quando [Nesrin] passa sob as estrelas, há quem poderia jurar que [apus] sussurra seu nome, mas talvez seja apenas o mar deslizando na areia, contando seus segredos. se ouvir com atenção, se escuta que ela é [amável] e, sem julgamentos, um tanto [teimosa]. no continente, juram que se parece com [Hande Erçel], você sabe do que estão falando?
como uma ave polinizadora, ela é eficiente nos campos de cultivo de flores. para alguém que veio do mar, a familiaridade com a terra era uma surpresa para si mesma, mas não para os insulanos. algo na força da água, ou na natureza como um único órgão, fazia com que não fosse nada incomum que um tarka se adaptasse ao cultivo. na realidade, se adaptavam como qualquer outro membro da ilha, uma vez ali instalados. podia funcionar, ou podia ir água abaixo — às vezes, literalmente —, como com qualquer outro morador. ave do paraíso não se questionava tanto assim sobre suas predisposições, pois sentia-se feliz com o trabalho manual e delicado que lhe era designado, e até mesmo assumia posições de inteligência sobre o cultivo, sobre a administração. eram quatro anos de dedicação e de lavandas e hortênsias saudáveis, e quatro anos sem que qualquer um se preocupasse com seu retorno para o mar. esse, se acontecesse, causaria uma enorme falha na produção das flores de saint abbon de fleury.
tarka — chegada em saint abbon de fleury: há 4 anos
idade: não determinada
profissão: floricultora
moradia: vesper
Ela sempre gostara tanto assim de flores? Será que ela cultivava algas ou cuidava de corais lá debaixo do mar? Eram algumas perguntas que não eram tão incomuns quando se estabelecera como florista na ilha. Geralmente eram crianças, mas nem sempre; a resposta era sempre um sorriso e uma dispensa de que não saberia dizer, já que não se lembrava. Ou, as vezes, uma brincadeira dizendo que ela era a melhor cultivadora de corais dos sete mares, caso fosse uma criança especialmente divertida. Gostava de relevar e dizer para si mesma que não importava o que ela fazia antes; quem era ou o que era, o que importava era que agora tinha os próprios campos, suas plantas, flores, sua terra. Um emprego que amava, uma sensação de pertencimento com a natureza que a preenchia por dentro. Quem liga para quem ela era?
Ela parecia ser boa em mentir para si mesma, talvez fizesse isso lá no mar também. “Teimosa”, disseram. Porque a verdade é que algo lhe incomodava sobre não lembrar de nada. Fingia que não, mas os meses da chegada a afetavam mesmo depois de anos: o chamado do mar não era impossível de evitar, mas era incessante, sempre presente, sempre a tentando. E ainda assim, ela era firme em sua decisão, porque algo que definitivamente não mentira para si mesma era aquilo: ela amava sua vida na ilha. A sensação de completude com a natureza, era simplesmente… mágico. Nada poderia abalar sua decisão, ou era o que achava, porque no mês de setembro o mar trouxera à praia alguém que ela reconhecera, mas não se recordava. Alguém que era uma forma vívida de a lembrar do buraco que sentia dentro de si e de se questionar cada vez mais, e ela estava igualmente curiosa e assustada com o essa percepção.
Ocupação: quando chegara e se estabelecera em Vesper, não demorou muito para conseguir trabalho nas fazendas, percebendo seu dom para o cultivo rapidamente. Desde então, foi mudando e crescendo junto com as plantações de que cuidava, até que chegou ao ponto em que estava: responsável pela maior parte do cultivo de flores da ilha, uma das pioneiras nos experimentos com a flora. Ela ainda tinha ambições, é claro; apesar de adorar o trabalho, ela ainda gostava de experimentar com agricultura, um ramo que ela estava rapidamente crescendo, e mantinha uma vendinha em sua casa de produtos derivados das suas plantas - chás, velas, óleos e sabonetes, todos feitos à mão. Não tinha grandes expectativas que isso virasse um negócio, era mais porque ela gostava tanto das plantas, de cultiva-las, manuseia-las e de estudar suas propriedades que acabava com uma sobra além do que poderia dar conta na sua casa, então ficava mais do que satisfeita e orgulhosa em compartilhar. Apesar de ser encarregada das grandes plantações dos donos de terra, fez uma permuta com uma das fazendas para conseguir as flores, e abriu uma loja que tem um estúdio em que trabalha alguns dias.
