o veu de maya finalmente se rasga, e eh muito facil culpar o outro, e mais facil ainda culpar a si mesmo, alias, a culpa parece ser a base da nossa sociedade, uma delas, ouro e culpa, e dessa vez eu juro tentar algo melhor: tentar entender que o tempo dos seres nem sempre eh o mesmo, por sinal, dificilmente seria o tempo de dois seres diferentes o mesmo, e eu que havia crescido outro coracao dentro de mim, ao azar, tudo arrisquei; antes com medo, depois entregue ao mau-tempo-do-teu-amor, do-meu-amor, do-nosso-amor; como uma onda que vai e vem e destroi a embarcacao, sai gente nadando pra todos os lados, tu encontras uma embarcacao amiga e pede abrigo, mas se vejo terra e decido nadar, que mal poderia ter? aprender a andar outra vez com os proprios pes, com a bengala da analise, com o segundo coracao destruido, comecar a arar as terras do meu peito, comecar a abrir espaco, doer e doer e doer; deixar sair o que quiser sair, deixar entrar o que quiser entrar; nessa noite tao especial, em que muito se explicou, em que eu via uma outra amiga distante reclamando de mim, receber a tua mensagem e um ponto final. Pelo menos eu tentei, propus, nao desisti por mais que talvez devesse, lutei como tu queria que eu lutasse, acho que sou alguem que nao sabe bem a hora de parar; nesse momento talvez precise apenas aprender a aceitar que as coisas as vezes sao maiores que a gente, que o tempo as vezes eh mais importante que o sentimento, e que a funcao da imagem e dos ideais realmente eh a de machucar, machucar porque nunca chegamos la, e quando outra coisa se mostra como proposicao, a recusa - eu preciso escrever esse texto pra tentar entender uma vez mais, soh que no fundo sei que nao eh disso que se trata, escrevo esse texto no dia em que metade de mim finalmente morreu, esse coracao moribundo que eu tentava salvar, tambem com um olho no ideal e outro olho na coisa real, tu mesma, eu agora destrocado como esse barco, nao melhor, eu agora nadando em direcao a terra, pra logo comecar a caminhar - pensar que nunca mais irei a san pancho, pensar que nunca mais... evito; melhor pensar no que poderia acontecer, uma nova terra, um novo lugar, remover os restos podres desse segundo coracao, abrir e limpar a caixa toraxica, nao deixar que isso apodreca dentro de mim, abrir e limpar, dar ao mar, agradecer uma vez mais a mim mesmo por pelo menos ter tentado, ter proposto, ter ido alem de mim infinitamente, mesmo que tarde, mesmo que por nada; e entender que algo dentro de mim amadurece, que algo de mim deixa de ser; e pensar que eu mesmo possa ter sido a causa desse fim; e pensar que fiquei pra tras e nem vi nada disso acontecer; me sinto enganado, abandonado, mas eu mesmo fui quem partiu primeiro e te deixou pra tras, pralem das culpas, algumas lagrimas escorrem de mim em homenagem a estatua tua que terei que destruir; um final amargo; aceitar que nem tudo o que queremos acontece, que nem tudo o que intuimos como proximos passos se realiza, e ter que reinventar o que um dia fui, pra poder noutro dia ser algo mais; e pensar que desse espelho eu fui a imagem, e pensar que tambem tive a chance de me ver em ti, talvez agora nesse final mais do que nunca, e aceitar que o espelho quebrou, e que nada desse jogo sobrou intacto; colocar um ponto final aonde eu gostaria de ter colocado uma virgula, e deixar essa historia descansar, como o peixe gigante de Santiago que chega na praia somente com a cabeca e a espinha; algo pra recordar, ja sem substancia, ja sem o potencial de matar a fome; materia do passado, somado com um grande e gigante ponto final, no fim admito nao ter sido uma surpresa, nao com uma explosao mas com um suspiro.