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ameliciando:
– É claro que eu sempre acabo aqui. Eu paguei bom dinheiro por esse apartamento e pretendo fazer uso dele o máximo que eu puder – sua resposta irreverente deixava oculto o fato de que seus dias morando ali eram, na melhor das hipóteses, contados. A única razão pela qual fora permitida sua moradia ali fora seu compromisso para com seu pai de que eventualmente se casaria com o noivo que ele julgasse apropriado. Em algum momento passaria para as mãos de um outro homem que Amelia não nutria qualquer tipo de esperança de ser melhor do que seu pai. Aquele seria o breve tempo de liberdade de sua vida, ela pretendia aproveitá-lo. – Eu não sei! Como eu poderia saber como vocês, plebeus, realizam esses rituais? A logística da coisa é inteiramente sua responsabilidade. – Eximiu-se da culpa com ambas as mãos erguidas num gesto universal de rendição. Seu tom, no entanto, era jocoso ao apontar que aquele era um costume de algum tipo de plebe. – Uh, ofensivo! Eu tenho mil por cento de certeza de que a minha bunda não é nem um pouquinho sem graça. – Retrucou o deboche dele com um olhar que era divertido e desafiador em partes iguais. Ali estava ela, poderia muito bem ser uma nobre princesa aprisionada numa torre, mas ainda assim tinha uma boca que poderia fazer um marinheiro corar. E simplesmente adorava a satisfação de ter desconcertado alguém com um comentário levemente impróprio ou simplesmente inesperado. Remexeu-se no lugar como pretexto para disfarçar o sorriso divertido que ela estava falhando em reprimir. Espalmou uma das mãos na calçada, procurando por um apoio melhor e mais conforto. Assim como acrescentar alguns poucos centímetros entre ela e o bruxo. Talvez devesse ter pensado melhor naquilo, o olhar insistente de Benjamin sobre ela a deixava o tempo todo extremamente consciente da pouca distancia entre os dois corpo e, ainda mais do que isso, do fato de que aquela proximidade toda não era de forma alguma incômoda. Na verdade, tinha que se manter vigilante para não se acomodar naquela situação. A sua existência na vida dele era um perigo eminente para Benjamin e o único motivo pelo qual ela estava ali desfrutando da companhia dele era por ser uma filha da mãe desprezível e egoísta. – Seu mercenário! Você deliberadamente me ilude com essas histórias fantasiosas sobre isso ser uma das coisas da vida e agora quer me cobrar com um jogo bobo de vinte perguntas?! Tsc, tsc, tsc. Você deveria se envergonhar! Francamente, não sei nem como você consegue dormir a noite. – Sua reação exagerada e seu tom falsamente ultrajado escondiam a real preocupação de Amelia naquele momento: a possibilidade de que Benjamin abordasse algum ponto particularmente delicado e privado. Ainda assim, o risco não era maior do que a compulsão da bruxa de cumprir qualquer tarefa ou desafio. – Ok, vai ter que me dizer… -- as palavras foram pronunciadas de forma arrastada e excessivamente pausadas enquanto sua mente corria atrás de uma pergunta aceitável. – o nome do seu cobertorzinho da infância! – a bruxa sorriu divertida para ele, plenamente consciente da pergunta boba que fizera. Por algum motivo, aquilo só aumentava sua alegria. -- Oh, e isso fica comigo. Até eu julgar que você me deu uma resposta satisfatória. – esticou-se na direção dele até fechar os dedos ao redor do cantil.
“Qualquer resposta a esse comentário seria tudo menos cavalheiresca, então, por ora, guardarei minha opinião para mim mesmo.” pontuou, calmamente, sem momento algum desviar sua atenção do rosto dela, um Benjamin que encontrava uma real diversão nos rumos daquela conversa. O auror lançou uma piscadela marota para a mais nova o que, assim como suas palavras, deixava bastante claro que sua opinião não era tão diferente da dela a respeito de sua bunda. Mesmo que aquela fosse uma estranha relação de vizinhança, e que de principio tudo o que o divertisse fosse irritá-la, em momento algum passara despercebido a Upton o quanto Crawley era atraente. Ainda assim, mantivera em mente que ela não era nada para seu bico, contudo, nas últimas semanas, era inegável que a mudança de sua percepção com relação a ela despertara justamente o tipo de interesse que não deveria sentir. Se tivesse um pouco mais de juízo certamente não se alongaria na presença da mais nova, contudo, prudência nunca fora uma marca sua. “Em minha defesa, eu mal durmo a noite.” o que era uma verdade, mas, pela forma como ele falava, utilizando-se de um tom jocoso, dava-se a entender que não era nada sério. Benjamin possuía problemas de sono desde seus tempos no exército Americano, e apesar da oclumência mantê-lo firme e forte a maior parte do tempo, durante o sono, quando relaxava, suas defensivas mentais caíam por terra, o que inúmeras vezes ocasionava pesadelos vívidos demais. “Agora, sério, em minha defesa, jamais a iludi. Foi tu quem criou expectativas altas demais. De qualquer forma, beber em silêncio é deprimente, e estou te dando uma chance, uma honra, de descobrir mais ao meu respeito.” concluiu, e naquele instante estava realmente brincando. As perguntas eram muito mais por um interesse seu em saber mais sobre aquela criatura que ainda parecia-lhe muito indecifrável. Assim, sequer se opôs quando ela tirou o cantil de suas mãos, roçando levemente as pontas dos dedos nos seus, o que, estranhamente, parecia causa faísca de uma tensão pouco comum a si. Algo que não teve tempo suficiente para refletir a respeito uma vez que a pergunta de Crawley roubou sua atenção. Uma breve ruga formou-se no cenho de Upton enquanto ponderava sobre o questionamento. “Não sei se me encontro aliviado por esse ser um questionamento quase inocente, ou frustrado por sua curiosidade não envolver algo menos inocente.” disse, arqueando ambas as sobrancelhas em um trejeito arteiro. Um sorriso sarcástico pontuou o canto dos lábios de Benjamin. Como quem passava tempo demais se utilizando de oclumência por vezes memórias do passado, que pareciam soterradas em alguma parte de seu cérebro, eram difíceis de acessar. “Para ser bem honesto acho que nunca coloquei nome em nenhum cobertor, mas, se serve como substituição, tive um urso de pelúcia chamado Jasper até os seis ou sete anos.” disse, rolando os olhos teatralmente, mas sem em momento algum constranger-se com a lembrança. “Nessa época eu e meus irmãos ganhamos um cachorro de estimação e Jasper passou a ser do cachorro.” concluiu, dando de ombros. “Enfim, convincente? Posso beber ou a madame vai monopolizar?” questionou, em tom provocativo, pronto para mudar o tópico da conversa. “Minha vez; qual foi sua viagem favorita e por qual motivo?”
