Nesse tal momento de dor, desse tal sonho de vida, me vejo a andar por ruas desconhecidas em plena lua cheia. Talvez em sã consciência não estivesse fazendo isso, mas, sinceramente não me sinto em sã consciência. Agora convencida de minha insanidade, entro em becos escuros, adentro esquinas vazias e sou rodeada pelo vento frio que a noite fez questão de convidar. Sinto-me correndo perigo. Sinto-me nua. Não na forma física de nudez, mas sim nudez de alma. Pareço ter me despido de meu mistério, perdi meu segredos ao virar tal esquina. É como se todos pudessem me ver claramente. Ver a minha real vida, minha real alma, meu real ser. Meu ser nada. Sinto-me sendo nada. Sinto-me privada de meus escudos, sinto-me na mira de holofotes e observada por todos que anteriormente não sabiam a existência de uma máscara. Sinto olhares de pena, incriminadores, julgadores. Sinto-me frango depenado à beira da panela quente. E como em um piscar de olhos, não me vejo mais ali. Mesma rua, mesma lua e vestida. Não só de roupas, mas de todos os meus segredos novamente. Adentro um café que me recebe com uma inesperada brisa quente, digna de um bom café. Sento na mesa dos fundos, a última, a nunca ocupada. Pedi uma xícara de café, a qual chegou vazia. Parecia-me gozação por ter pedido “Uma xícara de café” e não o café em si, mas ninguém parecia achar graça. Ninguém sorria. Todos me olharam perplexos com meu riso, devia haver uma placa de “É proibido sorrir” em algum lugar que eu não vira. Aqueles olhares me fizeram sentir vazia tal qual minha xícara. Abaixei a cabeça e no auge de meu desespero, me vi no fundo do café, com um último pedaço de papel e pedindo ao garçom que trouxesse outra xícara de café, na qual houvesse o líquido desta vez. Junto ao dinheiro lhe dei um bilhete, pra que pedisse ao rapaz com o violão, que tocasse minha música favorita. Ao som da tal, recebi minha xícara- desta vez com café, de fato-, peguei o ultimo pedaço de papel que me sobrara e um trecho da música cantada ali mesmo, e dizia “Sonho parece verdade, quando a gente esquece de acordar. E o dia parece metade, quando a gente acorda e esquece de levantar”. Levantei a xícara pra tomar o primeiro gole e o líquido amargo era frio, tal qual o vento daquela esquina. Me fez esquecer a letra de minha música favorita, fez doer o calo antigo e me despiu de meu mistério mais uma vez. Dessa vez, o frio fechou meus próprios olhos e me trouxe de volta, a vida. Oh, realidade doída.