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Estranhos
Ídolos da música não são necessariamente deuses viris que pulam e dançam no palco e tem saúde de cavalo manga-larga. Pelo contrário, adoecem e cancelam shows. Normal, beleza.
Bons amigos não necessariamente são aqueles que se conhece desde os 7 anos de idade e que já jogou bola com eles na rua lascando o dedo no asfalto a tarde inteira, basta apenas serem bons.
Há alguns meses atrás conheci uma menina muito gente boa, tinha umas ideias loucas e um jeito louco de ser, cedo vi que compartilhávamos os mesmos conceitos, fluía um papo legal, enfim, uma amizade relâmpago. Assim nos defino. Passaram-se dias, semanas e meses, ideia vai ideia vem e algumas risadas soltas no ar, de repente uma súbito uma proposta de rolê bem moderninha: me marcou no status de uma banda que há tempos eu curtia e achava bem massa mas nunca tinha visto no palco. Resultado? Não pensei duas vezes, de cara disse sim, venha, já é e todas essas expressões que escancaram que você ta afim demais daquilo.
Como fui convidado pra um evento com muita antecedência, e falo isso por experiência, sei que tudo pode acontecer entre o pedaço de tempo em que você fica sabendo e planeja ir até o momento em que tudo se concretiza afinal. Alguém por exemplo pode passar mal, pode fazer outros planos de importância ou interesse maiores. Tudo pode acontecer, inclusive uma outra proposta para o mesmo dia e horário. O que me fez torcer as sobrancelhas foi quando a contraproposta vem da mesma pessoa que fez a primeira. Que confusão.
Bom, pra economizar o verbo e encurtar a prosa, a contraproposta caiu por terra afinal ídolo não é manga-larga e o que era proposta ultrapassada virou re-contra-proposta. E for muito bom, a vocalista quase pôs meu coração pra fora com tanto rebolado (algumas vezes até meio cômico) e com direito a Carmen Miranda encarnada.
No entanto, contradizendo toda a felicidade, eu que moro longe de tudo sempre vivo um drama quando invento de sair de casa de noite pra voltar bem mais tarde. Desafiando o direito de ir e vir a nós provido de nascença nunca sei quando vou dormir na minha cama ou sentado no ponto de ônibus ou na casa de alguém quando me aventuro como nesse dia. E pode até parecer trágico mas rende boas risadas nas rodas de amigos, a arte de rir de si mesmo e a galera de identifica. Já to acostumado a essa situação, o transporte público é muito limitado e muitas vezes deixa a impressão de que limitados somos nós mesmos.
Enfim terminado o show saí e fiquei a procurar minha amiga, o que se mostrou tarefa difícil. Não é querendo avacalhar, longe disso. Mas veja, quando a pessoa é baixa não tem muito que fazer. Segui algumas mulheres de bonitos cabelos volumosos e encaracolados a lá Bethania e Gal, mas nenhuma delas era quem eu procurava de fato. Acabou que fiquei ali no hall com cara de paisagem até que enfim nossos olhares se cruzaram e então pudemos seguir caminho. Eu precisava agora ir pra casa, o lance era que não dava, quando a lua está quase a pino os meus ônibus se escondem. E eu lá metade tomado de frustração metade ainda na vibe do show. Talvez nem tanto, pois mais da metade de mim ainda estava naquela onda. Eis que o casal (amiga e o namorado já devidamente apresentado) me convida pra passar a noite com eles. Fui tomado de alivio e talvez um pouco de receio, é que não gosto de imaginar que sou um incomodo. Mas vamos lá, já estava lá mesmo e tive o pressentimento de que iria ser divertido.
Para seguir é necessário que eu apresente a você um dos casais mais fofos e inspiradores que já tive o prazer de conhecer e já estou atrasado nisso. Ele, um cara boa pinta e bom de conversa, jeito um pouco sério talvez pela voz grave, mas na medida pra não parecer ranzinza ou algo assim. Sendo pouco justo eu diria que é um cara muito gente boa e a mina a gente já conhece.
