Era a quinta vez que ela ouvia a mesma música que você fez para ela, mas era a décima oitava que tentava escrever e se não estou errado era para você, já que ela sempre escrevia para você nas noites de insônia que estranhamente eram constantes.Então no dia seguinte, provavelmente no caminho para a escola ela me entregava com um sorriso forçado e dizia coisas que não queria dizer e perguntava coisas que já sabia, mas era tudo sobre você. Se cresci nas suas sombras e fui totalmente usado como um informante seu, me atrevo a dizer que começou com ela.
As vezes te culpo por ter ido embora desse jeito, digo, mostrando pro mundo todo que só falaria comigo, só me amaria, só estaria por mim.Era recíproco até eu sentir aquela raiva toda, até eu tentar te procurar pelo Rio de Janeiro todo após as dez da noite, o que para muitos é considerado suicídio eu fiz por você por três noites com 30 reais no bolso, dinheiro que roubei de você, sei que não se importa.Mas não te achei o que me deu ainda mais raiva.Eu fui até Campo Grande e a única coisa que ganhei de você foi uma carta, um bilhete num post-it encontrado na casa do Joaquim duas semanas depois.
Caso você não se lembre querido irmão, estava escrito a seguinte frase:
"Papai me bateu de novo, cansei.Vou viver do meu jeito agora. Quem sabe a gente se esbarra?
Se cuida pirralho e nunca deixe aquele velho encostar em você"
Então eu surtei pela primeira vez.Eu gritei com ele e cuspi em sua cara de que tudo era culpa dele, que você tinha ido embora, pois tinha medo dele.Culpei suas bebedeiras, os olhos roxos da mamãe, as contas atrasadas e é claro a sua ida.Disse tudo o que sempre quis dizer por sua causa, poderia até agradecer se o cinto de couro dele não machucasse.Se os socos em meu rosto não tivessem sangrado ou se a mamãe não tivesse se metido e levado um tapa na cara.Do jeito que os policiais fazem com os maconheiros.O tapa foi igual, a força foi igual, mas eu não abaixei a cabeça ou fugi como você.Eu fiquei com tanta raiva que soquei seu olho direito, porém ele não estava bêbado naquele domingo.Engraçado né?Papai estava sóbrio num domingo a noite, pena que você não estava lá para comemorar conosco.
Ou quem sabe para para-lo, dizê-lo que eu não aguentaria mais de três chutes na barriga e desmaiaria naquele chão frio da cozinha.
Acordei em sua cama na tarde seguinte com os gritos de papai.Achei que ele fosse bater na mamãe de novo então tentei correr, mas eu não consegui levantar, tentei gritar no entanto saia fraco.Me taquei no chão e fui levantando enquanto me arrastava.Complicado...me senti tão humilhado e quando cheguei na sala ela chorava de uma maneira tão absurda, chorava de soluçar então ela se virou, viu me rosto confuso e disse:
"Meu bebê, seu pai vai nos deixar,ele tem outra família."
Eu até tentei chorar em respeito a figura materna presente na sala, mas não saiu nada além de um suspiro.
Pensei em correr para o quarto, pegar o celular e te ligar.Avisar que já podia voltar para casa e que estava tudo bem.O Monstro havia ido embora.Mamãe estava mais tranquila, finalmente pôde voltar a trabalhar, no entanto ainda parecia chorar por ele.Ainda parecia sentir sua falta e sem querer te deixar mal.Ele era muito mais importante para ela do que você. Caso te machuque pense nas coisas que ela já passou antes de dele...é o que tento fazer para amenizar essa dor de não me sentir verdadeiro amado pela minha própria mãe.
Ele era muito mais importante que eu também.
Na quarta eu estava recuperado, não totalmente, mas estava.Fui para a escola de manhã e consegui jogar bola no recreio, consegui correr e pegar a matéria atrasada, sem falar que a Clarinha se declarou para mim naquele mesmo dia.Você devia estar lá para me ensinar a não magoar uma garota em pleno nono ano do ensino fundamental 2.
A verdade é que ela era linda para os outros garotos e a mais gostosa.Eles viviam falando dela no vestiário, porém eu não gostava do jeito como ela achava que poderia ter qualquer um por ser considerada a mais bonita da sala, não gostava de como ela humilhava as outras quando diziam gostar de alguém,não gostava da burrice dela em português, conjugava vários verbos errados, mas o pior de tudo eu não gostava de garotas.Nem da mais bonita, nem da mais feia.Nunca senti nada por nenhuma delas.
