Willem van Aelst
Dutch, 1627-1683
Still Life With Flowers, ca. 1656 (details)

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Willem van Aelst
Dutch, 1627-1683
Still Life With Flowers, ca. 1656 (details)
📷 Olympus Trip 35.
🎞 Kodak Color Plus 200 vencido em 2012.
Male Nudes Wrestling, John Singer Sargent
Medium: charcoal
sexta-feira, 27
— Saturno está ao lado da lua. Consigo visualizá-lo. Um pequeno ponto amarelado brilhante no céu sombrio. A pele reverberou ao senti-lo ali, acima de mim. Abri um sorriso, noto a alegria e a conexão dele. Os automóveis passavam na rua fazendo barulho, com seus faróis formando linhas continuas vermelhas e brancas para além da cidade. Ele jaz por mim, surgiu por mim, sentiu que o coração latente no pequeno planeta azul estava necessitando de algo. Inesperado. Com olhos fervorosos e iluminados pelo brilho da noite. Ele apareceu em um momento onde o tempo e o mundo não esta ao meu favor, nada consta calmo. Tudo é temporal, e, temporal. Ultimamente tenho viajado tanto tentando te encontrar e sempre paro nos meus pensamentos, em pessoas, em um planeta a 1,4 bilhões de km daqui, sou eu aqui, um pequeno ponto de luz ao fundo negro. Cada dia sentindo mais que minha casa não é essa. Aqui. Não estou no espaço e tempo corretos, houveram erros de cálculos, de matéria, erros do espaço que me floresceram.
— Estava sensibilizado por ele. Meus olhos queimavam por trás das córneas. Sentia muito o que estava acima de mim. Ao lado da lua. Meu coração pulsava de forma diferente e letras de algumas músicas de uma banda chamada Sleeping At Last ecoavam dentro de mim, por todos os recintos e espaços presentes aqui. Especialmente Sun. Meu mundo é extenso e há lugares onde não pisei. Em algumas partes está do avesso e consigo perceber poeira cósmica, abandono, casas vazias, renegadas pelo tempo aqui dentro.
— Senti você ao sair do prédio, desde o momento em que fiquei ciente, sobre você, que me esperaria. Te olhei e você me olhou, sendo este o olhar mais recíproco que alguém poderia receber, pois mesmo sem te ver de perto te senti dentro de mim, os átomos em mim vibraram e meu corpo arrepiou, como se por trás dessas células existisse mais de você, com tudo sendo tão extraordinário, tão enigmático ao meu redor consegui te entender, te filosofar em minhas utopias diárias.
— Observei por uns segundos o fone de ouvido remendado em cima da mesa. Esperava algo chegar. Mas estava demorando tanto, tento imaginar o que seria, apenas vejo um opaco cinza, com os carros passando do lado de fora da janela.
Parei no tempo. Crateras lunares. É o estado atual do meu cerne.
— Elio, olha os dois lados antes de atravessar; 27 de julho de 2018.
Telefone
Me sentia tão exausto, entediado. Queria entrar em um buraco negro que me levasse a qualquer outra dimensão, a um universo paralelo que não este. Marte, Júpiter, dentre os anéis de Saturno, queria poder navegar pelos detritos de meteoros mortos e poeira cósmica sondando a atmosfera dele. Seria diferente de qualquer coisa, é diferente, qualquer coisa é melhor que isso aqui.
A tela do celular denunciava, literalmente estava desconectado de tudo e de todos, era apenas eu e eu mesmo, com os pensamentos intrusivos sondando umas brechas para atacar, tirar a casca e enfiar o dedo na ferida não cicatrizada, crua. Para todos os lados tudo se desintegrava e eu escorria pelo ralo da pia entupida, me vendo balançar e escorrer.
As vezes sentimos muito, do nada isso vem e te abraça como o inverno das terras nórdicas, dança contigo pelo salão do seu ser pegando suas mãos com delicadeza com dois passos para lá e dois para cá sinuosos, doces, te fazendo chorar, falando que você é invencível e belo, mas que contém algo velho melancólico ali dentro, deixando sua essência transparecer a alma saindo do corpo e cintilando.