Tudo correndo bem e não teria como ser diferente, estávamos de carro e deixamos um pessoal em certo ponto. Chegamos no AP do brother, que se mostrou um tremendo ateliê / sala de aula. Sala de aula porque ao longo do tempo em que permanecemos acordados eu aprendi com aquele casal uma pá de coisa que pretendo levar pra toda a vida, em plenos exercício lúdico, nos divertindo e aprendendo uns com os outros. Na minha cabeça eu me perguntava se as comemorações em tribos indígenas transmitiam sentimentos parecidos com aquilo que eu estava sentindo e o que nós estávamos fazendo ali, no clichê de todo mundo ao redor de uma fogueira de noite cantando e celebrando um dia bom, e além de tudo o simples fato de estar vivendo. E se a 500 e tantos anos atrás nossos índio faziam isso então 500 e tantos anos a frente me levaram á aquele AP da mesma forma, uma cerimônia, um momento de celebração ás coisas boas que pensando agora sinto como se fosse um marco na mina vida, cerimônia de inicialização. Aquele rolê, de alguma forma mudou como eu vejo, como tateio, respiro e ouço a cidade e as pessoas a minha volta.
A partir dali alguns questionamentos me vieram a mente: O que me impede de conversar com as pessoas na rua ou no busão ou em qualquer lugar que seja como se as conhecesse há décadas? O que me impede de levar o ‘Momento do AP’ a qualquer canto que eu vá e ter cada dia da minha vida como único? Bastaria puxar um papo sobre qualquer coisa. Talvez, mas acho que não, eu esteja romantizando o mundo, mas afinal por que não? De todas as possibilidades pros nãos de tudo isso que me vieram a cuca a que dei mais importância foi a mesma que imagino ser o motivo pra uma pessoa de carro não ser solidária de dar carona e deixar alguém no meio de uma estrada deserta.
Desde cedo nos é ensinado goela a baixo que o ser humano é ruim, que nosso semelhante, o próximo é sempre a pior pessoa a se ter contato direto nos olhos, o famoso ‘Estranho’. “Filho não aceite bala de estranhos” ou “Não fale com estranhos”. E o estranho então passa a ser não só o cara mal encarado que senta do teu lado no metrô, o velhinho com cara de safado com sorriso de canto que anda em direção contrária a sua na calçada, mas também o beco escuro que você evita, a rua mal iluminada, do bairro chique até as quebradas. O Estranho são todas essas coisas que impedem essa interação lúdica entre o povo da nossa cidade, o estranho se chama preconceito, descarado e desmedido.
A maioria dessas coisas me ocorreram naquela mesma noite, eu estava deitado e com sono. Momentos antes de dormir eu tentava desenhar em cima de um desenho que mutuamente estávamos fazendo, o namorado da minha amiga e eu. Ele é muito bom, mas a mim a mim faltou óleo nas engrenagens. Veja, eu estava a ‘maómenos’ 6 anos sem pegar em papel e caneta pra isso. Aliás, uma das inspirações pra eu voltar a desenhar de vez foi esse episodio.
Acordei, o dia estava mais claro que o resto da semana, bem mais claro. Fomos presenteados com um sol de rachar. Saímos de casa com um violão e câmera e o casal foi cantando de casa até a estação uma música que se apoderaram de mim com uma força tremenda, nem cantei junto, parece que foi escrita unicamente pros dois, e eu gravando os dois no meio da rua cantando e andando, e eu rindo por dentro dos malabarismos da menina pra manter um violão sem correia nos braços. Engraçado.
Eu disse há algumas folhas atrás que iria economizar tinta, mas não o fiz. Dessa vez eu vou me ater às coisas mais importantes dentre as coisas importantes desse tão importante dia. Estávamos indo para a 6ª Feira de Arte Impressa TIJUANA, na Casa do Povo. Eu não tinha ido às anteriores, uma lástima. No caminho provei o melhor sorvete que já tomei, Melona é bom demais da conta e importante aqui.
A feira foi um espetáculo, tive a visão e o pensamento espancados por idéias pra minha recém volta das cinzas nas artes plásticas, me jogaram matéria prima e eu tava frenético pra produzir. Gravuras, ilustrações, livros, fanzines e tudo que há de bom pra criar a alegria do meu, do seu, do nosso domingo. Lá perto da hora de ir pra casa minha amiga me deu um livrinho de mais ou menos 20 páginas, um manifesto pelo pensamento coletivo na cidade entre outras coisas, e eu adorei e quis ler o mais rápido possível. Deu a hora, fomos. Eles ainda foram num show, mas eu não pude ir junto e por conta de uns compromissos eu fiquei debaixo da marquise da vontade. Nos despedimos com muitos abraços, desci do trem e já não era mais o eu de semana passada. Agora era vez de tomar meu rumo, pus o passo em uma marcha menos lenta e vamo que vamo, mas sem pressa por que eu não conseguiria, estava muito zen pra correr. Descendo as escadas da estação encostei num japa de braço pelado e tomei um choque estático, achei engraçado e acho que ele também sentiu, rimos. Naquela hora só faltava uma trilha sonora calma e instrumental pra ir ouvindo enquanto eu lia, logo escolhi no celular e saquei o manifesto do bolso. E enquanto lia ia sendo atacado por avalanches de pensar, chegava a sorrir de canto por aquilo que ia sendo lido e digerido. Era tudo o que eu tinha aprendido na pratica naqueles dois dias e senti vontade de mostrá-lo pra todo mundo, quis que minha cidade fosse escarrada a cidade proposta nas páginas que eu segurava, o vi como uma forma de mostrar pros outros o que seria a ideia de uma cidade que desse tesão de sair na rua. Pregando o mútuo aprendizado através da conversa e interação com a nossa gente e o exercício de observar o espaço em que se vive, o manifesto da Poro é tudo isso e chegando em casa mostrei pro meu mano.
