jcsephines:
Após seu encontro com outro dos membros da força-tarefa, Josephine decidiu andar um pouco mais em torno da estrutura do Afterlife, gravando em sua mente cada centímetro daquele perímetro. Afinal, o futuro é algo muito incerto, então Joey precisava sempre estar familiarizada com o local em que se encontrava. Esse era um pensamento que havia sido implantado em sua mente durante seu treinamento, doze anos antes, e foi tão útil ao longo de sua trajetória que acabou se tornando um hábito. Reconhecer o território. O lado de fora da igreja estava confortavelmente silencioso, Josephine quase podia ouvir a natureza e seus sons que a faziam lembrar de uma época tão distante de sua vida atual; uma época que, agora, Josephine sentia que não havia sido ela a viver. Não sentia falta daquele tempo, porém algumas vezes se pegava pensando em como tudo poderia ter sido diferente se não tivesse saído da pequena cidade em que crescera.
Pela primeira vez desde que acordou, Josephine não sentia raiva. Sentir o vento em seus cabelos e respirar o ar puro estranhamente a acalmaram. Um pouco, pelo menos. A sensação de ter sido enganada ainda persistia em cada centímetro de seu corpo, entretanto já conseguia pensar com mais clareza. Não era exatamente uma pessoa impulsiva, então sabia que precisava considerar sua permanência naquela equipe. Mesmo que sua mente lhe dissesse que ficar seria um erro. Josephine somente percebeu que se dirigia a algum lugar específico quando adentrou o depósito, que tinha a porta entreaberta. Não havia muito o que olhar ali, porém, antes que se virasse para sair, Joey ouviu uma voz atrás de si. Ela estremeceu, tanto pelo susto de não estar sozinha ali quanto por perceber a familiaridade daquela voz. Não podia ser. Virou-se para se certificar de suas suspeitas, suspirando irritada ao vê-lo. Era só isso que faltava, só porque agora estava começando a se sentir melhor. Seus lábios se curvaram em um fino sorriso ao ouvi-lo falar em russo; não se lembrava de ter compartilhado com ele que era fluente no idioma. “Yesli by ya skazal tebe, ya uveren, ty by uzhe proshel sed'moy, kotenok.*” respondeu ao dar dois passos em sua direção, cruzando os braços sobre o peito. “O que você está fazendo aqui?” pensou em chamá-lo pelo nome que o conhecia, porém a essa altura sabia que aquele havia sido apenas mais um de seus disfarces. “Imagino que Igor não seja o seu nome, se importa em me dizer qual é?”
*Yesli by ya skazal tebe, ya uveren, ty by uzhe proshel sed'moy, kotenok: Se eu contasse as suas, tenho certeza de que já teria passado de sete, gatinho.
“— Já faz muito tempo.” Viktor manteve as algemas em suas mãos, forma de demonstrar para todos que não estava disposto à brigar ou dar à eles a falsa ilusão que seria fácil abatê-lo. Usando de total sinceridade? Ele poderia tirar as algemas com a mesma facilidade de fritar um ovo - e as vezes, podia até fritar o ovo algemado. “ — E o russo está em dia. Parece que a Alemanha não é o único país que andou visitando, Agent Scott.” Ele zombou nas duas últimas palavras, lembrando-se de como descobrira o disfarce de Josephine durante uma antiga missão e passou a chantageá-la com isso. O Toporov sabia que estar em uma sala com a agente era um possível suicídio, não sabia até que ponto ou se a mulher ainda nutria raiva dos acontecimento passados, mas tinha total consciência de que ela era uma maquina tão letal - e dissimulada - quanto ele; entretanto morte era o que ele mais pareceu procurar durante toda a vida. O Russo gostava de ficar frente à frente com o perigo, da adrenalina; e era isso que Josephine passou a ser para durante os meses em missão: uma dose de perigo e adrenalina direto em sua veia, que quase lhe causou uma overdose. Não que tivesse deixado se envolver emocionalmente, mas tinha no fim das contas tinha apego à bons oponentes; qual graça teria para ele lutar contra meros policiais, no fim das contas? “—Es hat mir gefallen, als du mich Liebe genannt hast.” agora falava em alemão, fazendo menção ao passado distante. “— Mas é Toporov. Viktor Toporov.” O nome saiu estranho para si mesmo, uma sensação de alerta crescendo em seu âmago como se aquilo estivesse errado. E estava. Não lembrava da última vez que se apresentou como ele mesmo, sem disfarces, sem máscaras, sem alvos. Revelar sua identidade parecia dar a mesma sensação de estar sendo despido na frente de uma platéia enorme, ou então, dissecado em uma mesa de cirurgia - dois extremos que mostram bem o sentimento que tinha. Não que ela fosse encontrar muita coisa sobre a vida dele ao pesquisar seu nome, é claro. Quase como Josephine Scott, Viktor Toporov não existia, era um fantasma, um mito para assustar criancinhas; a diferença entre os dois, é que sua inexistência se estendia à ele mesmo. “— Mas me conta, como exatamente você não morreu no ataque ao Schröder?” a dúvida era real.
“Es hat mir gefallen, als du mich Liebe genannt hast.“ Eu gostava quando me chamava de amor.















