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@amargar-idas
A solidão é o momento que você se encontra consigo mesmo sem medos. e, sem medos, começa a se limpar de todas as feridas que o mundo te fez.
quando a mão está pesada mas é preciso retirar a ferida que descasca e ainda provoca dor.
você tem medo de perceber que está mais ferido do que supõe. em alguma parte da cidade jaz alguém aflito pela ausência e a sua perna ainda não descobriu uma maneira de doer menos.
o coração, que é um músculo, também está ferido. a sujeira do mundo contaminou-lhe os átrios. em qual pátria você se deixou perder?
a solidão existe pra você poder colocar a mão na própria pele e ir descascando todas as fraquezas. a memória que você guarda dele. seus próprios fracassos. a gravidez de um futuro incerto.
a solidão vai te ferir em momentos específicos da vida. vai sentar contigo em cadeiras de casas de veraneio, vai correr com você por ruas alegres de finais de semana também alegres, vai abraçar seu corpo frágil no meio de um dia febril. a solidão vai te acompanhar em rotações, eclipses, equinócios. vai ferir sua autoestima, vai golpear seu estado mental, vai desarraigar o fardo, lamberá sua cicatriz.
a solidão dói porque me mostra que a sutura não muda. passam-se os anos, as árvores continuam sendo desmatadas, o petróleo no golfo se esparrama, transsexuais continuam a morrer exiladas em culpas patriarcais e tudo se desmancha. quando estou sozinho no meu quarto, o mundo se desmancha. a vida derrete. meu corpo se debate e não acredita que ainda está aqui, vivo.
a solidão vai coexistir em meio à felicidade clandestina dos que se amam pausadamente.
calma aí, isto é um aviso: a solidão muda de casa, engatinha pelas ruas do bairro, ciranda nos parques, instala uma primavera, finca um mês no seu pescoço, desaba uma semana, reverbera.
a solidão serve para curar você de si mesmo. daquilo que seu corpo abarcou na viagem entre sua casa e o terror do mundo. você viveu, você amou, você foi exposto, você feriu. agora você volta para casa. agora você entra no banheiro. agora você coloca a cabeça debaixo d'água. agora você se limpa.
acabou o tumulto, o barulho, a dor latente.
tá tudo bem.
(Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente)
“Enquanto muitos ainda esperam encontrar um amor recíproco, eu espero encontrar amizades recíprocas.”
— Amanda F. [Desabafos]