Trivia:
Costuma dar algumas flores e frutas de seu quintal para as crianças e idosos como presente, o que a rende uma fama de excelente vizinha;
Como mantém uma vendinha em casa, é comum receber pessoas, sendo uma ótima anfitriã, mas esteja avisado: ela vai tentar lhe empurrar alguma de suas misturas de chá naturais;
É comum vê-la andando por toda a região campestre da ilha com uma cesta na mão: ela coleta brotos, sementes e pedaços de planta para estudar e plantar;
Apesar de dizer que não sente o puxão do mar, adora passear pela praia, e tomou como hobby coletar conchinhas nos seus passeios para acalmar a mente dos questionamentos que surgem quando está perto da água. Quando questionada, disse que tinha uma coleção e acabou se comprometendo com isso, então agora realmente mantém uma coleção de conchinhas em jarros na sua casa;
É uma pessoa diurna e ama o sol, costuma funcionar melhor com a luz do dia e adora trabalhar nos campos durante a manhã e final da tarde;
Adora piqueniques e as vezes pode ser encontrada sentada nos campos com sua característica cesta, dessa vez utilizada (majoritariamente) para quitutes, doces e sucos. Também é comum que esteja com seu diário de rabiscos, onde desenha plantas e escreve observações e ideias a partir de seus estudos;
No ano de sua chegada, ficou encantada com as danças do festival, de modo que começou a ter aulas de dança no mês seguinte. Hoje em dia é um hobby que a permite extravasar e se comunicar consigo mesma de forma mais íntima - gosta da dança tradicional de Saint Abbon de Fleury e de ballet clássico, fazendo aula de segunda a sexta;
Por causa de sua horta e plantação caseira, ela não precisa comprar praticamente nenhuma fruta, verdura ou sabonete, também usa os próprios óleos e velas aromáticas (e por causa disso sempre se esquece de usar perfume);
É fissurada por yoga e toda manhã pratica junto com meditação (pelo curto tempo que consegue), geralmente em seu jardim em meio às flores e pegando a luz do sol;
Aesthetic fit & clean girl, está sempre tentando virar mais orgânica, mais natural, mais limpa. Adora umas misturas de sucos e chás, está sempre em dia com sua rotina de skincare (que ela mesma mistura dependendo do produto!);
Aprendeu a andar a cavalo quando começou a trabalhar nas fazendas e adora a sensação. Sempre que a deixam pegar algum emprestado, ela pode ser vista andando (e correndo) à cavalo - o que não é tão incomum, considerando que seus empregadores têm dificuldade de resistir ao seu sorriso e olhos pidões;
Natureza lover, ela adora animais, e está sempre cuidando de cães e gatos que acha abandonados, deixando eles viverem no seu jardim. Não os mantém presos e diz que estão livres para ir e vir, mas considera todos como seus;
" Você é muito lindo, sabia? " questionou com uma voz doce para o cavalo. Não era incomum que os fazendeiros com quem trabalhava a deixassem passear um pouco com os animais - tinha sido difícil resistir a Nesrin uma vez que ela demonstrava tanto interesse e carinho por eles desde que chegara na ilha. Em seu primeiro ano já estava montando bem, e depois disso era impossível negar quando ela tinha os olhos mais pidões - e não prejudicava saber que ela cuidava deles muito bem, os mimando com frutas sempre que passeavam " Você quer entrar comigo nas águas termais? " perguntou, e apesar de dar um espaço de pergunta - como se o animal fosse lhe responder - ela prosseguiu, um pouco mais sussurrado e aproximando o rosto da cabeça alheia " Eu acho que você é grande demais "
Destacado de suas funções no emprego 'fixo' na clínica veterinária, Titan usava a bicicleta para atravessar a cidade e chegar à fazenda. Check up, tinha em mente quando organizou a bolsa de costas com os itens. Tudo pode acontecer, foi a que ganhou vantagem nos bolsos laterais e equipamentos específicos. O que, diga-se de passagem, não era nada surpreendente. Assim como os sonhos gostavam de lembrá-lo, da versatilidade em um mundo submerso, o rapaz não gostava de ser pego desprevenido. E que sorte chegar, fazer o trabalho e não poder ir embora. Não quando alguém tinha levado um do pacote previsto. Seus dentes apareciam a cada poucos segundos, rosnado disfarçado de insatisfação quando enfim chegou na quentura das águas termais. "Just don't." A voz saiu alta, rude, mesmo reconhecendo-a de costas à distância. Seus cabelos de uma cor impossível de ser copiada. A expressão suavizou, no entanto, assim como uma respiração profunda realizada para diminuir a irritação interna. "Além de ser funda demais para ele sair com facilidade, não está quente o suficiente para secá-lo. Cavalos secam com menos velocidade e-" Por que explicar a parte técnica da coisa? Titan piscou os olhos e desviou o olhar, os pés chutando uma pedrinha abaixo do solado. "Mas você pode entrar. Eu seguro." Adiantou-se, as mãos erguendo-se para pegar a guia do animal.
A voz alta e ríspida a assustou um pouco, e Nesrin ao mesmo tempo em que pisou para se afastar do cavalo, levantou a cabeça buscando pelo dono da voz - que tinha o pressentimento de saber muito bem quem era, se o frio em sua barriga era qualquer indicativo - e afastou as mãos da pelagem que estava acariciando, tudo de forma abrupta. É claro que seu susto foi o suficiente para assustar o cavalo também, que começou a relinchar e se mexer, inquieto, e de repente ela estava muito assustada com a real possibilidade dele começar a soltar coices pelo vento - ou pior, acertando ela. " Você enlouqueceu? "perguntou, a voz um tanto mais ríspida do que ela normalmente usava com qualquer pessoa " Está tentando me matar do coração? Ou fazer com que Tobias me mate sem querer? " perguntou, sua mão tendo ido diretamente para o coração sem que percebesse - um instinto humano interessante que tinha descoberto na ilha, e que aparentemente não lhe faltava com a facilidade com que se assustava. Nesrin o observou incrédula enquanto ele continuava a falar, explicando porquê ela não deveria deixar que Tobias entrasse na água, e estava tão chocada que demorou até que ele se aproximasse e tomasse as rédeas para que sua mente voltasse a funcionar " Just how stupid do you think I am? You know what, don't answer that " seu dedo estava levantado para que ele não falasse, arrependida de sequer ter perguntado - achava que ia doer demais saber caso ele pensasse o mesmo que alguns dos insulanos, que ela era apenas uma cabeça de vento, feliz, bonita e simpática, mas nada além disso. " É claro que eu não ia colocar o cavalo na água! Eu estava indo amarrar ele na árvore, então não precisa ficar aqui segurando ele "
Não era comum para Nesrin voltar àquela hora da madrugada para casa, mas também não era totalmente incomum; não porque ela estivesse festejando, essas noites estavam cada vez mais escassas ao longo dos anos desde que chegara. As vezes se sentia uma velha, mas costumava dormir cedo e acordar mais cedo ainda - pensando bem, talvez devesse sair mais para beber e dançar, talvez ajudasse o caos se formando dentro de si. Mas não, a razão de normalmente voltar tarde era por ficar presa ou perdida no trabalho, o que acontecia com muito mais frequência. Apesar da época de seu pico de trabalho ter passado junto com o festival, Nesrin acabou pegando no sono enquanto finalizava o estoque de sementes - sem dúvidas porque seu sono ultimamente estava sendo invadido por imagens estranhas e não sendo muito reparador. E tinha sido apenas a sua sorte ter encontrado Nantier bêbado e sangrando, caído pelo meio da estrada “ Bem, se eu precisava de um sinal para me desestimular a beber e festejar, aqui está você ” comentou, mais para ela do que para ele, mas se agachou para ficar mais perto do homem “ Eu vou ter que cuidar de você, não é? ” perguntou um tanto retoricamente, mas suas mãos já estavam buscando o braço alheio para ajudar ele a se levantar.
