Anarquia em grego clássico
(Antigone Gives Token Burial to the Body of Her Brother Polynices, 1835–98, Jules Eugene Lenepveu)
George Woodcock, historiador anarquista canadiano, escreve que “anarchos, a palavra grega original, significa meramente 'sem soberano' e que, por isso, anarquia pode ser usada num contexto geral tanto para se referir à condição negativa da ausência de soberania ou à condição positiva da ausência de soberania, pois a soberania não é necessária à preservação da ordem”.(1)
Porém, o investigador Uri Gordon tentou perceber o significado do termo em contexto literário e descobriu que, à semelhança dos dias que correm, já no tempo de Platão e Aristóteles o termo “anarquia” era maioritariamente usado no sentido pejorativo. Escreve Gordon que “a totalidade da literatura da Grécia Antiga disponível para consulta electrónica contém apenas 47 entradas do termo anarchia ou das suas derivações”, e que nessas entradas o termo é utilizado como “sinónimo para confusão, desordem, tumulto e licença”.(2) Por outras palavras, ao contrário do que se possa pensar, não houve uma corrupção histórica do termo “anarquia”: já na génese do pensamento democrático e da filosofia política, são muito mais comuns as “conotações negativas e condenatórias da palavra anarquia”.(3)
Platão e Aristóteles, pensadores fundamentais na estruturação do pensamento político ocidental que ainda se faz notar nos tempos que correm, tinham sérias suspeitas em relação à democracia por acharem que esta tinha uma tendência inerente para se deteriorar em injustiça e tirania. Na filosofia de Platão (para escolher apenas um de ambos), a democracia faz com que as pessoas “bebam demasiado do vinho potente da liberdade”, algo que resulta inevitavelmente na erosão das hierarquias naturais entre escravo e mestre, entre mulher e homem, etc., ou seja, algo que resulta no desabamento da ordem social.(4) Nos textos de ambos, anarchos tem uma conotação negativa pela sua relação com a democracia e com a vontade popular.
Por outro lado, é na peça sobre Antígona que encontramos, como refere Gordon, “dois dos conceitos mais importantes ligados à prática anarquista no seu idioma contemporâneo: desobediência e acção directa”.(5) Nessa história, onde encontramos também derivações do termo anarchos, o irmão de Antígona morre e o soberano Creonte proíbe o seu enterro numa cerimónia fúnebre digna, condenando o seu cadáver a ser consumido pelas aves e pelos cães. Contudo, Antígona recusa-se a acatar as ordens do soberano (desobediência) e, ao invés de reivindicar os seus direitos ou de apelar à misericórdia do Estado, enterra-o conforme a sua vontade individual indo, assim, abertamente contra a lei (acção directa).
WOODCOCK, George: Anarchism. p. 8.
GORDON, Uri: Research Note: Avapxta - What did the Greeks actually say? in Anarchist Studies, Vol. 14. 2016. p. 85.
Ibid. p. 86.
PLATÃO: República. APUD GORDON, Uri: Research Note: Avapxta - What did the Greeks actually say? in Anarchist Studies, Vol. 14. 2016. p. 87.
GORDON, Uri: Research Note: Avapxta - What did the Greeks actually say? APUD Anarchist Studies, Vol. 14. 2016. p. 88.
















