, mudou a designação, muito convenientemente, para o termo mais genérico de Movimento das Forças Armadas (MFA), fazendo crer enganosamente que as Forças Armadas estiveram envolvidas na nova situação como um todo. Porém, as principais unidades militares do País não se sublevaram, embora algumas tenham optado por uma neutralidade que teve o seu quê de oportunismo, no caso das que ficaram na expectativa de “ver o que dava”. Na verdade, o 25 de Abril não é mais do que uma história negra — e de traição. As poucas unidades sublevadas desencadearam um golpe de Estado, que colocou o país na iminência de uma guerra civil. A sociedade foi polarizada até hoje.O Posto de Comando dos golpistas estava na Pontinha, ou seja, fora da malha urbana de Lisboa, ao tempo, nos arredores. A Rádio Renascença, que era considerada a voz do próprio regime, transmitiu a segunda senha às 0h21m, a canção “Grândola, Vila Morena”, o que significa que houve conivência de alguém da emissora católica. Quem estivesse a ouvir não poderia deixar de estranhar a passagem de um tema tão conotado com a esquerda mais radical. As operações foram desencadeadas de madrugada, na calada da noite.A Escola Prática de Cavalaria (EPC) de Santarém, com dois esquadrões, foi a principal unidade envolvida nas movimentações militares que se cingiram quase exclusivamente a Lisboa. Tal como no 5 de Outubro, o resto do País soube depois, já não pelo telégrafo, mas desta vez pela televisão. A EPC de Santarém estava encarregue de ocupar o transmissor da Marconi, o Banco de Portugal e o Terreiro do Paço. Duas Companhias de Caçadores 5 foram encarregues de ocupar o Quartel-General da Região Militar de Lisboa e cercar o Rádio Clube Português, que seria o posto transmissor rádio do Movimento.A Escola de Engenharia e duas companhias de Caçadores ocuparam as duas antenas transmissoras de Porto Alto, para evitar o corte de comunicações. A Escola Prática de Artilharia de Vendas Novas, já ocupada, instalou seis bocas-de-fogo no Cristo-Rei dirigidas à capital. A Força Aérea não agiu, manteve-se “neutral” tal como tinha prometido ao Movimento. A Escola Prática de Administração Militar ocupou a RTP e forças da Carregueira ocuparam a Emissora Nacional. A Escola Prática de Infantaria de Mafra ocupou o Aeroporto de Lisboa com duas companhias. Da Figueira da Foz, veio uma unidade que chegou durante a tarde a Lisboa. De Estremoz saiu um esquadrão que participou na tomada do Quartel do Carmo. Enquanto isso, os Lanceiros e alguns Comandos às ordens de Jaime Neves (não representativos desta força, pois o grosso dos Comandos estava no Ultramar e jamais teria participado na traição perpetrada por este seu oficial) ocupavam o quartel da Penha de França, sede da Legião Portuguesa.No Porto, a acção passaria pela ocupação do CIAAC e do Quartel-General, com apoio de uma companhia de Comandos de Lamego para servir de reforço. Em Viana do Castelo, duas companhias haviam-se comprometido com o Movimento. Muito pouco para uma revolução que se dizia de cariz nacional. No resto do País, exceptuando a ocupação de certas unidades antagónicas, nada se passou.O ministro do Exército, Andrade e Silva, estava no Ministério do Terreiro do Paço às três da manhã. Não tomou nenhuma medida efectiva de resposta. O ministro da Defesa, Silva e Cunha, telefonou a essa hora para saber da situação. Foi informado pelo ministro do Exército de que não havia qualquer problema em qualquer unidade, estava tudo tranquilo, não se preocupasse, não havia alteração da situação. Ou seja, Andrade e Silva não sabia o que se passava, ou (mais provável) mentiu para encobrir o golpe e tranquilizar aqueles que poderiam ter reagido para evitar o seu desenlace. Se deveras foi conivente, tal significa alta traição. A verdade é que estava no gabinete a uma hora tão tardia quando iria partir para o Alentejo às 7 horas da manhã, estando fora o dia todo. Lembramos ainda que os telefones do Ministério do Exército estavam sob escuta dos golpistas.O jornalista Joaquim Furtado estava de serviço nessa madrugada, no Rádio Clube Português, o primeiro alvo a ser tomado porque tinha um gerador e continuaria a emitir em caso de corte da luz. Foi este jornalista quem leu o comunicado anunciando um mero movimento de capitães, como Movimento das Forças Armadas, o que, como já referimos, indiciava falsamente tratar-se de uma sublevação geral. De seguida, tocou o Hino Nacional. Para quem ouvia no resto do país, pareceria tratar-se de um facto consumado. De seguida, a Emissora Nacional e a RTP, ocupadas sem incidentes nem resistência, foram também essenciais para o controlo da informação e contra-informação, se necessário fosse, com a difusão de notícias falsas. A sua acção foi essencial para o sucesso do golpe.Na verdade, nas primeiras horas só ocuparam os objectivos civis, que no entanto foram vitais. A PIDE informou que havia tropas de Santarém na rua, a coluna de Salgueiro Maia, mandando somente entrar de prevenção. A única reacção foi primeiro a de um esquadrão do Regimento de Cavalaria 7 que, enviado para interceptar a coluna de Salgueiro Maia, dirigiu-se para o Terreiro do Paço. As tropas de Santarém tinham chegado a esse local às 6 horas da manhã. Salgueiro Maia enquadrou o alferes que já estava envolvido no golpe. Ou seja, inadvertidamente, mandaram para a defesa do Terreiro do Paço e dos ministérios uma unidade que estava do lado dos golpistas.Chegou depois um segundo esquadrão que, estranhamente, também se juntou às forças de Salgueiro Maia. A estratégia de engodo foi a seguinte: diziam às unidades leais que vinham chegando para reagir ao golpe que também estavam ali para proteger os Ministérios e assim as foram enganando e anulando os contra-golpes. As forças militarizadas da GNR que iam também elas chegando ao Terreiro do Paço, ou se renderam ou afastaram-se, sem intervir. A PSP desapareceu de cena. Nesse momento, surge no Tejo a Fragata Gago Coutinho, leal ao Estado Novo, cuja tripulação acabou por se amotinar, possivelmente ao saber que estava na mira das peças de artilharia provenientes de Vendas Novas, já aqui referidas, que a essa hora se encontravam junto ao monumento do Cristo-Rei.Todas as unidades que vieram para resistir ao golpe e contra-atacar foram enganadas, dizendo-se-lhes que todas as Forças Armadas, inclusive a GNR, estavam envolvidas. Os revoltosos interceptavam comunicações das forças leais, do comandante da Região Militar de Lisboa, a partir do posto de comando, e davam ordens trocadas, desarticulando assim a reacção. Aos militares de patente mais elevada, nas suas comunicações via rádio, afirmavam inclusive que os generais Spínola e Costa Gomes também estavam metidos no golpe, quando haviam tido o cuidado de não se comprometer. Diziam que toda a tropa estava sublevada e incitavam-nos a passar para o seu lado. Tudo na base da batota com que jogavam o destino de Portugal.Simultaneamente, começava em Lisboa a acção subversiva dos grupos comunistas de várias tendências, que colocaram os seus militantes e simpatizantes nas ruas. Isso inibiu muito uma resposta em força das tropas leais. Seja como for, houve muito jogo duplo e atitudes dúbias.Deu-se então o episódio do tenente Alfredo Assunção, recebido com um par de estalos do brigadeiro Junqueira dos Reis, que se recusou a conferenciar com um oficial de baixa patente revoltoso. Também o major Pato Anselmo, comandando uma força do Regimento de Cavalaria 7, na rua da Ribeira das Naus, recusou conferenciar com o alferes golpista Maia de Loureiro. Mesmo após várias tentativas de aliciamento, o major continuava sem se render nem passar para o outro lado. Do lado dos golpistas, mandaram então um civil, armado, Brito e Cunha, ex-comandante na Guiné, às ordens do tenente-coronel Correia de Campos, que avançou dando a entender que estava desarmado e depois sacou a arma e ameaçou matá-lo. Só assim (contra as regras militares, pois não se parlamenta armado) o major Pato Anselmo acabou por ser preso.Silva Pais, director da PIDE informou Marcello Caetano com detalhe sobre a situação. Aconselhou-o a ir para o Quartel do Carmo, o comando central da GNR. Sabemos hoje que Marcello Caetano foi abandonado por todos e traído por muitos. Ainda não se rendera e já havia a circular em Lisboa jornais vitoriando o golpe. A meio da tarde, o general Spínola foi então mandatado pelos Capitães para receber a rendição de Marcello Caetano, que entregou o poder ao general para que não caísse nas ruas. Saiu pelo portão central do Quartel do Carmo dentro de uma chaimite, seguiu para a Ilha da Madeira e depois para o exílio no Rio de Janeiro, onde faleceu. Não voltaria a pisar solo português.O general Spínola, em 1975, lançou um sério aviso: "o que estes senhores estão a fazer é a levar o Estado à bancarrota, a praticar a política da terra queimada. Estes senhores não são portugueses. Read the full article