Mesmo caído, um sorriso distante habitava seu rosto, mas as palavras de Nesrin o alcançaram, — ainda que fossem muito lentamente decodificadas por sua mente alcoolizada, essa trabalhando à manivela. E nessa lentidão, a percepção alcançou a expressão, assumindo então uma indignação incrédula. “Ei! Como assim?” Ao passo que sua voz alcançou o exterior gelado (uma pequena nuvem de vapor se formava), Nantier já estava sendo erguido pela amiga. Erguido, talvez, fosse uma palavra forte demais para definir a ajuda que Nesrin o dava. Era necessário muito mais de si mesmo. Com o corpo maciço sendo puxado para o chão com a gravidade, ele pelo menos conseguiu apreciar sua ajuda como o equilíbrio que lhe faltava, e se levantou devagar. Os pés firmes no chão (firmes?), da mão pingou uma gota de sangue que manchou a terra batida da estrada. Agora, para falar com Nesrin precisava olhar para baixo, diferente de antes, mas sua mente não havia perdoado o que a ouvira dizer. “Você diz coisas sem sentido, Nesrin.” Acusou, sem querer admitir que de fato havia precisando de ajuda e, de fato, precisasse de algum cuidado.
Nesrin soltou o ar sofridamente quando começou a de fato tentar levantar Nantier - aquele homem parecia gigante e feito de pedra, ou ao menos era essa a sensação que passava agora. A mulher resmungou mais um pouco sobre machos bêbados e talvez um insulto tenha saído de seus lábios, mas duvidava de que ele fosse escutar qualquer coisa, considerando seu tom baixo e resmungado, além da situação em que ele se encontrava. Duvidava também de que fosse capaz de levanta-lo sozinha, mas felizmente ele pareceu perceber sua luta e começou a lhe ajudar, e finalmente Nesrin conseguiu tira-lo do chão e passar o braço dele sobre seus ombros, fazendo de apoio. " Só as vezes, mas garanto que não é o caso hoje " respondeu precisando levantar o olhar para ele, agradecendo por estar de coque por causa do trabalho ou tinha certeza que seu cabelo estaria sofrendo com o braço dele nos seus ombros. Sentiu algo escorrer da mão de Nantier para a sua, e arregalou os olhos ao perceber que era sangue " Nantier " começou, seu tom muito sério repentinamente " Se você tiver alguma DST com toda essa gente que você pega, eu juro que vou lhe matar " ameaçou com muita seriedade, pois seu trabalho envolvia facas, tesouras e espinhos - era comum que tivesse alguns cortes finos nas mãos - e tinham lhe ensinado sobre transmissão de fluidos em seu segundo ano na ilha. " Começa a andar antes que eu surte com esse sangue e te deixe aqui pra morrer " muito dramático de sua parte, mas Nesrin começou a puxa-lo na direção da casa dela, que felizmente não estava tão longe.
" Você é muito lindo, sabia? " questionou com uma voz doce para o cavalo. Não era incomum que os fazendeiros com quem trabalhava a deixassem passear um pouco com os animais - tinha sido difícil resistir a Nesrin uma vez que ela demonstrava tanto interesse e carinho por eles desde que chegara na ilha. Em seu primeiro ano já estava montando bem, e depois disso era impossível negar quando ela tinha os olhos mais pidões - e não prejudicava saber que ela cuidava deles muito bem, os mimando com frutas sempre que passeavam " Você quer entrar comigo nas águas termais? " perguntou, e apesar de dar um espaço de pergunta - como se o animal fosse lhe responder - ela prosseguiu, um pouco mais sussurrado e aproximando o rosto da cabeça alheia " Eu acho que você é grande demais "
“ Só essa mesmo… Eu até pensei em trocar de casa algumas vezes ao longo dos anos quando fui ganhando dinheiro, talvez ficar mais perto da cidade, quem sabe? Mas eu não consigo sair daqui. Aqui eu tenho a sensação de estar cercada de terra e plantas e flores, muita natureza, muito perto dos campos, e meu quintal é tão grande e lindo ” comentou sem nem precisar olhar para trás onde ele estava, seu tom deixando claro que ela tinha um grande apego pelo lugar que transformara em seu. Como qualquer tarka, não tinha qualquer recordação da sua vida anterior, mas Nesrin tinha uma sensação de que talvez não tivesse tido um lar para chamar de seu, considerando a facilidade com o que fazia agora, e pelo o que conversara com outros. Finalmente achando as taças - e os marcadores acessórios! - que queria, ela se virou para Nantier e tirou a garrafa da mão dele para que pudesse abrir “ Por que? Pensando em se mudar? Minha casa não ta à venda ”
As palavras de Nesrin iam sendo adicionadas à cena, e ele ia olhando ao redor, em especial pelas janelas, enquanto a escutava. Entendia o apelo do campo, muito mais do que o apelo de áreas como Magdalene, em especial quando ela vivia mais cercada de flores do que ele. Concordou com a cabeça num gesto distraído, mesmo que ela não o visse, e ousou despertar da espécie de transe quando a amiga retirou a garrafa de si de súbito. Nantier piscou algumas vezes, quase ofendido, mas a careta que tomou sua face em seguida fez o trabalho inteiro. “Que se mudar, o que.” Rolou os olhos, falsamente impaciente, e a voz saindo áspera no início como se realmente tivesse acabado de acordar. “Não saio da minha casa por nada, nem que você me implorasse pra trocar comigo. Quer dizer, talvez eu saia quando voltar ao mar, mas ainda não me senti especialmente tentado a isso.” Esticou o corpo, os braços acima da cabeça num espreguiçar, vinha dormindo mal, essa era a verdade. “Me pergunto se os outros gostam de onde moram, ou se voltam justamente por não gostarem. Será que lá todo mundo dorme em cama também? Senta na sala? Fuma um cigarro na varanda?”
