Na estação Roma-Areeiro voltou a ouvir-se o deslizar das rodas sobre o pavimento, as pranchas a virar, o praguejar dos rapazes, a voz do Rodrigo que Leonor, ouve por cima de todas as outras, as manobras dos skates, flips, grabs e um vento que corre no fim de tarde de outono. É outono. Um sossego, até parece que vai chover.
Rodrigo partiu para o Algarve de carro com o pai e a Cheila, que responde quando lhe chamam Chila, como em Sheila à inglesa mas com C, uma radiologista de 29 anos, que no dia 7 de Agosto, já seguiu bronzeada para as férias na praia, num cor de laranja intenso mas com umas auréolas claras à volta dos olhos, como se fossem o negativo de olheiras. Os três minutos que demorou entregar Rodrigo ao pai, na bomba de gasolina encostada ao prédio, deram a Leonor tempo para reparar na cor da pele, no macacão de padrão largo que ela trazia vestido, no qual iria aparecer fotografada várias vezes nos dias seguintes e na pena de pássaro exótico que lhe saía do meio da cabeleira despenteada, uma espécie de teréré apache para adultos. Sheila com C. exibia um ar surpreendentemente fresco para uma manhã de domingo, abrasadora ainda que nem fossem nove da manhã. “Não atrases o teu pai e a tua madrasta”, tinha dito Leonor, com gosto ao chamar-lhe assim, madrasta, por isso, a despedida foi rápida, abraço, querido, saudades, tem juízo, manda mensagens. Leonor entrou de novo no 56 , da Avenida Frei Miguel Contreiras, segundo andar, apartamento remodelado, cozinha equipada, varanda ampla para a linha de comboio, boa exposição solar, para onde se mudara no divórcio, ainda nem havia um ano e fechou a porta. “A tua mãe não gosta de praia, não é Rodrigo”, deve ter perguntado Sheila com C. por altura de Grândola, ao que ele nem terá respondido, no carro apenas se ouvia a RFM, só grandes músicas, “quem é que não gosta de praia, não é amor”, disse Sheila com C. a ela própria, afagando a perna do condutor, o pai.
Nessa noite, Leonor abriu as portas da sua pequena varanda, onde se sentou de pijama, com o calor que a agredia, que a pesava, que a fazia suar mesmo de noite, numa avenida só com os turistas do Hotel Roma e do Lutécia. No verão os sons estalam secos e pequenos de noite, ficam, a temperatura e o fraco vento não os levam para longe, e daí surgiu-lhe o som do rolar de rodas no pavimento, ruídos familiares da prancha a bater no chão. Um rapazinho, pouco mais velho que Rodrigo, treze anos, catorze anos, andava de skate no acesso à estação de comboio, sozinho, de cá para lá, cabelo espigado, ele também espigadote, desajeitado nas manobras, lento. Naquele sítio, há muitas vezes rapazes de skate, um deles o Rodrigo, mas naquele nunca tinha reparado, este que naquela noite de verão insistia nas manobras que não conseguia fazer.
O verão pôs-se tão quente. Agosto como não há muito tempo não havia, no Algarve sucediam-se levantes vindos de Gibraltar, do Norte de África, o mar com ondas, cálido como antes, antes quando a temporada de praia de Leonor durava seis ou sete semanas, dias de praia com a mãe seguidos de dias de praia do pai, um esquema de roulement que eles adoptaram durante largos anos logo após o divórcio. Alugavam a mesma casa durante mais de um mês, os filhos permaneciam e eles mudavam. Entrava um, saía o outro, numa espécie de turno de parentalidade que era suposto ser cómodo para os miúdos, diziam eles. Os miúdos esses, obrigados às alegrias do verão em loop, acumulavam escaldões, perguntas, “então, o teu pai vai mudar de casa?”, “a tua mãe não te comprou um par de ténis para vires de férias?”, idas duplas à Fatacil, à feira da cerveja em Silves e horas dentro do carro na 125 com o asfalto a largar ondas de calor. Leonor recorda um dia bom, em todos esses verões. O dia em que, por alguma razão, pai e mãe se desencontraram e durante uma tarde, ela, quinze anos, o irmão onze, ficaram sozinhos, desprovidos de guarda na casa das férias, a verem aterrar e levantar os aviões do aeroporto de Faro, mesmo ao lado da ilha. Leonor pensou que agarrava na mão do irmão e fugiam para um sítio no Norte, frio, algures na Lapónia, num voo directo, de chinelos, sandálias do peixe-aranha, calções, t-shirts, a desembarcarem em Helsínquia, Reiquiavique ou mesmo no Alasca.
