Sempre gostou de se considerar uma pessoa fria e reservada. Suas palavras costumavam sempre possuir sarcasmo e cinismo, aliados a uma expressão de desprezo pela maior parte das coisas que via. Era arrogante e orgulhoso, embora soubesse bem que eram fraquezas que haviam proporcionado sua queda uma vez… Não pretendia deixar que se repetisse, sabia que deveria mudar seu jeito, mesmo que fosse difícil. Poderia ser um criminoso, mas deveria tornar-se um pouco mais refinado, mais sincero, talvez. Assim como estava sendo com Clio, a única pessoa capaz de arrancar palavras e ações verdadeiramente honestas de Vaugh Huang. Ele ouviu atentamente, escurando as batidas do coração dela e a respiração ofegante. E quando a loira por fim finalizou suas sentenças, o lobo sentia-se apenas derrotado, porque não tinha uma resposta para aquilo. Nada iria mudar. Não poderia contar a ela sobre sua verdadeira natureza ( certamente o acharia maluco ou então o desprezaria). Ainda sentiria o que afirmava sentir que soubesse que era um lobisomem? Pior, se soubesse que os boatos eram verdadeiros e que era um criminoso fugitivo, responsável por mortes e tráfico? Fosse humano ou fera, ambos os lados eram assustadores e Vaugh não queria exibi-los para Clio. Desejava que ela mantivesse as boas lembranças e os presentes, que se recordasse dele com carinho, não como um bandido ou lunático. Os segundos se passaram, o silêncio parecendo esmagar Vaugh com sua pressão. Ele não sabia o que falar, mas sabia o que desejava fazer. Estava incerto, mas queria… Gostaria de novamente sentir o gosto de Clio em seus lábios, portanto se aproximou devagar, abaixando-se de modo a encostar a boca na dela de forma suave, muito consciente de que não era o lugar ideal e de que poderia ganhar um tapa na cara. Não era de seu feitio ultrapassar os limites, invadir espaços sem ser convidado, mas no caso dela, no fundo, bem no fundo, debaixo de várias camadas de orgulho, ainda a considerava como seu território. Humanamente, sabia que o casamento estava acabado e que não significavam mais nada um para o outro, mas seu lado primitivo e selvagem possuía a necessidade de marcá-la de alguma forma, reivindicar Clio para si. Talvez deixar seu cheiro impregnado nela fosse um começo. Movimentou seus lábios devagar, a língua explorando e percebendo que nada havia mudado. Ainda era Clio, o mesmo cheiro e gosto, o sabonete misturando-se ao perfume e ao aroma natural que era apenas dela, uma combinação perigosa demais quando se estava tão perto. Uma das mãos alojava-se de forma suave ao lado do rosto dela. Não queria segurá-la ou forçá-la, apenas estar em contato com a sua pele quente… Vaugh então abriu seus olhos, se afastando para observar a face de Clio. “Desculpe-me.” Pediu, mantendo o tom utilizado anteriormente. “Desculpe-me, Clio, eu…” Não havia desculpas, respostas ou qualquer outra coisa que explicasse seu comportamento, nada além do fato de que Vaugh apenas quisera. Era incomum que ficasse sem palavras e detestava o sentimento de vulnerabilidade que se seguia com aquilo.
˙ ˖ ✧ — Apenas depois que disse aquelas palavras percebeu o peso que elas haviam tido. Primeiro, teve noção que havia admitindo ainda ter sentimentos pelo ex-marido, algo que ela não fizeram nem para si mesma, quanto mais externalizado. No dia a dia, ela sequer falava dele evitando reviver memórias dolorosas, apenas se limitando a breves comentários comentários o assunto surgia a tona. Já havia perdido a conta também das inúmeras vezes que Dália havia falado para esquecer aquele assunto e fingir que o homem sequer existia. Mas, agora, sabia que aquilo era uma idealização muito longe de ser a realidade. Mesmo que nenhuma palavra estivesse sendo dita naquele momento, ao olhar o rosto do outro sentia a mesma intensidade ardente da paixão que tinha de quando o conheceu e de quando o casamento começou. Conhecia cada centímetro daquela silhueta e rosto que tantas vezes passará analisando e guardando a memória na mente, esperando que nunca a deixasse. Ao olhar nos olhos que tanto amava, qualquer dúvida sempre desaparecia. Mesmo que o fim do casamento tivesse sido as mentiras e aparente falta de confiança um do outro, a coisa que mais machucava Clio, não era exatamente isso que a magoava. O que a machucava era ver o peso naqueles olhos que tanto amava, a dor de ter que esconder alho talvez nocivo, dela sem que ela pudesse fazer nada para ajudar. Era o fato de se sentir afastada de novo, como uma vez fora em Pixie Hollow pela sua irmã e, especialmente, não poder estar lá pela pessoa que amava. Sentia aquele mesmo pesar ali agora, ainda mais reforçado pelo silêncio que se instaurou com suas palavras. Segundo, se ainda podemos continuar a análise, o tal silêncio foi o segundo aviso sobre o choque que as palavras haviam causado. Apertou os lábios, esperando que ele falasse alguma coisa, brigasse com ela, se assim desejasse, mas que não a encarasse daquele jeito. Não com aquele tamanho pesar. "Diz alguma coisa..." Murmurou o pedido em um tom mais baixo e íntimo do que os outros, sem saber exatamente como serias as coisas agora, muito menos como ligaria com esse fato e aqueles sentimentos caso ele fosse embora da Golden Dust agora mesmo. A aproximação causou uma reação no corpo da loira, que logo se preparou pelo que estava por vir, incerto, mas ansiando por qualquer coisa que o outro fosse lhe oferecer. O choque voltou para si ao sentir aqueles lábios nos seus novamente, com cada centímetro e cada movimento ainda lhe sendo tão familiares e, ainda sim, padecendo ter saído de um sonho distante. Não demorou muito para que cedesse ao avanço, como uma reação natural de si, que inconscientemente desejava aquilo. Afinal, ainda lhe era tão familiar que se tornava quase orgânico ir de encontro à ele, sendo puxada como um imã pronto para se juntar ao seu outro polo. O toque em seu rosto fez que qualquer barreira caísse imediatamente. Mal sabia o que estava disposta a fazer se ele não tivesse se separado tão abruptamente, deixando a loira como se estivesse sendo deixada sozinha no frio. Mal falou nada ou teve qualquer reação enquanto olhava o rosto de Vaugh enquanto ele se desculpava pelo incidente. Qualquer palavra do tipo parecia apenas um ruído distante em sua cabeça, apenas concentrada do rosto. Tão organicamente quanto havia retribuído o primeiro beijo, aproximou-se novamente e se ergueu na ponta dos pés, tomando tanto o rosto quanto os lábios do moreno para si mais uma vez, esboçando no beijo todo desejo que sentia naquele momento. Desejo por ele. De tê-lo consigo e para si. Mal raciocinava ou pensava em outra coisa que não fosse ele naquele momento. Estava ocupada de mais se perdendo na boca do outro e quem podia a culpar? Era natural ao ter o corpo tão familiar junto ao seu, sentindo as mãos percorrerem seu rosto, sentindo o calor tão acolhedor do corpo alheio e o cheiro do outro se unindo ao seu mais uma vez, até que qualquer diferenciação entre os dois fosse mero detalhe.