E qual não foi minha surpresa e orgulho ao chegar em casa no outro dia e ouvir o relato do moleque dizendo que levou o livrinho pra escola e leu pra galera como num comício, tudo que era pregado no Capa Amarela reverberando e sendo a voz numa escola onde o pensamento e o criticismo é pouco incentivado. Contei toda essa fita pra minha amiga no mesmo dia e ela então sentiu o que senti e me pediu um relato no papel.
É bonito ver como o conhecimento age como um ciclo, como uma árvore. O que aprendi no livro que minha amiga me deu eu plantei e repassei pra ela, tudo muito rápido, todo em choque, frenético mesmo. E que a vida na cidade seja cada vez mais como a vida numa tribo, afinal somos mesmo uma, a maior de todas.
Cauã Bertolo
Interessante perceber o diálogo entre o rock progressivo da banda e a canção engajada de Victor Jara. Esse walking bass (reparem como as frases do contrabaixo não sossegam, as notas ficam alternando em cada cabeça de tempo), essa bateria/percussão – acho que é um "meia lua" – que também não para, mais essa guitarra solando a música toda. Tudo isso contrasta com o tempo de 3/4 característico das canções populares e folclóricas. Reparem em como contrasta o começo e o meio/fim da música. Atenção ao Arranjo.
Na segunda estrofe entra a marcação da meia lua e o walking bass. É um diálogo explícito com a música daquela época. Encontra-se aí a face subversiva do rock progressivo, ousada em comportamento e na crítica ao sistema. Rememora e faz soar a guitarra de Hendrix, as ruas norte-americanas lotadas de jovens e seu desejo hippie de paz e amor, contra a guerra do Vietnã. Anos 70 que começam em 68, com os jovens chacoalhando o mundo, eletrificados ou acústicos, dialogando com tradições e olhando pro presente, construindo memórias de futuro.
Isabela Morais, dialogando com a música El Derecho de Vivir em Paz, na versão de Los Blops.
El Derecho de Vivir en Paz, análise de Vinicius Oliveira
A canção:
El Derecho de Vivir en Paz é a faixa-título do álbum lançado em abril de 1971 pelo cantor e compositor chileno Victor Jara. A letra foi inteiramente escrita por ele.
Victor Jara e a Nueva Canción Chilena:
Víctor Lidio Jara Martínez (cantor, compositor, diretor de teatro, pesquisador do folclore e instrumentos indígenas, ator e dramaturgo) foi um dos principais nomes da Nueva Canción Chilena, movimento músico-social surgido no Chile na década de 60.
Este movimento debilitou-se a partir de 1973, com instauração do regime ditatorial de Augusto Pinochet, na qual a imensa maioria de seus nomes sofreram perseguição do governo, sendo mortos ou exilados.
Isso se deve ao fato da Nueva Canción Chilena ser um movimento politicamente engajado, muitas vezes chamado de Canción Protesta, denominação dada às canções dos anos 60 e 70 que continham letras de forte crítica social. Muitos cantores da Nueva Canción do Chile participavam ativamente da política do seu país.
Um deles era Victor Jara, que participou dos movimentos estudantis chilenos, apoiou a candidatura de Salvador Allende e movimentos de natureza progressista em diversas partes do mundo, como a luta da esquerda espanhola para derrubar a ditadura de Franco e o movimento anti-imperialista no Vietnã, que inclusive é o tema central desta canção aqui abordada.
Durante sua trajetória como cantor e compositor fez trabalhos com outros nomes muito importantes da Nueva Canción, como Violeta Parra, cantora e compositora considerada precursora do movimento, Quilapayún, banda de renome mundial que ainda está em atividade.
Uma das características do movimento, e que foi muito explorada pelos músicos, é a fusão de elementos do folclore latino americano e a música chilena. Um álbum em que isso se torna bem visível é Canciones Folclóricas de América, feito pela parceria Victor Jara – Quilapayún.
