About Time (2013)
Alisa U Zemlji Chuda
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Stranger Things
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Kiana Khansmith
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Sade Olutola
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@butyoudontlikeme
About Time (2013)
Endless Love (2014)
Friends, 1996/1997.
âCapĂtulo 1 - epsd 1. 06h30min AM. Levantei cedo como todos os dias e acordei minha Irma mais velha para irmos para a escola. Como sempre ela esta atrasada e me atrasou como todos os dias. Todas as manhas sĂŁo iguais, eu jĂĄ deveria ter me acostumado com esses estresses. - vocĂȘ nĂŁo pode passar um dia sequer sem me atrasar? â gritei enquanto ela se vestia e eu jĂĄ estava na porta e nossa mĂŁe dentro do carro - ah, nĂŁo enche garota insuportĂĄvel â ela sempre foi uma flor de gentileza. Mais um dia normal se passou. Cheguei atrasada, mas a tempo de entrar na primeira aula. Eu ainda estava no primeiro ano do ensino mĂ©dio, nada de novo estava acontecendo na minha vida, alĂ©m do porre de ter que aturar todas aquelas pessoas que me rodeavam e que odiavam pelo simples fato de eu ser eu. Eu tinha um amigo, na verdade tinha alguns, mas a maioria nĂŁo passava de conhecidos. - E ai Lia, bom dia! â disse Gab com um sorriso no rosto. Ele estudava comigo hĂĄ anos na mesma sala, mas sĂł nesse ano tĂnhamos ficado mais prĂłximos. - Bom dia pra quem? SĂł se for pra vocĂȘ â respondi com meu melhor humor matutino. - Ah, larga de drama! Show a essa hora? â ele respondeu me dando um soquinho no braço. Gab jĂĄ era acostumado com meu mau humor diĂĄrio, e achava graça disso. Mas sĂł ele achava mesmo. As sete aulas passaram bem lentamente como todos os dias. Tinha uma garota nova na sala, acho que nĂŁo causei uma impressĂŁo muito boa. Talvez seja porque na aula de educação fĂsica dei uma bolada na cara dela, mas nĂŁo foi nada demais, nĂŁo lembro se pedi desculpas, espero que ela nĂŁo tenha me odiado logo de cara por isso. O nome dela era Maria Julia, mas ela pediu pra todos chama-la de Ma. Eu nĂŁo sei por que, ela nĂŁo me parecia nada âmĂĄâ, decidi ignorar e chama-la do jeito que eu estivesse afim no dia. Eu sempre voltava de ĂŽnibus pra casa, Ă s vezes o Gab ficava comigo na parada ate meu ĂŽnibus passar, mas esse dia ele tinha alguma coisa pra fazer entĂŁo sĂł nos despedimos na porta da escola e ele foi pra casa, ele morava bem perto dali entĂŁo ia a pĂ© mesmo, ao contrario de mim que morava na rua de baixo. 14h PM. Chego em casa e minha mĂŁe ainda estava terminando o almoço. Ela demorava pra começar a fazer porque sĂł saiamos da aula 13:20 da tarde. Depois do almoço deitei no sofĂĄ pra tirar minha soneca sagrada da tarde. Meus dias eram assim. Nada de diferente. Nada me surpreendia. Cada dia que passava era sĂł um dia a menos pra eu ter que aturar aquele bando de chato e fingir que estava feliz com o tĂ©dio de vida que levava. Afinal, eu sĂł tinha 14 anos, tinha sido adiantada no prezinho por ser âinteligenteâ demais. Apenas aceitei, se eles realmente achavam isso, quem era eu pra discordar. VĂĄrios dias se passaram como o primeiro dia de aula. Gab e eu passĂĄvamos o intervalo das aulas juntos falando da vida ou das nossas aventuras, mas na maioria das vezes ficĂĄvamos rindo dos esquisitĂ”es da escola, era nosso hobbie. Ate que um dia foi diferente, nĂŁo tĂŁo diferente, mas bem estranho..â