A reação lhe pareceu um pouco exagerada, mas Nesrin se poupou de comentar sobre o assunto, apenas se ocupando de pegar seu abridor de garrafas e começar o processo familiar e calmante de cortar o lacre e retirar com calma a rolha. " Você sente vontade de voltar? " perguntou, mesmo que ele tivesse dado a entender que não - não era exatamente a mesma coisa. Seus pensamentos vagaram para os questionamentos que ele fazia, e era de se entender, porque ela os fazia quando chegara também, por um tempo " Eu parei de me perguntar isso há muito tempo... " começou, finalmente abrindo a garrafa e servindo as duas taças, entregando uma com marcador de gérbera laranja para ele e ficando com uma de marcador de rosa colombiana " Eu acredito que todos nós saímos de lá por uma razão, quer dizer, quem sairia tendo uma vida boa? " questionou, usando a argumentação que usava para si mesma sempre que sentia o puxão do oceano em todos aqueles anos " Eu tenho essa... sensação, de que eu não tinha um lar lá, seja lá onde tenha sido, sabe? Eu nunca questionei a minha vida aqui desde que encontrei um propósito e fiquei satisfeita comigo mesma, feliz. Há alguns meses eu mal sinto o chamado do mar. Se não fossem esses sonhos estranhos com a sensação parecida de quando cheguei, acho que seria quase como esquecer que sou tarka "
Na maior parte do tempo a estratégia de se manter ocupado pra não pensar era bastante eficiente, mas aquela não era uma daquelas noites e o álcool com certeza não estava ajudando em muita coisa. Qualquer um que olhasse em seu rosto conseguiria ver com clareza a dor estampada no olhar do rapaz. Tinha a impressão de que quem conhecia sua história o achava um grande babaca sem coração, e ele realmente foi, mas era algo que não conseguiu evitar. O que restava agora era a confusão e os questionamentos sobre um futuro que não o pertence mais.
Arthien queria esquecer, daria tudo para esquecer os anos que viveu naquela ilha. Queria recomeçar do zero como se aquele fosse seu primeiro ano, mas a vida foi cruel o bastante para manter as memórias vividas na terra em sua mente. Quando o líquido ardente desceu pela garganta mais uma vez, o alívio aos poucos tomava conta do rapaz. Já havia bebido tanto que quase não escutava a voz conhecida de @apusros soar no bar que já se encontrava extremamente vazio. - desculpe, poderia repetir ? eu estava distraído. - comentou com a voz embargada, levando o olhar até Nesrin
Seu suspiro saiu audível e com um pouco de pena; não era de se surpreender que ele não tivesse lhe escutado, levando em consideração o estado em que o encontrava. Apesar de tudo, ela se sentou à mesa com ele e repetiu " Eu só perguntei se eu podia me sentar com você " ela sabia que ele não estaria esperando outra pessoa. Ninguém bebendo daquela forma estava esperando companhia - era visível que era muito mais a respeito de ficar sozinho e afogar as mágoas, mas Nesrin não conseguiu sair dele e deixar que ele continuasse com o propósito. " Ultimamente eu não tenho dormido muito bem, minha cabeça não consegue descansar com tantos sonhos estranhos... Achei que talvez aproveitar um bar fosse uma boa ideia " começou sendo honesta, mas não contando toda a verdade - ele não precisava saber que Titan finalmente a tinha encontrado, e nem o turbilhão de sentimentos que isso desencadeou. " Mas eu acho que desacostumei a beber sozinha... Se importa de me fazer companhia? " não era de toda mentira, afinal, Nesrin realmente era uma pessoa que não costumava sair para beber só, normalmente aproveitando sua solidão com as plantas em meio ao sol. Mas era impossível não perceber que ela também fazia um esforço maior por causa dele; ela era a simpatia em pessoa, e conhecia várias outras pessoas no bar de quem poderia ter se aproximado. " Noite difícil? "
(6) para um starter de Nantier bêbado precisando de ajuda na estrada de Vesper
onde: Vesper
com quem: @apusros
Talvez — e é apenas um talvez —, Nantier tenha passado a ter dificuldades de controle. Escapismo ou o que, os últimos dias estavam mais difíceis do que os anteriores, e percebe-se uma tendência de piora. Com o sono reparador sendo invadido por imagens confusas, acordava com a mente cansada. A tentativa de não se deixar mergulhar nelas ao longo do dia, buscando compreender o que sempre escapava das garras da sua consciência, certamente possuía influência em seu estado atual: com álcool demais no sangue. Tropeçava, algo definitivamente fora de seu padrão. Então, tropeçava mais, e de novo, caindo numa pedra que antes não estava ali, ele tinha certeza. O joelho ralado embaixo do tecido da calça não chamou sua atenção, nem sequer podia senti-lo, mas a cor do sangue brotando na palma da mão o hipnotizou, e Nantier o olhava como se buscasse entender o que fazia ali. Tudo banhado de laranja vivo pelo anoitecer, sua atenção frágil e lenta se moveu para pés que surgiram próximo a ele, e então subiram pelos calcanhares e pernas até o rosto do visitante. Piscou. “Ah, oi Nes.”
Não era comum para Nesrin voltar àquela hora da madrugada para casa, mas também não era totalmente incomum; não porque ela estivesse festejando, essas noites estavam cada vez mais escassas ao longo dos anos desde que chegara. As vezes se sentia uma velha, mas costumava dormir cedo e acordar mais cedo ainda - pensando bem, talvez devesse sair mais para beber e dançar, talvez ajudasse o caos se formando dentro de si. Mas não, a razão de normalmente voltar tarde era por ficar presa ou perdida no trabalho, o que acontecia com muito mais frequência. Apesar da época de seu pico de trabalho ter passado junto com o festival, Nesrin acabou pegando no sono enquanto finalizava o estoque de sementes - sem dúvidas porque seu sono ultimamente estava sendo invadido por imagens estranhas e não sendo muito reparador. E tinha sido apenas a sua sorte ter encontrado Nantier bêbado e sangrando, caído pelo meio da estrada " Bem, se eu precisava de um sinal para me desestimular a beber e festejar, aqui está você " comentou, mais para ela do que para ele, mas se agachou para ficar mais perto do homem " Eu vou ter que cuidar de você, não é? " perguntou um tanto retoricamente, mas suas mãos já estavam buscando o braço alheio para ajudar ele a se levantar.