A maioria dos instrumentos utilizados são acústicos, variando entre sopro, cordas e percussão.
Período histórico:
O período histórico no qual essa música se situa é a Guerra do Vietnã, conflito armado ocorrido entre 1959 e 1975, no contexto da Guerra Fria.
No ano em que foi composta, o Chile era governado por Salvador Allende, médico e político marxista que recebia amplo apoio popular, incluindo o de muitos artistas da Nueva Canción, como Victor Jara.
Análise:
Letra Original:
El derecho de vivir poeta Ho Chi Minh, que golpea de Vietnam a toda la humanidad. Ningún cañón borrará el surco de tu arrozal. El derecho de vivir en paz.
Tradução:
O direito de viver poeta Ho Chi Minh que golpeia do Vietnã a toda a humanidade Nenhum canhão apagará o sulco de seu arrozal. O direito de viver em paz!
Esta primeira estrofe fala sobre Ho Chi Minh, um revolucionário e estadista do Vietnã. Ele foi um dos principais nomes do movimento pela independência da Indochina, além de fundador e presidente da República Democrática do Vietnã ou Vietnã do Norte.
Nacionalista, lutou durante seu governo pela reunificação do Vietnã, que até então estava dividido em dois: o Vietnã do Norte, socialista e apoiado pela União Soviética, e o Vietnã do Sul, capitalista sob o controle dos Estados Unidos. Os estadunidenses também queriam uma unificação do país, mas para formação de uma única nação capitalista e subjugada a eles, não se importando com a vontade da população ou com a intensidade da violência que seria aplicada durante a guerra. Desta forma, apoiaram o governo do lado sul para terem o controle total sobre o Vietnã.
Letra Original:
Indochina es el lugar mas allá del ancho mar, donde revientan la flor con genocidio y napalm. La luna es una explosión que funde todo el clamor. El derecho de vivir en paz.
Tradução:
Indochina é o lugar mais pra lá do mar largo onde reinventaram a flor com genocídio e napalm. A lua é uma explosão que funde todo o clamor. O direito de viver em paz!
Já a segunda trata da brutalidade da guerra, que causou milhares de mortes na Península da Indochina, não apenas nos dois Vietnãs, mas também no Camboja, Laos e outros territórios que fazem parte desta. Um dos armamentos militares utilizados na guerra foram as citadas bombas de Napalm, um trunfo do exército do sul. Essas bombas eram utilizadas tanto para a abertura de clareiras para a aterrissagem de helicópteros e destruição de plantações quanto para o ataque direto a soldados do norte ou mesmo civis.
Letra Original:
Tío Ho, nuestra canción es fuego de puro amor, es palomo palomar olivo de olivar. Es el canto universal cadena que hará triunfar, el derecho de vivir en paz.
Tradução:
Tio Ho, nossa canção é fogo de puro amor, é pombo pombal, oliveira do olival. É o canto universal cadeia que fará triunfar. O direito de viver em paz!
A terceira estrofe finaliza a canção como um hino não apenas da luta do povo vietnamita frente ao imperialismo estadunidense, mas da luta de todos os povos que combatem bravamente qualquer forma de imperialismo ou colonialismo. O hino de resistência dos povos que tem o direito de viver em paz.
Justamente pelo seu conteúdo de resistência, a canção se popularizou não apenas no Chile, mas em vários países da América Latina.
Música:
Em grande parte da obra musical de Victor Jara foram utilizados instrumentos acústicos, característica da Nueva Canción. Porém, no álbum El Derecho de Vivir en Paz, Jara recebeu a colaboração, entre outros músicos, do grupo chileno de rock Los Blops, que o permitiu utilizar guitarras elétricas e órgãos, presentes na música – título.
Fora isso, são utilizados os instrumentos clássicos da música chilena, ou seja, os acústicos.
O álbum foi gravado na Discoteca del Cantar Popular, no Chile, com a colaboração da já citada banda Los Blops, além de Ángel Parra, cantor chileno filho de Violeta Parra, Patricio Castillo, cantor e intérprete chileno, e o grupo Inti-Illimani, um dos mais populares da Nueva Canción Chilena, junto com o Quilapayún.
- Como cê tá? - Cê tá legal ? - Como cê vai? - Cê vai também? - Cê tá melhor? - Cê tá em paz? - Tá tudo bem? E o que que a gente faz daquela angústia? - Heim? E se um dia precisar de alguém pra desabar Eu tô por aí
Cícero - Frevo por Acaso (via setenta-trinta)
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1981
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