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@anonokane
me dá um buraquinho no peito pensar que você vai embora. passar um tempo fora. um vazio.
é que aprendi a preencher meu peito com o afeto das pessoas. eu gosto de uma conchinha e de atenção… quem não?
é que não estou acostumada com o não quando o assunto é negar ternura. desde que akuã se foi, aprendi a lidar com a solitude de um jeito mais completo.
sim, eu fiz as pazes comigo. tudo vem e vai, o passado fica pra trás e precisamos seguir em frente.
é que me dá um buraquinho pensar que você vai embora. mas eu me refaço, me desdobro e no fim sei que comigo mesmo sei ser completa.
disse a mim que o ano parece que vai ser bom nessa segunda metade. prometo cuidar de mim, e cuidar principalmente de quem entra na minha vida.
esse buraquinho jamais será preenchido por alguém. é dele. assim como o buraco que ela deixou. assim como tantos outros buracos em mim.
a perfeição mora no imperfeito, nos buracos e curvas e defeitos. sou perfeita assim, completa em mim. é assim também que faço a paz comigo:
olhando fundo nos olhos do perigo e não o vendo mais como inimigo; pegando na mão da solidão e aceitando o não; dizendo sim pra mim e paz pras águas de um rio distante da minha morada.
rio-futuro, rio/entrada; rio onde nadarei, rio de águas profundas_ onde se nada. tempo-rio.
Atera Valley, Japan by Ron
― Haruki Murakami, A Wild Sheep Chase
Uncredited cover art for After the Rain, by John Bowen, 1965
diário de término #2
tem um antes e um depois de mim. pro depois que você vive, você teve que apagar o bom do antes e deixou o pior pro depois.
aprendi hoje até a amar meus impulsos! não me culpo. sou mais inteira. lá fora chove, e vou dormir na paz de que voltei pra mim.
não falo isso pra me sentir mais forte, mas é que desde que você foi eu aprendi a olhar mais no espelho.
meu cabelo está longo. imagino o que você tem feito. será que já vai fazer a cirurgia? como estão os trabalhos?
Niamissū assiste. os encantados estão comigo toda noite. meu peito me dizendo: “deixe ir o que não te quer”.
Você parou de me seguir em tudo. Amizade nenhuma. Sou inimiga. Fez caveira de mim.
Obrigada, Deus, por eu não ser assim.
Não faço caveira nem da pessoa que mais me machucou no mundo, porque quem é caveira não precisa que o outro o/a torne assim.
Confio em mim. Até porque todo mundo se afastou. Ouvi dizer que as amizades poucas são as mais poderosas. Tô mais quieta. Focada na minha.
Queria saber como você está. Mas, querer não é poder. Me vou. Preciso ir. Não posso voltar aqui.
Por mim.
eu sinto tanto a sua falta e isso tem sido muito difícil pra mim. há um ano atrás estávamos juntas, nessa mesma casa, nessa mesma cama. hoje você tem raiva, ou não sei o que você sente sobre mim. eu estou chorando junto com a chuva e no meu coração faz frio. haru me esquenta, chicha na ponta da cama. eu tentando ser uma pessoa melhor pra mim, sobretudo pra mim. não consigo dormir. lá fora ainda chove. tabaco agora me enjoa. te mandei uma mensagem e apaguei. foda-se. tô vivendo esse processo muito bem! hoje me abraço, eu não fazia isso antes. tem muita coisa que eu não fazia antes por mim. nosso relacionamento depois de um tempo virou sufoco. você pode tentar me deletar da sua vida, mas nunca vai conseguir. vou ficar ali como uma mensagem apagada. conversas de um número que não mais existe. seu número vai continuar sendo zero-onze. sua conta de água no endereço. o computador que eu comprei. o carinho que eu te dava. nosso pra sempre foi embora como um rio que seca, desagua e volta só depois que a humanidade acaba. você foi um grande amor e ninguém vai ocupar seu lugar. mas dentro do buraco que você deixou, vai florescer. eu vou florescer. eu estou florescendo. não quero mais sentir isso que tô sentindo quando o assunto for você.
não fico bem quando minha irmã não tá bem. e eu tento fazer de tudo pra ela ficar bem, mas de nada adianta. ela reclama do que faço, as coisas que digo pra ajudar, e às vezes preciso simplesmente dar passos pra trás e assistir ela fazer escolhas que a machucam.
não fico bem quando minha irmã não tá bem. e as coisas me puxam pra baixo, e eu não sei o que fazer. tento elevar minha energia para ajudá-la. eu queria poder ter mais habilidades para ajudar a livrar essa depressão. mas parece que tudo é pouco, que tudo é ruim, que eu deixo os outros pra trás.
não fico bem quando minha irmã tá mal e preciso aprender a lidar com isso.