– Você é muito idiota de não acreditar nas minhas habilidades, Jerkton. – prepotência transbordava de sua voz de maneira convencida, para si aquela era uma aposta completamente perdida para o lado do amigo, ainda mais considerando que o nível etílico em seu sangue piorava consideravelmente sua percepção da realidade, enchendo-o de uma confiança não condizente com nada mais além de seu próprio ponto de vista. Virou o copo de whisky com determinação, o rosto contraindo-se com a sensação de queimação descendo pela garganta enquanto deitava o copo de ponta cabeça sobre a mesa. A aposta era simples: se não conseguisse o contato da garota, tinha que pintar seu cabelo e pagava uma rodada da bebida mais cara do bar a Ben, caso contrário, a aposta era invertida e era o amigo quem tinha que fazer aquilo. Normalmente podia dizer que simplesmente detestava apostas, mas aquela tinha as consequências boas demais para ser ignorada. Levantou-se com a postura de quem sabia exatamente o que fazia e talvez realmente soubesse, considerando a frequência. O desfecho, entretanto, não fora o esperado e assim que se aproximou da garota e iniciou a conversa, seu namorado de dois metros de altura também pareceu curiosamente interessado no assunto. Teve que segurar a língua ao máximo para não disparar contra o homem que se ele quisesse participar também era muito mais que bem vindo. – Xenofóbicos do caralho, eu nem sei falar coreano e as pessoas já dizem que eu não sou o tipo delas, claramente o tipo dela são babacas do tamanho de um troll criança. – resmungou ao voltar para a mesa de mãos abanando, evitando o olhar de Benjamin para não ter que observar a vitória brilhando em sua expressão.
@benuptn
Embora estivesse com um considerável nível de álcool em seu organismo, Benjamin nunca bebia o suficiente para perder a noção do que fazia e do que acontecia ao seu redor. Assim, estava muito mais que consciente que as chances estavam todas ao seu favor com relação a aposta proposta por Ryan. Ali, do ponto do bar onde se encontrava, o auror observou a investida do amigo e divertiu-se em demasia diante do desdobramento que esperava. O sarcasmo marcava as feições de Upton e era corroborado pelo largo sorriso de divertimento que em momento algum ele fez questão de disfarçar. Ao ouvir as palavras de Ryan uma risadinha melódica esvaiu-se pelos lábios do auror. “Talvez exista algum fetiche em ouvir palavras ditas em coreano, e tu deveria aprender. Talvez te achem uma fraude por não saber o que acreditam ser o minimo.” disse, com uma clara zombaria. “Ou talvez sejam apenas xenofóbicos realmente. Esse país não costuma ser o mais hospitaleiro.” concluiu, no que poderia soar como uma zombaria, mas que possuía suas pitadas de verdade. “Poderia lamentar o teu insucesso, apenas para demonstrar o ótimo amigo que sou, mas nesse caso teu fracasso é minha vitória e não poderia estar mais realizado.” pontuou, com um sorrisinho debochado marcando o canto de seus lábios. “Espero que esteja disposto a abrir a carteira, Ryan, tem umas bebidas de alto custo nesse lugar.” Benjamin arqueou as sobrancelhas arteiramente, logo antes de pegar o cardápio jogado na mesa ao lado. “Quanto ao cabelo, estabelecemos que eu escolheria a cor ou é por tua conta?” questionou, sem esconder sua diversão. E manteve-se divertido ao voltar a questionar o amigo. “Aliás, o que tu disse pro cara? Eu pensei que teria que me levantar porque ele parecia muito disposto a te enfiar porrada.”
ameliciando:
Sentia-se estranhamente satisfeita em caminhar com Upton, esperava que mais pela perfeita desculpa de se afastara do campo de quadribol sem chamar a atenção de olhares curiosos sobre si, do que pela companhia em si, contudo não se incomodou em fazer análises profundas naquele momento. A sua usual apreensão diminuía a cada passo dado para longe dali e aqui, por si só, já era um alívio considerável. Amelia só precisava lembrar a si mesma de não ficar tão confortável a ponto de se permitir desbloquear a mente. Aquele era um erro que ela jamais cometeria de novo. – Obrigada. – comentou com exagerada falsa lisonja. – Essa, provavelmente, foi a coisa mais sensata já dita sobre mim pelo departamento de aurors. São todos uns babacas. Sem ofensas. – ofereceu a ele um meio sorriso travesso, como se fosse incapaz de resistir a oportunidade de provocá-lo. – Você diz isso porque nunca dormiu em lençóis realmente bons. É um caminho sem volta, eu posso te garantir. – Sentia-se compelida a defender seu estilo de vida, ainda que, de certa forma, nenhuma daquelas coisas fossem de fato tão importantes. Gostava de conforto, é claro, mas tinha apenas se acostumado ao luxo. Tivera um tempo, inclusive, no qual ela adoraria passar a noite num saco de dormir extremamente desconfortável sob um céu estrelado, ou passar o dia todo pelo campo montada num cavalo, convicta de que se fosse longe o bastante encontraria um unicórnio, e acabar com metade do corpo coberto de lama. Obviamente, aquela parte de si tinha morrido. Ela parou também, junto a ele. O encarava com um olhar divertido, enquanto o bruxo a acusava de o ter difamado, claramente nem um pouco culpada. – Teria sido cavalheiresco ter tomado a culpa. Mas você não é um cavalheiro, não é, Upton? – As palavras que sozinhas poderiam ser tão ofensivas foram pronunciadas num tom tão suave e instigante que não poderiam, de forma alguma, serem uma ofensa. Amelia já conhecera lordes que eram inferiores a Benjamin de todas as formas possíveis. Quando ele lhe incumbiu a responsabilidade de escolher um lugar, a bruxa cruzou os braços sobre o peito e mordeu o lábio inferior, não tinha uma vida social tão agitada a ponto de conhecer lugares interessantes e, de qualquer forma, quase todos os estabelecimentos comerciais da cidade estavam funcionando na forma barracas ao redor do evento. – Pois bem. – disse por fim, como