â âO amor Ă© isso mesmo?â
Odeio gente perfeita demais, sorridente demais. Odeio quem diz âoi, lindaâ sĂł pra ganhar algo. Odeio quem acaba de me conhecer e jĂĄ diz âeu te amoâ. Odeio. Odeio quem força simpatia, quem finge que gosta, quem diz âah, somos sĂł amigosâ mas, lĂĄ no fundo, tĂĄ cheio de segundas intençÔes. Odeio quem chega abraçando, odeio quem faz drama e começa a chorar sĂł pra ser o centro das atençÔes. Odeio quem se faz de coitado e mais ainda quem dĂĄ atenção a isso, mas tambĂ©m odeio quem trata as pessoas como um nada. Odeio o preconceito, mas principalmente, quem diz que a aparĂȘncia nĂŁo importa mas nĂŁo quer ficar com alguĂ©m âporque Ă© feioâ. Odeio quem fica, de qualquer jeito. Odeio a capacidade que as pessoas tĂȘm de beijar sabendo que nĂŁo tem sentimento. Odeio ilusĂ”es. Odeio quem aparece cheio de amor pra dar mas perde o tesĂŁo no meio do relacionamento. Odeio quem vai embora, mas odeio quem fica por falsidade. Odeio que tenham pena de mim. Odeio sentimentalismo, por mais sentimental que eu seja, lĂĄ no fundo. Mas odeio, acima de tudo, quem me odeia simplesmente por odiar tudo isso.
Tati Bernardi. (via importunarei)
SĂŁo 3 da manhĂŁ, estou lendo um desses romances clichĂȘs do Nicholas Sparks para poder me sentir mais amada e menos sozinha, mas nĂŁo consigo prestar atenção em nenhuma palavra e acabo jogando o livro de lado. Vou atĂ© a cozinha, abro a geladeira, sinto aquele geladinho consumindo meu rosto por mĂseros segundos, respiro e me dou conta do que eu precisava nĂŁo se encontrava exatamente dentro da geladeira. Pego uma ĂĄgua sĂł para eu me sentir menos tola, e dou uma espiada na janela da sala. Ă lua cheia. A lua que eu mais odeio e a que vocĂȘ mais ama. Mas me conforta observĂĄ-la, Ă© como se alguĂ©m me pegasse no colo e me colocasse pra dormir enrolada em um edredom. Sinto vontade de escrever, e faz 6 meses que eu nĂŁo sei o que Ă© pegar num lĂĄpis e sentir prazer em deslizĂĄ-lo no papel. A vontade passa quando o telefone toca. Ă JP, o cara que eu tenho saĂdo jĂĄ faz algum tempo. Ele Ă© aquele estereĂłtipo de cara perfeito, se veste bem, me leva pra jantar, me manda flores, toca violĂŁo e marca viagens surpresas para lugares que eu mais desejo ir. O cara perfeito, o cunhado perfeito, o genro perfeito, a porra toda perfeita, mas que no fim das contas nĂŁo fazia eu me sentir perfeita. Alias o que Ă© mesmo ser perfeita? Eu quero sumir daqui. Ă isso, eu quero largar meu emprego, meus estudos, minha casa, minha famĂlia, meu projeto de namorado perfeito e simplesmente desaparecer. Sem deixar rastros e nem nada. Sumir e pronto. Ai eu ia recomeçar a minha vida do zero, conhecer novas pessoas, novos lugares, novos ambientes e finalmente tentar ser um pouco mais eu do que um dia eu tenha sido. Finalmente o telefone para de tocar, mas a campainha dispara um ruĂdo tĂŁo alto, que eu solto um grito abafado do qual o sujeito nota de que hĂĄ alguĂ©m acordada. Merda! Abro a porta, e Ă© JP. Sorrio amarelo com aquela expressĂŁo de quem queria dizer âQUE DIABOS VEIO FAZER AQUI?