Diferente dos bons modos de Amaris, o herdeiro da Casa Nornus não se importava com regras de etiqueta. Se fosse para escorrer veneno de seus lábios, que o líquido o lambuzasse por inteiro. Seth escutava pacientemente as palavras da selecionada, não controlando o revirar de olhos ao ser corrigido pela mesma. – Que eu saiba, quase metade da Casa Viper desertou com Nornus. Ou já estão ludibriando a história verdadeira? – Indagou com as palavras banhadas em cinismo, pois sabia que a Viper estava equivocada ao dizer que apenas Nornus I desertou a antiga Casa. Sabia também que outros tinham deixado os antigos animos ao longo dos séculos para se juntar ao forte na floresta. – Pois me preencha com suas palavras encantadoras, Lady Amaris, o que escutou sobre mim pelos salões do castelo? Só imagino as verdades que sairão daí. – O sorriso se instalou nos lábios de Seth, que piscou os olhos em demasiado como se demonstrasse a excitação de uma garotinha para escutar as fofocas ligadas a corte. Entretanto foi quando Amaris tentou defender o próprio sangue que o Nornus demonstrou o verdadeiro escárnio. A risada talvez tivesse saído mais alto do que previra, mas naquele momento estava saboreando a pobre visão de mundo de uma Viper mimada. – Comparar civilidade com sobrevivência… Você não sabe nada sobre a vida, não é mesmo? – Questionou ainda rindo entre os dentes. Seth tombou a cabeça e então se pôs a andar por volta de Amaris como se a avaliasse, o que realmente estava fazendo. Suas palavras saíam pausadas e quase arrastadas. – Pobre Lady Viper… Pobre de mundo, pobre de experiências, pobre de opinião própria. Quem lhe ensinou tais palavras? Sua amada avó? – Ao citar a parente da mais nova, Seth parou novamente a sua frente. Seu rosto era uma fusão de tristeza falsa pela outra e uma travessura verdadeira nos lábios. – Imagino que não viveu o bastante para saber o que sobrevivência significa, como pode então usar tal palavra com tanta convicção quando nem ao menos sabe sua profundidade? – Tinha notado um ponto fraco na outra. Amaris poderia ser boa com palavras, mas não sabia calcular ainda as certas a serem usadas. A propriedade com que se pronunciava pouco estava atrelada a realidade em que se encontrava. – Entretanto, parece dominar muito bem a esfera em que a hipocrisia está inserida. Se eu me encontro equivocado ao acusar sua Casa tão perigosamente, talvez então a própria… senhorita… devesse cuidar de suas palavras para não quebrar a imagem imaculada dos Viper. Me ameaçar desta forma me parece ser pesado demais para uma menina frágil que nem poderes sequer tem no momento. – Seth fitou a pulseira com um olhar penoso pouco antes de voltar a fitar Amaris com um sorriso malicioso. Poucos segundos depois foi possível escutar ao longe, vagamente por entre a música, uivos vindos da floresta.
Havia um limite de grosseria direcionada a si que uma jovem como Amaris podia tolerar sem perder a compostura — e Seth estava flertando com as bordas do lado errado. Nem o escárnio ou a aversão óbvia do rapaz a incomodaram de início, na verdade, aquilo a divertiu. Porém, as insinuações constantes da existência de certa ingenuidade, a qual ela considerava ofensiva, estava surtindo um efeito intrigante sobre a Viper. O Nornus a subestimava, tomava-a por uma garota tola e mimada, que agia por influência de parentes mais velhos e arrogantes. Entretanto, embora o prateado estivesse correto em algumas de suas conjecturas, desconsiderava suas próprias palavras. Amis realmente sabia como agir no ambiente tóxico em que se encontrava, tendo ela mesma um cerne semelhante. Tal fato foi o que a ajudou a controlar sua reação ao comportamento ultrajante do outro, que ria escandalosamente alto, rodeava-a como uma presa, avaliava sua figura da forma mais ousada possível. Diminuindo. Intimidando. Amaris, então, tomou toda a situação como um desafio.
Ciente dos pontos que doíam onde seu ego fora atingido, utilizou-os como combustível emotivo para formar uma nova personagem. Cada sentença que escutava fazia sua face atingir um novo tom de branco, seus lábios se comprimiam milímetros e mais milímetros enquanto, calada, ouvia. Para quem observava, a mudança foi gradual: a imagem de uma moça revoltada e embaraçada, porém orgulhosa, surgindo aos poucos. Provavelmente a interação seria tópico de fofoqueiros e a forma como as íris esverdeadas faiscavam de raiva — um reflexo sincero de como se sentia —, seria levada em consideração. Afinal, o quadro que pintavam naquele momento, não seria o suficiente para fazê-la passar por vítima? Ela detestava estar nessa posição, mas não hesitava em usá-la ao seu favor. Em um curto instante, uma lady respeitável que sorria de forma agradável, brincalhona a olhos menos perspicazes, passara a ostentar uma expressão mais ofendida do que realmente se sentia. Se o animus a desenhava como pouco mais que uma marionete, estava absolutamente equivocado --- e ela provaria à sua maneira nada convencional. Uma Viper jamais seria uma boneca, a não ser o próprio ventríloquo.
A raiva foi esfriando conforme sua mente trabalhava em um plano de última hora, mantendo-se centrada ao passo que assistia o outro se entregar às emoções. Até mesmo sua reação aos uivos repentinos do lado de fora foi utilizada a seu favor, os traços de surpresa transmutando-se em medo e indignação muito bem calculados. " Ameaçando-o? Chamas um simples gracejo de ameaça, m'lord?" indagou, a voz alta o suficiente para que os mais próximos ouvissem. " Minhas palavras nada mais eram que uma brincadeira auto depreciativa! Eu não queria acreditar nos boatos sobre a sanidade dos Nornus, ainda não me sinto segura em creditá-los, mas certamente o tempo que passam no meio da floresta afeta a capacidade de discernir intimidação de uma brincadeira. Mas ficarei atenta ao seu aviso, sua ameaça a minha segurança" finalizou, com um quê de desgosto na voz. Porém, não ficou calada por muito tempo, incapaz de não dar vazão ao seu ego danificado. A única mudança perceptível na conversa foi seu tom de voz, várias oitavas mais baixo, manipulado para os ouvidos do embaixador --- só e somente. " Fique ciente, milorde, que uma mulher sempre tem armas com as quais lutar" flertou, toda debochada, com as íris crispando de malícia " mais refinadas e eficientes que as dos homens. Eu poderia lhe demonstrar, mas creio que... Como posso dizer? Ainda me falte vivência para impressionar o senhor, que viveu tão mais que eu, aparentemente" ironizou, sabendo que o rapaz não poderia ser muito mais velho que ela mesma. " Infelizmente, só posso recorrer à educação que a sociedade hipócrita me ensinou, não posso decepcioná-lo nisso, verdade? Só espero encontrar outro alguém que possa me encher com suas próprias convicções e que, dentre elas, esteja o que julgas necessário que aprenda." À parte seu olhar desdenhoso e o tom que abraçava cada palavra dita, nada no rosto bonito de Amaris revelava o teor daquela interação --- assim como desejava. " Agora, se me der licença, procurarei alguém mais interessante com quem conversar, ou apenas mais civilizado." Frieza e indiferença respingava das palavras, pronunciadas segundos antes de Amis executar uma reverência, burlando-se do outro, inevitavelmente graciosa. Contudo, sabendo que o prateado a escutaria, murmurou ao se virar: " Blood calls blood."