de costume, determinada a cumprir qualquer obrigação que lhe dessem. Aproximou-se um passo na direção de Upton, sua intenção era aparatar dali, contudo não pode deixar de notar, satisfeita, que as botas de salto faziam com que a diferença de altura entre eles diminuísse em comparação a ultima vez. No entanto, lembrança da última vez em que estiveram tão próximos assim a fez hesitar por alguns segundos. Por fim, decidiu ignorar o calafrio que correra por sua espinha e, suavemente, pousou uma mão no braço do maior, enquanto a outra tomou o pulso dele, deliberadamente reprimindo também a memória da última vez que o tocou e da sensação do contato direto com a pele dele. Acabaria perdendo um pedaço do próprio corpo se continuasse a se deixar levar por pensamentos não requeridos. Concentrou-se então na textura ligeiramente áspera das vestes dele. – Podemos…? – ela nunca aparataria lado-a-lado sem a permissão alheia. No geral era muito talentosa do que dizia respeito à aparatar, mas nunca desconsiderara a gravidade da prática, podia facilmente matar alguém que não estivesse preparado. Então num segundo estavam na frente da tenta do evento e no instante seguinte, estavam na rua de casa. Soltou o fôlego, tomando um momento para encará-lo e verificar de que tudo correra bem e que todos os membros estavam nos devidos lugares. Tão logo se recompôs, recolheu as mãos como se Benjamin deferisse choque por contato. De certa forma, ele fazia isso. Arqueou as sobrancelhas afastando-se dele, como já havia feito naquele dia, andando de costas. Amelia divertia-se com o fato de que ele ele ainda não havia entendido suas intenções e, consequentemente, a piada. Por fim, virou-se, caminhando de forma decidida até a porta do prédio que ambos compartilhavam. Virou-se de frente para a rua e se sentou no meio fio, usando o casaco para proteger as pernas no contato com a pedra áspera. – Pois bem, Upton, prove para mim. Estamos na sarjeta.
“Só quando me convém, o que, claramente não é o caso.” respondeu de pronto, sem levar o comentário como uma ofensa, e mantendo nos lábios um ligeiro sorriso sarcástico. Nada divertia Benjamin com tamanha facilidade quanto a habilidade de Crawley em sempre responder-lhe a altura. O que sempre tornava as interações entre ambos muito interessantes, e por vezes o ponto alto do dia de quem havia se transformado em um maldito workaholic desde que se mudara para aquele país. O excesso de trabalho era sua maneira de manter-se em atividade para que não tivesse tempo livre para refletir sobre os rumos que sua vida tomara desde o inicio da guerra dos no-maj. Perder a família, assim com sua ex-parceira de policia, foram golpes duros demais para Upton, e recuperar-se era bem mais difícil do que admitiria. Norte de pensamento do qual distanciou-se assim que percebeu a movimentação da mais nova em sua direção. Instantaneamente a proximidade o fez recordar da última vez em que compartilharam o mesmo ambiente. Upton engoliu em seco enquanto a encarava sem em momento algum desviar o olhar do dela. Ali, tão próximos, sentia-se inebriado pela fragrância suave que desprendia-se do corpo dela. O que, contra toda lógica e prudência o impelia a querê-la mais perto de si. Ainda assim, como a criatura controlada que era, Upton não moveu-se um só centímetro, permitindo que a mais nova tomasse as rédeas da situação. Ao perceber o que ela queria, ele arqueou ligeiramente uma de suas sobrancelhas. O sorriso sarcástico mais uma vez pontuou o canto dos seus lábios. “Estou literalmente em suas mãos, Crawley.” pontuou, de maneira dúbia, enquanto mantinha o olhar preso ao dela. “Então sim, podemos.” sussurrou, lançando uma piscadela em direção a ela logo antes de aparatarem. Embora devesse estar mais que acostumado àquela prática, Benjamin parecia destinado a sempre sentir-se fora de sintonia após a aparatação, assim ficou parado no mesmo lugar por um instante a mais do que deveria antes de finalmente identificar o local em que se encontravam. Uma risadinha baixa escapou pelos lábios do auror que fora inegavelmente surpreendido pela escolha de Crawley. “De uma maneira ou de outra sempre acabamos aqui.” disse, quase retoricamente, enquanto fitava a fachada do prédio em que viviam. Ao voltar a fitá-la Benjamin arqueou uma de suas sobrancelhas arteiramente. “Se tivesse uma máquina fotográfica certamente registraria esse momento histórico em que a nobre Amelia Crawley se senta na sarjeta.” pontuou, jocosamente, logo antes de sentar-se exatamente ao lado dela. Próximo, mas não o suficiente para invadir o espaço pessoal alheio. “Well, levando em conta que nenhum de nós parou para comprar uma bebida, devo presumir que acha que carrego um cantil com álcool para todo lado tal qual um alcoólatra?” questionou com uma falsa ofensa pontuando seu timbre enquanto tirava a varinha do bolso, logo utilizando-a para desfazer um feitiço simples de ocultação que costumava usar para manter escondidas algumas das coisas que carregava consigo. “Sim, eu carrego um cantil, velhos hábitos de guerra.” murmurou, com uma ligeira careta pontuando suas feições. Nos anos que passou no exercito o cantil era essencial para a sobrevivência, desde então Benjamin sempre mantinha um consigo. Circunstâncias diferentes, hábitos adaptados. “Em minha defesa é entediante demais vigiar a bunda sem graça da elite, então, vez ou outra um gole de uísque para não pegar no sono cai bem.” disse, com um óbvio deboche. Benjamin moveu-se apenas o suficiente para que tivesse uma melhor visão da mais jovem. “Façamos assim, um gole a cada informação curiosa, mas não necessariamente confidencial, que não costuma compartilhar. Como cortesia pode começar com as perguntas, afinal, não tenho nada a esconder.” concluiu, com um ar de riso que não deixava transparecer que ao contrário de suas palavras Benjamin possuía sim muito a esconder.
