Aqua Utopia|海の底で記憶を紡ぐ
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@biulinha123
Quando você pula de um lugar alto, você está condenado desde o início, mas só morre no final. Isso te dá algum tempo para sentir o que é saber que você vai morrer. E essa sensação é representada no poema "a vista do meio pra baixo" pela visão do rio se aproximando no meio da queda. Mais perto, mais perto, mais perto, inevitavelmente. Você escolheu a morte há apenas alguns segundos, mas não tinha ideia do que era estar realmente perto dela. E quando você descobre, é tarde demais para voltar.
Há um episódio do Radiolab onde eles conversam com pessoas que saltaram da ponte Golden Gate e sobreviveram. Uma citação típica foi "assim que saltei, percebi que todos os meus problemas eram completamente solucionáveis, exceto por ter acabado de saltar".
Na série Bojack Horseman no penúltimo episódio da última temporada temos uma poema que é lido pelo Secretariat, um corredor famoso, inspiração do Bojack na infância, um cavalo que se jogou de uma ponte após ter sido pego apostando em suas próprias corridas e exposto. No episódio em si, o Secretariat estava representando subliminarmente o pai de Bojack, Butterscotch um escritor que supostamente escreveu o poema, o poema representa tanto a morte do Secretariat, a vida/carreira decaída do Butterscotch e a situação em que o Bojack se encontra, Bojack fala através dos personagens. Após perceber que havia perdido a carreira dele, as relações, a sobriedade e a casa, e então chega a conclusão de que queria acabar com tudo, entra na piscina mesmo sabendo que não iria conseguir sair dali, porém quando Bojack percebe que ele realmente tinha a chance de perder a vida, ele entra em desespero, não era isso que ele queria, queria fugir dos problemas e não deixar de existir. Desistir de tudo parecia atraente até ser real.
A vista do meio para baixo”, o personagem registra em versos como o suicídio não é a resposta e nem a solução. Enquanto no momento do salto em direção à morte a escolha parecia ser a correta, ao chegar no meio do caminho e perceber que não há voltas, Secretariat se arrepende. É sobre não desistir.
O poema é dividido em três parte, a primeira em terceira pessoa, a segunda em segunda pessoa e a terceira em primeira pessoa(você, ele,eu), resultando em uma contagem regressiva, 3, 2, 1 e o Secretariat pula do viaduto.
Em um diálogo nesse mesmo episódio Bojack pergunta a Secretariat.
- E se pudesse voltar atrás o que faria?
- Eu não teria me importado tanto.
- Com o que?
- Com tudo. Mas falando como seu pai, é importante que saiba que eu me importava.
"Eu não teria me importado tanto" pois se ele não tivesse se importado tanto, ele não teria pulado, ele não teria se arrependido do meio pra baixo. Me conta, qual foi a sua vista do meio para baixo?
A vista do meio pra baixo
a fraca brisa nada sussurra
a água grita sublimemente
ele troca os pés titubeando
respira fundo, dá um passo para trás
é a hora, os pés se desprendem do viaduto, vai em direção a água
olhos cerrados, que espiam para ver a vista do meio para baixo
um ventinho, um sol de verão
um rio rico e real
uma inundação de endorfinas que traz uma calma produnda sem igual
está voando agora
você vê as coisas com muito mais clareza do que do chão
está tudo bem, estaria se não estivesse no meio do caminho
se debate para escapar da gravidade
como desacelerar a queda?
faria de tudo para sentir meus pés tocando a segurança do topo
mas é isso, o ato está feito
o silencio afoga o som
antes de saltar, eu devia ter visto a vista do meio para baixo
não! eu devia ter mesmo pensado na vista do meio para baixo
eu queria ter sabido da vista do meio para bem la embaixo
- Secretariat
A mulher dele, Diana, veio com os pratos de peixe e começou a distribuí-los. Lydia se sentou do meu lado.
– Olha aqui – ela disse –, é assim que se come peixe. Sou caipira. Dá uma olhada.
Ela abriu o peixe, mexendo não sei de que jeito com a faca na espinha. O peixe se abriu em duas metades intactas.
– Opa, gostei dessa! – disse Diana. – De onde você disse que era?
– Utah. Cabeça de Mula, Utah. População: 100. Fui criada num sítio. Meu pai era um bebum. Já morreu. Talvez por isso eu ande com ele... – e sacudiu um dedão na minha direção.
