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@asher-glace
we better work — Asher & Adam
Adam apreciou o outro rapaz. Geralmente, o garoto demorava mais tempo até ter alguma conclusão sobre uma pessoa. Mas Asher o convenceu no momento em que apertou sua mão, seu sorriso confiante. Não era como se fosse difícil fazer amizade com ele, porém, costumava levar mais tempo. Ou talvez ele estivesse um pouco mais maleável ultimamente. Depois de uma série maçante de exames, era de se esperar que ele ansiasse por qualquer tipo de interação social.
Notando que Asher abria o notebook, Adam também fez questão de abrir seu caderno, procurando sobre o assunto por entre suas complicadas anotações. Sabia que poderiam achar tudo o que quisessem - ou que precisassem - pelo computador, mas o garoto sentia-se melhor com seus registros pessoais ao alcance. Parou de folhear as páginas do caderno quando Asher começou a falar. Deixou as orbes claras migrarem do objeto para a pessoa, entusiasmado em dialogar com o rapaz. — É, é que sentamos longe um do outro, então… — A frase ficou sem um fim. Não sabia exatamente porque nunca tinha falado com Asher antes. Mas se arrependia de não ter o feito.
A posição do homem à sua frente lhe lembrava a de uma criança. A imagem de um Adam pequeno assistindo Stars Wars com uma Katherine da mesma idade veio em sua mente quase que sem querer. Adam sentia tanto a falta dela que simplesmente não entendia como podia caber tanta saudade em seu coração. Fitou o lago, tentando afastar a memória de sua cabeça. “Foco, Adam!”, pensou. Voltou o olhar para Asher, contemplando a voz do outro. — Eu não sei o que dizer de mim. Nasci na Inglaterra e vim para cá com dezesseis anos. Tenho um câncer no pulmão desde pequeno e isso praticamente resume minha vida.— Adam riu, ocupando-se em retirar o lápis da boca e desenhar pequenos e grandes círculos na folha de papel. Era uma técnica que o deixava mais tranquilo, mesmo que não estivesse nervoso. — What about your? — Questionou, sem perceber que deixou seu sotaque escapar.
Não concordou plenamente com a afirmação alheia, sobre o motivo de não se falarem até aquele encontro, mas não acreditava que aquela discussão teria qualquer adicional que servisse, destarte apenas deu de ombros e voltou a pontuar um sorriso sobre os lábios finos. — Às vezes é por isso, mesmo. — Sua confirmação se fez ao tempo que ainda se ajustava, com o intuito de ficar o máximo de frente para o outro homem possível. Como supracitado, qualquer coisa era válida se ele pudesse excluir o trabalho de sua tarde. O dia parecia bonito demais para que ele ficasse quebrando a cabeça com teorias e criações. Era como se nada mais existisse, agora que notava que Adam responderia sua pergunta mal formulada. Tinha um deleite indescritível pela forma como conseguia desviar não somente a própria atenção, mas também aquela de quem o acompanhava – como parecia ser o caso. Assentiu a cada uma das informações, todas simples, até alcançar a parte em que ele informava sobre a dita doença que, como era sabido pela grande maioria das pessoas, era praticamente irreversível. As grossas sobrancelhas negras se ergueram no semblante de Asher conforme ele entreabria os braços. — That’s no way of telling those things, kiddo. — Foi a vez de o sotaque britânico pertencente ao rapaz barbado escapar, propositalmente para que o seu conterrâneo percebesse que vinham do mesmo local. — Eu gosto de escrever contos, vim pra cá por causa disso, mas também sou da Inglaterra. Londres, pra ser exato. — Informou em um novo sorriso, enquanto movia as pernas, deixando as solas dos tênis apoiados na grama e os joelhos suavemente afastados; assim, apoiou os antebraços sobre os mesmos, unindo as palmas no vão que se fazia ali. — Também gosto de tirar fotos. Posso tirar uma sua? — Se antes a intenção de Asher era apenas fugir do trabalho, com a confissão feita pelo rapaz, o interesse por ele tinha crescido consideravelmente. Antes mesmo da resposta do outro, Asher alcançava a própria mochila, tirando a câmera semiprofissional dali.