A calmaria de Benjamin era inquietante para Melike. O bruxo podia conseguir controlar suas emoções diante de situações como aquela, mas fazia isso por causa da adrenalina. Quando a adrenalina tomava conta de si, o auror simplesmente abafava os traumas, os receios e apenas agia no automático colocando seu trabalho em primeiro lugar. Dessa vez, por Montrose ser um ambiente familiar, talvez isso fosse mais difícil. Como se concentrar sabendo que seus amigos poderiam estar feridos? Ou pior, mortos. A movimentação intensa dos aurores deixava-lhe com os olhos atentos e o corpo ansioso com a antecipação de novos ataques. ’ —— Não tivemos tempo. A informação que chegou foi muito em cima da hora, não teríamos chance de fazer nada.’ respondeu, tenso. Além do mais, a informação era muito vaga, Melike nem imaginava que seria Montrose um dos alvos. Mas não podia falar sobre o assunto, eram informações confidenciais. Suspirou, então, mantendo-se quieto ao ouvi-lo. Não tinha experiência com guerra, apenas com resgates. A única experiência ao vivo assim com bombas, foi quando ele mesmo quase morreu soterrado. ’ —— Não sou seu chefe. Somos uma dupla, Upton.’ Melike declarou. Naquele momento, Benjamin tinha mais experiência em ação, reconhecia isso. Assim que saíram pelas portas, o caos na cidade quase o fez dar meia volta. Engoliu essa vontade, deixando os olhos passarem pelos espaços que podia enxergar. ’ —— Avaliação de perímetro e então retirar os civis.’ declarou. A prioridade eram as pessoas, a origem e o motivo dos ataques, os superiores de ambos já deveriam saber.
Benjamin ouviu em silêncio as informações que Melike possuía para compartilhar. Tudo soava-lhe muito vago, o que não era uma novidade uma vez que agentes de campo, tanto no mundo no-maj como no bruxo só sabiam o que os superiores achavam que era suficiente - o que para Upton era tanto irritante quanto limitante. Assim, resguardando suas impressões para si mesmo, ele não conseguia afastar a impressão de que algo muito errado havia em tudo aquilo. Uma cidade protegida por magia não deveria ser alvo de bombas trouxas, e muito menos qualquer país em guerra gastaria suas bombas em um alvo supostamente invisível. Teria que aproximar-se do que restou das ditas bombas para identificar se eram ou não do tipo que possuía sistema guiado, o padrão entre o exército americano. Benjamin liberou uma respiração profunda. Para todo lugar que conseguia olhar parecia existir fumaça, pequenos incêndios, e pilhas de entulho, um caos completo. “Se você diz.” pontuou, meneando a cabeça em concordância, mesmo que estivesse acostumado a ideia de hierarquia naquele tipo de trabalho, mesmo entre duplas. “Sendo assim, acho que deveríamos nos concentrar nos epicentros de explosões, onde seremos mais necessários para colaborar com os resgates.” indicou, mantendo aquela postura profissional que em muito se diferia de seu comportamento corriqueiro. “Escuta, Demir, como disse, não sei sua experiência em cenários como esse, mas o que presenciaremos daqui em diante não vai ser bonito e nem fácil de lidar posteriormente.” disse, recordando-se muito brevemente de suas experiências em cenários similares que causavam-lhe pesadelos mesmo anos depois. “Normalmente sugeriria que nos separássemos para atendermos mais lugares, mas creio que seja mais seguro nos mantermos juntos, ao menos até termos noção do tamanho do estrago.”
O bombardeio pegou todos desprevenidos. Melike trabalhava em sua sala no Ministério quando o caos se instalou em Montrose. Pelo o que sabia, eram bombas dos trouxas e não um ataque maligno novamente por parte de algum grupo extremista. O desastre era bem maior do que todos poderiam imaginar; as bombas vieram sem aviso algum, exceto pelos alarmes que soaram alto, segundo alguns dos aurores que tagarelavam para lhe passar as informações. Olhando da janela, pôde ver a cidade pegando fogo, pessoas caídas nas ruas, algumas correndo para sair do meio da confusão. Não queria pensar na segurança de sua família e nem na dos amigos, precisava agir. ’ —— Upton, vamos!’ Melike gritou, pegando o casaco escuro e já o vestindo antes de prender as madeixas castanhas de forma apertada no topo da cabeça. A varinha em mãos, o Auror começou a se digir para a saída. Sair em dupla com alguém sempre era o mais indicado, desde o dia do seu acidente anos atrás que Melike não arriscava mais enfrentar missões desacompanhados, era um erro. Ainda mais envolvendo bombardeios, fogo e parte da cidade resumida a escombros. Não podia deixar sua mente vagar para a noite do seu acidente, tinha que ser útil ali, não um peso. Levar Benjamin parecia ser a única escolha possível, ja que o outro auror era um dos experientes e melhores disponível.
Muito antes de ter seu nome chamado por Demir, Benjamin já estava de pé caminhando em direção a saída. Ações de cunho automático de quem havia passado longos anos junto ao exercito americano, e que conhecia as práticas comuns em caso de bombardeio. Com todo veterano de guerra, ele possuía traumas que situações como aquela tratavam de trazer à tona, no entanto, utilizava-se da oclumência para evitar que seus sentidos fossem tomados pelas emoções, especialmente pelo pânico. Respirou fundo, repetidamente, e em seguida caminhou em direção a Demir. “Por acaso temos qualquer informação a respeito de um possível encontro político secreto na cidade trouxa das redondezas? A inteligência apurou alguma coisa nesse sentido? questionou assim que o alcançou. “Não é comum a autorização de bombardeios dessa natureza a cidades interioranas, a não ser que se enxergue alguma possibilidade de atingir alvos importantes.” resmungou, assim que saíram de dentro do prédio do Ministério. Pouco lhe fazia sentido a natureza daquele ataque, ao menos se as bombas fossem realmente de origem norte-americana, como ponderava a respeito. “Escuta, não faço a menor ideia da tua prática com bombardeios trouxas, mas como ex-ranger do exército americano vale lembrar que não há muito o que se fazer contra um maldita bomba, além de sair do caminho.” no treinamento aprendiam toda especie de tática para a sobrevivência em guerra e a principal entre elas era a de procurar abrigo o mais longe possível de um bombardeio. “Pensei que o escudo que protege a cidade fosse capaz de conter essa maldita porcaria.” voltou a resmungar antes de colocar-se em movimento. “Enfim, você é o chefe. Avaliação emergencial do perímetro, tirar os civis das áreas mais vulneráveis, ou investigar a origem do ataque? Estou a disposição.” concluiu, mantendo aquela seriedade muito pouco usual a si.
