A música estava tão alta que ela era capaz de sentir as batidas da mesma em seu corpo, como se estivesse ao lado da caixa de som. Passou os olhos pelo salão, vendo todos aqueles rostos devidamente mascarados, como exigia o convite. Um baile de máscaras. Inacreditável, nunca vira nada tão antiquado, se sentia em uma daquelas novelas de época… Tão século XIV. E cá estava ela, perdida de suas amigas, que tanto haviam insistido para que ela fosse, e sequer podia tentar procurar pelos seus rostos. Bufou, começando a se arrepender de não ter ficado em seu dormitório estudando. “Saia um pouco”, as amigas disseram, “vai ser divertido”, elas insistiram.
- Que diversão – Julieta murmurou, sarcasticamente, não conseguindo se fazer ouvida nem por si mesma. O som alto já começara a irritá-la havia muito tempo, em união perfeita com a quantidade absurda de pessoas em um lugar só. Estava decidido, iria embora. No dia seguinte, quem sabe, daria uma explicação – ou um esporro – a suas amigas. Nesse instante, entretanto, só estava preocupada em conseguir transpassar aquele mar de gente que ocupava a pista de dança e, finalmente, chegar à saida.
- Meu coração, até hoje, teve a dita de conhecer o amor? Oh, que simpleza! Nunca soube até agora o que é beleza – Estaria a música estrondante lhe pregando peças, ou realmente havia uma voz masculina declamando, em seus ouvidos, um trecho da peça que dera origem ao seu nome? Não, não fora ilusão, ela sabia bem. A garota era aficionada pela obra de Shakespeare desde os dez anos, quando seus pais lhe contaram que dela haviam tirado o seu nome. Por conta disso, ela tinha certeza daquela ser a exata frase dita por Romeu a seu criado ao avistar Julieta pela primeira vez, ironicamente, em um baile de máscaras.
Aquela só podia ser a ridícula ideia que as suas amigas faziam de uma brincadeira. Ela era apaixonada por Romeu e Julieta, seu nome era o mesmo da protagonista e, veja só, em um baile de máscaras um garoto está dizendo em seu ouvido uma frase decorada de Romeu. Haha, que ilário! O que elas esperavam agora? Que ela se virasse assustada e desse de cara com seus rostos risonhos? Virou-se pronta para dar um fora no dono daquela voz aveludada, com o máximo de irritação que pôde reunir em um olhar.
Mas toda a sua expressão se perdeu instantaneamente. Ela ficou de imediato estagnada ao olhá-lo, ao fitar os seus olhos azuis. Azuis e profundos, como um vasto oceano no qual ela viu-se afogando, sem poder – nem querer – nadar para chegar à superfície. Teve a impressão de que tudo ao seu redor ficava cinza, lento e silencioso. Não podia ver o rosto do rapaz por baixo da máscara de cor grafite. Apenas os seus olhos, dos quais não era capaz de desviar o olhar. Em um momento de lucidez, espiou o seu redor, não havendo sequer sinal da presença de suas amigas. Fitou-o novamente, e dessa vez ele sorriu. Era idiota ouvir pássaros cantarem por um sorriso? Pois ela teve a impressão de ouvir. Seria absurdo achar que aquele sorriso brilhava com mais intensidade do que mil sóis poderiam? Por que ela sinceramente achava. Sentiu-se momentaneamente desejosa de ouvir sua voz novamente. Como que ouvindo seus pensamentos, ele os atendeu.
- Me concederia uma dança, para que esta rude mão possa dar ansa de tocá-la e, assim, ficar bendita? – No exato momento que ele abriu a boca, a música parou, dando lugar a uma mais calma, enquanto os casais da festa juntavam-se em uma dança lenta. Ansiou por saber quem era aquele rapaz que mesclava em seus dizeres trechos de sua peça favorita. Como poderia ele saber?
Viu-se, inconscientemente, unindo suas mãos, sendo guiada para o centro da pista de dança pelo que ela imaginava ser um total desconhecido.
- Quem é você? – Assustou-se ao perceber que a pergunta saíra de sua boca. Estava extasiada, não controlava seus atos, seu corpo, apenas queria mantê-lo falando, necessitava ouvir sua voz.
- Apenas me chame de Romeu, Julieta.
- Como você… – Mas foi interrompida pelo dedo indicador dele em seus lábios
- Tudo ao seu devido tempo Ele a guiava em passos lentos e sincopados, e ela se sentia dançando sob as nuvens. Por pouco menos de um minuto dançaram em silêncio, sem nunca tirar os olhos dos do outro. Julieta tinha a certeza de nunca tê-lo visto na vida, ou lembraria-se daqueles olhos, daquele azul. Depois de um tempo, descobriu-se novamente desejosa de ouvir a sua voz. Antes que pudesse abrir a boca, ele mesmo rompeu o silêncio.
