Ele coloca a mão assim na cintura como quem diz não nota minha mão na cintura, e aí ele entorna com o copo d’água, transpirando, junto à boca, respirando. Dá uns golão mesmo. Eu olho pro filtro d’água pra averiguar se o caplot tá vindo de lá. Não. É a bocorra que tá tragando toda minha indaiá gelada pra dentro. Esse homem tava com muita sede. Gente do céu. Aí ele diz:
― Ô, bonito esses azulejo do senhor, viu. Trabalho de primeira. Tô pra ver azulejo mais bonito que esses que o senhor tem aqui ― Agora ele tá levando a mão de volta pra garrafa d’água. Ele vai encher um terceiro copo. Ele vai beber tudinho. Vai lamber a transpiração. Vai acabar com meu estoque, entrar com o pescoço na pia e ligar a torneira. Depois ele vai pedir pra usar o meu banheiro. E seja o que deus quiser ― Assim… é uma pena que a gente vai ter que quebrar tudo.
Ele manda essa sem mais nem menos, todo hidratado. Dá pra ouvir as palavras borbulhando no fim da garganta dele. Daí ele solta o copo no balcão da minha cozinha americana. O tinidozinho do vidro no mármore me desagrada a um nível que eu nem te falo. Eu penso, “ah, mas acabou a sede, né, desgraçado”. Aí eu falo
― Ah, mas acabou a sede, né, desgraçado ― Mas bem baixinho. E ele nem tá prestando atenção mesmo, tá agora com as duas mãos na cintura, uma de cada lado, assim com as mãos pousadas firmemente nas ancas como quem se prepara pra quebrar meus queridos azulejos, olhando pras paredes da minha cozinha, olhando pros meus queridos azulejos.
Eu penso, “queridos azulejos…”
― Esses azulejos estão aqui há mais de quarenta anos, meu amigo. Cê tá maluco? Eu não posso simplesmente permitir que você quebre todos eles por causa de uma simples rachadura, né, campeão. Vamo se acalmando aí.
― Com todo respeito, patrão, me fala uma coisa. Você ama a sua família, não ama? ― Êêê, tô pensando, e vou balançando a cabeça em condescendência ― E você preza pela segurança da sua família, não preza? ― Tá ficando estranho isso aqui, rapaz, mas eu vou assentindo ― Então o senhor vai ter que me deixar fazer esse trabalho.
― Como assim eu vou TER que DEIXAR você fazer esse trabalho??? Olha, eu não sei muito bem como é o seu método de trabalho. Eu coloquei uma mensagem no grupo do whatsapp aqui dos condôminos, e a Dona Márcia…
― Saudosa Dona Márcia. Como ela tá, hein? Cê tinha que ver o trabalho de revestimento que eu fiz na suíte dela. Coisa chique, meu patrão. Primeiro mundo.
― Você me deixa continuar, tá bom. Como eu dizia, a Dona Márcia, lá no grupo de condôminos do whatsapp me indicou seus serviços, falou que você era boa gente, que cobrava um preço acessível, coisa e tal. Aí você chega aqui e quer derrubar minhas paredes…
― Patrão, ninguém falou em derrubar parede aqui, patrão. Derrubar os azulejos. É diferente.
― Derrubar todos os meus azulejos por causa de uma rachadura, onde já se viu? Passa uma massa corrida aí e fecha o dia, meu rapaz. Cê quer me fazer de bobo? Eu não vou pagar por um serviço dessa magnitude. Ter que pagar pra você derrubar ― Eu vou listando assim bem performático, sabe, contando nos dedos da mão, esvoaçando braços, desgarrando gotículas de saliva no ar ― Depois ter que lidar com toda a nuvem de poeira que vai subir aqui, pagar por todo um novo jogo de azulejos (E olha, esses aqui estão em perfeita condição, bonitos demais, como você mesmo disse. Meu próprio pai colocou esses azulejos aqui quando se mudou pra esse apartamento, eu tinha 5 anos. Não se encontra mais azulejo desse tipo no mercado, meu amigo)
― Não se encontra mesmo não. Bonitos demais…
― … E você ainda vem me falar que eu TENHO que deixar você fazer o trabalho. Isso aqui é estético, meu amigo. Eu quem decido o que eu TENHO que fazer aqui. E essa PORRA é supérflua, tá me entendendo. É um rachadura! Uma porrinha de uma rachadura. Vou te contar, viu.
― Respira, patrão. Quer um pouco d´água? ― Não tem mais água na garrafa. Eu finjo calmaria colocando a garrafa vazia de volta na geladeira ― Olha, deixa eu explicar a situação pro senhor, tá bom? Longe de mim propor um serviço supérfluo, como o senhor disse. Eu sou um sujeito honesto. Tô prezando pela segurança da sua família ― De novo esse papo ― Assim, que o Nosso Senhor, Pai Misericordioso o livre, patrão, mas um azulejo desses pode se desprender a qualquer hora e se cravar no peito da sua senhora, na perninha do moleque.
― Como é?
― O senhor mesmo disse que tá aí há mais de quarenta anos…
― Em 1974, meu pai, Seu Agenor, foi promovido na empresa metalúrgica do meu avô, e financiou este apartamento e um Opala ― Dedo em riste, eu dito como essas palavras viessem além de mim.
― Pois bem, tá aí esse tempo todo só acumulando pressão. Vai acumulando, acumulando. Daí, uma hora… tuco, azulejo voador cortando o ar. Tô falando, sério, patrão. Pode confiar.
― Cê tá de brincadeira.
― Acontece o tempo todo, tô falando pro senhor. Saiu até no Fantástico uma vez, numa lista de maiores causadores de acidentes domésticos.
― Os azulejos?
― E as esponjas de banho e as lâmpadas 110 watts também.
― Então cê tá me dizendo que eu, aqui, eu mesmo… Quer dizer. Olha, suponha que eu levanto de madrugada pra fazer um lanchinho. Aí eu pego meu presunto, um briochezinho. Me sento no escuro pra comer meu sanduíche. No outro dia, Sandra, minha esposa, se levanta pra fazer o café e me encontra esparramado no chão com um desses azulejos na testa?
― Deus o livre, patrão. Mas pode acontecer. Tô te garantindo aqui. São as armadilhas do passado....
― Armadilhas do passado, né... Mais pra shurikens do passado, por assim dizer.
― Olha, o senhor pode chamar do que quiser, mas aí o patrão tem que concordar que, caso aconteça, se o senhor acabar como alvo de peça de cerâmica, concorda comigo que a culpa será toda do patrão. É porque o patrão tá merecendo.
― Como que a culpa vai ser minha?
― Ora, tá me negando o trabalho.
Engraçado esse sujeito. Seria uma pena se