ameliciando:
– Hilária, na verdade. – respondeu em concordância, erguendo o dedo indicador para enfatizar o seu ponto – É realmente uma injustiça descabida o que as pessoas comentam sobre mim. Sobre ser… ranzinza. -- Pronunciou a palavra com uma pequena careta. Com os anos Amelia cultivou o hábito de se atentar para todas as fofocas do ministério,não que se divertisse com mexericos e intrigas, mas dessas meias verdades secretas - que na verdade nunca foram tão secretas assim - sempre era possível extrair uma gota ou duas de informação realmente útil. Infelizmente isso também significava que vez ou outra ela se deparava com o próprio nome passeando por bocas alheias e maldosas. A Crawley tentou manter o bom humor, mas teve a decência de parecer minimante incomodada com a colocação dele. Era óbvio que Benjamin estava certo, ele não era bem-vindo ali. Ao contrário dela própria, que não só pertencia àquele lugar como, durante muito tempo, fazia questão de o tratar de maneira defensiva e até mesmo ofensiva, mantendo-o a uma distância considerável da sua própria vida. A parte que mais a incomodava, no entanto, era saber que aquela era exatamente a postura que ela deveria estar adotando no momento, todavia, de forma surpreendente e um tanto quanto irritante, Amelia encontrava-se sem nenhuma inclinação para a hostilidade. Isso só podia ser perigoso. Pouco a pouco a bruxa se afastava de seu lugar de origem a passos largos e lentos, sorrateiramente levando a conversa para o mais longe possível da área vip e, principalmente, de todos os olhos e ouvidos que estavam lá. O convite dele não fora nada além de uma completa surpresa. Suas conversas com Upton sempre se resumiram a encontros eventuais e meia duzia de palavras trocadas, quase todas as vezes com alguma provocação gratuita - que estranhamente parecia divertir o bruxo. Essa era a regra. A não ser pela aquela noite, a única exceção. Por um instante, Amelia limitou-se a encará-lo, pronta para recusar aquela proposta absurda com desprezo. Contudo, naquele dia, naquele momento em específico e com aquela pessoa em particular, Amelia realmente não estava remotamente inclinada para hostilidade. Instintivamente lançou um olhar ansioso na direção dos camarotes. Provavelmente o jogo ainda entreteria sua família por mais algumas horas, aquilo era tudo que precisava. – Contanto que seus planos de beber não sejam sentar na sarjeta com um cantil de conteúdo altamente duvidoso. E somente porque você acabou com metade da garrafa do meu melhor whiskey. Você vai precisar comprometer um tanto da sua renda mensal para me recompensar. – Justificou-se em tom de falsa acusação. Seu estoque de destilados fora minimamente prejudicado e, de qualquer forma, fora ela que consumira a maior quantidade. Ambos sabiam disso tão bem quanto sabiam que a resposta para àquela pergunta nunca seria simplesmente um sim ou um não.
“Uma pena que outros não saibam apreciar a sutileza desse seu humor peculiar.” respondeu, com falsa pompa que misturava-se a um óbvio tom jocoso. Embora sua convivência com Crawley se limitasse a pequenos encontros pelos corredores do prédio em que viviam, pelas reclamações anteriores dela sobre os movimentos noturnos em seu apartamento, desde o primeiro momento Benjamin encontrava divertimento em cada réplica dela a uma provocação sua. O que por si só era bastante interessante, entretanto, era inegável que existia uma sutil mudança de percepção sua a respeito dela depois da última vez em que dividiram o mesmo espaço. O americano não havia esquecido das condições em que a encontrara, e como a mesma não havia prestado qualquer queixa ao Departamento de Aurores não podia fazer, oficialmente, qualquer coisa a respeito do assunto, o que, claro, não o impediria de tentar entender o que havia transcorrido. “Ranzinza, é?” questionou, com um sorrisinho tacanho curvando o canto de seus lábios. “Não acho que seja uma fama que te faz jus.” concluiu, mantendo o sorrisinho no canto dos lábios enquanto desciam as rampas que davam acesso ao lado de fora do estádio. Embora não fosse tecer comentários, de forma alguma passara despercebido a ele a urgência que a mais nova parecia nutrir em distanciar-se da tal ala VIP. Percepção que o fez se questionar o que poderia incomodá-la tanto quando, supostamente, encontrava-se em meio a circulo social ao qual pertencia. Linha de raciocínio do qual distanciou-se ao ouvir o comentário seguinte dela que, mais uma vez, roubou-lhe uma risada. “Há poucas coisas na vida mais divertidas que sentar na sarjeta para ingerir bebida barata. Posso garantir que a vida pelo prisma do proletariado é muito melhor que a versão de camarote dos abastados.” disse, sem qualquer intenção de propositalmente alfinetá-la, mas apenas compartilhando uma convicção pessoal. “Acho que você precisa dar alguns passinhos para fora da sua bolha, raio de sol, e divertir-se de verdade para variar.” concluiu, em um tom divertido, assim que chegaram ao lado de fora da tenda em que se encontrava o campo de quadribol. “Aliás, devo dizer que nunca pensei que tu fosse do tipo que faz calúnias infundadas. Não devo ter bebido nem dois goles do teu uísque de rico.” riu, logo antes de parar para que pudesse encará-la. As orbes castanhas pareciam atrair a atenção de Upton com muita facilidade. “Enfim, como tu é cheia de exigências pode escolher o lugar da tua preferência, fique à vontade.”