Se a quantidade de água lançada sobre os fogos fosse equivalente à torrente de palavras, artigos, entrevistas e acções mediáticas que sobre a temática em questão já foram ditas, escritas e efectuadas, certamente que o “negócio” dos incêndios não era questão e viveríamos sem labaredas nas próximas décadas. O problema é que às palavras da boca para fora não se seguem as acções adequadas.Com isto dito pareceria sensato abster-me de verter no papel uma qualquer outra verborreia. E no entanto, é isso o que fazemos. A razão é simples: pensamos que apesar de tudo o que tem sido dito, 90% aplica-se a efeitos e não a causas e por isso não há soluções que resultem.E, demos conta, que no fim de cinco décadas em que passou a haver incêndios a eito (eis a primeira reflexão a ter em conta!), só o ano passado houve a coragem de pôr o dedo nalgumas feridas.Devemos começar por referir algumas evidências:Desde sempre que houve florestas; desde sempre que houve pessoas — e o seu grau de educação sempre tem evoluído; sempre houve pirómanos e desequilibrados; sempre houve calor e outros fenómenos meteorológicos propiciadores a fogos; as preocupações com o ambiente têm aumentado (e bem) exponencialmente; os meios tecnológicos à disposição são cada vez mais e melhores, etc., tem havido tudo isto, mas o número de incêndios florestais (é desses que estamos a tratar), não cessa de aumentar!Outra constatação é que se trata de um fenómeno complexo e interdisciplinar (e por isso interministerial) e é tendo isto em conta que deve ser tratado. Aparentemente as investigações feitas a nível da Polícia Judiciária, não revelaram até agora nenhuma teia de nexos. Provavelmente a razão está no que dissemos atrás: não haverá apenas uma “teia”, mas várias...Julgamos que a principal razão que leva a este aumento de fogos, cuja esmagadora maioria vem a público como tendo origem criminosa — embora sempre difusa — tem a ver com “negócios” a que se convencionou chamar “o negócio do fogo”, ou “a indústria do fogo”. Ou seja, quanto mais dinheiro o governo anunciar que vai injectar no combate aos fogos, mais fogos irá haver...O "negócio" dos incêndiosSem querermos referir dados concretos iremos dissertar sobre algumas áreas onde o “negócio” do fogo pode ter lugar e noutras onde o “combate” não se está a fazer com a desejada eficácia. O assunto é melindroso, mas tem de ser tratado. Não se pretende lançar acusações ou generalizar, mas é preciso “podar os ramos podres” para não matar a árvore. A pergunta tem que ser posta e é esta: a quem interessará o fogo?Eis algumas hipóteses sem preocupação de hierarquia:— Ao “negócio” da compra e venda da madeira: a madeira queimada é mais barata, dá lucros a curto prazo, mas é suicidária a longo prazo;— Às celulosas, no sentido em que poderão querer promover a substituição do coberto vegetal por outro de crescimento mais rápido e melhor para o negócio do papel;— À especulação imobiliária, no sentido de favorecer o “negócio” da compra e venda de propriedades;— Ao “negócio” da caça privada versus caça pública, atente-se às polémicas havidas;— Ao “negócio” das indústrias relacionadas com o combate a fogos, viaturas, equipamentos diversos, extintores, compostos químicos, etc., alguns dos quais estão relacionados com elementos da própria estrutura de comando de bombeiros (como chegou a vir a público no passado);— Ao “negócio” dos meios aéreos para combate a incêndios. Este negócio disparou nos últimos anos. Até ao governo do eng. Guterres a maioria dos meios aéreos envolvidos pertencia à Força Aérea (FA), que tinha gasto nos anos 80, cerca de 200.000 contos em equipamentos.Nessa altura, cremos que em 1997, o então secretário de Estado Armando Vara entendeu (vá-se lá saber porquê!)(1), que não competia à FA intervir nos incêndios mas sim que deveriam ser contratadas empresas civis. Compreende-se mal esta atitude a não ser pela sanha existente por parte da maioria dos políticos em menorizar os militares e as Forças Armadas. Certo é, também, que a FA não paga comissões.No meio disto tudo — o que acresce à complexidade —, há um sem número de hipóteses de mão criminosa que passa por vinganças pessoais; as consequências da última lei sobre baldios; queimadas mal feitas ou ilegais; pirómanos (e alguns irão porventura parar aos bombeiros), questões derivadas de heranças e os eternos descuidos e negligências.Os investigadores têm, como podem os leitores aperceber-se, muito por onde se entreter...No campo da prevenção e combate tem reinado a confusão, o “complexo de quinta” e a inadequação.Nesta última encontram-se as leis e o processo de as aplicar e julgar. Falar sobre isto exigiria um tratado. Em síntese, as competências entre ministério público, tribunais e polícias tem provado nas últimas décadas ser de uma grande ineficiência e fonte de problemas; o Código Penal e o Código de Processo Penal favorecem os criminosos, castigam o cidadão honesto e prejudicam o trabalho da polícia e, a montante de tudo isto e envolvendo-o como um espartilho, existe uma contumaz subversão da autoridade.Ora urge fazer leis que ponham regras à venda de madeira queimada; no plantio de coberto vegetal; à obrigatoriedade da limpeza das matas e abertura de aceiros; à proibição de qualquer tipo de construção em área ardida durante “x” anos; à equidade na distribuição de terrenos destinados à caça e mais um sem número de coisas relacionadas com esta questão. E, claro, é necessário expeditar a constituição e resolução de processos e julgar e penalizar todo o indivíduo ou organização que tenha cometido um ilícito. E de não os soltar logo a seguir.A estrutura da protecção civil que coordena o combate aos incêndios prima sobretudo pela falta de clareza. Isto é, não estão devidamente atribuídas responsabilidades de comando de que resulta uma evidente dificuldade na atribuição de meios e prioridades e no apuramento de responsabilidades. Para melhorar esta área torna-se necessário combater o “complexo de quinta” (muito arreigado!) e arranjar uma estrutura com comando centralizado e execução descentralizada; estabelecimento eventual de níveis diferenciados de decisão e linhas claras de autoridade. O afastamento dos militares de toda esta estrutura foi um erro crasso que após a "débacle" do ano de 2003, já foi parcialmente corrigido.Temos a seguir o problema dos bombeiros. Os bombeiros sendo os “soldados da paz” (parece que só se pode criticar os soldados da “guerra”...), pelos serviços prestados e pela maioria ser voluntária goza de natural prestígio em toda a população. E têm estado até há pouco acima de qualquer crítica. Ora ninguém nem nenhuma corporação deve estar acima de qualquer crítica. O Estado tem-se valido do elevado número de corporações voluntárias para poupar nos sapadores, profissionais. Ora as exigências da sociedade actual não se compadecem com este estado de coisas. Acresce que qualquer pessoa pode ser “comandante” de um quartel de bombeiros voluntários e que a instrução e disponibilidade deixam muito a desejar. Basta aliás olhar para o fardamento e atavio para se duvidar da operacionalidade existente. Há pois que impôr alguma ordem neste estado de coisas.Finalmente os meios aéreos. Somos de opinião que os meios de combate a incêndios devem estar na FA. Só quando estes forem insuficientes se devem alugar outros. Haverá apenas que compatibilizar as exigências e sazonabilidade desses meios com as condicionantes operacionais e de dispositivo militar. Mas isso não parece ser obstáculo intransponível. Acordos de cooperação entre países amigos poderão e deverão ser feitos para optimizar os recursos.Os incêndios são a todos os títulos uma calamidade para Portugal que se repetem numa cadência previsível.Por isso não se entende o descaso, a incompetência e a falta de vontade política que os sucessivos governos têm demonstrado face a tão gravosa situação. Parece que criámos um sistema político e uma sociedade que convive com todos os problemas e tolera todos os vícios. E não resolve nenhum.Brandão FerreiraTenente-Coronel Piloto Aviador (Ref.)________________(1) Apesar de constar nas missões secundárias da FA e o secretário de Estado não ter competência para as mudar...NOTA: Nos últimos tempos creio que alguma melhoria existiu sobretudo na organização e comando e controlo dos meios, na Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil, fruto certamente da influência dos militares para lá destacados e cuja acção não parece estar a ser sabotada a alto nível, como ocorreu no passado. E tem-se conseguido pôr um pouco de ordem nos corpos de bombeiros voluntários — que no cômputo geral e desde há décadas, pareciam estar mais do lado do problema e não da solução — o que parece estar a gerar uma reacção (pelos indícios já vindos à tona) a que em linguagem popular se designa por “excesso de zelo”, “braços caídos” ou “resistência surda”. Parece que agora estão sempre a “aguardar ordens”…O ponto fulcral de toda a questão, que é a repressão e castigo de quem prevarica — desde há alguns anos a esta parte a Polícia Judiciária passou a prender dezenas e dezenas de pirómanos (será que do anterior não tinham ordens para o fazer?) e nada acontece. Nem quase nunca (pelo menos que se saiba) se chega à mão que paga…Será que chamar os nomes às coisas põe em causa o “Estado de Direito democrático”, apregoado em loas quase diárias?Os incêndios só raramente têm causas naturais e, seguramente, nada têm a ver com as hipotéticas alterações climáticas!