there's a very pleasant side to you — Asher & Hotaru
Cada passo que davam naquela posição deixava o jovem japonês mais perturbado. Sim, estava adorando aquilo e se fosse mais corajoso provavelmente já teria colocado seu próprio braço ao redor da cintura do outro para aprofundar o gesto. Hotaru, apesar de todas as negações, era capaz de assumir seus próprios desejos internos, concordando com os mesmos ou não. Ainda tentando se convencer, acrescentou à culpa daquilo tudo a falta de contato físico que tinha. Sua mãe vivia agarrada em si e, depois de meses sem visitar sua casa, seu corpo estava protestando. – Não tenho nada contra. Você é sempre assim? Sorridente, quero dizer. – Alguma parte obscura de si queria saber o motivo de toda aquela alegria. Sinceramente, sua maior curiosidade era saber se todos aqueles sorrisos eram por sua causa ou se era, de fato, um traço da personalidade do mais velho.
Quanto mais próximos do destino chegavam, mais queria inventar qualquer desculpa para que pudesse prolongar o momento. Não conteve o suspiro irritado quando se separaram, em frente da porta. Quis protestar que não era uma dama e que podia muito bem ter entrado depois, mas já estava tão perto de conseguir o que queria que não quis estragar tudo com suas grosserias. Além do mais, estava gostando da atenção. – Ojamashimasu. – Falou quase que automaticamente, sentindo uma extrema vontade de se estapear depois. Malditas manias. – Com licença, eu quis dizer. Com licença. – Corrigiu-se o mais rápido que pode. Sentiu as bochechas esquentarem e a vontade de sair correndo com a gafe, mas, como sempre, provavelmente estava exagerando demais a situação.
– Muito bem, aliás. Eu posso te mostrar, quando terminar. Se quiser. –Seu objetivo era parecer propositalmente distraído, olhando para o computador e acompanhando o mesmo ligar. No entanto, estava extremamente desconfortável. Como não tinha muitos amigos, nunca fora convidado para dormitórios alheios e muito pouco sabia sobre as “regras” de como se portar dentro de um. – Estou pensando em transformá-la em uma sereia. – Acabou se decidindo por sentar na cama, deixando a bolsa no chão próxima de seus pés e mantendo-se ereto, para que não fizesse muita bagunça.
Foi em razão do primeiro questionamento de Hotaru, que os lábios de Asher exibiram uma curvatura ainda maior do que as primeiras. Ele era adorável, em vários sentidos, porém o motivo real estava marcado na ingenuidade que ele demonstrava, como se pudesse sucumbir à todos os desejos do estudante de letras e, por outro lado, esse tipo de vontade somente parecia crescer nos pensamentos – e corpo – do rapaz de olhos caramelados. — Sempre assim. Poucas surpresas comigo. Agora que dentro do quarto, a atenção vinha quase completa para a tela do computador ou, ao menos, era assim eu queria que o asiático enxergasse. Se tornava cada vez mais difícil, no entanto, controlar o ímpeto de calar a boca de línguas difíceis do outro, da maneira que melhor saberia fazer. Aquele sorriso, pendido para esquerda se tornou ainda mais visível, através do reflexo da tela escura da máquina que aos poucos reconhecia a câmera inserida na mesma. — Muito bem? — O riso se formou baixo e, agora, ele virou a fronte para que observasse o estrangeiro por cima dos ombros, demonstrando o sorriso satisfeito através da curvatura dos olhos amendoados. — Confiante. Eu gosto. — Pronunciou tudo pela fresta pequenina que o enviesar dos lábios permitiu. Quando ainda o observava – já tendo o olha de volta para o computador, onde selecionava as fotos para que pudesse imprimi-las –, percebeu o local em que Hotaru tinha escolhido para se sentar. Foi necessário que ele engolisse um suspiro de conforto que teria soado, tamanho o gosto pela opção não pertencente. — Você gosta dessas coisas místicas? — Arguiu em razão do assunto sobre a criatura marinha citada pelo outro. Ao pressionar o comando para que as fotos fossem impressas, da forma mais lenta que conhecia, deixou de curvar-se na mesa e se encaminhou até ficar próximo o bastante do coreano. Abusado, como lhe era costumeiro, Asher se colocou entre as pernas alheias, mantendo-se de pé, porém. Sem grandes delongas ou hesitações, a mão direita se apoiou na nuca do outro, afundando-se entre as madeixas escuras de cabelo para que seguisse o caminho inverso, logo na sequência. Agora, as digitais redesenhavam a curva do maxilar marcado do outro homem, até apoiar o indicador e polegar no queixo do rapaz, obrigando-o a erguer a fronte. Voltou a curvar o tronco, mas dessa vez sobre o rapaz. A boca se encontrou com a dele, enquanto o lábio superior de Asher afastava o mesmo de Hotaru, até ser capaz de capturar o inferior entre seus dentes, entregando um mordiscar mais intenso, repuxando-o lentamente.
