flashback
benuptn:
“Qualquer resposta a esse comentário seria tudo menos cavalheiresca, então, por ora, guardarei minha opinião para mim mesmo.” pontuou, calmamente, sem momento algum desviar sua atenção do rosto dela, um Benjamin que encontrava uma real diversão nos rumos daquela conversa. O auror lançou uma piscadela marota para a mais nova o que, assim como suas palavras, deixava bastante claro que sua opinião não era tão diferente da dela a respeito de sua bunda. Mesmo que aquela fosse uma estranha relação de vizinhança, e que de principio tudo o que o divertisse fosse irritá-la, em momento algum passara despercebido a Upton o quanto Crawley era atraente. Ainda assim, mantivera em mente que ela não era nada para seu bico, contudo, nas últimas semanas, era inegável que a mudança de sua percepção com relação a ela despertara justamente o tipo de interesse que não deveria sentir. Se tivesse um pouco mais de juízo certamente não se alongaria na presença da mais nova, contudo, prudência nunca fora uma marca sua. “Em minha defesa, eu mal durmo a noite.” o que era uma verdade, mas, pela forma como ele falava, utilizando-se de um tom jocoso, dava-se a entender que não era nada sério. Benjamin possuía problemas de sono desde seus tempos no exército Americano, e apesar da oclumência mantê-lo firme e forte a maior parte do tempo, durante o sono, quando relaxava, suas defensivas mentais caíam por terra, o que inúmeras vezes ocasionava pesadelos vívidos demais. “Agora, sério, em minha defesa, jamais a iludi. Foi tu quem criou expectativas altas demais. De qualquer forma, beber em silêncio é deprimente, e estou te dando uma chance, uma honra, de descobrir mais ao meu respeito.” concluiu, e naquele instante estava realmente brincando. As perguntas eram muito mais por um interesse seu em saber mais sobre aquela criatura que ainda parecia-lhe muito indecifrável. Assim, sequer se opôs quando ela tirou o cantil de suas mãos, roçando levemente as pontas dos dedos nos seus, o que, estranhamente, parecia causa faísca de uma tensão pouco comum a si. Algo que não teve tempo suficiente para refletir a respeito uma vez que a pergunta de Crawley roubou sua atenção. Uma breve ruga formou-se no cenho de Upton enquanto ponderava sobre o questionamento. “Não sei se me encontro aliviado por esse ser um questionamento quase inocente, ou frustrado por sua curiosidade não envolver algo menos inocente.” disse, arqueando ambas as sobrancelhas em um trejeito arteiro. Um sorriso sarcástico pontuou o canto dos lábios de Benjamin. Como quem passava tempo demais se utilizando de oclumência por vezes memórias do passado, que pareciam soterradas em alguma parte de seu cérebro, eram difíceis de acessar. “Para ser bem honesto acho que nunca coloquei nome em nenhum cobertor, mas, se serve como substituição, tive um urso de pelúcia chamado Jasper até os seis ou sete anos.” disse, rolando os olhos teatralmente, mas sem em momento algum constranger-se com a lembrança. “Nessa época eu e meus irmãos ganhamos um cachorro de estimação e Jasper passou a ser do cachorro.” concluiu, dando de ombros. “Enfim, convincente? Posso beber ou a madame vai monopolizar?” questionou, em tom provocativo, pronto para mudar o tópico da conversa. “Minha vez; qual foi sua viagem favorita e por qual motivo?”
-- Oh! Eu sei que você não dorme! -- um sorriso sarcástico pontuou as feições de Amelia. O começo de toda aquela relação passiva-agressiva que eles tinham era justamente os hábitos noturnos nada silenciosos do Upton. Além disso, já estava mais do que provado que ele poderia ser encontrado no hall ou corredor nas horas mais inesperadas. -- Em minha defesa, você que criou expectativas altas demais sobre uma suposta curiosidade da minha parte sobre a sua pessoa. -- O sorriso mal disfarçado e o queixo ligeiramente erguido da bruxa deixavam claro sua satisfação em responde-lo usando contra ele suas próprias palavras. -- Eu não tenho o menor interesse nos detalhes sórdidos da sua vida, Upton. -- Manter o tom descontraído não era tão difícil, ainda que, por outro lado, a bruxa soubesse perfeitamente que aquele joguinho de perguntas e respostas seria muito cansativo. Não era necessário ser nenhum expert comportamental ou mestre legilimente para saber que eles dois eram criaturas que carregavam segredos. Levantar questionamentos que passagem longe de todos os fantasmas e esqueletos guardados seria uma dança complicada. -- Um tanto quanto patético, mas eu creio que fez valer a sua bebida. -- o comentário desdenhoso veio acompanhado de um semblante agradável que neutralizava a critica. -- Que o Jasper descanse em paz -- Ergueu o cantil no ar em solenidade antes de passá-lo de volta ao dono. Ao ouvir sua pergunta, a bruxa automaticamente desviou sua atenção, o rosto para frente, o olhar focado em algum lugar no outros lado da rua. Aquela era uma pergunta lógica, afinal de contas, era filha de um diplomata e viagens eram parte do pacote. Já havia, inclusive, escutado algumas versões desse indagamento ao longo da vida e para todos eles tivera uma resposta genérica perfeitamente preparada para ludibriar seu interlocutor e desviar o foco da conversa. Todavia, Benjamin não a deixaria escapar com uma saída rápida sobre como todos os lugares eram especiais ou como Paris era extremamente encantadora e romântica. -- Eu tinha nove anos e minha avó me levou à Califórnia. Ela tinha dito ao meu pai que tinha negócios na costa, mas no final era tudo mentira e nós passamos o dia todo na praia. E obviamente foi antes da guerra então ainda havia praia e o mar e a temperatura estava perfeita e eu acabei o dia como um franguinho empanado em sal e areia. -- Se não estivesse tão acostumada a constantemente fazer uso da oclumência, seria impossível resgatar aquela memória sem deixar que a emoção atrapalhasse seu relato, por fim, estava satisfeita de ter entregado uma resposta sincera e inofensiva, ainda que tivesse chegado perto demais de seus fantasmas. -- Bebida -- Concluiu esticando a mão. -- Com quantos anos e o quão horrível foi o seu primeiro beijo?
