â, e noto que o moleque mais uma vez estava com um buque de flores na mĂŁo e na outra chocolates. Oba, chocolates! Começo a comer esquecendo de sua presença no sofĂĄ. âTĂĄ tudo bem? Eu te liguei.â Aham, eu vi que vocĂȘ me ligou umas 300 vezes e mandou no mĂnimo umas 500 sms. Ele me olha de uma maneira como se nĂŁo me reconhecesse mais, e nĂŁo conhece! âVocĂȘ tĂĄ com uma aparĂȘncia horrĂvel, por que nĂŁo vai tomar um banho e a gente assiste um filme qualquer? Ein? O que vocĂȘ acha?â O QUE EU ACHO? EU ACHO QUE VOCĂ NEM DEVIA TĂ AQUI PRA COMEĂAR E EU NĂO TĂ AFIM DE ASSISTIR PORRA DE FILME NENHUM! AlguĂ©m por favor tira esse cara daqui? NĂŁo dou a mĂnima pro que ele fala, e continuo comendo meus chocolates como se o fim do mundo fosse no dia seguinte. Ele se aproxima como quem quer alguma coisa em troca, Ă© sexo, aposto, ele nĂŁo trouxe esses chocolates atoa. NĂŁo tĂŽ nem um pouco a fim de trepar, transar, fazer sexo, ser comida, seja lĂĄ o que ele veio fazer aqui, mas ele alisa minhas pernas e pressiona meu corpo ao dele, e pela primeira vez na vida eu me senti a pessoa mais suja desse mundo. Me exalto. âOlha sĂł JP, eu nĂŁo to afim de ser comida hoje, amanhĂŁ eu acordo cedo e fazendo as contas com o horĂĄrio de agora, eu tenho exatamente 4 horas de sono, entĂŁo se vocĂȘ nĂŁo se importar, a gente combina de trepar outro dia, ok?â Na hora ele se levantou, sua expressĂŁo de safado mudou para assustado e ele saiu da minha casa de uma maneira como se nunca mais fosse voltar. E nĂŁo voltaria mesmo. Me senti um pouco mais sozinha do que eu jĂĄ era. Liguei a tv como companhia e fiquei mudando de canal loucamente como se fosse encontrar algo de que tanto desejava. NĂŁo sabia mais o que estava fazendo e chorei por isso. Chorei por ter mandado mais uma pessoa da minha vida embora. Chorei porque o chocolate havia acabado e eu jĂĄ nĂŁo sabia onde mais ia depositar a minha ansiedade. Chorei porque eu tinha o mundo nas mĂŁos e resolvi carregĂĄ-lo nas costas. E tudo aquilo me pesava tanto, que chorar era tudo que me restava. Ai parei num canal que estava passando âTom&Jerryâ e pela primeira vez durando 6 meses eu sorri de verdade. Foi um sorriso de dentro pra fora, uma vomitada pra vida. E tudo isso tinha muito a ver com vocĂȘ. Era seu desenho favorito, lembra? Ă claro que eu lembro, foram muitas raivas passadas enquanto eu discutia nossa relação e vocĂȘ dava altas risadas em meio ao gole de cerveja. âDĂĄ pra vocĂȘ desligar essa merda e prestar atenção em mim?â âAhh amorzinho, vem assistir comigo.â Como eu odiava profundamente a palavra âamorzinhoâ, e como eu queria ser chamada de amorzinho agora. Pego o telefone e começo a discar seu nĂșmero. Desisto. A essa hora ele deve tĂĄ trepando com a vizinha ou ta tĂŁo chapado ao ponto de nĂŁo saber atender o maldito telefone. AmanhĂŁ eu ligo, hoje nĂŁo. Na verdade eu Ă© quem queria ser procurada, ser achada, e ser inteira mais uma vez. Vou deitar com a intenção de encontrar a minha paz, sĂł que faz tanto tempo que eu nĂŁo sei o que Ă© ter paz. Abraço o travesseiro com a Ăąnsia de ser abraçada de volta, e me questiono âQuando foi que eu me tornei uma pessoa tĂŁo vazia?