Comemos. Cap 6.
Mulheres. Charles Bukowski.
descalça.
– A primeira coisa que eu gostei em você – me disse Lydia – é que não tinha tevê na sua casa. Meu ex-marido via tevê toda noite e durante o fim de semana todo. A gente tinha até que planejar nossas trepadas de acordo com a programação da tevê.
– Hummm...
– Outra coisa que eu gostei na sua casa é a imundície. Garrafas de cerveja espalhadas pelo chão, montes de lixo por tudo quanto é canto, pratos sujos e uma coroa de merda na privada e a craca na banheira e todas aquelas giletes enferrujadas em volta da pia do banheiro. Eu sabia que você era capaz de chupar uma xoxota.
– Você julga um homem pelo lugar onde ele vive, né?
– É. Quando vejo um homem de casa arrumada eu sei que tem alguma coisa errada com ele. E, se for muito arrumada, eu já sei que o cara é bicha. Cap 6.
Mulheres. Charles Bukowski.
Ficamos uma semana sem nos ver. Daí, uma tarde, lá estava eu na casa de Lydia, os dois na cama, nos beijando. Lydia desgrudou de mim.
– Você não entende nada de mulher, né?
– Que cê quer dizer com isso?
– Quero dizer que dá pra ver, lendo seus poemas e suas histórias, que você não entende nada de mulher.
– Fale mais.
– Bom, é que pra eu me interessar por um homem ele tem que chupar minha xoxota. Você já chupou uma xoxota?
– Não.
– Você tem mais de cinquenta anos e nunca chupou uma xoxota?
– Não.
– Agora é tarde.
– Por quê?
– Não dá pra ensinar truque novo pra cachorro velho.
– Claro que dá.
Entramos na mercearia de um judeu pra comprar umas coisas e levamos tudo prum montinho gramado que dava pro mar. Tinha sanduíches, picles, batatinhas fritas e refrigerantes. Fiquei espantado com a rapidez com que ela comia. Estraçalhava o sanduíche com selvageria, dava grandes goles na coca, comia metade de uns picles numa só mordida e abocanhava punhados fartos de batata frita. Eu, ao contrário, como muito devagar. “Paixão”, pensei “ela é toda paixão.”
– Como é que tá esse sanduíche? – perguntei.
– Ótimo. Eu tava com fome.
– Eles fazem sanduíches legais. Você quer mais alguma coisa?
– Hum-hum. Queria um doce.
– Que tipo?
– Ah, qualquer um. Um bem bom.
Dei uma mordida no meu sanduíche, um gole na coca, larguei tudo e fui até a mercearia. Comprei dois doces, pra ela escolher. Cap 5.
Mulheres. Charles Bukowski.
Peguei o carro, passei na casa dela naquele sábado, às onze da manhã, e bati na porta. Ela estava de jeans, botas, blusa laranja. Seus olhos castanhos estavam mais escuros que nunca e, assim que ela abriu a porta, a luz do sol revelou um tom ruivo natural nos seus cabelos escuros. Coisa maravilhosa. Me deixou beijá-la; então, fechou a porta e fomos pro meu carro. A gente tinha decidido ir à praia, não pra tomar banho, que era pleno inverno, mas só pra fazer alguma coisa.
Era bom ter Lydia ao meu lado no carro.
– Que festa aquela, hein? – ela disse. – Você chamou aquilo de festa da colagem? Aquilo era uma festa da copulagem, isso sim. Uma festa da copulagem!
Eu dirigia com uma mão, enquanto a outra descansava na coxa de Lydia. Não conseguia tirá-la dali. Ela não parecia dar pela coisa. Eu ia dirigindo, e a mão escorregou por entre suas pernas. Ela continuou a conversar. De repente, disse:
– Tira a mão. Aí é a minha xoxota!
– Desculpe – disse eu.
Nenhum de nós disse nada até chegarmos ao estacionamento, na praia de Veneza.
– Você quer um sanduíche, uma coca, qualquer coisa? – perguntei.
– Legal – ela disse.
– Ótimo. Eu tava com fome. Cap 5.
Mulheres. Charles Bukowski.
– Há quanto tempo você não transa com uma mulher?
– Quatro anos.
– Quatro anos?
– É.