Estava em uma conversa e de repente me peguei chorando. Com as lágrimas pelo canto do rosto caindo. Com uma dor de cabeça, elas desciam pelo rosto suave. Sem vontade de levantar, com um telefone não mão. Levei a palma da mão ao rosto pra pegar as lágrimas que desciam. Fiquei sereno depois de alguns segundos. Tudo isso agora, neste exato momento, acontecendo. E penso no que mais tem lá fora, faz frio aqui dentro e ouvi uma música que me fez sentir calma. Tranquilidade em um barco que só afunda. A música seguinte se chamava Strong e... senti-me especial, não me perguntem. Olho para o teto de segundo em segundo, a espera de algo?
— Elio, olha os dois lados antes de atravessar.
como, não sei explicar
— Como não sei explicar, logo entro em êxtase. Sem ter o que dissertar, só sinto como se fosse antes, lá atrás, quando acontecia de verdade, como lhe falei, entrei em mim novamente com você, a tempos distantes não conseguia me achar diante das pessoas que eu fornicava. Hoje eu sinto aqui dentro que voltei, o sentimento existe e é tangível, aquele carinho imenso por alguém, e o medo de perder. Precoce. Existem em mim e não posso negar isso de nenhuma forma. Então vou ter que falar sempre, mesmo que seja perigoso, e se nós for será deslumbrante.
***
— Olhando nos seus olhos e te lendo dos pés à cabeça, que tem asas para quando quiser voar e as raízes pra quando quiser ficar aqui, e que goste de pessoas, no seu estado mais puro. Que pode sentar com você em uma mesa de um restaurante comum, com música ambiente tocando e iniciar a conversar com qualquer aleatoriedade sobre o mundo do lado de fora da janela, e você vai ficar adorando todo aquele assunto, e essa pessoa vai te acompanhar até onde não dá pra se enxergar, vai andar com você pelas ruas como se fossem amigos e parar, te chamar pra ver aqueles brinquedos na vitrine ou um livro que ele achou em uma livraria por aí, e pode guardar seus segredos em um baú. Alguém que alguns dias não vai estar legal porque gente de verdade fica triste, e só vai querer ficar do seu lado, olhando as luzes da cidade, sem falar nada e no final falando tudo que se sente. Com ou sem toque. Os olhos vão brilhar e o sangue correndo nas veias vai ser quente porque ele tá vivo, e ele sente você, ali, e todos são livres, não podem ser presos e ao mesmo tempo vão ser pertencentes.
— Elio, olha os dois lados antes de atravessar.
rory.
conspirações
alguma coisa se desprende do meu corpo
e voa
não cabe na moldura do meu céu.
sou naufrago no firmamento.
o vento da poesia me conduz além de mim
o sol me acende
estrelas me suportam
Odisseu nos subúrbios da galáxia.
amor é o que me sabe e o que me sobra
outro castelo que naufraga
como tantos que a força do meu sonho
quis transformar em catedrais.
ilusões? ainda me restam duas dúzias.
conspirações de amor, talvez não mais
— Página 29
Em ter., 19 de mai. de 2020 às 19:16, Elio Silva <[email protected]> escreveu:
Obrigado por isso Rafael. Minha ansiedade principiou naquele momento, me senti angustiado e com uma carência enorme de atenção, exatamente naquele instante. Senti vontade de chorar, de ficar ali, parado, de sair, de pintar um novo quadro (imaginando uma outra realidade), e me pegou desprevenido. Fiz a audácia de beber vinho naquele momento, e aí quando o álcool entrou no sangue, suei, gravei áudio, pensei em como mudar isso, no tempo (de novo), chorei enquanto ouvia a música. Estática. Peguei no sono. Eu gosto de vinho. Geralmente eu procuro meios de contornar isso mas, até o lado esquerdo do fone de ouvido parou e eu, ouvia o exterior, todos os sons, quando só queria ouvir a canção. O fone bluetooth naquele momento havia descarregado. Então tive que usar o antigo. Bem, resumindo tudo, naquele instante eu senti a existência, senti demais, além do que queria e do que poderia aceitar, veio como um carro desgovernado. Obrigado por isso. Me sinto aberto a falar a você, e foi a primeira pessoa que pensei naquele momento. Quando você diz que gosta de mim e não é ficção, me sinto diferente. Em meio a isso tudo que acontece é surreal. Estamos um bocadinho longe, mas pense comigo, estamos mais perto da lua, se você olhar pra cima, vai ver, se fizer o mesmo, também a vejo. Ela está pra mim como está pra vocês. Do mesmo jeito que gosto de você, você gosta de mim.