Eu não vou dizer que eu sabia que não me interessava por ninguém no nono ano, porque eu culpava a minha falta de interesse com "Prefiro estudar do que ter namoricos" ou "Elas não são tão bonitas assim" eu realmente acreditava ser exigente demais.Achava que eu era um cara sério que só me interessaria por uma garota e só.Na verdade até hoje eu ainda não sei o que sou, pois não me interesso por nada.Talvez eu tenha um distúrbio mental que me leva a não sentir atração por ninguém.
Se você estivesse lá talvez eu não tivesse passado por toda aquela humilhação no segundo ano,mas você não merece saber sobre ela, pois não estava lá.
E infelizmente preciso voltar para ela.
Porque ela ainda escrevia para você no segundo.Mesmo dois anos depois de você ter simplesmente ido embora.Ela ainda me tratava como uma criança, eu realmente gostava dela, não entendo porque fez isso com ela.Talvez não se lembre do nome dela.
ME RECUSO A DIZER PORQUE VOCÊ SERIA TÃO BABACA SE O FIZESSE.MAIS BABACA DO QUE O NORMAL.
Teve uma vez que ela fez uma pergunta diferente.Ela praticamente gritou:
"SE SABE SOBRE ELE PORQUE NÃO PEDE PARA ELE ME VER? ME RESPONDER, ME AMAR? A BABAQUICE É DE FAMÍLIA!"
Eu juro que senti a baba dela no meu rosto, logo depois ela começou a me socar em diferentes lugares e eu deixei porque ela amava um babaca e ele é meu irmão mais velho.Espero que no momento em que ler essa carta escreva para ela,nem que seja na porra de um post-it e diga obrigado por me amar tanto assim ou um simples sinto muito.
Aconteceram coisas boas nesse meio tempo não vou negar.Mamãe conseguiu se estabilizar e como só tínhamos duas cabeças na casa ficou fácil para trocarmos de vida.Conseguimos abandonar a vida no turano e arrumamos um apartamento, não muito grande na Conde de Bonfim perto do Rei do Mate e do metrô,eu estudava na mesma escola técnica que você e somos tão parecidos que eu virei -ainda mais- uma sombra de você.Nem me chamavam pelo nome,para eles eu era o Luquinha, Junior, caçula do droguinha. Eles nem perguntaram meu nome e sinceramente foi uma merda.
A merda maior é que eu não sabia que você usava drogas,então me juntei com a mesma turma que você, para saber mais sobre quem você era.Tudo o que eu achava que sabia se foi quando eles me mostraram um beck e disseram que era o seu preferido por ser barato e pesado.Eu não acreditei, claro você não tinha cheiro de cigarro, você era meu herói.
Então Joaquim -seu grande amigo- me mostrou uma foto sua com um beck e uma 51 na mão.Foi tão difícil acreditar que você é como ele, tão difícil de acreditar que você era tão bêbado e nojento quanto nosso querido papai que eu comecei a chorar na frente deles-Joaquim, Luiz e Patrick-Eu chorei como uma criança sem doce, como mamãe chorou quando papai foi embora, eles simplesmente riram e foram embora pelas ruas da grande Tijuca e aquilo só me deixou com mais raiva.A cada dia eu sentia mais raiva de você e de tudo o que me fez passar.
Você se tornou o maior dos babacas a partir do momento em que eu percebi que apanhei por alguém tão sujo quanto o agressor.
Você é mesmo filho dele.Bebe como ele, fuma como ele e foi embora e até agora não deu notícia como ele.
Você é como ele, se ainda estiver vivo, pois talvez eu rasgue toda essa carta amanhã de manhã antes de voltar a mesma rotina por descobrir por um site qualquer da internet que você está morto.Talvez tenha se metido com traficantes e o tiro perdido-certeiro- arranca-lhe a vida me fazendo quem sabe cuspir todas essas palavras nojentas que penso constantemente sobre você.
Porque por mais que eu tente nunca superei a sua ida.Nunca superei o seu abandono, mesmo sabendo que você não se importa com seu irmão tolo e chorão deixado para trás e é por isso que estou sofrendo.Você ainda é da família e merece saber tudo o que aconteceu enquanto viajava pelo mundo.Livre, da maneira que queria ou talvez eu só tenha tudo entalado e precise dizer que te odeio porque não entendo e que sinto sua falta.
Toda manhã torço para que você esteja vivo para que todos os xingamentos sejam inocentes e sem problemas. Para que eu possa te abraçar e te chamar de babaca. Mandar você se foder e explicar que to sozinho desde que a mamãe morreu.
ps. esse texto é de uns três anos atrás e eu nao quero corrigir nem mudar nada pq gosto dele assim e vou postar pq ainda gosto dele.