nothing can save me but the sound of your voice.
powerblondie :
Há algum tempo atrás, conversando com Rolland e tendo trocado experiências com um outro mutante de sua categoria, Charlie descobrira o motivo pelo qual conseguia estar em certos lugares antes que precisassem dela; no caso, em situações na qual alunos estavam brigando nos corredores ou, como já acontecera mais de uma vez, quando Blake estava tendo um de seus surtos. Ela sentia-se estranha à véspera destes acontecimentos, mas nunca tivera certeza se isso procedia. Até que encontrara aquela explicação: existiam indivíduos com os quais suas vibrações estavam mais sintonizadas a ponto de senti-los em seu corpo, como se fossem um só.
Por isso mesmo é que seu coração afundou dentro do peito naquela noite. Estivera inquieta durante o dia todo, mas a angústia estava começando a consumi-la. E quando ouviu passos no corredor dos aposentos dos professores, saiu da cama num pulo, hesitando diante da porta, porque suas próprias pernas tremiam e seu estômago estava embrulhado. Charlie andara se enganando sobre muitas coisas nas últimas semanas, mas uma, principalmente: que o que acontecera nos últimos tempos, com aquela confusão que resultou em um Blake cuidando dela, estreitou ainda mais as vibrações que poderia dividir com ele. E aquilo soava um tanto quanto problemático.
Ainda assim, Memphis teve forças o suficiente para sair de seus aposentos e rumar atrás de Blake. Vê-lo cambaleante daquela maneira fez com que sua preocupação aumentasse. E foi ao escutar os gritos dele, virando-se nos calcanhares rapidamente para fazer sinal para alguns outros docentes que haviam botado a cabeça para fora de suas portas, curiosos, que Charlie soube que precisava tomar uma atitude rápida. Não era de seu feitio agir sem pensar, mas era pelo bem de Blake.
Então, na sala de treinamento, ela fechou cuidadosamente a porta do local atrás de si. Enquanto isso, trabalhava em suas vibrações, emanando as melhores possíveis; o plano era fazer Blake se sentir calmo, como se estivesse em um resort, em uma ilha paradisíaca. Aquela era sua maneira de mostrar que estava se aproximando.
“Blake.” Chamou. Engoliu em seco instantes antes de encurtar ainda mais a distância entre eles. Continuava com o estômago embrulhado, mas foi assertiva ao tocar com carinho as madeixas do amigo, enquanto deixava-se ao lado dele, sentando-se numa parte da arquibancada. Estava tão pálido… E enquanto constatava isso, Charlie pegou-se afagando uma das bochechas do moreno. Fora tomada por uma vontade extremamente forte de chorar, porque a energia dele estava uma bagunça, mas ela manteve-se firme – mesmo que algumas lágrimas estivessem começando a escorrer por suas bochechas avermelhadas. “O que foi, querido? É só outro sonho ruim. Eu estou aqui.”
A verdade era que mesmo que estivesse aos gritos, a vida continuava a seguir seu caminho. Às vezes, ele realmente queria ser um desses tiranos que usam seus poderes sem propósito nenhum apenas para que então fizesse tudo parar por alguns minutos, para que ele pudesse curtir um pouco do silêncio, de uma solidão e em paz de espírito. E sempre quando essa vontade vinha, ele pensava no preço que deveria pagar e a vontade desaparecia.
Ali, na sala de treinamento, onde havia conseguido chegar, teoricamente, poderia extravasar. Liberar as rajadas psíquicas sem abater ninguém até que conseguisse voltar a contar e re-estabelecer o fiapo que chamava de sanidade. Ainda tremia, seus joelhos batiam um no outro assim como o queixo que fazia um imenso barulho conforme Blake achava que todos os seus dentes estavam caindo. Mas não era verdade. Toda a vida seguia enfrente.
Ele tentou pensar no lugar ruim para se acalmar, lembrar a si mesmo que se continuasse daquela forma o Rolland não teria outra escolha, mas as lembranças só pioraram o pânico de Blake. Seu coração disparou, seus olhos derrubaram lágrimas ao que as pernas já não foram boas o bastante para suster o peso do moreno. Ele desabou por completo. Gotas de suor corriam friamente pela face desesperada do time lord e se misturavam às lágrimas. Num ato de resistência, se colocou de pé. Estava frágil, com medo, com ansiedade, mas estava em pé.
Ele ia gritar outra vez para desfocar dos pensamentos intrusivos quando sentiu como se uma brisa tocasse seu rosto. Os olhos agora mostravam duas irises vermelhas como duas pepitas de rubis lapidadas e um brilho forte também estava saindo de si. No entanto, o que fez Blake se lembrar de onde estava e, ainda mais, com quem estava foi a voz da mulher que tanto amava. “C-Charlie?” A respiração era ruidosa, falhada. As mãos que puxavam os fios castanhos procuraram pelo rosto da outra, visto que não mais podia ver. “Charlie, v-vai embora... Não quero te matar.”
Mas ele pedia silenciosamente à todos os deuses que ela não o deixasse porque a loira sempre fora sua última esperança.
Engolia em seco. Agora sim ele tinha um motivo para focar. Charlotte estava ali com todo o seu poder, emanando boas vibrações para si, mesmo sabendo que ele não seria a melhor fonte das vibrações naquele momento. Os pensamentos dela saltavam sobre os demais de querer vê-lo bem, de se mante firme que foi nisso que ele obrigou a se focar. A se tornar receptivo à falta de medo da loira em relação ao seu poder. Amava tanto, tanto, a loira que sua ansiedade foi se dissipando. O toque singelo dela, juntamente com as vibrações de tranquilidade eram um remédio lento e agradável. “Eu... eu... eu perdi as contas. Eu perdi as contas... eu... Sonho?” Perguntou com a voz frágil, baixa. “O que tá acontecendo?”
Não importava o que fosse, tinha a voz de Charlie para levá-lo pra casa.