O estremecer dos sacos caindo no chão deveria ter sido o suficiente para arrancar uma reação dela e, se não isso, a visão dele, gigante, se abaixando até ela, ficando de joelhos - lhe parecia uma visão tão impossível, mas tão... natural, vê-lo ali, de perto. Mas nada daquilo a arrancou do estupor de encará-lo, de reconhecer ele, da mente buscar em cada entranha e não conseguir achar detalhes ou lembranças. Seu coração doeu em um aperto estranho pela primeira vez desde que atravessara o caminho entre o oceano e a costa - o que antes era um chamado distante, uma tentação fraca, agora tinha um rosto, tinha um toque, mesmo que tão delicado que ponderou se não estava imaginando a mão dele inclinando seu queixo para cima. Doía entender o reconhecimento dele de sua vida passada e compreender que nunca mais saberia o que ela deixou para trás, ou o porquê de ter feito isso, mas quando ele abriu um sorriso, pequeno, mas ela enxergava que era sincero, não conseguia pensar em mais nada, nada além de retribuir com o coração agitado e uma expressão de saudade. " Você " começou, engolindo em seco e não resistindo à vontade de tocar nele também, provar que aquele momento era real; parecia algo como um sonho ou uma miragem, e seus dedos encontraram a lateral do queixo alheio " parece tão familiar " soltou em um sussurro hipnotizado, a mente lutando para encontrar qualquer evidência enquanto seu coração mole dizia que simplesmente não precisava, o reconhecimento era prova o suficiente de que ele era importante para ela.
O toque queimou o rosto, porém, nada aparecia à superfície. Logo abaixo, queimando no rastro daqueles dedos, a certeza de que estava no lugar certo parecia ainda mais opressora. Urgência crescendo no peito conforme ela não correspondia do jeito certo, não parecia entender que aquele sorriso significava uma coisa diferente - e que ele nem tinha certeza do que era ao certo. Suas mãos caíram e seguraram aquela que não estava em si, cobrindo-a com duas ainda maiores enquanto as costas reclamavam da curvatura. Não pelo ângulo, mas pela exposição dos ossos e da área vulnerável para o desconhecido. Isso! Proteção. Fuga. Missão. Os filmes assistidos com a amiga correspondendo ao sentimento que crescia e o incitava para a fuga - nunca à luta - até ter certeza de que ela estava segura. Lupus sentiu os lábios numa fina linha, apertada de preocupação, e cobertas pelo vapor da própria respiração mais quente (efeito da adrenalina despejada na corrente sanguínea. "Precisamos ir." Para onde? Como? Por quê? As perguntas girando e exigindo resposta, e ele só querendo puxá-la para fora e correr em direção à água. Com que plano? Com que propósito? As pernas esticaram, trazendo-a consigo. "Agora. Agora-." O nome dela não veio. Por que não veio? Ela que tinha tudo de si e mais um pouco, aquela que nunca esqueceria no mundo inteiro. E... O básico. O nome não veio. A boca abriu numa nova tentativa e quando ia sair, o nome, a porta abriu num solavanco. Titan, temos outras entregas! Titan era errado, mas foi o suficiente para estourar a bolha que envolvia os dois. Lupus viu a mão ao redor do punho e... O que estava fazendo? Seus olhos indo do rosto dela para a mão que soltava, subindo e descendo, repetindo o percurso, e... Não esqueça o pagamento, Nesrin! A mão virou com a palma para cima, esperando o pagamento. O assombro das ações aumentando o aperto no peito que o sufocava.
Ainda estava perdida em algum lugar entre os olhos dele e sua mente, vasculhando por lembranças que não vinham, não importasse o quanto quisesse se lembrar, quando percebeu a mudança dele. Como um passe de mágica, ele a puxava, diziam que precisavam ir, o comportamento mudado por inteiro, o transe do momento quebrado. O cenho de Nesrin franziu em confusão, e soltou as perguntas mais urgentes em sua mente, mesmo que os pés já estivessem se recusando a andar, mesmo que o atrito entre os dois aumentava a medida em que ela ficava parada. Ir embora? Ela não iria embora. Ela não tinha nada além daquela ilha, tinha se convencido disso. E mesmo que essa convicção tivesse lhe provocado ao longo dos anos, mesmo que ela sentisse o chamado do mar, mesmo que ele ali fizesse seu coração bater descompassado - não mudava nada, dizia a si mesma. Estar ali tinha sido escolha dela, e ela nunca se arrependera. Ali ela construíra algo, ali ela dava vida à ilha, ali ela semeava e colhia, e não apenas as suas amadas plantas. Ali era seu lugar. Talvez ele visse a mudança nela também, além de suas palavras questionadoras, algo em sua postura. Ou talvez ela estivesse esperando demais, que ele estivesse prestando tanta atenção quanto ela estava nele. Mas ela se decidiu mesmo assim, e quando o momento foi novamente quebrado pelos gritos externos, ela puxou o ar, se preparando para uma batalha própria, olhando a para a mão dele estendida, esperando pelo pagamento, como se fosse uma traição. Se afastou para pegar o dinheiro e se surpreendeu de já se sentir triste com a falta dele, mas se repreendeu mentalmente e arrumou coragem para encará-lo de novo, depois de tanto tempo fugindo de encontrá-lo desde que tivera a primeira visão dele saindo do mar. Era covarde, covarde. Mas agora não podia mais negar que se conheciam, e tinha a impressão que ele não a deixaria fugir muito mais, então devia simplesmente criar colhões imaginários e fingir que não estava tão afetada quanto estava. Dinheiro na mão, passou para ele, se preparou um segundo antes de olha-lo novamente e, por todas as florzinhas de seu quintal, talvez continuar fugindo não fosse uma má ideia, porque não importava o quanto ela era teimosa, não tinha certeza se conseguiria ganhar uma batalha de vontade contra ele. " There you go " falou alto o suficiente para fingir que sua voz quase não tinha falhado " Tenha uma boa noite, Titan " o nome era... adequado para ele, e certamente tinha saído com facilidade de seus lábios, mas não parecia exatamente certo. A única coisa que sabia é que ela com certeza não teria uma boa noite, sua mente ainda girando e o coração ainda disparado.