there's a very pleasant side to you — Asher & Hotaru
Teve de lutar contra a vontade de vociferar um “Todo mundo liga para dinheiro!”, mas o fotógrafo estava sendo tão gentil que sinceramente não se encontrava com vontade de discutir. Apenas deu de ombros, agradecendo mentalmente que aquilo tudo não custaria muito do seu bolso. Não pode deixar de perceber a olhada intensa que estava recebendo. – Gosta do que vê? – Perguntou num tom brincalhão, sorrindo desafiador. No entanto, automaticamente ajeitou a camisa que usava e passou o olho sobre sua calça, tendo certeza que ainda estava arrumado. Desejou, pela primeira vez naquele dia, que tivesse gastado um pouco mais de tempo em sua aparência antes de sair. A “inspeção” do moreno tinha o deixado um pouco mais ciente de si do que queria.
– Bom, eu não sei você, mas tem muita gente que consegue se excitar com essas coisas. Fotos e afins. Podia ser uma alternativa do que eu faria. Garanto que não. – Assegurou novamente. Muita gente implicava consigo em questões de fetiche, principalmente depois de saberem sua nacionalidade. Já tinha ouvido tantas piadas sobre tentáculos de polvo que preferia estabelecer várias vezes que era normal antes de falar sobre qualquer tópico sexual.
Um calafrio tomou seu corpo quando ouviu seu nome. – Você sorri demais. – Comentou, sua voz saindo tremida. Não era acostumado com contatos físicos tão próximos, principalmente porque fazia questão de evitá-los. O clima estava frio demais para seu gosto e o abraço, se aquilo podia ser chamado de abraço, trazia um pouco de calor para o jovem. Ou, pelo menos, foi assim que se convenceu para permanecer na posição que foi colocado. Nunca admitiria que seu coração estava batendo um pouco mais rápido com a proximidade ou que sentia-se mais que confortável ali. Para não demonstrar que estava gostando ou algo similar, já que seu maior objetivo na vida era manter a cara emburrada nos momentos felizes para provar ao mundo que não feliz, deixou seus braços parados rentes ao seu próprio corpo e fez questão de manter o rosto oposto ao inglês, deixando seu olhar paralelo ao caminho.