â E me recordei da vez que eu me senti tĂŁo cheia, a ponto de transbordar. VocĂȘ me sugeriu pra pegar umas duas ou trĂȘs peças de roupa, um pouco de dinheiro, minha escova de dente e sĂł. 20 minutos depois tava vocĂȘ aqui em casa com o carro da sua mĂŁe dizendo que Ăamos viajar. Viajar? Pra onde? Eu nĂŁo posso viajar. AmanhĂŁ eu tenho uma reuniĂŁo, provas e falava sobre todo o meu planejamento do dia seguinte como se fosse a coisa mais importante do mundo, e vocĂȘ sempre me calava com um beijo fazendo eu esquecer de todo o resto. Suas viagens nunca eram planejadas, a gente brigava 99% do tempo porque tudo saia errado, e eu odiava erros. E olha eu aqui, sozinha, no meu quarto, recordando o quanto eu queria estar errando agora.
Muita Coisa Inacabada Porque a Gente Acabou - Part I (via thiaramacedo)
Quando menor, procurava agradar a todos os meus tios. Para um primo meu ficar sentado e quieto, ele pedia algum doce ou dinheiro. Jå eu, sentava e me comportava, e nunca quis nada por isso. Se algum tio precisasse de um favor deles, tinha que ter algo em troca. Jå eu, me levantava, fazia o que tinha de ser feito e voltava para o meu lugar, como se fosse a coisa mais natural do mundo, como se um sorriso valesse mais do que qualquer coisa. Apesar disso, todos eles gostavam mais dos meus primos, não importasse o que eu fizesse. Eles queriam valores materiais, eu apenas queria carinho. Eles queriam algum agrado, eu queria apenas agradar. Procurei uma dose de orgulho e ganhei litros de desprezo. Fui passado pra trås, esquecido, deixado de lado. Ninguém perguntou se eu precisava de algo, mas eles souberam. Cresci sentindo a dor da indiferença. Não foi fåcil, mas sempre estive sorrindo, ainda que por dentro fosse tristeza. Não tenho raiva e nem desejo o mau. Longe disso, que sejam todos felizes. Tenho mågoas, muitas, na verdade. Mas repito para mim mesmo, todas às vezes que lembro disso, com um sorriso do coração: Eu sou melhor do que isso.
Allax Garcia. (via allaxg)
Nunca fui a maior fĂŁ da cor cinza. Desde bem pequena, adorei a tristeza do preto e deixei o branco queimar meus olhos. Mas cinza nunca foi minha cor favorita. Ă bem verdade que nĂŁo vivi expressando minha raiva por ela, mas, se vocĂȘ me perguntar, eu digo que odeio o que ela representa: a uniĂŁo de luz e escuridĂŁo. Presença e ausĂȘncia. Tudo e nada. A cor cinza nĂŁo deveria existir nesse mundo, se vocĂȘ parar para pensar a respeito. Duas pontas opostas nĂŁo se tocam. Duas linhas paralelas nĂŁo se encostam. O sol e a lua vĂŁo eternamente fugir um do outro. EntĂŁo, por que diabos cinza existe? LĂĄ pelos meus dez anos de idade, cansei de toda essa bobagem de dias cinzentos e casacos cinza e todas as tiaras cinza que uma tia minha insistia em comprar para me dar de presente, como se fosse minha cor favorita. Por isso, peguei uma das tiaras e joguei no chĂŁo no momento em que essa tia saiu da minha casa, totalmente frustrada com o presente inĂștil. Minha mĂŁe franziu o cenho e, com dez anos, eu jĂĄ sabia o suficiente das pessoas para entender que estava encrencada. Comecei a gritar como tudo isso nĂŁo fazia sentido. Que