Ainda sonolento, o homem levantou meio cambaleante ao ouvir três batidas na porta do quarto. Que horas seriam para ter alguém ali? Sabia que devia ser cedo, visto que ainda dormia. Resmungou qualquer coisa incoerente enquanto se arrastava e fez uma expressão confusa ao ver a prima ali, de pé, e falando o nome completo. Até reviraria os olhos se tivesse forças para fazer isso. Que maluquice era essa? É claro que sabia o nome completo da mulher, não apenas por ela ser da família; mas por ser uma Princesa e estar na Seleção. Por ele. Por mais louco que isso fosse.
Começou a abrir a boca para perguntar se aquilo ali era algum tipo de pegadinha que ainda não havia sido capaz de compreender, mas antes mesmo que pudesse proferir qualquer palavra, a boca de sua prima voltou a se mover e Roan manteve-se calado. - Ah, cara. Calma aí! Meu cérebro ainda não começou a funcionar. - Esfregou os olhos, a sonolência não lhe permitia raciocinar devidamente. Escutou todas as palavras de Lilith, mas era como se elas não tivessem penetrado na mente do Príncipe.
- Venha para dentro, por favor. - Deu um passo para o lado e fechou a pora assim que a prima entrou. Coçou a barriga e notou que usava apenas a calça do moletom e suspirou. - Se você não se importa, eu vou permanecer assim e voltar para a cama. - Jogou-se na cama, mas deixou um espaço para Lily caso ela desejasse. Claro que ela poderia escolher a poltrona, o chão ou permanecer em pé. - Recapitulando… Você bateu na minha porta às…. - Virou um pouco o corpo a fim de ver o relógio e bufou um pouco. - Sete e pouco da manhã para se apresentar?
Muito provavelmente seus irmãos já estariam acordados e fazendo alguma coisa de útil com a vida, mas Roan gostava de dormir bem. Que culpa tinha? Preferia as noites do que as manhãs. - Primeiro precisamos esclarecer alguns pontos, certo? Primeiro: eu não detesto você, Lilith. - Suspirou baixinho e sentiu os ombros baixarem. - Eu nunca tive a chance de te conhecer para realmente ter algum sentimento sobre você. Agora sobre o medo… - Coçou o queixo e riu um pouco, sabendo que estava com a cara inchada e que deveria estar ridículo. - Eu não tenho. Eu tinha. Quando criança. Mas isso já faz anos. Eu era completamente estúpido; ainda sou, para ser sincero. Apenas finjo ser decente. - Não que conseguisse fingir direito, já que Lilith mal chegara e Roan já havia sido rude com a jovem.
- Eu também quero te conhecer. Não apenas pela Seleção que, sinceramente, eu ainda não entendi o que a levou a estar aqui competindo por mim. - Se Lily estivesse competindo por Ryan seria muito mais fácil de digerir. Mas talvez ela tenha escolhido Roan porque a irmã lutaria por Ryan? O que, mais uma vez, era estranho e o Príncipe não entendia. Por que Kat estava na Seleção de Ryan? - Mas porque você é da família. Agora… Se você for pega de amasso com alguém… Eu juro, Lilith! Eu vou julgar você como se estivéssemos na Rússia, estamos entendidos? Fora isso, venha dar um abraço nesse primo!
