Júlia e Fernanda se encontraram pela última vez na quarta. Foram no cinema, e depois passearam por Botafogo. Foram em livrarias. Conversaram sobre o filme que viram. Andaram a esmo, sem saber muito o que fazer depois. Fernanda percebeu que Júlia estava meio quieta. Não riu tanto naquele dia. Falou pouco em geral.
Júlia gostava de dissertar sobre os filmes que via.
Fernanda não se importou muito inicialmente, afinal, não era a primeira vez que Júlia se comportava estranha. Ela não tentou descobrir o que conflitava Júlia, mas não porque não queria; Júlia nunca se abria. Mesmo sendo amigas há anos, Júlia ainda era um enigma para Fernanda em certos aspectos. Quando digo certos aspectos, quero dizer tristezas de Júlia. Eram assuntos inexistentes. Se existissem, eram sigilo. Depois de um tempo, Fernanda desistiu de tentar conhece-los. Deixou Júlia e suas agonias em paz (mesmo não sendo esse o melhor termo).
Júlia andava ausente, e demorou um tempo até Fernanda perceber. Aos poucos, as mensagens de Júlia (sempre respostas às mensagens de Fernanda) encurtaram-se, tornaram-se mais secas, até desaparecerem por completo. “Não sei se quero sair hoje.” tornou-se “Não sei se quero.”, que tornou-se “Não sei.”, que tornou-se “Não.”, que eventualmente não tornou-se em mais nada, só um silêncio infinito. Após duas semanas desde a última vez que saíram juntas, Júlia parou de responder as mensagens de Fernanda.
Fernanda primeiramente sentiu-se ultrajada. Achou que Júlia estava sendo rude, e decidiu ser rude também. Parou de mandar mensagens pra Júlia. A Guerra Fria durou pouco mais de uma semana. Fernanda achou que estava sendo infantil, e começou a se preocupar. Júlia não dava sinais de vida desde a última mensagem respondida. Não respondia mensagens. Não atendia o celular. Não atualizava o seu status online. Havia sumido completamente.
Fernanda decidiu visitar Júlia. Era uma quarta-feira à noite. Fazia vinte e oito dias que Fernanda e Júlia não se viam, mas parecia mais tempo. O pai de Júlia atendeu a porta. Comentou que estava feliz por Fernanda ter os visitado. Disse que Júlia estava trancando-se no seu quarto há muito tempo, e agora deu dessa ideia maluca de não sair de casa nem pra ir ao mercado. A mãe de Júlia também estava muito feliz de ver Fernanda. Ela tinha um enorme carinho por Fernanda. Ela estava terminando de fazer o jantar, e disse que em trinta minutos estaria tudo pronto. Convidou Fernanda para jantar com eles. Disse que talvez assim Júlia decidisse sair do quarto e comesse alguma coisa. Antes de ir ver Júlia, seu pai avisou a Fernanda que o quarto de Júlia estava meio bagunçado. Ela disse não se importar.
Fernanda abriu lentamente a porta do quarto e ouviu o barulho de papéis sendo empurrados e amassados. Olhou para trás da porta e viu folhas e mais folhas de papéis amassados, rabiscados ou não. Bem a sua frente, estava Júlia, deitada de costas, encarando a janela fechada pelas cortinas. Fernanda sentou na cama e começou a acariciar Júlia, falando que estava com saudades e perguntando por que Júlia estava tão sumida. Júlia não reagiu. Respirava lentamente. Ou melhor, nem parecia respirar.
Fernanda levantou e mexeu na mesa de Júlia. Encontravam-se vários papéis riscados. Alguns com textos, outros com desenhos estranhos e aleatórios: espirais, triângulos, quadrados. Repetidos várias e várias vezes. Alguns livros estavam empilhados na mesa, outros estavam jogados no chão. Estava tudo realmente uma bagunça. Mexendo nas folhas, Fernanda encontrou algo brilhante e volumoso embaixo delas. Várias cartelas de remédios. Cerca de dez. Todas vazias. As caixas jogadas no chão, embaixo da mesa. Primeiramente, Fernanda não estranhou. Sabia que Júlia tomava remédios. Mas depois percebeu que não eram os remédios que Júlia normalmente tomava.
Fernanda voltou à cama, agachou-se e cutucou Júlia perguntando sobre os remédios. Dessa vez, estava encarando Júlia, só que Júlia estava de olhos fechados. Fernanda precipitou-se, e começou a se desesperar. Balançou Júlia, que não reagia. Levantou-se e foi correndo a cozinha, pedindo a ajuda dos pais para ver o estado de Júlia. O pai, que estava começando a arrumar a mesa, mexeu-se desesperado e derrubou um copo no chão. A mãe deixou o arroz no fogo. Foram todos ver o estado de Júlia, que não regia.
Mesmo ali, deitada na frente de todos, Júlia aparentava-se ausente.
Mesmo depois da chegada dos médicos, Júlia ainda parecia ausente.
Mesmo nos momentos de felicidade disfarçada, Júlia estava ausente. Naquela noite de quarta-feira, vinte e oito dias depois de Júlia ir ao cinema com Fernanda pela última vez, Júlia mostrava-se verdadeira a todos pela primeira vez em muito tempo.
Seu rosto, sua imagem. Júlia foi sempre ausente. E, mesmo aparentando-se ausente naquela última vez, Júlia se apresentou presente.
Ela nunca mais andou ausente.