Na noite do dia 11/12/2023, a conta oficial da primeira-dama foi hackeada e utilizada para publicação de ofensas, fake news, xingamentos e conteúdos pornográficos. Ao presenciar tais absurdos em tempo real, me peguei refletindo sobre a inexistência de tipificação do crime de ódio contra mulher, a falta de regulação das redes sociais e como mulheres na política são brutalmente tratadas. Nesta postagem, vou ater-me ao último ponto.
A misoginia dirigida a mulheres envolvidas na política, incluindo a primeira-dama Janja, muitas vezes reflete preconceitos de gênero enraizados na nossa sociedade, ocorrendo principalmente por estereótipos, sexismo e resistência a papéis de liderança feminina.
Quando uma mulher desafia as normas tradicionais de gênero e se destacam, assumindo papéis que há muito tempo foram-lhe negados, por vezes enfrentam críticas que vão muito além do campo ideológico. Esse ódio não se escora somente nas discordâncias políticas, desinformações ou resistência a mudanças sociais, elas vêm carregadas de muito machismo e ideias falidas. O processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff em 2016, é um exemplo claro do preconceito de gênero e retórica misógina.
Conforme a professora da área de Estudos Linguísticos da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) Perla Haydee da Silva, autora da tese de doutorado De Louca a Incompetente: Construções Discursivas em Relação à Ex-Presidenta Dilma Rousseff, ao analisar comentários em que a petista era citada na página do Movimento Brasil Livre (MBL) na rede social Facebook, era possível perceber que existiam três principais eixos: O questionamento da capacidade mental e intelectual de Dilma (com termos como “burra”, ou “louca”), o de colocar como pauta a vida sexual da presidente (a chamando de “prostituta”) e o de categorizá-la como “nojenta”.
Dilma Rousseff durante sessão de julgamento do seu impeachment no Senado disse: "Tem sempre um componente de misoginia e de preconceito contra as mulheres nas ações que ocorreram contra mim".
Ela não estava errada. Assistimos de perto os votos e os motivos dos parlamentares.
Corta para 2023 e aquela que foi achincalhada de ignorante e incapaz, hoje, recebe “Mulher Economista 2023” pelo sistema Cofecon/Corecons, que reúne o Conselho Federal de Economia e os Conselhos Regionais de Economia.
Enfim, independente do gênero, sexo, cor e etnia, todas as pessoas que ocupem um cargo de tamanha relevância, seja na presidência, ou como primeira-dama, estão sujeitas às críticas e assim sempre será. A principal questão (ou inquietação), é ser desacreditada, desumanizada e violentada por ser mulher.
A criminalização da misoginia, a conscientização de que isso existe e é socialmente prejudicial, são cruciais para promover a igualdade de gênero, pois garantem que as mulheres participem plenamente no processo político e não tenham medo de expor as suas opiniões. Isso contribui para a diversidade de perspectivas, promove políticas mais abrangentes e constrói sociedades mais justas e equitativas.
https://www.cnnbrasil.com.br/politica/pf-caso-janja/
https://www.brasildefato.com.br/2021/04/17/5-anos-do-impeachment-entenda-o-papel-do-machismo-no-processo-contra-dilma-rousseff
https://www.poder360.com.br/economia/dilma-e-eleita-mulher-economista-2023-por-conselhos-de-economia/