cinza era uma cor horrĂvel e que preto e branco apenas nĂŁo combinam, e nunca iriam combinar, independente do quanto as pessoas tentassem fazer com que eu engolisse essa anormalidade das cores. Minha mĂŁe começou a rir, como se eu tivesse contado a piada mais engraçada que ela jĂĄ ouvira. E aĂ ela disse a pior frase do universo. A pior coisa para se ensinar a uma filha. Sabe o que ela disse? Talvez o preto e o branco tenham se apaixonado. Talvez nĂŁo tenham conseguido evitar. Sei que eu nunca consegui. NĂŁo quando o assunto Ă© vocĂȘ. Pensando em retrospectiva, admito que eu deveria ter percebido mais cedo o que eu estava sentindo por vocĂȘ. JĂĄ fui toda sorrisos e brincadeiras, e vocĂȘ tinha essa cara emburrada de quem tinha acabado de sair da cama apesar de ser cinco e meia da tarde. NĂŁo odiei vocĂȘ de cara nem nada, mas torci o nariz para aquela minha amiga que estava com vocĂȘ na Ă©poca e nĂŁo calava a boca sobre como vocĂȘ era maravilhoso â vocĂȘ era horrĂvel com ela â e que, definitivamente, ela tinha encontrado o homem certo. NĂŁo me considero nenhuma expert em romance ou algo assim, mas era bem Ăłbvio que vocĂȘ nĂŁo estava cantando aos quatro ventos que tinha encontrado a mulher da sua vida. Na verdade, a nossa primeira interação foi vocĂȘ me olhando da unha do pĂ© atĂ© meu Ășltimo fio de cabelo, fazendo com que minha cara ficasse mais vermelha que o cabelo ruivo dessa minha amiga. E vocĂȘ percebeu â Ă© claro que percebeu. E começou a rir como se deixar uma garota envergonhada fosse sua missĂŁo de vida e eu quis atirar meu refrigerante em vocĂȘ. O que, para relembrar, eu eventualmente fiz, mas em outra ocasiĂŁo completamente diferente. E vocĂȘ mereceu. VocĂȘ sabe que mereceu. NĂŁo lembro muito bem o que vocĂȘ falou. Alguma bobagem sobre como vocĂȘ nĂŁo sabia que ela tinha amigas tĂŁo bonitas e esse tipo de merda. Aquela foi a primeira e Ășnica vez que vocĂȘ me tratou como trata todas as outras garotas. Depois disso, todas as outras vezes que a gente se encontrou vocĂȘ agiu como se eu fosse, surpreendentemente, um ser humano que merece ser olhado nos olhos, nĂŁo nos peitos. Achei que vocĂȘ apenas nĂŁo estivesse interessado, para ser sincera. Que era assim que vocĂȘ tratava as garotas quando nĂŁo queria nada com elas. Mas eu estava errada. Meu Deus, eu estava totalmente errada. âPorra, Anna! VocĂȘ nĂŁo pode estar falando sĂ©rio.â VocĂȘ gritou, apesar de nĂŁo ter nenhum barulho na nossa volta. A gente sempre acabava se encontrando nessas festas â tudo bem, nĂŁo era assim tĂŁo casual. Eu sempre procurava saber onde vocĂȘ estaria. Eu estava interessada. E gostava de vocĂȘ. Viu? Fazia pouco mais de alguns meses e eu jĂĄ gostava de vocĂȘ. â e acabĂĄvamos sentando em um canto para conversar. Eu jĂĄ deveria saber, sĂł por isso. VocĂȘ nĂŁo ficava catando a saia mais curta quando eu estava por perto. VocĂȘ nĂŁo desviava o olhar de mim quando alguma loira vagabunda ficava perto de nĂłs e ria alto demais para chamar sua atenção. Mas eu nunca tinha estado apaixonada. Eu nĂŁo sabia qual era a sensação. Eu nĂŁo sabia que essa era exatamente a sensação. âĂ totalmente sĂ©rioâ, eu respondi, me controlando ao mĂĄximo para nĂŁo rir da