– Acho que você tá precisando de amor – disse ela. – Sonhei com você. Fui abrir o seu peito, como se abre um guarda-roupa; seu peito tinha portas; quando abri as portas, vi um monte de coisas fofas dentro de você: ursinhos, animaizinhos felpudos, essas coisas fofas, carinhosas. Daí, sonhei com outro cara. Ele chegou e me mostrou umas folhas de papel. Peguei as folhas de papel e olhei pra elas. As folhas de papel tinham câncer. A escrita dele tinha câncer. Eu vou pelos meus sonhos. Você tá é precisando de amor.
Nos beijamos de novo.
– Escuta aqui – ela disse –, quando você enfiar sua coisa dentro de mim, não se esquece de tirar antes de gozar, tá bom?
– Tô sabendo.
Penetrei nela. Era bom. Alguma coisa estava acontecendo, alguma coisa real, e com uma garota vinte anos mais nova do que eu, uma garota bonita, afinal de contas. Dei umas dez bimbadas e gozei dentro dela.
Ela levantou num pulo.
– Seu filho da puta! Você gozou dentro de mim!
– Lydia, fazia tanto tempo... tava tão bom... não deu pra fazer nada... escapou... juro por Deus, não deu pra fazer nada!
Ela correu pro banheiro e abriu a água da banheira. Ficou em frente ao espelho passando um pente nos longos cabelos castanhos. Era bonita pra valer.
– Seu filho da puta! Meu Deus, que truque ginasiano mais idiota. Isso é idiotice ginasiana! E não podia ter acontecido em pior hora! Bom, estamos amigados agora! Estamos juntos agora!
Fui lá no banheiro falar com ela.
– Lydia, te amo.
– Sai de perto de mim, saco!
Me empurrou pra fora, fechou a porta, e eu fiquei de pé no corredor, escutando a água do banho escorrer. Cap 4.
Mulheres. Charles Bukowski.
Lydia chegou tarde. Passou pela porta como uma atriz. A primeira coisa que eu reparei foi o seu chapelão de caubói com uma pluma de alfazema espetada do lado. Não falou comigo. Foi logo se sentando ao lado de um rapaz empregado da livraria, e começou a conversar animadamente com ele. Eu comecei a beber mais e o meu papo perdeu um pouco de pique e humor.
...
Uns dias mais tarde, de manhã, entrando no pátio interno do condomínio de Lydia, topei com ela que vinha chegando pelos fundos. Ela tinha saído pra ver sua amiga Tina, que morava num prédio da esquina. Estava elétrica naquela manhã, igual à vez em que apareceu sozinha em casa com a laranja.
– Óóóóó – fez ela –, de camisa nova!
Era verdade. Comprara a camisa pensando nela, pensando em vê-la. Sabia que ela sabia disso e que estava me gozando, embora não ligasse.
– Essa é minha irmã, Glendoline.
– Oi.
Glendoline puxou uma cadeira e começou a falar. E COMO falava. Se fosse uma esfinge, ia falar, se fosse uma pedra, ia falar. Quando é que ela vai se cansar e sair, fiquei pensando. Mesmo quando parei de escutar, era como se eu estivesse sendo bombardeado com minúsculas bolinhas de pingue-pongue. Glendoline não tinha nenhuma noção do tempo e não se tocava de que podia estar incomodando. Ela falava, falava.
– Escuta aqui – acabei dizendo –, quando é que você vai embora?
Aí começou uma cena entre irmãs. Começaram a boquejar uma pra outra. Ficaram as duas de pé, agitando os braços uma pra outra. As vozes se elevavam. Se ameaçaram fisicamente. Por fim – na véspera do fim do mundo –, Glendoline deu um meio rodopio vigoroso e se abalou pra sair; cruzou o espaçoso batente da porta de tela e foi embora. Ainda dava pra ouvi-la, inflamada e resmunguenta. Foi pro seu apartamento, nos fundos do condomínio.
Lydia e eu voltamos pro nosso canto e nos sentamos. Ela apanhou seu instrumento de esculpir. Os olhos dela bateram nos meus.
Capítulo 2.
Mulheres. Charles Bukowski.
Sentei de frente pra Lydia, junto à mesa da cozinha. Entre nós dois tinha um montão de argila. Ela começou a fazer perguntas.
– Seus pais ainda estão vivos?
– Não.
– Você gosta de Los Angeles?
