tem coisas que não acabam de uma vez.
elas vão se desgastando.
não é um acontecimento isolado. não é um momento específico que define tudo. é um acúmulo silencioso de pequenas rupturas que, sozinhas, talvez não significassem tanto. mas, com o tempo, começam a pesar.
e algumas dessas rupturas têm nome.
confiança é uma delas.
existe algo muito difícil de sustentar quando tudo o que você faz precisa ser explicado. quando cada gesto, cada palavra, cada ausência, cada presença, pode ser interpretada de outra forma. quase sempre da pior forma.
não é sobre o que se faz. é sobre o que o outro acredita que você pode fazer.
e isso muda tudo.
porque, em algum momento, deixa de ser sobre convivência e passa a ser sobre defesa. sobre antecipar dúvidas, justificar intenções, tentar evitar interpretações que nunca parecem ser evitadas de fato.
é como se nada fosse suficiente.
não importa o quanto se explique, o quanto se detalhe, o quanto se abra. sempre parece faltar alguma coisa. sempre existe um espaço onde a dúvida se instala de novo, como se nunca tivesse saído.
e o mais difícil é que, no começo, existe disposição.
existe paciência. existe tentativa. existe cuidado em mostrar que não é aquilo que está sendo imaginado. que não existe intenção escondida. que não existe jogo por trás.
existe vontade de fazer dar certo.
mas, aos poucos, isso começa a mudar de lugar.
explicar deixa de ser escolha e vira obrigação.
ter paciência deixa de ser gesto e vira exaustão.
cuidar deixa de ser leve e passa a ser um esforço constante de não ser mal interpretado.
e isso cansa.
cansa de um jeito que não aparece de imediato. vai acumulando. vai ficando no corpo. vai atravessando até as coisas boas, até os momentos que deveriam ser leves.
porque, no fundo, sempre existe a sensação de que, a qualquer momento, algo simples pode virar um problema.
e, quando se percebe, já não é mais só sobre o outro desconfiar.
é sobre começar a duvidar de si dentro daquele espaço.
é sobre medir palavras. sobre repensar atitudes. sobre evitar situações que, antes, seriam naturais.
é sobre existir com cuidado demais.
e isso tem um limite.
tem um ponto em que não se trata mais de provar nada. porque não há mais o que provar. não se trata mais de explicar melhor. porque já foi explicado de todas as formas possíveis.
chega um momento em que a questão deixa de ser acessível.
não está mais no que pode ser feito.
e talvez essa seja a parte mais difícil de aceitar.
que existem coisas que não se resolvem na tentativa. não se resolvem na insistência. não se resolvem na boa intenção.
existem coisas que pertencem ao outro.
e permanecer tentando resolver o que não está no seu alcance começa, aos poucos, a te atravessar também.
começa a distorcer o jeito de ver. o jeito de reagir. o jeito de sentir.
como se aquela desconfiança, repetida tantas vezes, começasse a contaminar o ambiente inteiro.
e, em algum momento, até surge um pensamento incômodo.
se tudo é visto com tanta suspeita, de onde vem isso?
mas nem sempre é preciso responder.
nem sempre é possível.
às vezes, o mais honesto é reconhecer o próprio limite.
não como desistência, mas como preservação.
porque sustentar um lugar onde nada do que você é parece suficiente exige uma força que, em algum momento, acaba.
e quando acaba, não é abrupto.
é silencioso.
é só o entendimento de que não dá mais para continuar tentando convencer alguém daquilo que você sempre foi.




