Assentiu em concordância com a lembrança, e nem podia culpa-la já que ela costumava demorar bastante para escolher qualquer coisa do cardápio também; infelizmente para ela, já tinha chegado atrasada e tinha horário limitado de almoço. Por causa disso, ao pegar o cardápio se obrigou a olhar e focar nele, dando 100% de sua atenção àquilo para que pudesse escolher logo - será que estava afim de carne de porco ou boi? Talvez peixe… “ Você o que?! ” perguntou um pouco estridente, mas o barulho da barriga roncando fez com que pausasse o questionamento e virasse para a garçonete “ Eu vou querer o peixe ao molho de limão siciliano ” pediu com um sorriso, que logo se desfez em uma expressão fechada, o cenho franzido e o olhar repressivo - ao menos o melhor que conseguira “ Como assim você está sem comer, Shin?? Achei que já tínhamos conversado sobre isso ” seu tom denunciava que estava mais preocupada do que com raiva, realmente “ E você não tem nem desculpa, trabalha em um café, pode simplesmente pegar alguma coisa e descontar depois ” ela certamente engordaria bastante trabalhando em um lugar assim.
Os olhos da garota se arregalaram com a reação da amiga, tendo que segurar fortemente a risada que acompanhava a expressão, porque sabia que sua vida estaria em risco caso escapasse. Era sempre fofo a forma como Nesrin cuidava de Shin, ela sentias quase como se tivesse uma irmã mais velha. Aproveitou a deixa para se virar para a garçonete - Eu vou querer um Peixe à belle meunière e uma limonada pra acompanhar. - agradeceu a moça, se virando para a amiga que ainda reclamava sobre a sua falta de alimentação.
Concordou com a cabeça porque sabia que ela estava certa, o problema é que Seori tinha a mania de se concentrar demais no trabalho e esquecer do resto do mundo. - Eu sei que poderia - afirmou - Problema foi que hoje a movimentação estava fora do comum! - resmungou - Nunca vi tanta gente querendo café ao mesmo tempo. - continuou a reclamar enquanto o bico de indignação nascia em seus lábios. - Prometo que vou me alimentar melhor nos próximos dias. - sorrio para a garota a sua frente. Apoiou os cotovelos sobre a mesa, jogando o peso do corpo pra frente como quem procurava sussurrar um segredo. - agora para de me enrolar e me conta o que rolou de tão serio que você se atrasou.
Esperou que a amiga pedisse e a garçonete anotasse e saísse, sua mente se questionando se deveria ter pedido algum líquido para acompanhar a refeição, mas decidindo por deixar para lá quando lembrou o que lhe disseram sobre a sensação de deixar a pessoa inchada. Sabia que ela tinha um ponto válido, até porque ela mesma tinha sido presa no trabalho a manhã inteira, e também sabia que tinha um aumento de pessoas pelos estabelecimentos depois do festival. Eram os que queriam se encontrar porque se conheceram melhor durante as festividades, eram os que conheceram os estabelecimentos por causa da feira, eram os que se arrependeram de não comprar ou experimentar alguma coisa na feira... Muitas opções. " Você sabe como fica tudo nos dias depois do festival " relembrou " Dá alguns dias, a próxima semana deve estar normal de novo, apesar de que com o inverno chegando o movimento deve aumentar um pouco, né? Eu com certeza iria querer coisas quentinhas pra me esquentar. Mas também não iria querer sair de casa, então acho que fica empatado " ponderou em voz alta. A garantia e o sorriso de Shin lhe fizeram ficar mais tranquila quanto ao assunto, o deixando morrer para focar no que ela perguntara, soltando um riso curto " Vai se decepcionar, porque não é nada demais " avisou com antecedência - se ela esperava por uma fofoca, ficaria bem desapontada. " Foi só um problema no trabalho. Acabamos de replantar os campos de lavanda, usamos a maioria como decoração do festival, e apareceu uma praga em algumas partes. Precisei dar atenção logo para cuidar a tempo de salvar tudo e checar se os outros tiveram algo parecido. Aliás, você nem me falou nada sobre minhas flores ou minha barraca de venda! "
E com o lembrete do fatídico dia em que ele quase morrera afogado e ela o salvara, mesmo que não tivesse qualquer recordação do feito, a sua raiva evaporou - quase - por completo. Não duvidara quando ele lhe contara no dia em que saiu do mar, e não duvidava agora, sabendo que tinha reconhecido ele, mas sem saber que seu salvamento era algo sem precedentes por ali. Com uma careta diante da fala para apressa-la, Nesrin lhe estirou a língua divertidamente, mas logo assumiu o sorriso e virou de costas, puxando a massa de cabelos soltos para deixar a nuca exposta “ Você é charmoso demais para o próprio bem e é uma covardia falar assim quando eu estou tentando ter raiva de você. Merecidamente ”
Ameaçou pegar a língua dela antes que se virasse, em seguida amarrou o colar no pescoço feminino e deu um rápido beijo pra selar o nó. _ Se o meu charme é um problema, eu fico de costas pra você sem hesitar. _ Posicionou-se ao lado da morena, virado de forma que ela não conseguisse ver além do sorriso orgulhoso. _ Olha lá, parece que a Kaya venceu.
Nesrin não conseguiu manter a pose de durona com o beijinho e com o colar na mão, analisando-o pela primeira vez; ela tinha uma coleção de conchas em casa, mas Marco sempre acrescentava outras coisas da praia ao presente, o que a deixava feliz - ela era uma fã de reutilização e toda a campanha verde. O comentário a fez revirar os olhos dramaticamente, e quando viu que Kaya realmente ganhara, seu coração ficou alegre por ela, mesmo que um pouco triste por Caleb " E eu perdi a manobra vencedora " reclamou, dando um tapa que era mais encenação do que qualquer coisa no braço dele " É bom que me compense " alertou
Retirava o casaco que o protegia do frio do lado de fora, cada vez mais forte, e já estava vestindo somente meias nos pés, o sapato molhado de lama apoiado num canto à porta, enquanto Nesrin buscava copos para o vinho que ele trouxera. Ultimamente, diria tranquilo que beber sempre soava como uma ótima opção, isso sendo dentro de casa ou no bar, em Magdalene, Vesper ou Au Tabor. Tanto pela quentura quase carinhosa que o álcool oferecia garganta abaixo, quanto pelo conforto mental e emocional que oferecia, esse último algo estranhamente bem-vindo enquanto ele estranhava os últimos meses em particular. Um tarka fora d’água como era, mas incomodado com nada, sentindo uma pontada de desconforto em viver na própria pele. Preferia botar aquele tipo de sensação para correr. “Você sempre morou nessa casa, Nesrin? Ou esteve em outra quando chegou?” Questionou, a seguindo.