fletchercass:
’ —— Duvido que demore muito, cinco minutos e você arranja uma forma de esquentar os lençóis.’ zombou, o sorriso acompanhando aquele deboche. E realmente Benjamin tinha razão. Não tinha como saber e muito menos como confiar no que Henrique dizia. Estava cansado de ser idiota e cair nas mentiras do bruxo, ficar triste por isso, já nem sabia mais no que acreditar. ’ —— Falando por experiência, hein?’ foi o que resolveu dizer, já que concordar com o amigo só faria aquele ego enorme inflar ainda mais. ’ —— Alguém tem que tentar enfiar agulhas nessa sua bolha de autoestima, por Merlin! Ela precisa murchar um pouco ou Montrose não vai suportar não.’ Cassie teimou, lhe dando uma cotovelada no braço. ’ —— Porque olha aí! Mesmo comigo tentando fazer isso aí diminuir, ela continua grande demais! Maconha tem benefícios maravilhosos, mais benefícios do que malefícios, você não sabe o que está perdendo.’ revirou os olhos. Não demorou muito sem um sorriso nos lábios, felizmente a presença de Benjamin era como um bálsamo em suas agonias. Sorrir, era inevitável. ’ —— Você quem está criando expectativas aí, não vai ser minha culpa se o presente não for o que está esperando. Na minha concepção, é maravilhoso.’
“Tem mais homens que mulheres nessa cidade, está se tornando difícil encontrar alguém disposta a me oferecer o carinho que mereço.” pontuou, debochadamente, logo antes de voltar a bebericar seu café. “Minha vida é um sofrimento.” completou com um ligeiro rolar de olhos que ressaltava que estava apenas debochando àquele respeito. “Ih, caramba hein, Cassidy?! Além de furar o balão do meu ego também tá disposto a insinuar que sou um grande mentiroso, é? Bom, de fato sou, mas apenas profissionalmente.” disse mantendo em seu timbre um falso tom de ofensa. Benjamin estava mais que acostumado aos ocasionais cutucões do mais novo, era daquela maneira, a base de implicâncias, que funcionavam. “Cada um tem o ego que merece, o meu se molda a minha personalidade adorável.” disse, liberando uma breve risada sarcástica. Aquela sua maneira de agir estava muito ligada a forma com que suprimia suas questões emocionais. Uma proteção que para ele era essencial. “Nah, estou muito bem perdendo seja lá o que for que essa coisa proporciona.” deu de ombros. Naquele tópico jamais entraria em consenso com Fletcher. Para quem havia lidado por anos demais com o submundo das drogas era difícil conceber fazer parte daquilo mesmo que indiretamente. “Rapaz, levando em conta que temos gostos bem diferentes já começo a esperar por alguma presepada. Tu não me trouxe um punhado de mato amazônico, né?” disse, recobrando o habitual bom humor.
O Departamento de Aurores não era de todo um lugar onde Henrique se sentia confiante. Só tinha de ir lá prestar declarações por ser especialista em Demiguises e pelos vistos tinha havido alguns problemas com alguma destas criaturas. Depois de responder a algumas perguntas, Henry afrouxou a gravata, pronto para sair dali depressa quando acabou esbarrando em @benuptn. “Nossa perdão…” Murmurou, apanhando os papeis alheios que havia deixado cair. Olhando para o homem para lhe entregar os papeis, reparou no rosto familiar. “Hey, Benjamin, certo?”
Tanto na polícia quanto no Departamento de Aurores fazer relatório era algo que Benjamin tinha pouquíssimo saco, ainda assim, elaborava os seus com extremo esmero. Naquele instante o auror carregava consigo seu relatório a respeito do mais recente caso em que estivera envolvido e pretendia entregá-lo pessoalmente ao seu chefe quando do absoluto nada seu caminho fora atravancado pela presença de uma outra pessoa. “Tá tranquilo.” murmurou, meio contrafeito, enquanto movia-se para ajeitar os papeis que o outro lhe devolvia. Focado em reorganizá-los Benjamin só designou um olhar mais atento para o outro ao ouvi-lo chamá-lo pelo nome. Uma ligeira ruga formou-se entre as sobrancelhas do auror que não reconhecia a voz, mas de pronto reconheceu o rosto de quem sabia chamar-se Henrique Alves. “Certo.” disse, estranhando que ele soubesse seu nome quando em nenhum momento haviam sido apresentados, o que o fazia supor que em algum momento Cassidy tivesse dito algo a seu respeito. “Me desculpe, tenho uma ótima memória, mas não consigo me recordar de você. Nos conhecemos de algum lugar?” questionou, com uma cuidadosamente planejada simpatia, optando por fingir que não fazia ideia de quem o outro era. Sua intenção era bem simples; não deixá-lo alarmado e defensivo diante de uma possível hostilidade por sua parte. No fundo só queria saber qual era daquele individuo que vez ou outra fodia o emocional de seu melhor amigo. Plano que era fácil de seguir quando tinha os benefícios de manter a mente fechada e emoções mais fortes controladas, a oclumência era uma dádiva.
ameliciando:
Amelia merecia aquela maldita medalha da Ordem de Merlin apenas por estar ali há tanto tempo sem revirar os olhos. Era o primeiro jogo do campeonato da seleção de seu país natal e ela sabia que estava ali no meio de velhos babões apenas para enfeitar o ambiente. Como o destino parecia se divertir imensamente às suas custas em colocá-la nos piores cenários possíveis, o tempo estava péssimo, já havia chovido e parado mais vezes do que ela podia contar e todo aquele jogo parecia se passar dentro de uma nuvem. Vez ou outra podia ver um jogador perdido que passava mais perto da arquibancada, mas nem uma vez chegou a ver aquela maldita bolinha dourada que colocaria fim ao seu tormento. Seria capaz de apanhá-la ela mesma se isso garantisse o fim da partida. Só esperava que as seleções tivessem os apanhadores mais talentosos do mundo todo. Em prol de sua sanidade mental, ela decidiu que precisava de alguns minutos. Educadamente pediu licença para se retirar, recebeu um olhar severo de seu pai, mas se afastou sem maiores complicações. Não chegou muito longe, no entanto, antes que outra voz conhecida a interceptasse. O choque fora sua primeira reação, os olhos arregalados procuraram a fonte da voz, verdadeiramente surpresa por encontrá-lo ali. – Upton – saudou-o com um breve aceno de cabeça, recompondo-se. No pouco tempo que tinha, tentou avaliar seus sentimentos quanto àquele encontro inesperado. Seria mentira dizer que não havia pensando em procurá-lo na última semana, afinal de contas, ainda tinha aquele casado pendurado na cabideiro de sua sala a encarando todos os dias. Por ora, estava apenas satisfeita que Benjamin parecia ter mantido sua forma usual de tratá-la. Teria odiado encontrar qualquer vislumbre de pena no semblante dele. – Tentando entrar de penetra na área reservada? – os cantos de seus lábios ergueram-se minimamente num sorriso zombeiro, porém contido. Lançou um olhar ansioso por cima do ombro, ninguém parecia notá-los ali, mas ainda assim não parecia prudente manter aquela conversa tão perto da presença do pai. – Eu sinto lhe dizer que não vale o esforço. O jogo está péssimo e o resto da paisagem não é muito melhor. – fez uma careta, deixando claro que ele estava certo sobre seu desânimo para com o jogo. – Minhas sinceras condolências por você ser obrigado a permanecer aqui, mas eu estou fugindo daqui. – Passou por ele exibindo um sorriso vitorioso enquanto andava de costas para a direção oposta a qual vieira. Ele estava certo, realmente era difícil dizer qual dos dois estava mais infeliz naquele estádio.
