O citar de Jesus e em seguida, Ilya, apenas fez com que franzisse sutilmente o cenho. Sua expressão gritava sobre não ter entendido o que havia sido dito, mas sim, entendera. Os dons de Liliya eram extensos, e muitas vezes se misturavam de maneira confusa, tornando sua presença e até sua existência confusa. Inconscientemente deu um passo na direção de Pryce, seu olhar intercalado entre o rosto do moreno e atrás dele, como se pudesse ver por dentro deste. Era capaz de enxergar, ouvir e sentir as divindades, santos, espíritos, ou qualquer energia que desejasse se comunicar.
Lentamente levantou a única mão original que lhe restara, a mão mecânica escondida atrás do corpo por todo tempo, e tão lentamente quanto o levantar da mão, fez um sinal da cruz no corpo de Pryce, como se estivesse fazendo por ele, começando pela cabeça, seguido pelo peito, o ombro esquerdo e por fim o ombro direito. Não havia expressão nem nada que indicasse tom jocoso ou desdém no que fazia, naquele momento, sua expressão era o mais próxima do neutro possível. Se lhe observasse por muito tempo, até parecia surgir a sombra de um sorriso em seus lábios. ——— That's not who I see...You carry the light of saint Bernadette and saint Joan of Arc. They walk with you. — O conhecimento sobre ambas vinha do tempo da infância passada em um orfanato justamente francês, no qual fora ensinada sobre todas as figuras importantes vindas do país e de fora. Além de, claro, o que era capaz de ver no momento.
O caminho até o quarto fora silencioso, seguindo com cabeça baixa como quem aparentava não ter desejo de memorizar os corredores de sua então nova casa. O quarto lhe trouxe memórias específicas do orfanato em Paris, não eram negativas, apenas a semelhança com o quarto que costumava dividir com outras dez crianças as quais acabavam por lhe seguir cegamente. Encaminhou-se para uma parede específica, próxima a cama, e com a mão que lhe pertencia tocou-a, permanecendo em silêncio tanto por respeito a fala alheia, quanto para organizar seus pensamentos. ——— I would like a portrait of my goddess. Can I draw? — Era talvez um pedido bobo, visto que havia acabado de lhe ser dito que poderia personalizar o quarto como bem quisesse. ——— I do feel this energy of suicide and sadness here...The gods feel close and distant at the same time. Dark times this place has been through. — Enquanto falava, permanecera na posição em que estivera nos últimos segundos, com a mão espalmada na parede e o rosto observando o nada.
A pergunta sobre música lhe pegara de surpresa. Por mais que tivesse ouvido diversos tipos por todo seu tempo de existência até ali, nenhuma havia realmente lhe chamado atenção. Lembrava das músicas infantis francesas, as propagandas russas, mas além disso, eram apenas memórias distantes. ——— I...Don't really listen to music. Why? —
O rosto de Pryce vacilou por um momento, uma sombra passando por seus olhos enquanto tentava erguer mais uma barreira mental por precaução, talvez estivesse lidando com uma telepata, pensara por um segundo, mas não. Liliya era diferente, totalmente diferente. Ela era poderosa, Pryce não podia negar que a aura que emanava da morena o fazia querer ajoelhar-se perante a ela, o tipo de poder que causa dois distintos pensamentos. O primeiro é sempre o medo, medo é o que faz as pessoas tentarem destruir algo antes que aquilo os destrua, era o que tinham tentado fazer com Ilya, eram o que provavelmente tinham tentado fazer com Liliya também, era o que tinham feito com Vivienne. Bruxos poderosos causam medo a seus adversários e aliados, e o medo leva humanos a cometer atrocidades em nome da autopreservação. O segundo pensamento sempre é respeito, admiração, o que quer que quisessem usar de sinônimo para aquela palavra no exato momento. Pryce sentia-se descabido de medo, e nesse caso tudo que restara era admiração àquele poder que parecia encher o quarto e sufocá-lo sem que ele ao menos lutasse contra. Com a menção de suas santas, Pryce suspirou, seus dedos tocaram dentro de seu bolso direito o relicário que sempre trazia consigo. ❛ — That’s a cool party trick. You shouldn’t use it around the hallways, you’ll end up seeing things no one wants to see. — ❜ Não era uma ameaça, era um aviso amigo, uma palavra de conselho vinda de alguém que já tinha ouvido e visto muita coisa nos corredores barulhentos e infestados daquela mansão.
Pryce assentiu suavemente, não demorou para conjurar materiais de pintura e desenho, esses sendo colocados na escrivaninha com cuidado. ❛ — Will this be enough? — ❜ Perguntou com seu sotaque carregado, o francês quase lhe escapulindo por comodidade, ainda assim lutou contra si tentando retomar o autocontrole de suas emoções, não era hora de escorregar. Uma risada sem humor foi dada. ❛ — Oh, you have no idea…This coven has seen some dark times indeed. They were under the control of two very bad supremes, but it’s getting better now, we are getting to a good place and we’d like you to come with us to that good place. If you do choose so. — ❜ Deu de ombros como quem não queria nada com nada, como se seu trabalho não fosse literalmente se certificar de que todos estariam ali pelo motivo certo. Não queria pressionar a recém-chegada.
Um sorriso de lado se espalhou por seu rosto antes que delicadamente tocasse um dos ombros de Liliya a conduzindo para fora do quarto. ❛ — Because the tour is far from over and I want to know what you like so I can decide what to show you next. — ❜ Explicou como se fosse óbvio, mesmo assim a guiou para a sala de música onde rapidamente se sentou no piano para tocar algumas notas e tentar impressionar a recém-chegada.












