❛ — Our lord and saviour Jesus Christ of Nazareth? Unless you are one of those who can only think of Ilya as their saviour, in that case I am faithful and loyal to Ilyushka Fenstermacher of Luxembourg. As a Frenchman that pains me to say more than you'll ever know. — ❜ Não que ela não conhecesse a dor, tal qual um curandeiro sente o cheiro da morte quando esta se atreve a pisar em seus salões, Pryce tinha o dom de sentir a dor emanando daqueles que a carregavam em seus corações e costas. Era por tal motivo que se recusava quase que diariamente a ficar perto demais do líder do coven, Ilya era um homem de muita fé, mas que carregava uma dor insistente dentro de si, uma que carregava pelos corredores por de trás de sorrisos gentis e palavras galantes, uma dor a qual Pryce podia ver transbordando por seus lábios e sendo engolida pelo mesmo para que pudesse continuar. Pryce conhecia pessoas daquele tipo, pessoas como Ilya, Kristopher, Isabeau e agora a bela Liliya. Pessoas que escondiam suas dores e tentavam continuar, que engoliam seus pecados até que eles o sufocassem dia por dia. Suas dores estavam em seus olhares, na ponta de seus dedos, no farfalhar de seus cabelos contra o vento. ❛ — Was that the answer you were looking for? — ❜ A pergunta era mais profunda do que parecia, a resposta para o que, afinal? A sua pergunta sobre sua servência ou para os questionamentos internos que pareciam transparecer no suor sagrado que se formava no topo da testa de Liliya?
Seu sorriso de lado foi um toque que não precisava ter dado, uma cereja podre em um bolo já azedo, Pryce sabia disso, sabia também que há mais males no mundo do que sorrir para uma garota bonita com problemas. Suas mãos calejadas pegaram as malas com facilidade e seus pés preguiçosos subiram as escadas e dobraram dois corredores antes de depositarem as malas de Liliya em um quarto vazio, havia apenas uma cama de casal com lençóis limpos, um grande armário e uma penteadeira com espelho, os tons pastéis neutros eram feitos para que quem quer que assumisse o quarto se sentisse confortável em mudar sua aparência. ❛ — You can change whatever you'd like. The bathroom door locks only on the inside, but we do have spells in order of protections... You know, suicide watch and everything else. — ❜ Pryce conhecia muito bem os protocolos do coven, tinha ajudado Liliya a reformulá-los e tinha também indicado pelo menos cinco bruxos a entrarem de fato em uma vigilância de suicídio.
Os olhos se tornaram um pouco mais ternos, menos brincalhões, mais acolhedores enquanto olhava a jovem a sua frente. Ela deveria ter uns pares de anos a menos que ele, ainda assim Pryce conseguia ver que o que quer que Liliya tivesse a salvo de, tinha sido ruim suficiente para deixar marcas profundas e visíveis. ❛ — Do you like music, món cherri? — ❜
O citar de Jesus e em seguida, Ilya, apenas fez com que franzisse sutilmente o cenho. Sua expressão gritava sobre não ter entendido o que havia sido dito, mas sim, entendera. Os dons de Liliya eram extensos, e muitas vezes se misturavam de maneira confusa, tornando sua presença e até sua existência confusa. Inconscientemente deu um passo na direção de Pryce, seu olhar intercalado entre o rosto do moreno e atrás dele, como se pudesse ver por dentro deste. Era capaz de enxergar, ouvir e sentir as divindades, santos, espíritos, ou qualquer energia que desejasse se comunicar.
Lentamente levantou a única mão original que lhe restara, a mão mecânica escondida atrás do corpo por todo tempo, e tão lentamente quanto o levantar da mão, fez um sinal da cruz no corpo de Pryce, como se estivesse fazendo por ele, começando pela cabeça, seguido pelo peito, o ombro esquerdo e por fim o ombro direito. Não havia expressão nem nada que indicasse tom jocoso ou desdém no que fazia, naquele momento, sua expressão era o mais próxima do neutro possível. Se lhe observasse por muito tempo, até parecia surgir a sombra de um sorriso em seus lábios. ——— That's not who I see...You carry the light of saint Bernadette and saint Joan of Arc. They walk with you. — O conhecimento sobre ambas vinha do tempo da infância passada em um orfanato justamente francês, no qual fora ensinada sobre todas as figuras importantes vindas do país e de fora. Além de, claro, o que era capaz de ver no momento.
O caminho até o quarto fora silencioso, seguindo com cabeça baixa como quem aparentava não ter desejo de memorizar os corredores de sua então nova casa. O quarto lhe trouxe memórias específicas do orfanato em Paris, não eram negativas, apenas a semelhança com o quarto que costumava dividir com outras dez crianças as quais acabavam por lhe seguir cegamente. Encaminhou-se para uma parede específica, próxima a cama, e com a mão que lhe pertencia tocou-a, permanecendo em silêncio tanto por respeito a fala alheia, quanto para organizar seus pensamentos. ——— I would like a portrait of my goddess. Can I draw? — Era talvez um pedido bobo, visto que havia acabado de lhe ser dito que poderia personalizar o quarto como bem quisesse. ——— I do feel this energy of suicide and sadness here...The gods feel close and distant at the same time. Dark times this place has been through. — Enquanto falava, permanecera na posição em que estivera nos últimos segundos, com a mão espalmada na parede e o rosto observando o nada.
A pergunta sobre música lhe pegara de surpresa. Por mais que tivesse ouvido diversos tipos por todo seu tempo de existência até ali, nenhuma havia realmente lhe chamado atenção. Lembrava das músicas infantis francesas, as propagandas russas, mas além disso, eram apenas memórias distantes. ——— I...Don't really listen to music. Why? —










