UM BRINDE ÀS CHEGADAS
Eu estou desse lado de dentro da vida.
Bem aqui no fundo escondida.
Observo as pessoas irem e virem, sempre nas pontas dos pés para não avisarem quando chegam ou quando partem.
Mas eu sempre sei.
Eu sinto o cheiro das chegadas mas muito mais das partidas. É como um cheiro de chuva. A terra fica molhada, carregada. O ar fica seco. As janelas úmidas e embaçadas. Não pode ser a hora de uma chegada.
As chegadas têm sol, cheiro de flor e histeria. E quem diria. Quando ela chegou nem tinha sol mas tinha um mundo inteiro esperando por ela.
E eu aqui da janela contei cada passo que a vida deu até trazê-la pra mim. Numa noite comum assim.
As chegadas são como campos inteiros cheios de bomba. Um movimento, uma explosão. Um barulho ensurdecedor, uma corrida com os pés flutuando. É um barco sem marinheiro navegando. Tudo que acontece é surpresa. E eu tenho a certeza de que não há nada mais empolgante e colorido do que isso.
Eu sou refém das chegadas. Mesmo que elas não avisem, eu as espero por toda parte. Eu as convido. Eu as preciso!
Em alguma lugar de mim, em cada partida que me incita, há um sorriso que vibra disfarçadamente esperando pelo cheiro de flor. E eu mesmo de costas, de porta trancada, de olhos fechados e com a música alta eu a escutei chegar.
Com a leveza e com um cheiro de mar, eu só pude reparar o sol que brilha nos olhos dela. Ela espalha e multiplica a energia da chegada que me inunda. Ela abre espaço em meio a mata sem esforço, com um sopro. Ela guia o controle de coisas que já me haviam sumido do eixo com a doçura de um pudim. E ela sim.
Ela sim da vida e personificação ao sabor doce da chegada. Ela da cor ao entusiasmo de se sentir vivo de novo.
Ela traz a gritaria para o silêncio das frustrações que se empilharam em cima da minha cabeça. Ela põe a mesa.
Nada poderia me abraçar tão suave e me fazer tão mais do que a chegada dela.
E toda a sequência viciosa de quase que inconscientemente guardar um assento ao lado para a partida, dá lugar a um confortável colo no peito dela.
Quente, com cheiro de flores, sem hora e sem medo do depois.
Sem sinal de partida, sem cheiro de chuva, sem ar seco.



