A Comissão Executiva para a Homenagem Nacional aos Combatentes 2024 promove no próximo dia 10 de Junho, Dia de Portugal, junto ao Monumento aos Combatentes do Ultramar, em Belém, o XXXI Encontro Nacional de Homenagem aos Combatentes. As cerimónias que ali terão lugar têm por objectivo reunir os Portugueses que queiram celebrar Portugal e prestar homenagem a devida homenagem a todos aqueles que, ao longo da nossa História, chamados um dia ao cumprimento do dever, souberam honrar os nossos maiores e, muito particularmente, os que tombaram ao serviço da Pátria, em defesa dos dos valores e da perenidade da Nação Portuguesa.Programa10h30 – Missa por intenção de Portugal e de sufrágio pelos Combatentes que tombaram pela Pátria, celebrada por Sua Excelência Reverendíssima o Administrador Apostólico das Forças Armadas e das Forças de Segurança, Bispo D. Rui Valério, na Igreja de Santa Maria, Mosteiro dos Jerónimos, em Belém;12h15 – Abertura da Cerimónia junto ao Monumento aos Combatentes do Ultramar, Forte do Bom Sucesso, em Belém;– Palavras de abertura do Presidente da Comissão Executiva;– Discurso alusivo à cerimónia pelo orador convidado Dr. José Ribeiro e Castro;– Cerimónia inter-religiosa (Católica e muçulmana);– Homenagem aos Mortos e deposição de flores;– Hino Nacional pela Banda da GNR. Salva protocolar por navio da Armada;13h10 – Passagem final pelas lápides;– Passagem de aeronaves da Força Aérea;Almoço-convívio nos terrenos frente ao Monumento.XXXI Encontro Nacional de Homenagem aos CombatentesA Comissão Executiva para a Homenagem Nacional aos Combatentes 2024, convida os Portugueses a participarem, no Dia de Portugal, nas comemorações em memória dos seus Combatentes. As cerimónias decorrerão na Igreja de Santa Maria de Belém, nos Jerónimos, e junto ao Monumento aos Combatentes do Ultramar, em Belém.Celebrar a Pátria honrando os nossos Combatentes!
No dia 13 de Maio de 1946, há 78 anos, no Santuário de Fátima, procedeu-se pela primeira vez à coroação solene da imagem de Nossa Senhora de Fátima, pelo Cardeal Bento Aloisi Masella, legado pontifício. Nesse mesmo dia, para comemorar o acontecimento, o Papa Pio XII fez este anúncio radiofónico:Veneráveis Irmãos e amados Filhos,«Bendito seja o Senhor, Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, Pai das misericórdias e Deus de toda a consolação, que nos consola em todas as nossas tribulações»(1): e com o Senhor seja bendita Aquela que Ele constituiu Mãe de misericórdia, Rainha e Advogada nossa amorosíssima, Medianeira de suas graças, Dispensadora dos seus tesoiros!Quando, há quatro anos, em pleno rumorejar da mais funesta guerra que viu a história, convosco pela primeira vez subimos em espírito a este monte santo, para convosco agradecermos à Virgem Senhora de Fátima os benefícios imensos, com que recentemente vos tinha agraciado, ao comum Magnificat juntávamos o grito de filial confiança, para que a Imaculada Rainha e Padroeira de Portugal completasse o que tão maravilhosamente tinha começado.A vossa presença hoje neste Santuário, em multidão tão imensa que ninguém a pode contar, está atestando que a Virgem Senhora, a Imaculada Rainha, cujo Coração materno e compassivo fez o prodígio da Fátima, ouviu superabundantemente as nossas súplicas.O amor ardente e reconhecido vos trouxe: e vós quisestes dar-lhe uma expressão sensível condensando-o e simbolizando-o naquela coroa preciosa, fruto de tantas generosidades e tantos sacrifícios, com que, por mão do Nosso Cardeal Legado, acabamos de coroar a Imagem taumaturga.Símbolo expressivo, que, se aos olhos da celeste Rainha atesta o vosso filial amor e gratidão, primeiro vos recorda a vós o amor imenso, expresso em benefícios sem conta, que a Virgem Mãe tem desparzido sobre a sua «Terra de S. Maria». Oito séculos de benefícios! Os cinco primeiros sob a signa de S. Maria de Alcobaça, de S. Maria da Vitória, de S. Maria de Belém, nas lutas épicas contra o Crescente pela constituição da nacionalidade, em todos os heroísmos aventurosos dos descobrimentos de novas ilhas e novos continentes, por onde vossos maiores andaram plantando com as Quinas a Cruz de Cristo.Estes três últimos séculos sob a especial protecção da Imaculada, a quem o Monarca restaurador com toda a Nação reunida em Cortes aclamou Padroeira de seus Reinos e Senhorios, consagrando-lhe a coroa, com especial tributo de vassalagem e com juramento de defender, até dar a vida, o privilégio de sua Conceição Imaculada: a esperando com grande confiança na infinita misericórdia de Nosso Senhor, que por meio desta Senhora, Padroeira e Protectora de nossos Reinos e Senhorios, de quem por honra nossa nos confessamos e reconhecemos vassalos e tributários, nos ampare e defenda de nossos inimigos, com grandes acrescentamentos destes Reinos, para a glória de Cristo nosso Deus e exaltação de nossa Santa Fé Católica Romana, conversão dos Gentios e redução dos Hereges(2).E a Virgem fidelíssima não confundiu a esperança que nEla se depositava. Basta reflectir nestes três últimos decénios, pelas crises atravessadas e pelos benefícios recebidos equivalentes a séculos; basta abrir os olhos e ver esta Cova da Iria transformada em fonte manancial de graças soberanas, de prodígios físicos e muito mais de milagres morais, que as torrentes daqui se derramam sobre todo Portugal, e de lá, rompendo pelas fronteiras, se vão espraiando por toda a Igreja e por todo o mundo.Como não agradecer? ou antes como agradecer condignamente? Há trezentos anos o Monarca da restauração, em sinal do amor e reconhecimento seu e do seu povo, depôs a coroa real aos pés da Imaculada, proclamada Rainha e Padroeira. Hoje vós todos, todo o povo da Terra de Santa Maria, com os Pastores de suas almas, com o seu Governo, às preces ardentes, aos sacrifícios generosos, às solenidades eucarísticas, às mil homenagens que vos ditou o amor filial e reconhecido, juntastes aquela preciosa coroa e com ela cingistes a fronte de Nossa Senhora da Fátima, aqui neste oásis bendito, impregnado de sobrenatural, onde mais sensível se