Anne x Jace
Continuou olhando para o céu escuro com um olhar sem vida. Talvez porque não conseguiria olhá-la nos olhos depois de ter dito aquelas palavras, ou porque de algum jeito fosse simplesmente doloroso olhar para ela naquele exato momento. Justo no momento em que se encontrava mais frágil. E, por mais que não quisesse admitir, só sentia esse sentimento, que tanto quanto era bom, o destruía por dentro, era quando Anne estava perto.
Ele virou o rosto para ela. E a olhou. Não somente olhar ou encarar. Era mais que isso. Queria ver o que ela tinha de tão especial. Queria ver o que havia dentro daqueles olhos. Diziam que ali era a porta da alma ou qualquer besteira do tipo. Pensou em como seria a alma dela.
Pensou em como seria ter uma alma.
Então, num piscar de olhos, como se saísse de um êxtase imaginário, abriu a boca e soltou palavras roucas ao vento gelado: - Não diga que falou coisas que não devia quando só falou a verdade. E quando ela riu, ele riu junto. Por nada. Por estar bêbado. Por simplesmente querer rir com ela.
Ouviu suas palavras, entrando como uma acaricia em seus tímpanos em meio a tanto barulho em sua mente deturpada. Jace sorriu com a palavra “divertido”, com uma suave conotação maliciosa. Era ridículo, mas ele era Jace, afinal de contas. E havia um desejo lá no fundo, que talvez ele fosse descobrir o que fosse hoje.
Ele se aproximou suavemente de Anne, com os olhos sem desviar nem um segundo. E quando ficou a centímetros de encostar os narizes, ele parou. Não disse nada por uns cincos segundos. Podia ser um pobre garoto alimentado por mentiras fúteis e crueldades, cheio de orgulho, porém ele ainda gostava de jogos. E isso o deixava vivo. Nem que por um segundo.
- Proposta duvidosa. E que poderia considerar como indecente. – sussurrou suavemente, com os olhos ligeiramente estreitos, como se estivesse contanto um segredo muito sério. E então, num súbito, jogou a cabeça um pouco para frente como se fosse beijar seu pescoço, mas a única coisa que fez foi encostar suavemente os lábios ali, apenas raspando, e segurar seu braço, percorrendo sua pele nua com os dedos agilmente, até agarrar e tirar a garrafa de suas mãos. Tomou um gole e se afastou rapidamente, se ela fosse tentar pegar de volta. – Eu quero jogar. E também tenho uma proposta para você, senhorita.
Jace se aproximou suavemente de Anne, aquele andar que faziam as pessoas na Sede prenderem seus olhares nele - seja por algo bom ou ruim. Ela retribui seu olhar. Aquela sensação de invencibilidade continuava, borbulhando dentro de si, ansiosa por algo, mas também havia outra coisa. Algo no ar; na distância entre os dois, quase como uma eletricidade estática nos momentos antes de uma tempestade.
– É para eu ser uma filha de Éros, lembra? – Responde, mantendo o olhar fixo no dele. – Nós somos indecentes, e – então para abruptamente, por um segundo achando que ele realmente estava prestes a lhe beijar. Dessa vez ela sabia que deixaria.
Então ela simplesmente sente um leve toque, os lábios de Jace quase encostando em seu pescoço. A mão descia pelo seu braço, deixando-o em um leve estado de formigamento depois que passava. Injusto, pensou. Isso que você exerce em mim. Não desviou o olhar em nenhum momento dele, até perceber que havia se afastado com a garrafa.
– Aproveitador – soltou, mas de um tom que ele soubesse que soltava apenas um comentário cômico. Ele deu um passo para trás, e ela deu um para frente, mas antes que falasse ou fizesse alguma coisa, ele soltou um comentário que a fez arquear as sobrancelhas, com um sorriso levemente repuxado para baixo.
- Um jogo, Jacy? Como aquele que você tentou na Floresta? Eu me lembro de quem ganhou daquela vez. - Murmurou, ainda no ímpeto de tentar alcançar a garrafa dele - Mas diga, que proposta, Salvatore? - Então, ao invés de ir atrás da garrafa. ela voltou a caminhar pela borda, até alcançar o ponto mais alto do Punho, mantendo sempre os olhos em Jace. Ao avistar luzes da grande cidade ao longe, uma ideia lhe passou pela sua cabeça, alimentando aquele sentimento de antes. – Tem alguma chance dessa proposta incluir Nova York, talvez? - Murmurou, quase com os olhos brilhando.
Ela sabia que as ordens era para ficarem no Acampamento até algo seja dito, mas desde os problemas da última "missão" dos dois, de ir atrás do filho de Bethany e Jack, eles haviam se mantido em silêncio. Por vezes, Anne pensava qual seria o próximo passo dos dois, mas naquele momento, ela simplesmente queria estar longe de tudo aquilo. Sem Acampamento, e sem Caçadores.














