Ela entendeu o que ele quis dizer, suspirou e continuou a compartilhar sua linha de raciocínio: — Devo acrescentar que em minha definição; nosso destino também é traçado por terceiros. Tais como pais que traçam caminhos dolorosos para seus filhos… Minha sina é ser a reposição de uma morta, nem o nome pertence de fato a mim. - Sorriu, mas aquele sorriso era diferente de todos os outros que já tinha dado a Hedeon, era um que possuía de fato uma grande carga de tristeza. Não sabia se deveria ter revelado aquilo, talvez estivesse fazendo-o pensar que era drama, exagero dela. Mas não ter identidade, bem, ela entendia. Nunca fora planejada ou desejada, apenas acharam conveniente preencher um vazio e ela não podia opinar ou escolher, não quando era incapaz - um bebê - e dependia das escolhas dos outros. — Sim?! Talvez seja por isso que nunca desejei filhos ou casar-me de qualquer forma. - Concordou em alto e bom som, mas sussurrando de forma inaudível o resto da frase. — Nossa, sim, Hedeon deveria se tornar uma palavra de elogio! “Nossa como você está Hedeon hoje”. - Não conseguiu conter uma gargalhada histérica logo após terminar de falar. Era esse o motivo pelo qual apreciava estar na presença dele, ele fazia-a sorrir facilmente e permitia que ela fosse quem era; desajeitada, diferente, estranha ou melhor, esquisita e fora dos padrões. Anastasia sentiu-se feliz, quase como grata por tê-lo conhecido naquele momento. Encostou a cabeça no ombro do mais velho, repetindo o que lhe era orientado. Não tinha manejo com o objeto, mas realmente permaneceu sem cair. — Por que eu deveria saber usa-la? Não que eu não quisesse, mas nunca pude aprender algo como defesa pessoal ou algo ofensivo. - Deu de ombros, a loira tinha sonhos desde muito nova, de poder ser apta para aprender tais coisas, queria ser menos frágil e fácil de se machucar. — Não é o fato de cuidar deles, e não, não há lei escrita que proíba. Mas vamos então conversar sobre algo que lhe seja mais agradável, capitão. Vejo que cabelos não é um dos seus assuntos preferidos. - Concluiu rindo, brincando com a adaga presente em sua mão. Jogando-a de um lado para o outro, trocando de mão em mão.
O cenho franziu de imediato, resposta padrão para momentos assim. Onde a informação batia com a pesquisa prévia. Hedeon tinha passado longas noites, os pesadelos mantendo-o na sina triste de dormir muito pouco, observando e absorvendo as informações de quem estaria mais próximo do Czarevich. Mas, poderia ter toda a informação do mundo e não saberia nada, nada que mostrasse o quão tal acontecimento podia mudar numa vida. — Olha só, somos iguais. Nem um nome eu tenho também. Perdoe-me, mas, não existe possibilidade nesse mundo de conseguir replicar uma criança. Do mesmo jeito que máquinas produzidas em série não são todas iguais. /mas…. você não tenta ser ela, tenta? — Números de série, estilos, um deslize, coisas tão ínfimas e tão importantes. Como existiriam máquinas favoritas se não houvesse diferenças microscópicas? Mesmo que no padrão subjetivo, das auras e sensação (completamente idiotas para o Capitão, diga-se de passagem). — Não está mais aqui quem falou. — As mãos levantando-se brevemente num sinal de que não era ameaça, apesar do brilho nos olhos diminuir um pouquinho. O bastardo ria, concordava com a cabeça com as afirmações, e, por dentro, não poderia estar mais longe daquela condição. Não é o momento, nem uma possibilidade para você, Hedeon. Tirou os olhos dela para suspirar, o corpo relaxando para trás e apoiando as mãos na superfície macia da cama. — Não não não, menos. Meu nome não é para elogios assim, apesar de tentador. Sabia que ele significa Destruidor? É uma palavrinha usada na Armada e seria muito desconcertante para os delicados modos da corte. Se bem que… destruidor combina muito com meu charme irresistível. — Ficou de perfil, o nariz empinado para o melhor ângulo dos nobres e agitou os dedos ao lado do rosto para simular brilhos. Em questão de aparência, o bastardo não era cruel com a imagem. Via a beleza nas feições marcadas, nos olhos puxados e na boca carnuda; além de se deliciar com o negrume da íris brilhantes. — Defesa e proteção. Não estou incentivando a senhorita de sair ameaçando cada rapazote que se engraçar para o seu lado, nada disso. — Nisso se aproximou, o rosto caindo na frente dela e ameaçando ir mais para frente. O pedido de outrora sendo relembrado na proximidade de seus lábios. E, num segundo, voltar a olhar para frente. — Contudo todavia entretanto, é um trunfo que você pode usar para comprar tempo e fugir. É bem simples, na verdade. Sempre a segure desse jeito e deixe que se aproxime, use a força dele contra ele. Ou ela, quem sabe. Posso te ensinar alguma outra hora. — Lições assim pediam um espaço maior e sem tantos obstáculos quanto um quarto. De preferência com os dois vestidos apropriadamente e longe de um quarto. Não queria que fossem objetos de fofoca. — É só porque… Eu não entendo e entendo. No esquadrão eu posso cortar o cabelo do jeito que quiser e nada acontece. Mas vocês, vocês, um fio fora do lugar e pá estão na capa de alguma revista. O que eu quero dizer é: não sou a pessoa certa para dar opiniões capilares. Sugiro uma amiga mulher para isso…? — Hedeon pegou a adaga no ar, focando na empunhadura para não se cortar com o fio. — E que não brinque desse jeito com ela. Quer se cortar, Anastasia?