Autumn representava um perigo para Jonathan, e o filho dos Malfoy soubera daquilo desde o primeiro momento em que conhecera a garota, a mandara embora, e ela insistira em ficar. Acostumado a afastar todos de si, enxergar ali alguém bater o pé e continuar do seu lado, a despeito do quão mal-educado Nathan fosse, fora algo curioso. E que, anos mais tarde, seria lembrado como a melhor coisa que poderia ter acontecido no passado do rapaz.
Atualmente, porém, Nathan ainda vivia em contradição sobre como se sentir em relação a Dolohov, e era essa falta de certezas que a caracterizava como um enorme perigo. Ela, com seus cabelos ruivos e teimosia, era uma ameaça vital para sua incapacidade de sentir, pois ao lado de Autumn, Jonathan sentia tudo. De uma maneira potencializada, e fora do seu alcance ou controle. Com ela as brigas eram mais ferozes, as palavras eram mais ríspidas. E quando ambos se afastavam ou o rosto delicado da menina mudava para uma expressão de tristeza, vinha o maior dos sentimentos: O de dor, de arrependimento. De culpa por ter causado raiva em alguém que não merecia as constantes explosões de Malfoy.
Ele nem sequer sabia por que brigava tanto com Autumn. Talvez fosse seu interior ruim, sua alma negra e manchada, insistindo em ainda tentar fazer com que ela fosse embora. Mas ela ficava, e Jonathan não sabia lidar com aquela clara demonstração de carinho. De que alguém, não importava da forma como fosse, gostava dele. E indiferente a qualquer relação amorosa graças ao fracasso familiar com seus pais, Malfoy simplesmente não sabia como responder, e retribuía então com o único sentimento que um dia conhecera: O de raiva. Ele retrucava e ela respondia de novo, então seu interior dizia para brigar mais, para ver até onde ela aguentava, para afastá-la antes que a coisa ficasse pior. Mas então ela ia, ou sua angústia lhe fazia se afastar por conta, e tudo parecia pior. Brigar com Autumn era horrível, mas ficar sem ela era pior ainda.
Daquele modo, a relação deles caminhava entre ovos. Entre comentários ácidos e crises de irritação que curiosamente acometiam Jonathan sempre que a amiga estava perto de pessoas que ele não gostava. Era como se a ira explodisse dentro do sonserino, e ele desejasse ir até lá e puxar Dolohov para longe, brigar que ela tivesse encantado outros com sua personalidade morna, com seus raios de sol outonais prontos para derreter o gelo da chegada do inverno. Contudo, ao mesmo tempo, Malfoy sabia que aquilo era inútil e abusivo, e assim enterrava-se de novo em seu desgosto.
Ali, as coisas eram diferentes. Não havia ninguém entre eles. Primos, garotos, garotas. Ex-namorados ou casos de uma noite. Eram apenas Jonathan e Autumn juntos em uma festa. Prontos para dançar.
O loiro sabia que devia aquilo a ela. Que provavelmente devia até mais, porém como tudo mais que havia acontecido entre eles, deveria seguir devagar. Um passo por vez. Se já era difícil lidar com a aproximação dela, e o que a mesma causava, anos após de terem se estabelecido como uma improvável dupla, o que faria se as coisas mudassem de repente? Seria incapaz de pensar, e por não desejar perder as rédeas de sua consciência naquele momento, resolveu ir um jogo novo por vez. Por sorte, Dolohov concordaria.
No instante em que sussurrou a pergunta, os olhos verdes da ruiva buscaram os castanho-esverdeados do sonserino, e Nathan quase riu baixo da expressão confusa dela. Sabia que ela estava estranhando sua pergunta, afinal, desde quando Malfoy a chamava para dançar? Mas eles estavam em uma festa e, se haviam concordado em chegar até ali, então Jonathan se esforçaria para seguir a programação completa. O sorriso que precedeu a resposta positiva dela trouxe uma falha significava nos batimentos cardíacos do loiro, o suficiente para fazerem seus dígitos afrouxarem dentro do bolso do paletó, tão desconhecida era aquela ocorrência no mundo frívolo de Malfoy. No entanto, não era hora de analisar significados.
Movendo sua face em um movimento suave de concordância, desfez o encaixe de seu braço no dela, escorregando o palmo, por sua vez, até a cintura da garota, sempre em toques leves e vagarosos, para que os passos os colocassem de vez em um pedaço da pista de dança. A música era agradável e as luzes baixas criavam um efeito interessante sobre os ocupantes daquela área, como se tudo conspirasse para fazer aquela possibilidade real.
Nathan, já com um palmo encaixado na cintura de Autumn, cuidadosamente tomou a mão livre dela na sua, e com os olhos fazendo ponte com os da garota, iniciou os passos à medida que sussurrava. “E um, dois, três… Um, dois, três…” A voz ditou apenas o início do ritmo, pois logo seus passos continuaram por conta, revelando uma habilidade que mantivera guardada por ter nascido dos costumes dos pais, mas que ali deveria ser colocada em prática. Em seus lábios havia um leve sorriso, como se nem mesmo Jonathan acreditasse no que acontecia, mas ele reconhecia que aquele não era um plano metafísico, e sim atual. Eles estavam dançando.