nothing can save me but the sound of your voice.
Sua cabeça explodia de tanta dor. Não dormia há mais de semanas e já tinha perdido algumas contas, algumas vezes. As vozes estavam cada vez mais altas. O que normalmente era comparado com estações de rádio ligado a som ambiente, agora estava como se se fossem bandas de rock pesado tocando ao mesmo tempo. Blake não conseguia ouvir seus pensamentos.
Não conseguia fazer contas.
Não conseguia sair do quarto.
Não conseguia parar de tremer.
Estava acontecendo de novo. Tudo de novo. Blake conhecia aqueles sinais e esperava muito esconder tudo aquilo porque não queria voltar para o lugar ruim. Seu corpo tremeu outra vez, seus pelos se arrepiaram por completo. Abraçou o próprio corpo e começou a recitar como um mantra “Você precisa se ajuntar. Você precisa se ajuntar. Você precisa se ajuntar.” Murmurava. Sequências de três até que finalmente sentir um fiapo de segurança.
Colocou os pés fora da cama, pegou suas coisas em sequência e saiu do quarto e o barulho dentro da sua cabeça só aumentou. As falas das pessoas que o dominador do tempo não sabia discernir se eram falas ou pensamentos e eles viravam gritos que por sua vez se transformava em pontadas.
Assim que saiu e rumava a sala de treinamento para tentar se controlar e descarregar parte de seus problemas de forma agressiva e sem machucar ninguém. Estava pálido, as pernas batiam uma na outra. Não sabia aonde estava indo porque a cabeça doía demais e, finalmente, um oásis. O rosto de Charlie veio em seus pensamentos e lhe causou dor. Ela não o socorreria. Não dentro da fantasia em que estava vivendo.
“VOCÊS PODEM CALAR A PORRA DA BOCA?” Rosnou com as duas mãos na cabeça enquanto puxava os próprios cabelos. “Preciso de um minuto. Preciso de um minuto. Preciso de um minuto.”
Há algum tempo atrás, conversando com Rolland e tendo trocado experiências com um outro mutante de sua categoria, Charlie descobrira o motivo pelo qual conseguia estar em certos lugares antes que precisassem dela; no caso, em situações na qual alunos estavam brigando nos corredores ou, como já acontecera mais de uma vez, quando Blake estava tendo um de seus surtos. Ela sentia-se estranha à véspera destes acontecimentos, mas nunca tivera certeza se isso procedia. Até que encontrara aquela explicação: existiam indivíduos com os quais suas vibrações estavam mais sintonizadas a ponto de senti-los em seu corpo, como se fossem um só.
Por isso mesmo é que seu coração afundou dentro do peito naquela noite. Estivera inquieta durante o dia todo, mas a angústia estava começando a consumi-la. E quando ouviu passos no corredor dos aposentos dos professores, saiu da cama num pulo, hesitando diante da porta, porque suas próprias pernas tremiam e seu estômago estava embrulhado. Charlie andara se enganando sobre muitas coisas nas últimas semanas, mas uma, principalmente: que o que acontecera nos últimos tempos, com aquela confusão que resultou em um Blake cuidando dela, estreitou ainda mais as vibrações que poderia dividir com ele. E aquilo soava um tanto quanto problemático.
Ainda assim, Memphis teve forças o suficiente para sair de seus aposentos e rumar atrás de Blake. Vê-lo cambaleante daquela maneira fez com que sua preocupação aumentasse. E foi ao escutar os gritos dele, virando-se nos calcanhares rapidamente para fazer sinal para alguns outros docentes que haviam botado a cabeça para fora de suas portas, curiosos, que Charlie soube que precisava tomar uma atitude rápida. Não era de seu feitio agir sem pensar, mas era pelo bem de Blake.
Então, na sala de treinamento, ela fechou cuidadosamente a porta do local atrás de si. Enquanto isso, trabalhava em suas vibrações, emanando as melhores possíveis; o plano era fazer Blake se sentir calmo, como se estivesse em um resort, em uma ilha paradisíaca. Aquela era sua maneira de mostrar que estava se aproximando.
“Blake.” Chamou. Engoliu em seco instantes antes de encurtar ainda mais a distância entre eles. Continuava com o estômago embrulhado, mas foi assertiva ao tocar com carinho as madeixas do amigo, enquanto deixava-se ao lado dele, sentando-se numa parte da arquibancada. Estava tão pálido... E enquanto constatava isso, Charlie pegou-se afagando uma das bochechas do moreno. Fora tomada por uma vontade extremamente forte de chorar, porque a energia dele estava uma bagunça, mas ela manteve-se firme -- mesmo que algumas lágrimas estivessem começando a escorrer por suas bochechas avermelhadas. “O que foi, querido? É só outro sonho ruim. Eu estou aqui.”