O primeiro questionamento de Hotaru ainda reverberava dentro da mente naturalmente lúbrica de Asher. Em seus pensamentos, talvez até insensatos, ninguém que estivesse inteiramente indiferente ao olhar recebido teria articulado aquela resposta e, inevitavelmente, aquilo trouxe uma nova carga de energia para que o estudante de letras se colocasse deveras mais interessado no asiático que o acompanhava. Da mesma forma, todas as explicações desnecessárias sobre o que ele faria, ou não, com a foto se tornavam ainda mais divertidas. Gostava de estar no comando, era uma falsa sensação de poder e superioridade que o deixava mais entusiasmado do que o mais forte entorpecente já experimentado. Foi inevitável que a curvatura do sorriso se tornasse maior, ao notar o comentário sobre o mesmo, especialmente para o canto esquerdo, como se aquele fosse o verdadeiro formato da boca do rapaz. Era verdade que ele sorria até excessivamente naquela tarde, mas estava se divertindo tanto, para um dia que lhe mostrava tamanha monotonia, que não seria inegável o novo contentamento. — Não gosta do meu sorriso, Hotaru? — Sua pergunta foi quase plenamente retórica. Com seu egocentrismo em alta e as reações corpóreas do outro rapaz, seria completamente desnecessário que ele respondesse. Ao contrário do japonês, o britânico insistia no olhar sobre o rapaz, ostentando a atenção alternada entre o caminho que seguiam – para evitar acidentes – e o estudante que tinha acolhido em seu braço. Prosseguiu o caminho em silêncio, ostentando olhares furtivos na direção do rapaz de olhos puxados, propositalmente para que tentasse deixa-lo ainda mais desconfortável. Era um prazer único, ser capaz de mexer tanto com uma pessoa, a ponto de fazê-lo mudar os trejeitos quando em sua presença. Uma vez que chegaram no dormitório que lhe foi designado, Asher empurrou a porta destrancada e ofereceu entrada preferencial ao outro, adentrando o cômodo logo na sequência, fechando a porta às próprias costas. — Você pinta, então? — Deixou a mochila jogada sobre a própria cama, seguindo para a mesa onde o computador se encontrava, ligando-o. A desculpa de trazê-lo para seu quarto era a foto, portanto precisaria ao menos seguir com o disfarce. Não obstante, os olhos caramelo insistiam em recorrer para a imagem do outro, fitando-o de cima a baixo, constantemente.
the o n e you should all make it your mission to d e s t r o y
we better work — Asher & Adam
Ter um câncer era exaustivo. Adam nunca dissera essas palavras em voz alta, mas era a realidade. A bateria de exames mensais acumuluou-se em sua agenda de tal forma que lhe foi necessário tirar uma semana para regula-los. Não que ele já não estivesse acostumado com aquilo, mas sentia que sua vida finalmente estava começando a ficar interessante e de repente, ele precisa tirar o atraso de seus testes. Algumas vezes, o garoto pensava que, ou tinha uma vida social, ou cuidava de sua saúde. Parecia impossível ter os dois ao mesmo tempo de vez em quando. Na semana que se passou, ele mal teve tempo de acompanhar seus projetos e suas aulas eficientemente. Passara mais tempo no consultório do seu médico do que na sala de aula.
O garoto ficou surpreso ao ver a mensagem de texto em seu celular. O professor havia avisado que ele faria um trabalho com outro rapaz, Asher. Adam notou-o algumas vezes. Sua postura era sempre formal e seu sorriso era digno de um comercial de creme dental. O garoto também sentia que Asher escondia algo, mas ele cursava Letras, o que deixava sua imagem ligeiramente menos intimidadora. Adam nunca teve a oportunidade de engajar em uma conversa com o outro rapaz antes, e essa parecia ser a chance de ouro. O garoto lembrou que, quando entrou no curso, Asher já se encontrava lá. Adam já cursava Letras há três anos, e se o moreno já estava lá antes dele, com certeza poderia lhe ajudar. Ou ao menos dar algumas dicas.
Descendo as escadas em alta velocidade, o rapaz respirava em pequenas inspirações e expirações mais curtas ainda. Seu cabelo, curto e nada volumoso, parecia flutuar pelas correntes de ar que o atravessava. Estava atrasado. Por sorte, seu dormitório ficava perto do seu destino, e em seu passo apertado, Adam chegou ao lago. Avistou seu companheiro de trabalho e caminhou tranquilo em sua direção. Encolheu seus ombros ao aproximar-se, com um sorriso acanhado pintando seus lábios. —Oi. Asher, certo? — Estendeu a mão para o rapaz, o cumprimentando. Retirou a mochila das costas e lançou-a no chão, se ajoelhando e pegando seus livros e estojos. Com uma caneta apoiada no ouvido, um lápis posicionado estrategicamente na boca e um caderno em mãos, Adam sentia-se muito mais seguro. —Ótima escolha de local para estudo. Odiaria ter de ficar em uma sala fechada. — O garoto sorriu, fitando o lago cristalino à sua frente.