sua cara de decepção. âConsiderando como vocĂȘ Ă© bonita, eu nĂŁo deveria me surpreender. Mas vocĂȘ Ă© inteligente demais para gostar de uma coisa tĂŁo tosca quanto comĂ©dias romĂąnticasâ, exclamou, balançando a cabeça, como se essa fosse a maior ofensa do universo. E eu ignorei a parte em que vocĂȘ disse que eu era bonita. VocĂȘ sĂł tinha dito isso uma vez, naquela noite em que nos conhecemos, e eu nunca pensei que vocĂȘ fosse repetir porque achei que tivesse sido da boca para fora. Achei que vocĂȘ nĂŁo pensasse em mim dessa maneira. Mas eu pensava. Meu Deus, eu pensava nisso o tempo todo. NĂŁo que eu adorasse admitir para mim mesma, porĂ©m, nĂŁo conseguia tirar da cabeça esses seus olhos escuros e seus ombros largos. NĂŁo conseguia deixar de ouvir sua risada quando o mundo estava em silĂȘncio. Bem que eu queria. Bem que eu tentei. Nunca deu certo. Talvez nĂŁo tenham conseguido evitar. âĂ mesmo? E o que vocĂȘ esperava? Ficção cientĂfica e filmes com muito sangue?â perguntei, torcendo o nariz. âAlgo tipo isso. E terror. VocĂȘ tem cara de quem gosta de filmes de terrorâ âEu odeio filmes de terror. NĂŁo vou perder duas horas da minha vida para ficar assustada!â disse, com os olhos arregalados por vocĂȘ ter errado tĂŁo feio. âAh, sim. E, em vez disso, prefere ficar duas horas assistindo a romances totalmente irreais. Isso faz total sentidoâ. âNessa Ășltima semana, nenhuma garota saiu rastejando da minha televisĂŁoâ, respondi, com o mĂĄximo de sarcasmo que pude reunir. âVocĂȘ sabe que vai perder no final, Henrique. Todo mundo gosta, pelo menos um pouquinho, de comĂ©dias romĂąnticas. Elas sĂŁo engraçadas e fazem com que a pessoa saia com o coração leve. Ă uma sensação boa, mesmo para um homem de lata como vocĂȘâ, ataquei, procurando nĂŁo sentir meu prĂłprio coração â que nunca foi feito de metal â saindo do peito por mencionar a palavra coração e romĂąnticas na mesma frase. Sei que nĂŁo Ă© nada demais, mas eu preferia nĂŁo ter que discutir essas coisas com vocĂȘ. Preferia nĂŁo complicar nada. Mas a gente jĂĄ tinha complicado tudo, nĂŁo Ă©? VocĂȘ fixou os olhos nos meus e suspirou, fingindo uma decepção que sĂł me fez rir ainda mais. Eu gargalhei alto, mas vocĂȘ sequer abriu um sorriso. Apenas continuou me encarando com seus terrĂveis olhos do tamanho do infinito, como se nĂŁo conseguisse entender o que estava acontecendo. Sei que eu definitivamente nĂŁo entendia. Parte de mim queria parar de rir, com medo de parecer completamente retardada e vocĂȘ pensar que estava dando em cima de vocĂȘ com a tĂ©cnica ria-de-tudo-que-ele-disser-e-fizer. Mas⊠Eu nĂŁo me sentia assim. Algo em vocĂȘ, desde o inĂcio, fez com que eu me sentisse livre; e, por isso, eu nĂŁo me importava. NĂŁo ligava se o resto da festa olhasse para nĂłs e pensasse que eu estava dando mole para vocĂȘ. NĂŁo ligava se vocĂȘ pensasse que eu estava dando mole para vocĂȘ. Para mim, vocĂȘ sempre foi uma das pessoas mais engraçadas do universo. Mesmo que nĂŁo esteja me fazendo rir tanto assim nos Ășltimos tempos. âVocĂȘ tem medo de monstros debaixo da sua cama, Anna?