experimenta o seu prodigioso patrocínio, onde todos sentis mais perto o seu Coração Imaculado a pulsar de imensa ternura e solicitude materna por vós e pelo mundo.Coroa preciosa, símbolo expressivo de amor e gratidão!Senão que o vosso mesmo concurso imenso, o fervor das vossas preces, o troar das vossas aclamações, todo o santo entusiasmo que em vós vibra incoercível, e, depois, o sagrado rito, que se acaba de realizar nesta hora de incomparável triunfo da Mãe Ssma., evocam ao Nosso espírito outras multidões bem mais inumeráveis, outras aclamações bem mais ardentes, outros triunfos bem mais divinos, outra hora — eternamente solene — no dia sem ocaso da eternidade: quando a Virgem gloriosa, entrando triunfante na pátria celeste, foi através das jerarquias bem-aventuradas e dos coros angélicos sublimada até ao trono da Trindade beatíssima, que, cingindo-lhe a fronte de um tríplice diadema de glória, A apresentou à Corte celestial, assentada à direita do Rei imortal dos séculos e coroada Rainha do universo.E o Empíreo viu que Ela era realmente digna de receber a honra, a glória, o império — porque mais cheia de graça, mais santa, mais formosa, mais endeusada, incomparavelmente mais, que os maiores Santos e os Anjos mais sublimes, ou separados ou juntos; — porque misteriosamente emparentada na ordem da União hipostática com toda a Trindade beatíssima, com Aquele que só é por essência a Majestade infinita, Rei dos reis e Senhor dos senhores, qual Filha primogénita do Padre e Mãe extremosa do Verbo e Esposa predilecta do Espírito Santo; — porque Mãe do Rei divino, d'Aquele a quem desde o seio materno deu o Senhor Deus o trono de David e a realeza eterna na casa de Jacob(3) e que de si mesmo proclamou, ter-lhe sido dado todo o poder nos céus e na terra(4): Ele o Filho Deus, reflecte sobre a celeste Mãe a glória, a majestade, o império da sua realeza; — porque associada, como Mãe e Ministra, ao Rei dos mártires na obra inefável da humana Redenção, lhe é para sempre associada, com um poder quase imenso, na distribuição das graças que da Redenção derivam(5).Jesus é Rei dos séculos eternos por natureza e por conquista; por Ele, com Ele, subordinadamente a Ele, Maria é Rainha por graça, por parentesco divino, por conquista, por singular eleição. E o seu reino é vasto como o de seu Filho e Deus, pois que de seu domínio nada se exclui.Coroação Solene de Nossa Senhora de FátimaPor isso a Igreja a saúda Senhora e Rainha dos Anjos e dos Santos, dos Patriarcas e dos Profetas, dos Apóstolos e dos Mártires, dos Confessores e das Virgens; por isso a aclama Rainha dos céus e da terra, gloriosa, digníssima Rainha do universo: Regina caelorum(6), gloriosa Regina mundi(7), Regina mundi digníssima(8): e nos ensina a invocá-la de dia e de noite entre os gemidos e lágrimas de que é fecundo este exílio: Salve Rainha, Mãe de misericórdia, vida doçura, esperança nossa.É que a sua realeza é essencialmente materna, exclusivamente benéfica.E não é precisamente essa realeza que vós tendes experimentado? Não são os infindos benefícios, os carinhos inumeráveis com que vos tem mimoseado o Coração materno da augusta Rainha, que vós hoje aqui proclamais e agradeceis? A mais tremenda guerra que nunca assolou o mundo, por quatro longos anos andou rondando às vossas fronteiras, mas não as ultrapassou, graças sobretudo a Nossa Senhora, que deste seu trono de misericórdia, como de sublime atalaia, colocada aqui no centro do país, velava por vós e por vossos governantes; nem permitiu que a guerra vos tocasse, senão o bastante para melhor avaliardes as inauditas calamidades de que a sua protecção vos preservava.Vós coroai-la Rainha da paz e do mundo, para que o ajude a encontrar a paz e a ressurgir das suas ruínas.E assim aquela coroa, símbolo de amor e gratidão pelo passado, de fé e de vassalagem no presente, torna-se ainda, para o futuro, coroa de lealdade e esperança.Vós, coroando a imagem de Nossa Senhora, assinastes, com o atestado de fé na sua realeza, o de uma submissão sua autoridade, de uma correspondência filial e constante ao seu amor. Fizestes mais ainda: alistastes-vos Cruzados para a conquista ou reconquista do seu Reino, que é o Reino de Deus. Quer dizer: obrigastes-vos a trabalhar para que Ela seja amada, venerada, servida à volta de vós, na família, na sociedade, no mundo.E que nesta hora decisiva da história, como o reino do mal com infernal estratégia emprega todos os meios e empenha todas as forças para destruir a fé, a moral, o Reino de Deus, assim os filhos da luz e filhos de Deus têm de empenhar tudo e empenhar-se todos para o defender, se não se quer ver uma ruína imensamente maior e mais desastrosa que todas as ruínas materiais acumuladas pela guerra.Nesta luta não pode haver neutros, nem indecisos. É preciso um catolicismo iluminado, convicto, desassombrado, de fé e de mandamentos, de sentimentos e de obras, em particular e em público. O lema que há quatro anos proclamava em Fátima a briosa juventude católica: «Católicos a cem por cem!»Na esperança de que os Nossos votos sejam favoravelmente acolhidos pelo Coração Imaculado de Maria e apressem a hora do seu triunfo e do triunfo do Reino de Deus — como penhor das graças celestes, a vós, Veneráveis Irmãos e a todo o vosso Clero, ao Exmo. Presidente da República, ao ilustre Chefe e aos Membros do Governo, às mais Autoridades civis e militares, a todos vós, amados Filhos e Filhas, devotos peregrinos de Nossa Senhora da Fátima, e a quantos convosco estão unidos em espírito por todo Portugal continental, insular e ultramarino, damos com todo o amor e carinho paterno a Bênção Apostólica.____________(1) 2 Cor. 1, 3, 4. (2) Auto da aclamação de N. Senhora da Conceição como Padroeira de Portugal pelas Cortes de Lisboa, em 1646.(3) Luc. 1, 32-33.(4) Matth. 28, 18.(5) Cf. Leonis XIII Enc. Adiutricem, 5 septembris 1895: Acta, vol. XV, pág. 303.(6) Brev. Rom. 2ª Ant. final. B. Mariae Virg.(7) Off. parv. B. Mariae Virg., Ant. ad Magnif. per annum.(8) Missal. Rom. Comm. in Commem. B. Mariae Virg. de Monte Carmelo.