Enquanto aguardava a aproximação alheia, Asher cantarolava as canções incluídas no próprio celular, balbuciando as letras bem conhecidas ao mesmo tempo em que os dígitos usavam de uma caneta para batucar contra a própria perna. Era uma forma de não ver o tempo passar, afinal, levando em consideração que não tinha pressa alguma de começar a estudar, se fosse inteiramente honesto. De qualquer forma, sua pequena distração chegou ao fim quando, de esguio, observou a chegada do aluno que conhecia apenas pela aparência. Seus trejeitos solenes e educados – ao menos quando em um primeiro contato – se fizeram presentes quase imediatamente, conforme Asher puxava o fone de ouvido para fora dos ouvidos e se erguia com o escopo de cumprimentar o menino que parecia tão mais jovem que si; ainda que aquele pensamento fosse um tanto irreal, levando em consideração os estudos conjuntos. Fechou a mão sobre a dele, pendendo o sorriso para a esquerda como lhe era mania, ao confirmar o próprio nome com um assentir único. — E aí, Adam! — Após o cumprimento, esperou que o outro indicasse que iria se abaixar, para que voltasse a se sentar, da mesma forma como antes, com a única exceção de que as írises caramelo agora enfocavam seu companheiro, ao invés do ambiente agradável que local ofertava. Puxou o notebook para fora da mochila, deixando-o sobre a grama sem indicar quaisquer problemas com a sujeira, antes de abrir a tela e liga-lo. Foram as palavras de Adam que o surpreendeu, porém. Tinha consciência de que aquele era o melhor lugar para estudar, ao seu ver, mas encontrar a anuência de seu parceiro de trabalho foi ainda mais gratificante. Gostava de estar certo e, por ter tamanho gosto, apreciava as confirmações de que suas decisões eram as melhores. — Também não curto. — Informou sem as formalidades aplicadas anteriormente, conjuntamente com o mover dos dígitos ágeis sobre as teclas do computador, até abrir um site que continha informações interessantes para o andamento do dever. Conforme o fazia, a atenção se alternava entre os escritos na tela e o garoto ao seu lado. Como já dito tantas outras vezes, fazia praticamente qualquer coisa para fugir de seus afazeres e não seria diferente. — Mas, Adam... — Começou falando, antes de girar o corpo e cruzar as pernas em lótus, ficando de frente para o rapaz. — Eu nunca falei com você, certo? — O sorriso escorria pelo canto dos lábios conforme ele se pronunciava; característica marcante das expressões de Asher que ele não tinha intenção de mudar. — Me conta de você. — Apoiou os antebraços sobre as pernas próprias, ostentando a atenção plena ao outro, quase como se as funções acadêmicas não existissem.
there's a very pleasant side to you — Asher & Hotaru
Concordou com a cabeça devagar quando ouviu a informação, como que para assegurar que tinha entendido. Esperou para que o novo-conhecido estivesse distraído o suficiente para repetir seu nome várias vezes, o mais silencioso que podia. Seu sotaque ainda impedia sua fala fluída em muitas palavras, então preferia “praticar”, tentando evitar que passasse vergonha. Quando sentiu a atenção sobre si novamente, sorriu. – Olá, Asher. – Não conseguiu a pronunciação perfeita, mas estava perto. Era o suficiente. – Ela mesma. – Respondeu mais para si que para o outro, contorcendo o rosto em uma pequena careta. Se tivesse só um pouco mais de controle sobre seu lado artístico, nada daquilo estaria acontecendo e provavelmente, agora, estaria seguindo com sua vida. Pelo menos o rapaz era simpático, concluiu, automaticamente suavizando suas feições.