Encostado a uma das pilastras do estádio de quadribol Benjamin concentrava sua atenção a figura de Crawley. De maneira habilidosa, e discreta, ele escrutinava a linguagem corporal da mais nova, notando as sutis demonstrações de desconforto. O que, ao menos naquele instante, parecia corresponder ao lugar de onde ela vinha e não à sua presença. O auror arqueou ligeiramente uma das sobrancelhas assim que seu olhar recaiu sobre o rosto da mais jovem. Um sorrisinho tacanho pontuava o canto dos seus lábios. “Tu é engraçadinha, hein.” comentou, liberando uma risada baixa. “Teria que ser muito do masoquista para estar disposto a entrar num lugar onde claramente pessoas como eu, desprovido do pedigree de sangue-puro bruxo, não são bem-vindas.” disse, e apesar de convicto que jamais seria bem-vindo em um ambiente como aquele, não havia em seu timbre o desprazer corriqueiro ao se referir a puristas. Embora não estivesse levantando bandeira alguma no atual cenário político, Benjamin sabia muito bem de onde deveria manter sua distância. O que tornava bastante irônico que ainda estivesse ali de papo com alguém que sabia pertencer a uma das famílias elitistas bruxas. Um suspiro resignado escapou ao bruxo. “Bom, na verdade não me importo nem um pouco com esse jogo ou qualquer outro. Só estou por aqui pois como parte integrante do proletariado preciso defender a renda mensal.” pontuou, recobrando o habitual deboche em seu timbre. Do jeito que falava parecia que vivia com uma grana curta, contudo, o americano sempre fora muito organizado, focado, disciplinado quando o assunto era dinheiro. Como acumulava funções à parte de seu emprego fixo, com os anos conseguira acumular um patrimônio significativo. Contudo, assim como em outros âmbitos de sua vida, Upton adorava agir como se fosse e possuísse muito menos do que era e tinha. “Aí é que está o teu engano minha cara vizinha. Meu turno já acabou e ao contrário da senhorita não estou precisando fugir daqui, contudo, de muito bom grado cairei fora desse lugar.” disse sem refrear uma risada referente a atitude assumida pela mais nova. O sorriso que ela ostentava parecia iluminar as feições que até então pareciam carregar certa apreensão. “A senhorita apressadinha já tem uma rota de fuga definida? Caso não tenha, o que acha de me fazer companhia para uma bebida?” questionou, assim que a alcançou no corredor. Embora os planos para uma bebida fossem anteriores a encontrá-la, não deixava de ser estranho que, levando em conta a relação a bicadas entre ambos, considerasse uma boa ideia convidá-la para acompanhá-lo.
’ —— Sinto muito estragar sua noite, amor.’ subiu a mão livre para o peito, um tom debochado também banhava a sua voz. Cassie sorriu para o mais velho, embora não carregasse a animação rotineira. Não passava de algo automático para amenizar a percepção alheia de como aquilo tudo lhe incomodava. ’ —— Deveria ser, não é? Mas aí eu invento de ser trouxa como sempre.’ desdenhar fazia a situação deixar de parecer tão real, então abusava do deboche e das brincadeiras. Quanto mais falava, mais fácil ficava. ’ —— Não, não. Você entendeu errado. Não veio por mim, ele veio trabalhar.’ Cassidy buscou corrigir com rapidez, não fazia sentido àquela afirmação. Não sabia o que na época tinha significado para o mais velho, mas atualmente? Tinha a certeza de que não era nada, então não adiantava dar importância maior do que a realidade, isso só fazia mais o seu peito apertar. Dessa vez quando riu, foi mais genuíno. A brincadeira o pegou desprevenido e Cassidy se atrapalhou com a risada e a bebida quente, afastando-a do corpo para não se queimar. ’ —— Ah, não. Você estaria alguns bons anos atrasado pra realizar essa minha fantasia, tão atrasado que ela nem faz mais sentido. Eu prefiro ficar algemado a outras pessoas.’ seu eu adolescente ficaria desapontado de não incentivar a chance de ficar preso à Benjamin, mas agora só parecia estranho, principalmente com a conotação da frase dita. ’ —— E por quê eu deveria te dizer isso? Pra você fuçar a vida dele e ir perturbá-lo?’ arqueou as sobrancelhas antes de sorrir maliciosamente. ’ —— É Henrique Alves, ele está na Universidade como professor, não sei do quê, não perguntei. Mas deve ser algo relacionado a magizoologia, fique à vontade.’ agora sim estava se divertindo com as respostas, perdia aquele peso de antes e o cutucava com o cotovelo. ’ —— Maconha e cachaça, você acha que eu deixaria isso pra trás? Claro que não. Mas seu presente principal nem é isso. A cachaça eu trouxe pra mim mas você pode tomar um pouco sim.’