Cinco mil homens estiveram envolvidos directa ou indirectamente no golpe do 25 de Abril. Muitos não foram membros activos, limitando-se a uma passividade conivente. As poucas unidades sublevadas desencadearam um golpe de Estado que colocou o país na iminência de uma guerra civil. A sociedade foi polarizada até hoje. Na verdade, o 25 de Abril não é mais do que uma história negra — e de traição. Todos foram cúmplices do crime de Lesa-Pátria.Em 1960, no seguimento da renegociação do acordo da Base das Lajes, a visita de Eisenhower desanuvia as relações entre Portugal e os Estados Unidos da América. Marcello Mathias exigia maiores contrapartidas, conseguiu algumas, mas ficou insatisfeito. Porém, a questão do Ultramar português continuava sem resolução e os EUA assumiram sempre um papel dúbio.Em meados dessa década surge a oposição “democrática” nas universidades, sobretudo em Lisboa. Incluía maoístas, marxistas-leninistas, trotskistas, hippies ecologistas, geralmente oriundos de famílias abastadas. Do meio empresarial e jurídico emergiu um grupo de liberais com interesses nos negócios e na política. Ambas as facções se posicionaram, ora à Esquerda ora à Direita, no sentido de salvaguardar o seu futuro.A entrada de jovens tecnocratas na SEDES, para quem o eldorado era a CEE, marcou uma nova fase na contestação ao Estado Novo. O aparecimento da Ala Liberal, dos grupos comunistas e de extrema-esquerda, facilitou o relacionamento destas forças com os diferentes blocos internacionais. A Ala Liberal, oriunda da alta burguesia, formada entre outros por Francisco Sá Carneiro, Magalhães Mota, Mota Amaral e Francisco Pinto Balsemão, defendia um regime parlamentarista de partidos políticos e a adesão à CEE. Não consideravam a defesa do Ultramar como algo importante. Este grupo recebeu fortes apoios de alguns sectores do Estado Novo ligados à tecnocracia, à banca e aos grandes meios monopolistas, assim como aos meios empresariais e firmas jurídicas.A década de 60 ficou sobretudo marcada pela Guerra do Ultramar. Em 15 de Março de 1961, no norte de Angola deu-se o genocídio de largas centenas de pessoas — brancas, negras, mulatas — por hordas de mercenários vindos do Congo Belga, aliciadas pela UPA, depois FNLA, de Holden Roberto, que era apoiado ostensivamente pela esposa do Presidente Roosevelt e pelo Committee on Africa. Na ONU, Portugal era injuriado por nórdicos e ingleses, e até o representante do Nepal boicotava o nosso país.O Estado Novo poderia, deveria e estava a ser renovado gradualmente, com índices de crescimento anuais a rondar os 6%, mas o surgimento destas organizações subversivas, a fossilização da Assembleia Nacional, a acção doutrinária clandestina levada a cabo pelos comunistas, a politização radical promovida nos meios académicos e militares e a intromissão estrangeira, precipitaram os acontecimentos.A partir de 1973, as manobras políticas aceleram-se. Em Abril ocorre o III Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro, onde se concretiza um acordo prévio entre socialistas e PCP. Duas semanas mais tarde, com o alto patrocínio do Governo alemão da RFA, é fundado o Partido Socialista, em Bad Munsterfeld (arredores de Bona). No seguimento, ocorre um encontro dos liberais em Lisboa.Entre 1 e 3 de Junho, realiza-se no Porto o I Congresso dos Combatentes do Ultramar, favorável à defesa do espaço ultramarino “em nome da grandeza e unidade de Portugal”. A frase mobilizadora é: “Não seremos a geração da traição”. Em resposta, 400 oficiais contestatários fazem um abaixo-assinado contra o Congresso e um grupo de oficiais na Guiné envia inclusive um telegrama de desagrado. Por essa altura, é promulgado o Decreto-Lei 353/73 que diminui o tempo do curso de oficiais da Academia Militar e permite a incorporação de milicianos no Quadro Permanente, devido à falta de capitães. Os oficiais da Academia Militar protestam, recebem melhores salários e o decreto é revogado. Mas o protesto continua e, em Dezembro, no seguimento de uma reunião em Óbidos, surge o Movimento dos Capitães.Uma peça fundamental de toda esta história, e que permite descortinar a real dimensão daquilo que estava em jogo, foi o IV Plano de Fomento para o período de 1974-1979, publicado em 26 de Dezembro de 1973, e que por via do golpe não se implementou. Esse, era o instrumento basilar em matéria de desenvolvimento económico. O que dizia então de tão importante? No capítulo X, alínea b), com o título Energia Nuclear, o Governo estabelecia como prioritária, “a construção, manutenção e condução de reactores nucleares industriais, licenciamento e segurança de centrais nucleares”, prevendo três núcleos em Portugal Continental, na Urgeiriça, Guarda e Nisa, para entrada em funcionamento entre 1976 e 1984. Perante isto, cada um tire as devidas conclusões.No início de 1974, os generais Kaúlza de Arriaga e Silvino Silvério Marques reúnem-se e concluem que o Presidente do Conselho, Marcello Caetano, já não estaria em condições de liderar o processo da Guerra do Ultramar. O general Spínola foi chamado a participar na mudança, mas afastou-se, regressando porém no dia 25 de Abril.A NATO, a CIA e a Internacional Socialista comunicavam com o chamado Grupo dos Liberais e Socialistas, enquanto o Partido Comunista era uma marioneta nas mãos da URSS. Não houve nada de português no 25 de Abril: tratou-se de uma acção estrangeira hostil, levada a cabo por forças internas colaboracionistas. Sabemos inclusive que o recém-fundado PS tinha ligações aos Serviços Secretos da RFA e de França. A extrema-esquerda estava divida numa dezena de facções antagónicas, desde o MRPP à LUAR, recebendo apoio de nações tão díspares quanto a Holanda, a Checoslováquia e os países nórdicos. Este era o jogo de forças nas vésperas do golpe. A China e Cuba operavam sobretudo no Ultramar.Houve jogadas e manobras políticas, no mesmo momento em que as operações militares se desenrolavam. O bluff foi o elemento central dessas operações, pois os golpistas tinham um poder militar muito reduzido. Dentro das Forças Armadas, surgiram várias facções lutando entre si sem qualquer preocupação com a segurança e continuidade histórica de Portugal. A operação foi de tal forma montada que muitos, devido à sua ingenuidade, idealismo ou, em muitos casos, fanatismo, nem se deram conta de que estavam a ser instrumentos de forças antiportuguesas. A actuação psicótica das forças políticas então surgidas lançou o País numa anarquia e numa crise de identidade e sobrevivência que dura desde então.Nos dias e meses seguintes ao golpe, embarcações de guerra da NATO, porta-aviões norte-americanos, submarinos holandeses, alemães e franceses, aportaram no estuário do Tejo. O aparato parecia o de uma ocupação estrangeira. Na realidade, alguns até já cá estavam antes, a coberto de um exercício dessa mesma NATO. Quando o sistema parlamentarista foi implantado, em final de 1976, levantaram âncora. A infiltração e persuasão dera resultado. Portugal podia começar a ser desmantelado, vendido a retalho, a preço de saldo.Começou no imediato a lavagem ao cérebro das populações, uma propaganda subversiva, tão ou mais perniciosa do que aquela que pretendia abolir e injectada em grandes doses através dos meios de comunicação social e das escolas.A “descolonização exemplar”, ou seja, o abandono cobarde e precipitado do Ultramar por parte da nova situação política, conduziu a um traumatismo equivalente ao de Alcácer-Quibir, gerando uma das mais graves agressões à identidade nacional e viciando igualmente as relações entre Portugal e os novos países africanos, situação que se prolonga até à actualidade.Conclui-se, pois, que o relato oficial do 25 de Abril não trata da verdade dos factos, mas sim da propaganda, doutrinação ideológica e formatação da opinião pública. A versão que consta dos manuais escolares é retorcida e elimina tudo aquilo que é embaraçoso e contradiz a narrativa vigente.