- Se minha mão profana o relicário em remissão aceito a penitência: meu lábio, peregrino solitário, demonstrará, com sobra, reverência. Ela sabia onde aquilo iria acabar, como também soube que aquelas frases não eram meramente decoradas para impressioná-la. Tal como ela, ele também era um fã, mas não apenas isso. Ele sabia o seu nome, sabia de sua devoção pela obra, mas como poderia? A sua razão dizia-lhe para pôr um fim naquela maluquice. Já seu coração palpitava, parava a cada frase dita por ele, implorava-lhe que ela desse continuidade à cena, e ela o fez:
- Ofendeis vossa mão, bom peregrino, que se mostrou devota e reverente. Nas mãos dos santos pega o paladino. Esse é o beijo mais santo e conveniente. Ele sorriu largo quando a primeira palavra saiu de sua boca, entendendo a impícita permissão para seguir em frente.
- Os santos e os devotos não têm boca? – Ele proferia as palavras enquanto puxava-a para mais perto, com as mãos em sua cintura. Julieta sentiu borboletas em seu estômago pela proximidade. Justo ela, que jamais acreditara naquelas coisas. Percebeu que era a sua deixa para falar.
- Sim, peregrino, só para orações.
- Deixai, então, ó santa! Que esta boca mostre o caminho certo aos corações.
- Sem se mexer, o santo exalça o vôo – Ela realmente estava dizendo aquilo? Era a frase da Julieta de Shakespere saindo de sua boca? Aquilo realmente estava acontecendo com ela? O rapaz se aproximou mais, passando uma mão agora para o rosto dela. Onde ele tocava, ela sentia a pele queimar, formigar.
- Então fica quietinha: eis o devoto. Em tua boca me limpo dos pecados – E beijou-a Quando os lábios dele, do seu Romeu, tocaram os seus, Julieta sentiu-se arfar. Era como se os lábios macios dele tivessem sido feitos especialmente para os dela. Ela era capaz de ouvir a mais bela das canções bem no fundo do seu ser. Sentia que passara a vida toda esperando apenas por aquele beijo, e que, sem ele, nada mais faria sentido. Sentiu seu coração afundar quando ele descolou os seus lábios e colou suas testas, olhando-na nos olhos. Ela precisava falar, precisava sentí-lo novamente.
- Que passaram, assim, para meus lábios.
- Pecados meus? Oh! Quero-os retornados. Devolve os meus pecados.
Quando a ultima frase deixou os seus lábios, Julieta já os beijava novamente. Ele era doce, diferente. Nunca, na vida, provara um beijo como aquele. Mas como tudo tem um fim, ela viu seus lábios se separarem mais uma vez.
- Beijais tal qual os sábios – Ela disse, mas, ao contrário da história original, não havia ama para vir atrapalhá-los. Assim, continuaram escrevendo a sua própria história.
- Beijais tal qual os anjos – Ele respondeu
- Quem é você, Romeu? – Ela suspirou
- Um nome importa?
- Bom…
- O que há, pois, num simples nome?
- Aquilo a que chamamos de rosa, sob outra designação teria o mesmo perfume – Ela completou, sorridente. – Não irá dizer-me quem tu és?
- Quando nos esbarrarmos de novo, talvez, fora destas máscaras.
- E como saberei como encontrá-lo? Como você sabia como encontrar-me?
- Sonhei com você, Julieta. Sonhei por meses até avistá-la no campus e descobrir que o anjo dos meus sonhos era real.
- Você… sonhou comigo? – Contrariando toda a sua razão, por algum motivo, ela acreditava nele.
- Sim. Sonhei que a tocava como o faço agora, – E acariciou as maçãs de seu rosto – Que a beijava como a beijo… – Beijou-a – agora. Seus olhos me perseguiram por noites e noites sem fim. E quando eu te vi… Foi como voar pelo mais belo dos céus.
Os sinos badalaram.
- Agora tenho que partir, minha Julieta – Ele já começava a se afastar
- Vai virar abóbora, Cinderela?
Ele gargalhou alto, e ela jurou nunca ter ouvido um som tão belo.
- Oh, não, mas infelizmente não poderia estar aqui. Este Romeu precisa voltar à vida real antes que seu chefe note a sua falta.
- Não é aluno da universidade?
- Sou, mas trabalho aos finais de semana – Com um último beijo, ele se afastou – Deixo contigo o meu coração, minha bela Julieta. Cuide bem dele. Você saberá quando encontrar-me
- Nunca me esqueceria de teus olhos.
E assim ele, o seu Romeu, se foi, deixando-a na pista de dança sozinha, sonhadora, com um sorriso bobo tocando-lhe os lábios.
- Aí está você, te procuramos por todas as partes – As vozes de suas amigas a fizeram retornar à realidade – O que estava fazendo?
- Sonhando, minhas amigas – Viu-se respondendo, ainda olhando para a porta pela qual ele havia saído – A presença de um anjo na Terra só pode ser um sonho.
- Anjo? Do que está falando? Quem estava com você?
- Romeu, minhas amigas… Romeu.
Juliana Brito