—–—–—– A convivência com Roan estava se mostrando algo engraçado. Eles tinham a mesma e idade e personalidades completamente diferentes. O primo agia como um adolescente rebelde enquanto ela agia como uma idosa travada. Aquilo era ela e aquilo era ele. Não sabia por quanto tempo ele a aturaria, sinceramente. Já convivera com pessoas extrovertidas como Roan e tendiam a acha-la sem graça ou séria demais. Seu primeiro instinto foi recusar imediatamente adentrar o quarto de Roan. Nem ligava se os dois ficassem apenas conversando, soaria absurdo de qualquer maneira. Ainda assim, a morena apenas hesitou, mas logo os passos adentraram o local indicado pelo príncipe. —Me disseram que você estaria desperto. A pessoa não deve gostar muito de você se soubesse que gosta de dormir até tarde. De qualquer maneira, desculpe. Não ligo de voltar em outro momento, se preferir. — Na verdade ela se importava sim, mas apenas porque a cultura norte-americana era absurdamente diferente da sua. Jamais poderia agir daquela forma em casa e parte de si invejava Roan por sentir-se tão à vontade em qualquer situação. — Sim. Porque você claramente não me conhece. E eu a você então a decisão mais sensata foi vir me apresentar. — Os ombros da russa se remexeram, titubeando sobre a frase que ouvira de Roan. Não deitou-se ao lado dele, apenas se sentou ao lado do primo, ainda que seu corpo estivesse mais para fora da cama que para dentro. Julgou que seria indelicado permanecer de pé, mas desleixado demais deitar-se ali. Assentiu para o comentário alheio. — Certo. —Ouviu pacientemente o que ele tinha para dizer, ainda que grande parte de si não concordasse com nenhuma palavra sequer.
— Perdoe-me, mas você é um péssimo ator. — Retrucou, mas não na intenção de ofender, apenas de cutucar, soltando um riso anasalado com os dizeres. Engoliu em seco, não sabendo bem se deveria ou não dizer aquilo. Preferiu arriscar, no fim das contas. Se fosse eliminada então preferiria ser sendo ela mesma e não outra pessoa. — Quer que eu seja sincera sobre isso? Eu não acredito em casamentos, amor, essas coisas. Só acredito em lealdade e amor quando se trata de família. Eu não amo você, não me acho capaz de amar uma pessoa. Não me acho nem capaz de ficar num relacionamento. Eu só estou aqui pela minha família, Roan. Pela minha irmã, não queria que ela viesse sozinha. Você tem um irmão, faria qualquer coisa por ele, não faria? –Kat e seus pais eram tudo o que ela tinha, seria capaz de qualquer coisa pelos três. Eles eram seu lar, seu abrigo, seu porto seguro. Ainda que continuasse com medo de estar ali e de se expor Lilith não deixaria, jamais, sua irmã de lado. No pouco tempo que pudera observar a relação de Roan e Ryan já era claro a seu ver que tinham uma conexão extremamente parecida. A morena escondeu o rosto nas mãos por poucos segundos, não sabendo se tentava abafar uma risada ou se tentava esquecer aquele comentário. –Deus, ignore que eu sou sua prima, por favor. Soa estranho demais. — Balançou a cabeça negativamente, fazendo uma careta. Os olhos da russa se arregalaram com a frase seguinte, congelando bem onde estava por longos segundos.
— Você sabe que eu sou uma bastarda? Que eu sou fruto de uma traição? — Provável que ele soubesse, mas para explicar seu ponto Lily achou necessário repetir. — Meu pai traiu a minha mãe adotiva, uma das pessoas mais maravilhosas que eu já conheci. Eu jamais vou entender o que o levou a isso, mas aconteceu. Eu amo meu pai, mas eu desprezo todo e qualquer tipo de traição. Então eu nunca, nunca seria capaz de fazer isso com qualquer pessoa. Ninguém é merecedor de carregar tal mágoa sobre os ombros. –Ele tinha razões para desconfiar de todos ao seu redor visto os acontecimentos recentes. Ainda assim foi incomodo a mera cogitação de que ela fosse capaz daquela atrocidade. Lilith fazia coisas ruins, mas nenhuma que machucasse o interior de alguém. A cabeça virou para o lado, encarando os olhos azuis em sua direção. –Eu realmente sinto muito que isso tenha acontecido com você, Roan. –Falava sério, cada palavra proferida. Não sabia se ele rebateria com uma piada ou não, falar com o príncipe ainda era um campo minado que ela apenas esperava que com o tempo aprendesse onde pisar. Achou que ele estivesse brincando quando pediu um abraço. Na realidade não sabia bem identificar quando ele brincava ou não, mas, de qualquer maneira, um riso escapou dos lábios de Lily. –Não leve para o pessoal, mas eu não sou uma pessoa de abraços. O afeto de vocês é bem incomum de onde eu venho, na verdade. Vocês são muito carinhosos, sabia disso?