É para nós por demais evidente que Marcello Caetano estava ao corrente das jogadas que se desenrolavam na sombra. O inevitável iria acontecer, o golpe militar estava iminente, faltando então assegurar que o lado vencedor fosse o menos oneroso para o país — o que parece ter sido a sua última tarefa enquanto Presidente do Conselho. Entre a integração no espaço mais próximo dos países da NATO, projecto político defendido pelo general Spínola, e o comunismo dissimulado do Movimento dos Capitães, a escolha era óbvia. Mas Marcello e Spínola não deram conta de que estavam a cair numa armadilha engendrada por poderes sombrios exteriores a Portugal.Os acontecimentos são estranhos. Na verdade, houve duas tomadas da PIDE, uma pela facção próxima de Spínola e outra pela facção dos capitães. Significa isto que dois golpes ocorriam em simultâneo: a transição para Spínola e o movimento dos capitães. Os elementos da PIDE renderam-se porque pensavam estar a entregar-se às forças de Spínola. Não se deram conta da manobra e caíram na armadilha.O grande erro de Marcello Caetano foi não ter decretado o recolher obrigatório, o estado de sítio e o estado de emergência. No Largo do Carmo, a massa de populares na rua lançados pelo PCP, MRPP e gente dos futuros sindicatos (UGT e CGTP) impediram as medidas de contragolpe (sobretudo a acção de um helicanhão) no sentido de dispersar as forças revoltosas em redor do quartel aí situado. As forças do MFA, vindas de Estremoz e Santarém, não conhecendo Lisboa, eram guiadas por estudantes universitários ligados a grupos maoístas e da extrema-esquerda.Um dos muitos factos curiosos (e pouco explorados) é a participação activa no golpe de pessoas como o tenente de Infantaria Andrade e Silva (parente do Ministro do Exército, general Andrade e Silva, que, sabemos hoje, de acordo com documento de Vasco Gonçalves — actualmente no Centro de Documentação do 25 de Abril — estava ao corrente das intenções do Movimento dos Capitães e nada fez para o impedir), bem como do major de Cavalaria Fernandes Tomás ou do capitão de Infantaria Ferreira do Amaral, ou ainda dos oficiais da família Santos Silva. Todos eles membros de famílias com ligações à Maçonaria, a qual esteve historicamente envolvida na transição de todos os regimes em Portugal, desde o Liberalismo.25 de Abril: uma história negraRefira-se que o Movimento dos Capitães, depois do sucesso do golpe, mudou a designação, muito convenientemente, para o termo mais genérico de Movimento das Forças Armadas (MFA), fazendo crer enganosamente que as Forças Armadas estiveram envolvidas na nova situação como um todo. Porém, as principais unidades militares do País não se sublevaram, embora algumas tenham optado por uma neutralidade que teve o seu quê de oportunismo, no caso das que ficaram na expectativa de “ver o que dava”. Na verdade, o 25 de Abril não é mais do que uma história negra — e de traição. As poucas unidades sublevadas desencadearam um golpe de Estado, que colocou o país na iminência de uma guerra civil. A sociedade foi polarizada até hoje.O Posto de Comando dos golpistas estava na Pontinha, ou seja, fora da malha urbana de Lisboa, ao tempo, nos arredores. A Rádio Renascença, que era considerada a voz do próprio regime, transmitiu a segunda senha às 0h21m, a canção “Grândola, Vila Morena”, o que significa que houve conivência de alguém da emissora católica. Quem estivesse a ouvir não poderia deixar de estranhar a passagem de um tema tão conotado com a esquerda mais radical. As operações foram desencadeadas de madrugada, na calada da noite.A Escola Prática de Cavalaria (EPC) de Santarém, com dois esquadrões, foi a principal unidade envolvida nas movimentações militares que se cingiram quase exclusivamente a Lisboa. Tal como no 5 de Outubro, o resto do País soube depois, já não pelo telégrafo, mas desta vez pela televisão. A EPC de Santarém estava encarregue de ocupar o transmissor da Marconi, o Banco de Portugal e o Terreiro do Paço. Duas Companhias de Caçadores 5 foram encarregues de ocupar o Quartel-General da Região Militar de Lisboa e cercar o Rádio Clube Português, que seria o posto transmissor rádio do Movimento.A Escola de Engenharia e duas companhias de Caçadores ocuparam as duas antenas transmissoras de Porto Alto, para evitar o corte de comunicações. A Escola Prática de Artilharia de Vendas Novas, já ocupada, instalou seis bocas-de-fogo no Cristo-Rei dirigidas à capital. A Força Aérea não agiu, manteve-se “neutral” tal como tinha prometido ao Movimento. A Escola Prática de Administração Militar ocupou a RTP e forças da Carregueira ocuparam a Emissora Nacional. A Escola Prática de Infantaria de Mafra ocupou o Aeroporto de Lisboa com duas companhias. Da Figueira da Foz, veio uma unidade que chegou durante a tarde a Lisboa. De Estremoz saiu um esquadrão que participou na tomada do Quartel do Carmo. Enquanto isso, os Lanceiros e alguns Comandos às ordens de Jaime Neves (não representativos desta força, pois o grosso dos Comandos estava no Ultramar e jamais teria participado na traição perpetrada por este seu oficial) ocupavam o quartel da Penha de França, sede da Legião Portuguesa.No Porto, a acção passaria pela ocupação do CIAAC e do Quartel-General, com apoio de uma companhia de Comandos de Lamego para servir de reforço. Em Viana do Castelo, duas companhias haviam-se comprometido com o Movimento. Muito pouco para uma revolução que se dizia de cariz nacional. No resto do País, exceptuando a ocupação de certas unidades antagónicas, nada se passou.O ministro do Exército, Andrade e Silva, estava no Ministério do Terreiro do Paço às três da manhã. Não tomou nenhuma medida efectiva de resposta. O ministro da Defesa, Silva e Cunha, telefonou a essa hora para saber da situação. Foi informado pelo ministro do Exército de que não havia qualquer problema em qualquer unidade, estava tudo tranquilo, não se preocupasse, não havia alteração da situação. Ou seja, Andrade e Silva não sabia o que se passava, ou (mais provável) mentiu para encobrir o golpe e tranquilizar aqueles que poderiam ter reagido para evitar o seu desenlace. Se deveras foi conivente, tal significa alta traição. A verdade é que estava no gabinete a uma hora tão tardia quando iria partir para o Alentejo às 7 horas da manhã, estando fora o dia todo. Lembramos ainda que os telefones do Ministério do Exército estavam sob escuta dos golpistas.O jornalista Joaquim Furtado estava de serviço nessa madrugada, no Rádio Clube Português, o primeiro alvo a ser tomado porque tinha um gerador e continuaria a emitir em caso de corte da luz. Foi este jornalista quem leu o comunicado anunciando um mero movimento de capitães, como Movimento das Forças Armadas, o que, como já referimos, indiciava falsamente tratar-se de uma sublevação geral. De seguida, tocou o Hino Nacional. Para quem ouvia no resto do país, pareceria tratar-se de um facto consumado. De seguida, a Emissora Nacional e a RTP, ocupadas sem incidentes nem resistência, foram também essenciais para o controlo da informação e contra-informação, se necessário fosse, com a difusão de notícias falsas. A sua acção foi essencial para o sucesso do golpe.Na verdade, nas primeiras horas só ocuparam os objectivos civis, que no entanto foram vitais. A PIDE informou que havia tropas de Santarém na rua, a coluna de Salgueiro Maia, mandando somente entrar de prevenção. A única reacção foi primeiro a de um esquadrão do Regimento de Cavalaria 7 que, enviado para interceptar a coluna de Salgueiro Maia, dirigiu-se para o Terreiro do Paço. As tropas de Santarém tinham chegado a esse local às 6 horas da manhã. Salgueiro Maia enquadrou o alferes que já estava envolvido no golpe. Ou seja, inadvertidamente, mandaram para a defesa do Terreiro do Paço e dos ministérios uma unidade que estava do lado dos golpistas.Chegou depois um segundo esquadrão que, estranhamente, também se juntou às forças de Salgueiro Maia. A estratégia de engodo foi a seguinte: diziam às unidades leais que vinham chegando para reagir ao golpe que também estavam ali para proteger os Ministérios e assim as foram enganando e anulando os contra-golpes. As forças militarizadas da GNR que iam também elas chegando ao Terreiro do Paço, ou se renderam ou afastaram-se, sem intervir. A PSP desapareceu de cena. Nesse momento, surge no Tejo a Fragata Gago Coutinho, leal ao Estado Novo, cuja tripulação acabou por se amotinar, possivelmente ao saber que estava na mira das peças de artilharia provenientes de Vendas Novas, já aqui referidas, que a essa hora se encontravam junto ao monumento do Cristo-Rei.Todas as unidades que vieram para resistir ao golpe e contra-atacar foram enganadas, dizendo-se-lhes que todas as Forças Armadas, inclusive a GNR, estavam envolvidas. Os revoltosos interceptavam comunicações das forças leais, do comandante da Região Militar de Lisboa, a partir do posto de comando, e davam ordens trocadas, desarticulando assim a reacção. Aos militares de patente mais elevada, nas suas comunicações via rádio, afirmavam inclusive que os generais Spínola e Costa Gomes também estavam metidos no golpe, quando haviam tido o cuidado de não se comprometer. Diziam que toda a tropa estava sublevada e incitavam-nos a passar para o seu lado. Tudo na base da batota com que jogavam o destino de Portugal.Simultaneamente, começava em Lisboa a acção subversiva dos grupos comunistas de várias tendências, que colocaram os seus militantes e simpatizantes nas ruas. Isso inibiu muito uma resposta em força das tropas leais. Seja como for, houve muito jogo duplo e atitudes dúbias.Deu-se então o episódio do tenente Alfredo Assunção, recebido com um par de estalos do brigadeiro Junqueira dos Reis, que se recusou a conferenciar com um oficial de baixa patente revoltoso. Também o major Pato Anselmo, comandando uma força do Regimento de Cavalaria 7, na rua da Ribeira das Naus, recusou conferenciar com o alferes golpista Maia de Loureiro. Mesmo após várias tentativas de