P.S. Elio.
— Elio, olha os dois lados antes de atravessar.
Rafael, quero chorar. Quero um abraço, você tá acordado? Bem que poderia ligar pra você um dia desses, pra conversar sobre qualquer coisa ou, ficar com vergonha no telefone, mas ao menos ouvir a voz de alguém vivo, só vejo zumbis pra todo lado que olho. Não consigo dormir cedo, meu sono tá muito desregulado e eu não sei o que fazer. Eu acho que meu período sensível se estendeu, pois eu estou agora, triste e com vontade de chorar, ao mesmo tempo puto comigo mesmo, passando a mão pelo rosto pra pegar as lágrimas. Sabe com quantas pessoas eu estou ultimamente conversando assim? Explorando e contanto todos os meus sentimentos? Apenas uma. Porque com todo mundo é raso, e eu sinto falta de intensidade. Aqui estou eu, intensificando minhas paranóias e sensações em texto. To ouvindo o Honeymoon e tá tocando Freak. Possivelmente eu irei ficar ansioso o resto do dia, a ansiedade, ela atacou, do nada. Não queria sentir essas coisas sabe? Só queria ser amado e viver bem, plenamente, como nas ficções. Este e-mail é a parte do principal. São meus sentidos contanto o que estou vivenciando nesse momento, me desculpe, eu só queria um abraço, ou um pouco de atenção, sou carente disso e os psicólogos podem falar que é trauma de infância, de algo passado, estendendo-se até hoje. E é mesmo, trauma de uma criança que não teve tanta atenção, como deveria? Existe um modo pra isso? Um jeito de dar atenção? Uma quantidade específica? Cadê a parte em que as essas pessoas mais próximas falam dos sentimentos? Da vida? Do que você pode sentir e passar? Onde estão? Pra mim não existiram, tive que andar sozinho, entender o eu próprio. E confesso que é tarefa diária e cansativa, muito cansativa. Acho que irei mandar uma mensagem pra Rayssa, minha amiga. Há um tempo que não falo sobre meus anseios com ela. Desabafar, e estou chorando com saudades, devo ter culpa em boa parte das situações que ocorrem comigo, tenho. Sinto muito por tudo.
— Elio, olha os dois lados antes de atravessar.
amor de rapaz
Ainda pouco li o e-mail que recebi do Rafael. Senti minhas veias pulsando, deixei cair algumas partes de mim, uns pedaços caiam na mesa da cozinha com o e-mail aberto, onde meus olhos fitam a fotografia e meu coação sentia. Bruscamente. Como uma locomotiva a todo vapor. Ao som do bebedouro e com a caneca de café frio em repouso do meu lado, senti uma tremenda saudade daquilo que existiu até a adolescência, e foi embora em um piscar de olhos, digo até, que poderá ter ido antes de me dar conta. E aqui entre nós, quanto a isso... encaro minha expressão refletida na garrafa de café, a letra “R” no teclado deixou de existir a muito tempo atrás. Sentia falta de um colo, de alguém que pudesse olhar bem dentro dos meus olhos, ao infinito que lhe cabe, onde ele pode falar que está do meu lado, quando o mundo gritasse, onde pudesse com seus braços por ao meu redor e permanecer, estou prestes a envelhecer e o que vejo de futuro é uma imensa e densa incógnita, onde o barco balança, olho o céu sem estrelas. O som do bebedouro vaga na cozinha branca, fria, suja. O café esfriou mas mesmo assim o devoro, sem medo algum do toque gelado no paladar. Estou nos meus piores dias, caótico. Coloco a mão no queixo e paro no tempo. Olhando a tomada com o plug preto encaixado e penso no que está acontecendo ali, naquele instante, como o Pensador, fecho os olhos diante do universo. Por que estas malditas teclas pararam de funcionar? Sinto a mão ao encostar o nariz, macia, com o cheiro de vida, sinto além disso uma tremenda... solidão. É isto por fim, me dispo de mim mesmo com estas palavras, volto para o quarto. Para o escuro, e durmo.
— Elio, olha os dois lados antes de atravessar.
É por isso que gosto disso. De você. Por me deixar assim. Flutuando dentro de mim mesmo.
Essas músicas não existiam até voce vê-las, agora.
Album · 2018 · 10 Songs