" Só essa mesmo... Eu até pensei em trocar de casa algumas vezes ao longo dos anos quando fui ganhando dinheiro, talvez ficar mais perto da cidade, quem sabe? Mas eu não consigo sair daqui. Aqui eu tenho a sensação de estar cercada de terra e plantas e flores, muita natureza, muito perto dos campos, e meu quintal é tão grande e lindo " comentou sem nem precisar olhar para trás onde ele estava, seu tom deixando claro que ela tinha um grande apego pelo lugar que transformara em seu. Como qualquer tarka, não tinha qualquer recordação da sua vida anterior, mas Nesrin tinha uma sensação de que talvez não tivesse tido um lar para chamar de seu, considerando a facilidade com o que fazia agora, e pelo o que conversara com outros. Finalmente achando as taças - e os marcadores acessórios! - que queria, ela se virou para Nantier e tirou a garrafa da mão dele para que pudesse abrir " Por que? Pensando em se mudar? Minha casa não ta à venda "
Merda, ia se atrasar! O pensamento apareceu de repente em sua mente, quase esquecendo do almoço que tinha marcado com a miga. É claro que, quando tinha marcado o almoço, tinha pensado em estar na cidade, em sua floricultura, de modo que seria muito mais fácil chegar até o restaurante marcado. Desnecessário dizer que não foi o que aconteceu - além de precisar faltar sua aula de dança logo cedo, tinha ficado presa a manhã inteira nos campos de lavanda em Vesper, resolvendo um problema que agora era pequeno, mas lhe daria muita dor de cabeça caso não tivesse priorizado isso logo. Ainda assim, não mudava o fato de que agora estava correndo feito louca pelos campos, os trabalhadores braçais a acompanhando com o olhar e, infelizmente, nem ao menos estavam surpresos àquela altura - até que conseguira uma carona em uma das carroças de plantas para uma região mais próxima da cidade, lhe poupando bastante tempo andando. Aliás, correndo. Quando chegou ao restaurante, estava levemente esbaforida, mas felizmente o tempo esfriando significava que não tinha suado e nem estava totalmente horrível " EI! Eu atrasei menos de dez minutos! " reclamou, se sentando na mesa pesadamente " Você já pediu? " perguntou, chamando a garçonete com o braço enquanto olhava para Seori " Você nem teve tempo de morrer de fome, se eu te contasse porque me atrasei ia ficar se sentindo mal de me fazer sentir mal " comentou dramaticamente.
Pela cara da amiga era possível saber que o dia estava sendo muito mais movimentado do que ela gostaria. Seori apreciava o carinho de Nesrin em não cancelar o almoço e dar um jeito de aparecer, mesmo que atrasada. Não era sempre que se sentia amada por alguém, mas os pequenos gestos da amiga sempre eram o suficiente para lembrar que alguém naquela ilha gostava da bagunça que era Shin - Eu ainda não pedi, sabe como eu sou indecisa e sempre perco vinte minutos escolhendo. - relembrou a mesma. Abriu um sorriso na direção da amiga, fechando o cardápio que segurava e colocando sobre a mesa. - Pois não se contenha, eu adoro fofoca - brincou, querendo saber o que estava deixando os cabelos da amiga virados pro ar. - mas se pudermos pedir antes da fofoca, eu agradeceria muito. - complementou rindo pequeno. - Eu não como nada desde as 7 da manhã quando abri a cafeteria. - contou para ela, mesmo sabendo que era provável que levasse uma bronca por não estar se alimentando da forma correta.
Assentiu em concordância com a lembrança, e nem podia culpa-la já que ela costumava demorar bastante para escolher qualquer coisa do cardápio também; infelizmente para ela, já tinha chegado atrasada e tinha horário limitado de almoço. Por causa disso, ao pegar o cardápio se obrigou a olhar e focar nele, dando 100% de sua atenção àquilo para que pudesse escolher logo - será que estava afim de carne de porco ou boi? Talvez peixe… “ Você o que?! ” perguntou um pouco estridente, mas o barulho da barriga roncando fez com que pausasse o questionamento e virasse para a garçonete “ Eu vou querer o peixe ao molho de limão siciliano ” pediu com um sorriso, que logo se desfez em uma expressão fechada, o cenho franzido e o olhar repressivo - ao menos o melhor que conseguira “ Como assim você está sem comer, Shin?? Achei que já tínhamos conversado sobre isso ” seu tom denunciava que estava mais preocupada do que com raiva, realmente “ E você não tem nem desculpa, trabalha em um café, pode simplesmente pegar alguma coisa e descontar depois ” ela certamente engordaria bastante trabalhando em um lugar assim.
" MARCO EU VOU TE MATAR! " exclamou sem nem se importar em fazer um escândalo, já que a maioria das pessoas estava completamente focada nas ondas do mar, onde Kaya decidiria o campeonato ao ultrapassar Caleb ou não. E esse era justamente o motivo de ter esbravejado com Marco, se debatendo que nem um peixe fisgado para sair dos braços alheios e conseguir ver alguma coisinha que fosse. Seu coração estava quase na boca acompanhando as manobras, rezando para que ninguém se machucasse, torcendo para os dois, sem saber o que fazer. Quando viu que Kaya comemorava em cima da prancha uma manobra bem feita, sabia que precisava esperar pela contagem, já que a pontuação seria acirrada, e se virou furiosa para Marco - como ele se atrevia a lhe privar do possível momento vencedor? Não era como se ele não costumasse lhe tapar os olhos, e ele nem precisava falar para que ela reconhecesse o toque, mas seu olhar só demonstrava fúria no momento. Isso é, até ver o que ele tinha na mão. Como se fosse mágica, a visão do colar feito pessoalmente para ela, que costumava ganhar todos os anos desde que chegara fez seu coração amolecer " Isso é..? " perguntou meio sem jeito, sem chegar a finalizar a pergunta, apesar de que tinha bastante certeza.