– É. Se você quiser vender, não sei se vou poder pagar com dinheiro. No entanto, posso servir de assistente, ou algo parecido, até que ache que o tempo que trabalhei equivale ao preço. Sei lá, faço o que você quiser. – O dinheiro era pouco e já tinha deixado suas vontades irem longe demais. Não gastaria sua já pequena mesada com algo tão bobo quanto uma foto. Tinha vários horários livres e, apesar de odiar pessoas em geral, não se via incomodado pelo moreno. – Bom, não é que eu queria assim com toda essa intensidade. Eu só preciso de uma foto dela para… Para um trabalho. – Mentiu, achando que aquela era a saída mais lógica. No entanto, sabia que iria acabar se contradizendo no momento que insistisse na história. – Olha, vou ser sincero. Eu meio que gosto da aparência dela e eu meio que preciso pintar um quadro dela, por causa disso. É esquisito, eu sei. Não estou interessado romanticamente e nem pretendo me masturbar olhando pra foto. Só… Preciso de uma foto dela para copiar numa tela e não sou bom com fotografia. – Falou tudo um tanto quanto rápido demais esperando que fosse entendido. Não era acostumado a expor seus pensamentos internos, no entanto, sentiu-se confiante a fazer tal coisa. O homem perto de si deixava-o confortável, por algum motivo. – Eu não tenho nenhum interesse. É só mais uma menina boba. Agora, a combinação do tom de pele com os olhos dela é algo magnífico. – Calou-se antes de se empolgar demais. Podia passar várias horas divagando sobre esquema de cores. – Meu nome é Hotaru. – Fez uma pequena reverência, esticando sua mão para cumprimentá-lo.
Se seu interesse já parecia grande o suficiente, quando achava que somente poderia divertir-se às custas de um jovem apaixonado sem coragem para falar com sua amada, uma vez que as palavras de oferta de Hotaru se fizeram presentes, as sobrancelhas de Asher solevaram nas expressões mais satisfeitas e, sem que ele tivesse controle, o viés de seus lábios se tornou ainda mais repuxado para a lateral. — Não ligo para dinheiro. — Seus olhos escanearam completamente o corpo do outro, descendo até os pés do rapaz, para que voltassem a se erguer nos olhos repuxados do asiático. Seria esperado que ele disfarçasse a forma de observar, porém a autoestima de Asher era grande demais para que ele considerasse que sua atenção era qualquer coisa menos que um elogio mudo ao outro homem. Chegava a ser adorável a maneira correta com que ele se pronunciava, sucumbindo aos questionamentos do quartanista como se, de qualquer maneira, ele devesse respostas para si. Aquilo se transformou em praticamente um filme diante dos olhos do ocidental, que cruzou os braços frente ao tórax, mantendo a câmera segura por uma das palmas, enquanto seu sorriso insinuante insistia em macular os lábios semiescondidos pela barba cerrada do rapaz. Foi somente quando o estrangeiro afirmou que iria falar honestamente, que Asher meneou a cabeça em uma única confirmação. — Hm. — Tentava esconder o sorriso por trás dos lábios, mas era difícil uma vez que o garoto se mostrava desordenado daquela maneira. A sinceridade alheia, de fato, fez com que um riso açoitasse todo o controle do rapaz, a ponto de estremecer os ombros nos risos visíveis. — Não vai se masturbar pensando nela? — Pendeu a cabeça para a lateral suavemente, ao compasso que, mais uma vez, observava o outro. — Ela não te interessa, então... — A colocação veio mais para si, do que realmente para conversar com o outro. — Hotaru. — Repetiu com o sotaque inglês pesando em suas falas, antes de buscar pela mochila no banco e passar o outro braço envolta dos ombros não pertencentes. — Vamos no meu dormitório, pra eu poder imprimir a foto pra você. — Aumentou o sorriso, ao compasso que passou a caminhar em direção de volta ao prédio em que as acomodações estavam. Apoiou a alça da mochila entreaberta em um dos próprios ombros, ao mesmo tempo em que a outra palma pressionava o ombro do rapaz ao seu lado.