Esse mês interminável de praia passou a ser um desconfortável estado de felicidade. “A namorada do pai gosta muito de praia e de sol e de banhos, sabes mãe, diz que se pudesse ficava lá para sempre.” Tinha dito o Rodrigo uns dias antes. Leonor não lhe respondeu que para sempre é uma quantidade infinita de horas de exposição solar, as rugas, o risco de cancro de pele, além de que o sol se torna um vício, porque estimula a produção de endorfinas, fica toda a gente bem-disposta, não é porque sim, é uma reacção química semelhante a uma dose de heroína e desatam a tirar fotografias aos pés e ao pôr do sol, ao nascer do sol, ao prato do peixe, às espinhas do peixe. Teria rematado, “Na realidade, Rodrigo, vais passar férias com uma toxicodependente” mas terminou com uma anuência. Os primeiros dias correram dilatados em tardes de pouco trabalho no laboratório de análises porque ninguém quer saber se está doente em Agosto. Nas noites desses dias, de pijama na varanda, ouviu o tic tac do skater no acesso à estação. O rapazinho a fintar a inépcia com este tempo, ela descalça na varanda, sem fintar nada, Sheila com C. a estrear pareos e saídas de praia. Não tardou que o facebook de Rodrigo se enchesse de fotos onde Sheila com C. o identificava no meio de um grupo de gente cor de laranja como ela, entupidos em overdoses de raios UV, os miúdos juntos na praia, hashtag omelhordenós, hashtag wearefamily, hasthtag bestsummerever, hashtag felicidadeincomparável, grupeta linda escrevia alguém nos comentários, hashtag alltogether, casais, filhos, amigos, Leonor não reconheceu mais ninguém e numa dessas noite, seria talvez já quinta-feira, teve vontade de escrever as suas próprias etiquetas naquelas fotos, discussões conjugais, cartões de crédito a rebentar, crianças mal-educadas, manhãs de ressaca, hashtags #paresdecornos #gino-canesten #gonorreia #candidiase #celulite #dietadopóvoas #creditopessoalcofidis . Atirou o telemóvel para cima do sofá, desligou a televisão onde a Madeira ardia, vagueou pela casa à procura de um sítio ameno, abriu o frigorífico de onde se serviu de água gelada. As prateleiras mais vazias, também o interior do frigorífico parecia ter-se pirado para a praia, uma embalagem com restos de frango assado da Avenida da Igreja, um pacote de salada pré-lavada, pickles, maionese, ketchup, leite magro, uns iogurtes com cereais de chocolate a passar de prazo, gelatinas, ovos, uma garrafa de vinho branco aberta e uma grande melancia já encetada. Sentou-se no chão, encostou a testa a uma das laterais da porta, depois as maçãs do rosto sentindo o seu frio, devagar escorregou para o chão, deitou-se de costas sobre o pavimento da cozinha, ergueu as pernas, com os pés empurrou a grande melancia para o lado, encaixou-os bem numa das prateleiras e fechou os olhos. Sentiu-se arrefecer, a planta dos pés, os dedos, os tornozelos, desceram alguns graus, imaginou as noites de verão em Helsínquia, Reiquiavique ou mesmo no Alasca, noites polares onde o sol quase que não se põe, frias, gélidas, geladas que confortam. Podia fotografar agora os seus pés e pô-los no facebook hashtag felicidadeincomparável, hashtag bestsummerever, hashtag omelhordemim. Um silêncio refrigerado pairava na casa, no prédio, apenas ao longe um som novo, fresco, uma prancha a rodar sobre ela própria, um miúdo a assentar os seus dois pés sobre ela, sem cair, como se patinasse no gelo, a conseguir o primeiro flip no skate.
Novembro, a noite começa cedo. Pelas seis da tarde já é escuro e na plataforma de acesso à estação, um grupo de rapazes corre atrás dos seus skates, a tentar, a conseguir e a falhar manobras. Os carros passam na Avenida, Leonor ouve a voz de Rodrigo entre os miúdos. O outono é sempre certo a seguir ao verão, é um consolo. Flip.