aliciamento, o major continuava sem se render nem passar para o outro lado. Do lado dos golpistas, mandaram então um civil, armado, Brito e Cunha, ex-comandante na Guiné, às ordens do tenente-coronel Correia de Campos, que avançou dando a entender que estava desarmado e depois sacou a arma e ameaçou matá-lo. Só assim (contra as regras militares, pois não se parlamenta armado) o major Pato Anselmo acabou por ser preso.Silva Pais, director da PIDE informou Marcello Caetano com detalhe sobre a situação. Aconselhou-o a ir para o Quartel do Carmo, o comando central da GNR. Sabemos hoje que Marcello Caetano foi abandonado por todos e traído por muitos. Ainda não se rendera e já havia a circular em Lisboa jornais vitoriando o golpe. A meio da tarde, o general Spínola foi então mandatado pelos Capitães para receber a rendição de Marcello Caetano, que entregou o poder ao general para que não caísse nas ruas. Saiu pelo portão central do Quartel do Carmo dentro de uma chaimite, seguiu para a Ilha da Madeira e depois para o exílio no Rio de Janeiro, onde faleceu. Não voltaria a pisar solo português.O general Spínola, em 1975, lançou um sério aviso: "o que estes senhores estão a fazer é a levar o Estado à bancarrota, a praticar a política da terra queimada. Estes senhores não são portugueses. São traidores à Pátria”. Tinha razão, como o comprovam três bancarrotas e Portugal queimado em incêndios catastróficos que arrasaram inclusive o Pinhal de Leiria, símbolo da nossa História.Juntamente
Longe vão os tempos da vitoriosa insubordinação do 25 de Abril. Pelo caminho ficaram milhões de mortos. Atolados nesta lama de sangue os gloriosos militares vencedores ainda agora blasonam o seu glorioso feito. É a estupidez a tentar justificar a covardia. É tempo de fazer as contas e de avaliar os desgostos. Vencer o 25 de Abril continua a ser o nosso primeiro objectivo.O orgulho maior do abrilismo é a "descolonização". Fartos de andarem com a casa às costas, de serem cornos e de se passearem pelos quatro cantos do mundo a defenderem Portugal, os abrilinos resolveram acabar com a guerra para regressarem a penates. Aproveitando-se da fraqueza de Marcelo Caetano, da torpeza de Costa Gomes e da estupidez vaidosa de Spínola organizaram-se celularmente. Numa manhã chuviscosa tomaram conta do poder. Entregaram-no a um epiléptico compensado, coronel de engenharia, chamado Vasco Gonçalves e, num ápice, desfizeram uma obra de cinco séculos. Diz-se que o medo guarda a vinha. Neste caso arrancou-a e destruiu-a. De Julho de 1974 a Novembro de 1975, Portugal viu-se amputado do melhor do seu território histórico do Ultramar, e completamente arruinado na Metrópole. Um misto de loucura furiosa e de ignorância política emporcalhou repulsivamente toda uma gesta heróica, antiga, moderna e contemporânea. É difícil encontrar outro povo que, em tão pouco tempo, tenha sido de tal forma enxovalhado e menorizado.Tratou-se de libertar povos africanos da férula do colonialismo português. Houve quem recebesse dinheiro por isso. Entregaram-se milhões de pessoas à tirania feroz de uns quantos reizetes negros que, divididos por infindáveis guerras tribais, se comeram uns aos outros. O que se passou em Angola e Moçambique é uma das grandes tragédias do nosso tempo. Conscientemente planeada! Para que se pudessem explorar lucrativamente e sem entraves políticos as matérias primas das duas antigas províncias portuguesas, tornava-se necessário criar vazios de poder, com governos fantoches, ineptos e corruptos a facilitarem o desenvolvimento do processo. Tornadas à selva as populações morreriam de inanição, vítimas da guerra endémica e larvar. Regressava a África à configuração geopolítica do século XV.Como se tal não bastasse inverteu-se deliberadamente o sentido histórico da nossa política externa, tradicionalmente virada para o Mar, para a revirar para a Europa. Perdeu-se capacidade de defesa — e perdeu-se soberania. Portugal é hoje apenas uma província da Europa inteiramente dependente dela por intercessão da Espanha. Numa situação de guerra continental ficaremos bloqueados. Perdido o Ultramar, integrados nas Comunidades, limitados aos interesses estratégicos de Bruxelas, deixámos de ser um Estado independente, sem agricultura que preste, sem indústria que nos valha, sem nada que nos defenda.Segundo António José Saraiva o 25 de Abril foi a maior derrota de Portugal depois de Alcácer Quibir. Tal como em 1578, perdemo-nos em África e por causa de África, com a diferença moral e catastrófica de não termos lá ficado mortos, mas termos morrido na fuga, um exército inteiro retirando em debandada coberto de opróbio e borrado de medo.Quarenta e nove anos volvidos aguardamos aviltantemente o fim — a não ser que, num momento de revolta e de vergonha consigamos libertarmo-nos das quadrilhas que nos sugam o sangue e a alma. Discutir tudo o que está, desde as fronteiras geográficas às formas políticas do sistema, é o que nos sobra de esperança. A todo o instante é possível recomeçar Portugal, não cedendo um milímetro daquilo que sempre foi português.Vencer o 25 de Abril continua a ser o nosso primeiro objectivo.
Afirmo mais uma vez, que o problema maior do país é do foro ético e moral. Parece que os marginais tomaram conta da política, e não só. Este problema dá então origem, ou condiciona, todo o sistema político que, por sua vez, origina o problema financeiro, normalmente responsável pelo problema económico, tudo desembocando numa crise social. Numa sociedade doente. Por esta ordem. E tal deriva fundamentalmente da natureza humana.Não é difícil perceber que este introito vem a propósito do que está a acontecer actualmente (e vem de trás, muito de trás) e que levou à demissão do primeiro-ministro António Costa (PM).O que é, aliás, uma actualidade dinâmica, que vai continuar por muito tempo, que engrena, toca ou é paralela, com muitos (mas muitos) outros escândalos pouco abonatórios dos filhos d’algo, deste pobre (de espírito) Portugal e se prevê ir continuar na mesma senda, pois nada se faz ou tenciona fazer para mudar o “sistema” e as pessoas que dele se servem.Aliás os dois eventos mais “notáveis” sobre esta enésima crise e bem reveladores do que podemos esperar dos seus protagonistas foram (até ver), duas caminhadas do Presidente da República (PR) e do PM.O primeiro veio dar uma volta ao quarteirão — desta vez sem propaganda a marcas de gelados — acompanhado, à falta de melhor, por uma das suas ajudantes de campo que, já agora, não existem para serem sujeitas a estes fretes.(1)Este acto aparentemente político (?!) teve o condão de ter o acompanhamento patético das câmaras de televisão — foi por elas que demos conta deste augusto gesto — mesmo depois de “sua excelência” afirmar que não iria dizer nada…Certamente para não ficar atrás, o PM, agora acompanhado, não por ajudante de campo — a que não tem direito — mas pela sua mulher (sempre é uma ajudante de campo, para a vida) veio passear já de noite até à sede do PS, mas desta vez disposto a abrir os cordões à boca.E lá estavam os senhores jornalistas para o acompanhar. Esta coisa dos jornalistas estarem presentes nestes actos, não sei se é por terem equipas emboscadas à espreita em vários locais ou se se limitam a esperar o anúncio destes “acasos”, vindos dos assessores dos eleitos políticos que os nossos impostos pagam, ou ambos.Para que serviu o passeio do primeiro-ministro? Naturalmente para um exercício de transcendente importância e que é este: afirmação de personalidade no sentido de dizer que “eu também passeio à noite, ou até ao lusco-fusco, não é só ele!”E quem terá tirado essa ideia da cartola? Pois talvez o “gabinete de imagem” que estes personagens logo montam na tentativa vã, de lhes darem os 10 centímetros que lhes faltam.Quem paga estes “gabinetes”, certamente também os impostos dos cidadãos que devem ficar muito gratos, obrigados e entusiasmados com todo este teatro de sombras com que constantemente os tentam iludir…Estas últimas investigações judiciais que deram origem a este terramoto político tiveram, ao que parece, uma novidade que merece ser referida: a surpresa na actuação.Desta feita todos os arguidos e forças políticas e até os órgãos de informação foram apanhados de surpresa. Ou seja, não houve como é costume, fugas de informação e por isso não havia jornalistas à espera das devassas e das detenções.O facto de a Polícia Judiciária ter estado aparentemente ausente da actuação final e ter sido substituída pela PSP (que mudou de Director Nacional há pouco tempo) é sujeito a especulação legítima. Finalmente, as corajosas declarações do presidente do Supremo Tribunal de Justiça, algo inusitadas, a propósito do aumento da corrupção ao mais alto nível do Estado, pode ter precipitado a actuação do Ministério Público, no sentido de que tais declarações pudessem ter feito alertar determinados ouvidos e tal poder conduzir à destruição de provas.E sobre que versa