De ontem para hoje, tenho carregado um peso que mal cabe dentro de mim. Há pouquíssimos dias ela voltou, da forma mais improvável, e por um breve instante eu acreditei que a vida, enfim, estivesse encontrando um caminho de volta. Bastavam dez minutos. Foi tudo o que eu pedi. Dez minutos para vê-la, abraçá-la para ouvir a voz dela perto, para lembrar ao meu coração que ela ainda está aqui. Mas ela interpretou as minhas palavras errado, e aquele pequeno desencontro abriu um abismo.
Naquele instante, desabei.
Saí dirigindo e voltei exatamente para o lugar de onde eu venho lutando tanto para sair. Não sei como consegui dirigir até em casa. Não sei como coloquei o carro dentro da garagem. Hoje percebo que estava cega de inconsciência, dor, porque quando a dor toma conta e o corpo continua em movimento, a estabilidade da alma já não está mais ali.
Ela conheceu a parte de mim que eu mais temo, a parte que eu mais escondo. Mas esse hábito maldito de escrever tudo fez com que ela enxergasse, mesmo à distância, o caos que me habita quando uma crise me atravessa. É como se alguém desligasse a luz dentro de mim. Por algumas horas eu deixo de reconhecer quem sou. A consciência desaparece, e tudo aquilo que passei anos tentando esconder rompe as correntes. As palavras saem ferindo, os pensamentos se confundem, e eu já não sei distinguir o que é real daquilo que a própria dor inventa.
Depois passa.
Sempre passa.
A consciência retorna como quem acorda depois de um incêndio, obrigada a caminhar entre os escombros das próprias atitudes. E é nesse momento que o peso da culpa se torna ainda mais cruel.
Ela está profundamente magoada comigo. No auge daquele delírio, duvidei da confiança que já estava abalada. Acusei desrespeito justamente enquanto eu mesma desrespeitava quem eu mais amo. É uma contradição que me destrói. Eu reconheço os meus erros em cada palavra dita, mas não reconheço a pessoa que as pronunciou, aquela não sou eu.
O que mais me machuca é perceber que ela acredita que tudo foi intencional.
Como alguém que conhece a minha história, me conhece melhor que ninguém, pode acreditar que eu escolheria ferir ela? Essa ideia atravessa meu peito como uma lâmina silenciosa. Dói porque não é apenas sobre o erro, é sobre deixar de ser vista por quem conhece todas as minhas cicatrizes.
Adiantei minha sessão e passei horas conversando com minha psicóloga. Repassamos cada detalhe, cada palavra, cada silêncio. Ela me disse que eu precisava procurá-la, conversar, assumir a minha responsabilidade, pedir perdão e tentar resolver o que eu havia causado.
Foi exatamente o que fiz.
Passei o dia inteiro procurando uma maneira de consertar o estrago. Tentei chegar com calma, com humildade, com arrependimento. Mas ela não aceitou. Disse que, não dormiu bem, não trabalhou bem, que eu havia levado ansiedade até ela. Minha consciência também pesa.
Só eu conheço a dimensão do vazio que foram todos esses meses sem ela.
Nesses poucos dias em que ela reapareceu, meu coração finalmente havia desacelerado. Pela primeira vez em muito tempo, senti esperança. Acreditei que, aos poucos, estávamos recolhendo os pedaços do que um dia foi quebrado. Acreditei que ainda haveria tempo. Acreditei que, dessa vez, eu não a perderia.
Mas agora o silêncio dela, só me trás angústia, me convencendo do contrário.
Tenho a dolorosa impressão de que minha presença já não altera absolutamente nada. Como se eu pudesse desaparecer outra vez e o mundo dela continuasse exatamente igual. Como se me perder fosse insignificante, uma ausência qualquer, quando para mim, perdê-la continua sendo a forma mais cruel de definhar em vida.
- WD













