Ele começou a fazer parte dos meus dias.
Ela ainda não sabia exatamente quando aquilo tinha acontecido. Talvez tivesse começado naquela primeira ligação. Talvez naquela madrugada em que os dois continuaram conversando até o sono vencer. Ou talvez naquela manhã em que ela acordou e, sem pensar, procurou por ele. A verdade é que algumas pessoas entram na nossa rotina tão devagar que, quando percebemos, já não sabemos mais como era o nosso dia antes delas. Ela estava vivendo uma fase complicada. O trabalho já não fazia sentido como antes. Ela chegava cansada, sobrecarregada, com a sensação de que precisava encontrar uma saída, mas não sabia exatamente por onde começar. Queria procurar um estágio. Queria estudar. Queria mudar de caminho. Queria sentir que estava construindo alguma coisa para o futuro. Mas nem sempre encontrava em casa o apoio que gostaria. E então contava para ele. Não porque ele tivesse todas as respostas. Mas porque ele ouvia. E, às vezes, quando ela precisava atravessar mais um dia daqueles, ele simplesmente ficava em ligação enquanto ela trabalhava. Ela continuava fazendo suas coisas. Ele continuava ali. Não era necessário conversar o tempo inteiro. Às vezes bastava saber que, do outro lado, alguém estava presente. E aquilo começou a fazer uma diferença que ela ainda não sabia explicar. Quando alguma coisa dava errado, ela queria contar. Quando alguma coisa dava certo, também. Quando estava cansada, procurava por ele. Quando estava animada, procurava por ele. E, aos poucos, ele começou a conhecer uma versão dela que quase ninguém conhecia. A mulher preocupada com a faculdade. A menina que sonhava com um estágio. A pessoa que reclamava do trabalho. A que se irritava, ria, fazia planos e depois mudava de ideia. Ele conhecia os pequenos acontecimentos que normalmente não seriam importantes o suficiente para serem contados a ninguém. E talvez fosse justamente isso que estivesse tornando tudo tão importante. Porque amar alguém, ela descobriria mais tarde, talvez não tivesse tanto a ver com os grandes acontecimentos. Às vezes era saber que alguém estava tendo um dia ruim. Saber que precisava terminar determinada tarefa. Saber que tinha uma prova chegando. Saber que estava cansada. Saber que estava com medo. Era conhecer a vida do outro nos detalhes. E ele estava começando a conhecer a dela. Ela ainda não sabia onde aquilo chegaria. Não sabia se aquilo teria um futuro. Não sabia sequer se deveria permitir que alguém ocupasse tanto espaço. Mas havia uma coisa que já não conseguia negar: ele estava ali. Nos dias bons. Nos dias ruins. Durante o trabalho. Depois da faculdade. Nas madrugadas. Nas manhãs. E, principalmente, nos pensamentos dela. Talvez tenha sido assim que tudo começou a ficar perigoso. Não quando ele disse alguma coisa extraordinária. Não quando fizeram uma promessa. Mas quando ela percebeu que, diante de qualquer coisa que acontecesse, seu primeiro pensamento já não era: “O que eu vou fazer?” Era: “Preciso contar para ele.”
> > De uma menina que amava<<Màáh DP


