a investigação que começou segundo informações vindas a público, há quatro anos, a que deram o sugestivo nome de “influencer”? Pois sobre os negócios ligados ao que pomposamente puseram o nome de “transição energética”. O assunto não é despiciendo e tem marcado a agenda política, económica e financeira. Parece que os marginais tomaram conta da política Em linhas muito breves, de que poucos falam, existem dois “lobbies” poderosíssimos a nível mundial (o que é preciso ter em mente é que no fim tudo se traduz nos ganhos do vil metal, não em qualquer preocupação ambiental, ecológica ou de qualidade de vida), os interesses ligados à exploração de combustíveis fósseis (hidrocarbonetos, gás natural, carvão, xistos betuminosos, etc.) e as energias renováveis apelidadas de “verdes” (eólica, marés, fotovoltaica, barragens — há muito existentes — carros eléctricos e agora o incensado hidrogénio, a dar os primeiros passos).Pelo meio e entalada no meio dos dois, encontra-se a muito causticada energia nuclear, de que quase não se fala (a não ser para lembrar Chernobyl e Fukushima).A envolver todo este cenário, foi-se criando um conjunto alargado de legislação ambiental que cada vez condiciona mais que se possa avançar num sentido ou outro, cheia de “alçapões”, criada pelas sucessivas gerações de políticos, muitos dos quais se queixam depois que elas os não deixam fazer o que querem. Como aconteceu agora, por exemplo, com o PM Costa. E que depois os “influencers” lá têm que intervir para “desbloquear” os equinócios (ou outros interesses) que aparecem pelo caminho. O que pode ser feito de formas lícitas ou ilícitas…Os interesses emergentes das energias renováveis apoiados nas novas formas de “marxismo cultural” em desenvolvimento, deitaram mão de tudo para se poderem impor e terem o seu quinhão na ordem existente. Daí, estamos em crer, a tremenda guerra que encetaram sobre as hipotéticas “alterações climáticas” que os “média” propalam acriticamente todos os dias.Curiosamente as empresas que exploram as energias “clássicas” — ditas sujas —, bem instaladas no seu negócio, escudadas em organizações poderosas (por exemplo a OPEP) e largamente financiadas pelos petrodólares, há longos anos que se mantêm “estranhamente” caladas no meio da guerra mediática.É conhecido que o governo português desde o tempo de José Sócrates como primeiro-ministro e continuado pela geringonça, onde pontuavam os sicários do arguido anterior, se enfiaram de cabeça nos interesses das energias renováveis segundo as linhas doutrinárias dos bens pensantes de Bruxelas e com caixa de ressonância em sectores da ONU e do Fórum de Davos.E para tornarem o assunto irreversível, mesmo sacrificando interesses fundamentais do país, desataram a fechar modernas centrais a carvão; encerraram a refinaria de Leixões; andam a semear alegremente painéis solares (cujos materiais também são poluentes e importados, e necessitam ser tratados após a sua validade) em milhares de hectares de terrenos agrícolas, silvícolas e de pastagem, e resolvem apostar a fundo no hidrogénio cuja tecnologia ainda está a dar os primeiros passos (ou seja, contém um risco muito elevado de investimento e exploração e, para já mais cara). Para além disso passaram a ter um especial carinho pelas eólicas, que também levantam problemas, o menor dos quais não será o que fazer das pás das hélices no fim da sua vida útil.Pelo caminho vão alienando barragens para interesses estrangeiros…“Last but not the least”, não olham a meios para pôr todo o cidadão a comprar carros elétricos, sabendo-se já dos graves problemas causados pelas baterias, seu custo e o que fazer delas depois de mortas. Para já não falar do alto consumo de lítio a que obrigam, mas que depois há uma quantidade de gente que não quer minerar (o que é um erro cumprindo-se a salvaguarda de questões ambientais — e não se pode ter “sol na eira e chuva no nabal” em simultâneo…).Ou seja, não há energias “limpas”…Em súmula, onde há negócios, se as leis não forem adequadas e as pessoas deixarem muito à integridade de carácter, é fatal como o destino que surgirá uma qualquer forma de corrupção, até porque as “comissões” são muito tentadoras. E não faltam lugares de administração não executiva e consultadoria vária, pagas com chorudas somas, “naturalmente” em “offshores” — algo que todos criticam da boca para fora, mas até hoje ninguém intentou combater efectivamente. De onde se pode concluir que a todos convém…No fim de tudo isto a população em geral vai encolhendo os ombros reforçando o mal dizer e a falta de respeito pelos políticos, agravando o já institucionalizado “eles são todos iguais”.E muitos dos que estão a ver o que se passa (como diz o ditado), apenas aguardam uma oportunidade que lhes permita pôr a mão na massa, já que o “longo braço da lei” não zurze o lombo de quem prevarica com força que os castigue a sério e, em simultâneo, crie dissuasão em quem tenha apetência para pisar o risco.O que se disse atrás tem a ver com os partidos políticos, sua génese e prática? Tem. Por isso é uma questão de regime e ao misturarem tudo isto com democracia, vão matá-la aos bocadinhos.Mas esta discussão fica para outra altura.Até agora e como muito bem observou o humorista Araújo Pereira, ainda não aconteceu nada ou quase. Ou seja, o parlamento foi dissolvido, mas continua em funções; o orçamento não foi ainda aprovado, mas vai ser; António Costa está demissionário, mas continua em funções (discursa e diz barbaridades); nada mudou no governo (ou seja, os putativos corruptos, ou “influencers” continuam lá dentro — enfim o “emplastro” Galamba lá saiu antes de ser cuspido fora) e prevê-se que dure até Abril.Até se arranjou uma questiúncula irresponsável e de contornos idiotas, com a hipótese do governador do Banco de Portugal ir chefiar o governo — mas para já continua tudo na paz do Senhor. Marcelo ao mesmo tempo que marca eleições antecipadas elogia o PM, cujo comportamento originou tal medida.Os advogados (que deviam ser proibidos de tecer comentários fora dos tribunais sobre os processos em que estão envolvidos) fazem comícios a propósito de tudo e de nada e o ruído nos “media” é enorme.Aliás meio mundo, a começar pelos políticos, critica o funcionamento da Justiça, nomeadamente o Ministério Público (MP), o que tem justificação vária (soluções precisam-se). Mas porque se queixam? Quem faz as leis e as regulam não são os políticos (e os gabinetes de advogados, contratados pelos políticos)? Sobretudo os que se sentam no governo e Assembleia da República? E o PR não apõe a sua assinatura? Os agentes da Justiça não actuam em função do legislado? Os detentores dos mais altos cargos do sistema de Justiça não são escolhidos e nomeados pelo Poder Executivo e Legislativo e intervenção do PR? Então queixam-se de quê? Do que fazem e deixam fazer? Que a Justiça, neste caso o MP, interfere com a política? E a política não interfere com a Justiça?Ora, ora, ainda não perceberam que a separação de poderes é uma falácia inventada (talvez com as melhores intenções) pelo Montesquieu, no século XVIII, mas só funciona em teoria?A imagem do país é péssima e é o seu espelho.Já ouvi dizer que lá por fora é igual ou pior. Fraca argumentação; e o que interessa é o que se passa no (ainda) nosso país. O Estado precisa de ser sujeito a uma valente saponária. Tenho vergonha.Para já a saída menos má para toda esta situação seria marcar eleições até ao fim do ano (apesar do ordenamento legal o impossibilitar), assim vai ser penoso, pantanoso e com benefício para o infractor; é certo que nos estragava o Natal, mas também há muito tempo que poucos o festejam…Afinal, parece que andamos a ser governados por marginais e trafulhas que tomaram conta da política, ou não?________________ (1) Deve ainda perguntar-se onde pára a “igualdade de género”. Então os três ajudantes de campo são mulheres, presume-se que do sexo feminino, quando a sua percentagem nas Forças Armadas é de cerca de 14%? Então os homens não têm direito a nada? E querem saber que uma delas é de origem cigana? Porque será? Para parecer inclusivo? Mas o facto de a senhora oficial já pertencer a um ramo das Forças Armadas já não é a prova provada de que não há discriminação? Irá o Presidente da República aumentar o número de ajudantes de campo, para alargar a amostragem às diferentes “cores do arco-íris”? O PR goza fama de ser inteligente, melhor seria que fosse utilizada em algo de útil… E eu a julgar que os oficiais que são destacados para a Presidência da República o devem ser por mérito e para bem representarem os ramos, não por outros “caprichos”. Não são os chefes de Estado-Maior que devem nomear os assessores militares? Já agora as senhoras oficiais em causa não se deviam dar ao respeito e não se sujeitarem a passeios, incluindo idas à praia, que não têm nada a ver com o seu serviço?Brandão Ferreira Tenente-Coronel Piloto Aviador (Ref.)
Feliz Natal e Bom Ano Novo de 2024