Ele queria dizer muitas coisas, até gritar se fosse necessário, tudo em prol de manter as roupas de Phoebe intocadas, mas, no fundo, no fundo, Hyunjeong sabia que aquilo era o melhor para ele. Sabia que se tratava de um dos processos do luto, o que tinha de aceitar, mesmo que a ex-noiva não tivesse morrido realmente, fisicamente. Por isso, com um respirar fundo e contendo a vontade de esbravejar e lutar para mantê-la ali, em sua presença, com o mínimo do que havia de detalhes que o lembrassem dela, Hyunjeong colocou-se em pé e acompanhou Ryong, a passos lentos, mantendo-se ao lado da porta enquanto a via mexer em seu guarda-roupas.
Doeu feito o inferno ver todas aquelas peças sendo tocadas por outro alguém que não ele; doeu pensar em como, em breve, nada daquilo continuaria ali, mas de qualquer maneira… Hyunjeong lutou contra sua vontade novamente. O grito estava preso em sua garganta, haviam lágrimas ardendo em seus olhos e algumas teimosas que escorriam por suas bochechas. Mas ele não tinha muito mais força para lutar ou dizer o que quer que fosse.
“Não deixe nenhum espaço.” Foi a única coisa que conseguiu pedir, referindo-se à lacuna que as roupas de Phoebe deixariam agora que estavam sendo removidas. Não podia ver aquilo, caso contrário, notaria imediatamente a ausência delas e isso não seria bom para si.
No instante seguinte, Hyunjeong estava se afastando e indo até a cozinha. Jackal o acompanhou e se enfiou ao lado da geladeira, observando o dono com um olhar de pesar. Hyunjeong continuou andando pelo cômodo atrás de um bule, folhas de chá e um copo. Tratou de providenciar uma bebida para si enquanto se sentava numa das banquetas, escorado na bancada da pia, e passava a fitar o armário à sua frente, dando o seu melhor para controlar aquela vontade estúpida de chorar, mas sem muito sucesso: as lágrimas continuavam escorrendo por seu rosto e a agonia continuava o consumindo, matando-o de dentro para fora.
Por aquele instante, as mãos ocupadas em identificar o resto da peça pela manga comprida que estava segurando, Daeryong olhou pra trás por cima do ombro. Estática. Um rato pego perto demais do queijo. A respiração presa no peito que não se mexia um milímetro, nada mexia em canto nenhum. E ela esperou, os ombros numa tensão tão grande que bastava uma abertura de boca do outro para fazê-los estourarem, subirem para as orelhas numa tentativa vã de cobrir e proteger das palavras mais rudes. Eles subiram, no entanto, previsão alguma foi concretizada. O silêncio que se seguiu transformando em gelo o sangue que corria em suas veias.
Foi ele desaparecer pela porta que a garota se colocou num frenesi acelerado demais. Essa mesmo, Daeryong em seu estado mais afiado e concentrado de fazer as coisas, dependendo do instinto e conhecimento femininos para encher a cama alheia com peças e acessórios que não condiziam com seu sexo. Florais, saias e vestidos, brincos compridos demais e enfeites para o cabelo. Tudo o que nunca tinha visto em Hyunjeong e tudo que lembrava, parcialmente, de ter visto Phoebe usar. Na procura, olhando todos os cantos para não deixar nada passar, encontrou uma mala de viagem, grande o suficiente para guardar tudo (carregar isso tudo nas costas seria uma tarefa que ela não queria concluir).
Deixou do lado de fora o que achou apropriado, mesmo que por dentro estivesse quase no mesmo nível de desespero do mais velho. Lembrar dos doramas, se colocar no lugar deles, não ajudavam em nada a tarefa de deixar a mala perto da porta e rumar para a cozinha, as mãos em conchas para depositar ao lado dele os itens que tinham passado no seu teste de ‘pode ficar com eles’. --- Você pode escolher dois desses. Só dois. Mi-mianeyo, hyunjeong oppa. --- E ela fez o que o coração pedia para fazer. Não queria ficar de frente nem de lado, não resistiria a própria regra dita se olhasse o seu rosto. Também não queria ficar espreitando como um juiz, pronto para recolher a criança da visita assim que batesse o horário do fim. Daeryong se colocou por trás e o abraçou, com carinho. --- Me desculpa, me desculpa, mas... eu prometo que não- Só dois, okay? Só dois.