â, perguntou, com a mesma expressĂŁo sĂ©ria que me fez ficar meio na dĂșvida se vocĂȘ queria uma resposta sincera ou estava sĂł brincando. Mas seus olhos nĂŁo desviaram dos meus. E eu comecei a tremer. Comecei a tremer violentamente e nĂŁo sabia como esconder esse fato de vocĂȘ. Eu sempre tive medo de monstros. Dos debaixo da minha cama. Dos de dentro do espelho. Dos que me perseguiam enquanto eu caminhava pela rua. Dos que sempre viveram dentro de mim. E, naquele momento, eu tambĂ©m tive medo de vocĂȘ. Eu tive pavor de vocĂȘ. âVocĂȘ tem, Henrique?â, eu desafiei. Sabendo estava apenas fugindo da pergunta. Sabendo que vocĂȘ provavelmente apenas desviaria o olhar e fingiria que nada aconteceu. Sabendo que esse nĂł no meu estĂŽmago precisava desaparecer o quanto antes. Porque isso nĂŁo podia acontecer. Eu e vocĂȘ â nĂŁo era certo, nĂŁo era possĂvel e nunca aconteceria. Eu era o branco. VocĂȘ era o preto. E eu sempre odiei cinza. Mas vocĂȘ nĂŁo desviou o olhar. NĂŁo fingiu que nĂŁo tinha nada acontecendo. E o nĂł do meu estĂŽmago nĂŁo sumiu. Ele apenas continuou. E ainda continua aqui. âNĂŁo. Eu acho que qualquer criatura que precise esperar atĂ© a noite para atacar, nĂŁo merece meu medo.â, vocĂȘ respondeu, finalmente erguendo o canto esquerdo da boca. âMeu problema atual sĂŁo os monstros bonitos que insistem em me encarar como se nĂŁo estivessem fazendo nada de erradoâ Eu estava encarando vocĂȘ. Eu estava encarando vocĂȘ como nunca tive coragem de fazer. Estava inspecionando seu rosto e procurando por algo que fizesse com que essa Ăąnsia de passar o dedo pela sua cicatriz no queixo passasse. Algo que me fizesse perceber que isso era sĂł uma brincadeira, que vocĂȘ estava brincando comigo e nĂŁo queria de verdade roçar sua mĂŁo na minha. Mas vocĂȘ se enganou. Eu sabia que era errado. Eu tinha certeza absoluta de que era errado. SĂł nĂŁo consegui evitar. Assim como eu acho que vocĂȘ nĂŁo conseguiu evitar trazer seus lĂĄbios atĂ© os meus e me fazer perder o ar. E eu queria dizer que foi um beijo puramente feito de atração, mas foi gentil demais para que eu pudesse mentir. VocĂȘ tocou meu rosto como se eu fosse a coisa mais delicada e bonita que jĂĄ tivesse existido no mundo e eu quis morrer naquele instante. Quis morrer porque eu finalmente tinha entendido um monte de coisas sobre o mundo que antes nĂŁo faziam o menor sentido. NĂŁo se deve brincar com fogo. Agora, meu corpo inteiro estĂĄ queimando. Faz anos desde que esse beijo aconteceu, porĂ©m, eu continuo sem ar. Estou morrendo sufocada com a avalanche de memĂłrias que insistem em tomar conta da minha mente. Preciso de ajuda. Continuo olhando para os lados, mas nĂŁo enxergo vocĂȘ. Continuo gritando pela sacada, mas vocĂȘ nĂŁo aparece. Faz dois meses que nĂŁo tenho notĂcias suas e eu estou apavorada. SĂł consigo pensar em onde vocĂȘ pode estar e com quem vocĂȘ estĂĄ e em como eu gostaria de poder me desculpar. NĂŁo fui nada legal com vocĂȘ. Eu sinto tanto. Tanto. Tanto. VocĂȘ sempre foi a minha pessoa favorita no mundo inteiro. Ă Ăłbvio que me apaixonei por vocĂȘ. Ă Ăłbvio que ainda sou apaixonada por vocĂȘ. Sei que disse o contrĂĄrio, mas eu menti. Menti muito e fui estĂșpida e vocĂȘ precisa me perdoar, Henrique. Por favor. Por favor. Apareça, Henrique. Volta pra mim. Volta pra casa.