O amor deixa tudo mais bonito. Mas com você, eu tenho medo disso.
a gente não se combina. você veio de piauí-bahia e eu de bahia-minas. você é solta, eu sou na minha; eu canto, você encanta; eu encanto, você dança; eu olho, você lança; eu rio, você conta. a gente não se combina. minha casa de barro não é vulnerável. perto do rio onde moro vivem estrelas. um peixe vermelho já falou comigo. te vi na mata-viva atlântica e você lembrou de mim. há 10 anos já pensei em você. e por isso que você não combina comigo. não há espaço pra intensidade. o céu que busco acima é aberto, e segurar a mão de outro alguém já não me interessa. e por isso a gente não daria certo — não quero te querer sem te ter bem perto, e quero te querer assim bem perto. o tempo contigo é outro, mas nossos amigos e meios não se combinam _você cerveja, eu vinho; você trabalha, e eu dormindo; você na rua, eu n’um teatro de domingo. queria te olhar no olho e te dizer o quanto você é linda. e eu temo, porque isso tudo é lindo. o tempo passa e me reafirma que tenho poucos amigos; a vida passa te vejo sorrindo, e é tão lindo. queria te ver mais um cadinho, porque a gente não combina, e o quanto durar é o que merece nosso caminho.
Gilbués, Piauí, Brazil - by Araquém Alcântara (1951), Brazilian
muito se passou, entre eu e você; entre eu e ele; eu e ela. hoje eu estudo, eu trabalho, e cada página da minha vida é um sonho construido com as esperanças de um dia viver de arte. aliás, esse é o sonho de todo artista: viver da arte. meu pai me contou da vez que ele fugiu da polícia. e da vez que ele apanhou no escuro da noite de dois caras. e outra vez que apanhou sozinho. de quanto ele era solto na rua e no mundo, e carregava tanta raiva no peito que descarregava nas festas, na bebida e nas brigas. lembrei de baco em “sinto tanta raiva”.
ouvi histórias que me trouxeram até aqui. eu não deveria sentir vergonha de mim, se o que eu tenho é fruto de uma vida sem sonho, de gerações que não puderam ter ou sonhar; gerações de bolso vazio e peito sedento. eu ainda sinto tanta sede mas estou aprendendo a navegar no mundo. a real é que nem tudo é tão passageiro assim… e eu tenho estado interessada no que fica.
às vezes me sinto apática — quero ir pra casa, quero ir pro quarto, quero ninguém; mas muitas outras vezes queria um afago e alguém que me olhasse nos olhos e me amasse como sou.
parece que algumas coisas tem perdido a cor, mas eu me abraço e me sinto bem comigo mesma. quietinha, sem julgamento — até porque só eu sei o que acontece: na minha conta bancária, na minha geladeira e debaixo do meu coberto.
sonho em um dia poder trabalhar como atriz entrando e saindo de filme, imersa em uma personagem vilã ou vivendo uma mocinha que vira uma monstra.
meu pai me disse que minha bisavó não queria que ele casasse com mulheres brancas porque sofreu por ter casado com um holandês. sofreu tanto que não aceitava que mulheres brancas adentrassem sua casa querendo namorar seus filhos e netos.
eu não tenho defeito de cor: meu maior defeito é ser uma mulher marrom cacau que me tira desse lugar por ter o que tenho. mas meu marrom define minha doçura, sou chocolate, cocada de côco queimado, sou quente, sou herança ancestral de força pura.
toda mulher sagrada tem que ter seu santuário; e toda mulher marrom cacau precisa entender que carregar esse tom é ter vivido dor nesse mesmo tom em outras vidas.
essa semana eu finalmente compro um kindle e um caderno para escrever o que sinto — faz um tempo que me estranho, e me entranho.
a jade vai morar comigo e eu tenho medo. tô com saudade desse encontro entre eu e o medo do desconhecido — me empurro pra esse lugar como fosse ímã.
tenho vontade de transar com o zuza. e com a duda. acabou o verão, quero fazer uma festa junina. quero comprar um caderno de luas pra escrever o que sinto e em breve arrumo meu armário de remédios. do mato.
fazer da terra do quintal meu prato, do meu peito um buraco tapado com quentura de cacau de ilhéus e do meu corpo uma possibilidade de saúde e acolhimento a mim.
mesmo nessa fase esquisita de apatia )ou seja lá o que for( me sinto bem, enfim.