– É a minha cidade favorita.
– Por que é que você escreve sobre as mulheres daquele jeito?
– Que jeito?
– Você sabe.
– Não sei, não.
– Ora, eu acho uma vergonha um cara que escreve tão bem como você não saber nada sobre as mulheres.
Não respondi.
Eu a encarava. Ela trabalhava no monte de argila com um instrumento de madeira que tinha um laço de arame na ponta. Fazia gestos com o instrumento pra mim, por cima do monte de argila. Eu a observava. Seus olhos nos meus. Eram grandes, castanho-escuros. Até seu olho ruim, o tal que não combinava com o outro, era bonito. Lydia trabalhava. O tempo passava. Eu estava em transe.
Então, ela falou:
– Que tal uma folga? Tá a fim de uma cerveja?
– Legal. Tô sim.
Ela se levantou pra ir à geladeira. Fui atrás. Tirou de lá a garrafa e fechou a porta. No que ela se virou, agarrei-a pela cintura e puxei-a pra junto de mim. Grudei, boca e corpo, nela. Ela segurava a garrafa de cerveja a distância, com o braço esticado. Beijei-a. Beijei-a de novo. Lydia me empurrou.
– Tá bom – ela disse –, agora chega. Temos trabalho pela frente.
Capítulo 2.
Mulheres. Charles Bukowski.
Acordei na manhã seguinte com umas pancadas nos vidros da porta da frente. Eram dez e meia.
– Cai fora – gritei.
– É Lydia.
– Tá legal. Espere um minuto.
Botei uma camisa, uma calça e fui abrir. Daí, corri pro banheiro e vomitei. Tentei escovar os dentes, mas só consegui vomitar de novo o gosto doce da pasta virou meu estômago. Voltei pra sala.
– Você tá mal – disse Lydia. – Quer que eu saia?
– Não, não, eu tô legal. Sempre acordo desse jeito.
Lydia estava ótima. A luz atravessava a cortina e brilhava nela. Tinha uma laranja na mão que ela ficava jogando pro ar. A laranja rompia rolando a manhã luminosa de sol.
– Não posso ficar – disse ela –, mas queria te pedir uma coisa.
– Claro.
– Eu sou escultora. Quero esculpir sua cabeça.
– Tudo bem.
– Você vai ter que ir na minha casa. Eu não tenho ateliê. Vai ter que ser na minha casa. Isso não vai te deixar nervoso, vai?
– Não.
Anotei seu endereço e as instruções pra chegar lá.
– Vê se aparece pelas onze da manhã. Os garotos chegam da escola no meio da tarde e atrapalham muito.
– Vou chegar lá às onze – disse eu.
Capítulo 2.
Mulheres. Charles Bukowski.
Lydia sentou no sofá, perto da porta. Sentei a uns dois palmos dela. Olhei pra ela. Estava maravilhosa. Me deu medo. Aproximei a mão e toquei seus longos cabelos. Cabelos mágicos. Tirei a mão.
– Todo esse cabelo é seu mesmo? – perguntei. Sabia que era.
– É – respondeu –, é meu.
Peguei no seu queixo e tentei, muito sem jeito, virar sua cabeça de frente pra minha. Me faltava confiança nessas situações. Beijei-a, de leve.
Lydia se levantou num pulo.
– Tenho que ir. Estou pagando uma baby-sitter.
– Olha – eu disse –, fique aqui. Eu pago. Fique mais um pouquinho.
– Não, não posso – ela disse. – Tenho que ir.
Foi até a porta. Fui atrás. Ela abriu a porta. Então, se virou. Cheguei nela mais uma vez, a última. Ela levantou a cara e me deu um beijo mínimo. Depois, se afastou e botou umas folhas datilografadas na minha mão. A porta se fechou. Sentei no sofá com as folhas na mão e ouvi seu carro dando partida.
Os poemas, impressos em mimeógrafo, estavam grampeados e se intitulavam DELLLLA. Li alguns. Eram interessantes, cheios de humor e sexualidade, porém mal escritos. Eram de Lydia e de suas três irmãs – todas tão joviais e maravilhosas e sensuais ali reunidas. Joguei fora as folhas e abri a garrafa de uísque. Estava escuro lá fora. O que o rádio mais tocava era Mozart e Brahms e o Beethô.
Capítulo 1.
Mulheres. Charles Bukowski.