we better work — Asher & Adam
Todas as intenções de protelar os trabalhos devidos até o final de semana vieram a chão uma vez que o professor de linguagem assegurou a necessidade de duplas para a execução do mesmo. Digno de um estudante negligente, Asher não escolheu sua dupla, deixando à mercê da necessidade de algum outro aluno que, assim como ele, precisaria lidar com um companheiro de sala que lhe fosse designado, porém estaria mentindo se afirmasse não estar satisfeito com o rumo que seu risco levou. Já tinha reparado em Adam, um rapaz mais quieto dentro da sala de aulas, aparentemente tímido o suficiente para que fosse fácil de moldar de acordo com suas vontades – como era do gosto de Ash – e, portanto, um parceiro de trabalho agradável. Como não era um aluno com quem Asher se relacionava no dia a dia, pediu para que o mestre lhe entregasse os contatos do rapaz, de tal sorte que facilitaria a possibilidade de um encontro para resolverem suas obrigações. Claro que, apesar de ser exclusivamente profissional, eles não precisavam passar a maior parte do dia trancafiados na biblioteca ou sala de estudos, certo? Asher era demasiadamente livre para que aguentasse passar mais de uma hora aprisionado em ambientes como aqueles. Não obstante, quando enviou uma mensagem para o celular de Adam, não questionou ao pedir que ele se encontrasse consigo nas proximidades do lago do campus. Autoritário, como lhe era de praxe, ignorou quaisquer arguições sobre a disponibilidade do outro aluno, assim como a concordância com o local incomum para estudos. De qualquer maneira, tinha decidido que iria terminar aquele trabalho o quanto antes, com ou sem a presença de seu companheiro. Rumou, por fim, até a região citada na mensagem telefônica, com a mochila nas costas, onde continha não somente um livro sobre o mérito que iriam pesquisar, como também o notebook, caso fosse necessário uma pesquisa maior e, afinal, para que pudesse redigir seus pensamentos. Crente de que seu convite não seria negado, Asher sentou-se abaixo da copa de uma árvore, escorando as costas na mesma para que o aguardo fosse mais confortável, motivo pelo qual, também, ele tinha os fones intra-auriculares dentro das orelhas; mantinha a música baixa, no entanto, para que pudesse avistar o outro, quando ele se aproximasse.
there's a very pleasant side to you — Asher & Hotaru
Toda vez que se encantava com a beleza de alguém, Hotaru sentia a terrível necessidade de pintá-la. Era caso de mantê-lo noites e noites acordado, até que conseguisse de fato colocar tudo que via no papel. Teoricamente, não era algo tão estranho quanto o rapaz fazia soar em sua mente. Seu único problema estava justamente no fato de não achar formas socialmente aceitas e respeitáveis de chamar pessoas, que provavelmente nunca o tinham visto na vida, para serem modelos de um quadro seu. Como convidar alunos para seu quarto sem que o convite tivesse qualquer conotação sexual? Depois de algumas tentativas falhas, desistiu de achar resposta. A boa perseguição, no entanto, parecia oferecer mais resultados. Não virou um total stalker, tomando sempre todo o cuidado para que não parecesse um, mas mantinha-se fisicamente perto da pessoa até que conseguisse uma foto ou alguma forma de guardar sua figura para que pudesse passar para sua tela. Assim que conseguia, praticamente toda a “loucura” sumia e ele seguia normalmente como se nada tivesse acontecido.
A “vítima” da vez era uma garota bem mais velha. Não sabia seu nome ou seu curso. Viu a moça pela primeira vez na terça-feira da semana anterior, fazendo qualquer coisa, já que esse tipo de detalhe pouco o interessava, com várias amigas ao seu redor. Tinha que passar, mais ou menos no mesmo horário, pelo parque para chegar à sala da sua aula seguinte, então sempre que tinha algum tempo de sobra, sentava próximo e tentava capturá-la em seus rabiscos.
Por sorte do destino, havia um homem com uma câmera perto do banco que quase sempre ficava. Tinha quase certeza de que as fotos que o mesmo batia provavelmente tinham participações de sua “musa”. – Moço? – Perguntou, tentando chamar a atenção sua atenção. Não trazia na frase sua habitual confiança e desprezo. Hotaru podia ser simpático, quando queria ser. – Hm, – Pigarreou, visivelmente nervoso. – Será que você poderia me ceder a foto que acabou de bater? Acho que aquela menina loira aparece, – Apontou para a garota, com o polegar direito. – E eu realmente preciso de uma foto dela. Juro que não é para nenhum fim esquisito. – Não via muito sentido em explicar todos os motivos que o levavam a querer a foto. Tomaria bem mais de meia-hora explicando suas preferências estéticas e sabia que no final ainda continuaria parecendo um pervertido.