Mantinha o sorriso travesso e era notável que ria com sua irritação. _ Bem, considerando que minha vida esteve em suas mãos uma vez, não vejo motivos para não estar outras. A senhorita vai virar ou terei eu mesmo que fazer isso?
E com o lembrete do fatídico dia em que ele quase morrera afogado e ela o salvara, mesmo que não tivesse qualquer recordação do feito, a sua raiva evaporou - quase - por completo. Não duvidara quando ele lhe contara no dia em que saiu do mar, e não duvidava agora, sabendo que tinha reconhecido ele, mas sem saber que seu salvamento era algo sem precedentes por ali. Com uma careta diante da fala para apressa-la, Nesrin lhe estirou a língua divertidamente, mas logo assumiu o sorriso e virou de costas, puxando a massa de cabelos soltos para deixar a nuca exposta “ Você é charmoso demais para o próprio bem e é uma covardia falar assim quando eu estou tentando ter raiva de você. Merecidamente ”
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Ao ouvir a fala alheia, Nesrin abriu um sorriso divertido " Is that so..? " perguntou com um tom um tanto provocador, buscando por confirmação, mas não esperou que ela viesse antes que ela continuasse falando. Sabia que a permanência dele e dos colegas tinha sido um assunto sensível para a maior parte da ilha, que os via como forasteiros intrometidos; no entanto, sendo ela uma tarka, não gostava da ideia de deixar as pessoas se sentindo mal como ela ficara no começo - um peixe fora d'água. Sendo assim, ela tentava ser simpática com os três, e não se incomodava em responder as perguntas do antropólogo enquanto elas não envolvessem o segredo " Então, nesse festival a ilha monta várias barracas com tudo o que possa imaginar! Tudo o que podemos oferecer, tudo o que produzimos. Temos música, teatro, dança, muita comida e bebida, várias coisas tradicionais para comprar, é incrível! "
“ Não existe essa de ansioso demais, vai ser incrível, você vai ver! ” garantiu, animada, lembrando-se do seu festival de chegada e, principalmente, do festival do ano seguinte, em que começara a participar ativamente e entender melhor o que acontecia. Já tinha sido emocionante a festa para lhe recepcionar, mas algo a respeito de fazer parte depois de entender tudo a deixava com o coração ainda mais quentinho. Depois de quatro anos na ilha, recebendo turistas que vêm e vão, Nesrin nem piscou diante da pergunta, mas aproveitou que ele chamara o garçom para que organizasse seus pensamentos antes de falar - ela tendia a ser muito aberta as vezes, e nesse assunto era perigoso. “ Ah, oi, Paul! Eu vou querer o de sempre, por favor ” se dirigiu ao atendente antes de voltar sua atenção para o forasteiro “ O festival em si é uma celebração de paz entre a ilha e a natureza, nossa relação com tudo o que os deuses naturais nos provém desde antigamente, sabe? É um costume que ajuda a todos a lembrar de respeitarmos a natureza… Mas também sobre festejar as maravilhas que fazemos com o que é provido ”
FLASHBACK
Émile observou o garçom partir, e então se ajeitou na cadeira. Máxima atenção, ele mal piscava, absorvendo tudo que ela dizia e cada pequeno gesto que ela fazia. Seu sotaque, até. A assistia como um crítico de cinema vendo um filme, ou como ele imaginava ser isso, porém sempre com um leve sorriso no rosto, dessa vez esse tão leve que mal tocava a superfície. “Acho que entendi o pensamento-base.” Concordou com um mover breve da cabeça, os cabelos sacudindo suavemente, e sua voz era doce, como se cantasse na mesma vibração da dela. “O que eu ainda não entendi é porque, então, tanto mistério. É muito gentil da sua parte de me explicar, mas num geral fica bem óbvio que não sou bem vindo. O que é engraçado, porque você também não nasceu na ilha, não é? E aí está você, integrada, amada, essas coisas todas.” O francês ousou um dar de ombros curto, a expressão de quem não desejava dar tanta importância assim para o assunto mas sentia-se um tanto ofendido, até mesmo magoado. Pobre Émile. “Não sei se permitirão que eu circule. Mas, também não sei como me impediriam. Me trancariam? Seja sincera.” Apesar da obviedade da brincadeira em seu tom, ele manteve o teatro de que falava sim, muito sério, e precisava saber a resposta.
Era meio enervante ser observada da forma que ele fazia, como se a estudasse; era algo que Nesrin não estava exatamente acostumada. Normalmente os olhares vinham de um lugar de preconceito, de luxúria ou de amizade - o primeiro, felizmente, diminuindo conforme sua estadia na ilha aumentava, e seu papel dentro dela. A fala alheia lhe deu um aperto no coração, proveniente tanto de não poder realmente ser sincera como costumava - e gostava - de ser, quanto porque sabia o que era não ser parte e não ser querida ali, e não gostava de ver aquilo com outras pessoas. Exatamente por isso estava ali com ele, apesar dos avisos dos insulanos - e tarkas - de deixar os forasteiros em paz. Mas ela sabia que não se tratava de paz, e sim isolamento. " Eu sinto muito que se sinta assim " comentou genuinamente " Se vale de alguma coisa, eu também não fui aceita logo quando cheguei. Na verdade, nem sei dizer se sou realmente aceita e querida como diz agora. As vezes parece que nunca é real... Alguns momentos são mais difíceis que outros, e alguns moradores são mais difíceis que outros " confessou com um suspiro " Mas o tempo ajuda, e as pessoas são naturalmente boas, então com um certo esforço e disponibilidade, a relação se constrói " completou. O questionamento seguinte, no entanto, lhe arrancou uma risada espontânea " Mas é claro que não vão te trancar! Lógico que você vai participar! Tem que ver as minhas flores e as coroas que fiz, elas estão lindas. Além do mais, o festival é para todos, mobiliza a ilha inteira. Nem sei se alguém não participa "