“Sente, é? Duvido. Agora, por tua culpa, terei que vagar solitário em busca de uma companhia para aquecer meus lençóis frios.” disse, mantendo o tom jocoso em seu timbre. A expressão que marcava o rosto do mais novo roubou uma risada de Upton. “Se ele veio ou não por sua causa não temos como saber, e mesmo que ele confirme minha suposição, é difícil de acreditar em quem mente sempre que tem uma oportunidade.” disse, franzindo o cenho. Ele mesmo era um excelente mentiroso, mas costumava usar esse dom apenas no exercício de sua profissão. “Caramba Cassidy que tesão é esse em derrubar minha muito elevada autoestima?” questionou, falsamente ofendido, quando era óbvio que estava apenas brincando. “Tu acha que eu vou fuçar a vida do cara? Que isso, invasão de privacidade da cadeia e sou muito novo pra apodrecer em Azkaban.” o sorrisinho que mantinha no canto dos lábios claramente invalidava suas palavras. Benjamin realmente usaria da informação para investigar o sujeito, mas faria tudo da maneira mais discreta possível. Assim, fez uma nota mental com o nome e o possível departamento ao qual Alves pertenceria. “Agradeço o seu préstimo.” respondeu lançando uma piscadela em direção ao mais jovem. “Maconha não faço questão. Há um nível de porcaria que aceito em meu corpo moldado pelos deuses.” disse, claramente em um tom debochado. No entanto, os anos na polícia o tinham feito extremamente contrário a drogas em geral. “Se a cachaça não é meu presente principal então o que seria? Tu tá me fazendo criar expectativas, Fletcher, só pra me frustrar em seguida.”
Manon queria chegar em casa logo, não tinha nada de específico para fazer, mas naquele tempo chuvoso seu sofá confortável e uma xícara de chocolate quente gritavam por seu nome. Apesar de usar um guarda-chuva, suas pernas estavam descobertas, e obviamente aquilo era tudo que precisava para pisar com força em uma poça d’água e molhar a si mesma e alguém que passava do seu lado. – Aah, droga droga droga, me desculpa por… isso. – Indicou a perna da pessoa ao seu lado. – Você por acaso não teria um guardanapo?
Se não fosse pelas desculpas da mais nova Benjamin certamente não teria se importado em parar por causa daquele pequeno incidente. Ali, observando com um pouco mais de atenção, notou a mancha mais escura que se estendia por boa parte de seu jeans. “Guardanapo certamente não resolveria o problema.” disse, em um tom de voz neutro ao virar-se para fitar a jovem. “E não precisa se desculpar, essas coisas acontecem em dias como esse.” a substituição da neve pela chuva deixava uma lambança por todos os cantos da cidade, um verdadeiro inferno na opinião de Upton. O auror tirou a varinha do bolso do casaco e prontamente executou um feitiço para secar sua calça. “Precisa de ajuda?” questionou ao direcionar novamente sua atenção para a mais jovem.
@ameliciando
Poucas coisas deixavam Benjamin mais entediado do que fazer vigilância de perímetro em época de eventos importantes. Embora estivesse ciente da importância daquela função na prevenção de grandes tumultos, para um especialista em investigação e inteligência como ele, nada seria capaz de mudar a percepção de que aquela era a função mais sem graça que qualquer auror poderia assumir. Assim, nos minutos finais de seu turno, ele estava mais que pronto para cair fora do maldito estádio de quadribol. No entanto, ao descer o corredor de acesso a área VIP do estádio reconheceu a distância a figura de Amelia Crawley. Algumas semanas haviam transcorrido desde a última vez em que esteve no mesmo ambiente que a mais nova. Embora vivessem no mesmo prédio, Benjamin havia escolhido dar a ela espaço para se recuperar do que havia acontecido naquela fatídica noite. Ali, a observando a distância, apesar de discretos, eram perceptíveis os sinais de desconforto com o ambiente. O homem ao lado dela, que sabia se tratar de Edward Crawley, possuía uma fama não muito positiva entre o baixo clero do Ministério da Magia. Figuras como aquela costumavam tratar de maneiras distintas quem fazia parte do topo e da base da pirâmide social. Ainda que pudesse ter seguido seu rumo, como o bom senso pedia, Benjamin acabou optando por continuar observando-a a distância, esperando o momento em que poderia checar se, de fato, estava tudo bem. Para sua sorte, não demorou até Crawley ausentar-se da área exclusiva. “Sua animação com o evento quase supera a minha, Amelia.” disse, à guisa de cumprimento, com seu habitual sarcasmo, assim que a mais nova aproximou-se de onde ele se encontrava, resguardado por uma coluna que impedia a visão de quem se encontrava na área VIP.
for my favorite asshole. happy valentine’s day!! @benuptn
+ info. o livro tem exatamente vinte páginas preenchidas com fotos dos dois desde a adolescência em Ilvermorny até o período atual. tem também dez páginas limpas para irem preenchendo com o passar do tempo e é fácil de soltar para que, quando preciso, coloquem mais folhas para encaixar mais lembranças!
“Have I entered an alternate universe or did you really just crack a smile for me?”
“Essa sua frase só faria sentido se fosse aplicada por mim com relação a você, sabe disso, certo?” disse, em tom divertido, um Benjamin que ostentava um sorrisinho no canto dos lábios. “Mas sim, ao contrário de vocês Wampus, nós Thunderbird somos muito simpáticos.” provocou, a lembrança de que eram de ditas casas rivais. “Está com tempo livre, raio de sol? Tenho ingressos para um tipo de apresentação que talvez te interesse.” concluiu, mostrando para ela os ingressos exclusivos que conseguira para o mini campeonato entre as equipes de lideres de torcida das equipes presentes no torneio de quadribol.
❛ As long as you aren’t setting me up for failure, okay? ❜
Benjamin apoiou o cotovelo na mesa de madeira maciça à sua frente, e o rosto na palma da mão, ele mantinha uma das sobrancelhas arqueadas enquanto fitava o mais novo com um indiscutível ar de riso. “Se houver fracasso a responsabilidade é única e exclusivamente sua.” pontuou, tranquilamente. Apesar de confiar no potencial do mais jovem, não estava nada disposto a assumir responsabilidade pelo que não lhe cabia. “Basta fazer o que foi ensinado. Tu é inteligente, Potter, vai ser uma moleza.”