Não se distraia facilmente. Seus ouvidos ficavam tão alertas quanto as írises caramelos e, uma vez que um dos sentidos ocupados – como era o caso da visão –, o outro parecia se tornar ainda mais prestativos em notar seus arredores. Não obstante, se tornou evidente, para a mente do quartanista, que alguém se aproximava. A reação corpórea inicial foi o solevar da sobrancelha esquerda, ao mesmo tempo em que os lábios voltavam a se moldar naquele sorriso satisfeito, típico do estudante. Foi somente quando a voz alheia lhe invadiu os tímpanos, que o homem abaixou a câmera. Poderia ter se erguido do banco, para conversar mais corretamente com o asiático, porém apenas se virou no assento, olhando-o de baixo para cima em prol de reparar com quem conversava, ali. — Asher. — Apontou para si, em indicação de quem era, ao perceber que o rapaz realmente não o conhecia e que, automaticamente, também não tinha consciência de quem ele era. Se tornou evidentemente interessado pela confusão e vulnerabilidade demonstrada pelo aluno desconhecido, o que justificou a aparição dos dentes alvos naquele sorriso canteiro, incrivelmente sugestivo, ainda que fosse somente seu formato usual. Foi com as colocações do rapaz, que desviou a atenção para a tal menina loira e lembrou-se de todas as imagens que tinha da mesma, dentro da máquina fotográfica. — Aquela menina, uh? — Indagou baixo, de tal sorte que demonstrasse as brincadeiras que proviriam dali. — Ceder a foto...? — Se sentiu suficientemente intrigado, portanto ergueu-se. Deixou a câmera entre as próprias mãos, manuseando-a como forma de distração, ao passo que os olhos vagavam pelo outro. — Por que você quer tanto assim uma foto dela? — Voltou a olhar para a aluna, que parecia tão inocentemente distraída. — 'Tá interessado? — Se aproximou do outro, quando voltou a observá-lo, sem realmente invadir o espaço pessoal não pertencente. — Qual seu nome? — Encontrara, enfim, um motivo para que não precisasse se sentir com peso na consciência em procrastinar.
I screwed up so bad.
there's a very pleasant side to you — OPEN
Era certo que sua mente estava sobrecarregada de afazeres. Os dois cursos em somatória com o clube do livro parecia trazer pouco tempo livre ao estudante que, apesar de tudo, tinha as expressões serenas e sempre um sorriso agradável para quem lhe cumprimentasse pelos corredores. Sua mochila pesava sobre um dos ombros, contendo não somente livros, como a câmera semiprofissional que ele carregava para todos os lados. Seu trabalho semanal era fotografar luz e sombras, porém o interesse pelo mérito não parecia abrigar a mente livre do quartanista. Ao contrário das expectativas para o cumprimento de suas obrigações estudantis, ele seguiu até o jardim externo da universidade, buscando deparar-se com algo que lhe fosse suficientemente distrativo, ou até mesmo alguém que conseguisse entretê-lo. Uma vez que do lado de fora, a tez clara foi agraciada com a temperatura mais baixa de final de ano. Seu apreço por dias mais frios vinha tão forte quanto o desejo de procrastinar suas tarefas, destarte tudo parecia se moldar em uma desculpa perfeita para que não ficasse trancafiado do lado de dentro, no estúdio de fotografia, usando maçãs ou cubos como seus modelos. A boca, que repuxava naturalmente para a lateral, teve ainda maior incidência aquela curvatura, mantendo as arcadas peroladas escondidas por trás dos lábios, ao passo que se aproximava de um dos bancos. Primeiramente, a mochila foi dispensada sobre o mesmo, para que somente então o estudante se sentasse ao lado desta. Retirou a câmera de dentro da bolsa, movendo os dígitos sobre os botões para que adaptasse as lentes ao clima frio que se fazia, melhorando a possibilidade de imagens, se fosse se dedicar a fotografar as pessoas que pareciam tão adoravelmente distraídas. Eram seus modelos favoritos, afinal. Pessoas. A maneira como eles sequer notavam estarem sendo observados dava uma sensação de poder para o garoto, portanto dedicava a maior porcentagem de seu trabalho àqueles pegos desprevenidos. Não foi diferente, daquela vez. Ao erguer sua câmera e encaixar um dos olhos no visor, seu flash se fez contra um dos estudantes mais distantes.