NĂŁo consegui evitar nosso fim. - Ana F. (via salt-waterroom)
Apesar de vocĂȘ carregar um nome Ă©pico nas costas, vocĂȘ nĂŁo faz jus a ele, JoĂŁo. O seu nome Ă© lindo, assim como os seus lĂĄbios finos e a sua nuca branquinha. O seu mal Ă© o que vocĂȘ Ă© por dentro. Se nĂŁo fosse esse teu jeito todo errado e desleixado, eu olharia pra sua cara e diria que vocĂȘ Ă© um anjo. A verdade Ă© que vocĂȘ Ă© o demĂŽnio em pessoa, JoĂŁo. Nada nunca Ă© bom o suficiente pra vocĂȘ. NinguĂ©m nunca Ă© digno do seu amor. Porque serĂĄ que vocĂȘ infla o seu ego tanto assim, JoĂŁo? VocĂȘ nĂŁo Ă© diferente dos outros. A sua rotina nĂŁo Ă© agitada todos os dias da semana. O seu tipo fĂsico nĂŁo Ă© de nenhum deus-grego-dos-cĂ©us. VocĂȘ arqueia essa sua sobrancelha com pelos falhos e cruza os braços fazendo essa pose de durĂŁo, mas de durĂŁo vocĂȘ nĂŁo tem nada. Admite que vez ou outra a sua vontade era de trocar a cerveja com os amigos por um milk shake com alguĂ©m especial, vai. Admite que alĂ©m da bunda e dos peitos, vocĂȘ tambĂ©m repara no sorriso e nos pĂ©s. Pode parecer meio absurdo, mas eu sei que vocĂȘ Ă© encantando por pĂ©s. E sei tambĂ©m que a sua bebida preferida nunca foi Whisky, mas sim GuaranĂĄ. Os seus coleguinhas-babacas-de-balada nĂŁo sabem disso, mas eu sei. Deve ser assustador pra vocĂȘ ter alguĂ©m que te conhece tanto quanto eu. Tudo bem, eu entendo a sua raiva e a sua ironia desafiadora. O que eu nĂŁo entendo Ă© porque vocĂȘ continua fumando cigarro, mesmo odiando a fumaça que gruda na sua pele. Eu nĂŁo entendo porque vocĂȘ sente a necessidade de beijar oito bocas diferentes a cada cinco minutos pra se sentir melhor. E tambĂ©m nĂŁo entendo a graça que vocĂȘ vĂȘ naqueles programas estĂșpidos de automĂłveis. Eu nĂŁo te entendo, JoĂŁo, mas juro que me esforço ao mĂĄximo pra te aceitar. VocĂȘ carrega um fardo de defeitos insuportĂĄveis e uma lĂĄbia com gĂrias indecifrĂĄveis, mas o desgraçado do seu perfume tem um aroma bom. O seu ar superior e a sua confiança em si mesmo me dĂĄ nĂĄuseas, mas a droga dos seus braços tem a facilidade de me passar uma segurança que eu nĂŁo sou capaz de encontrar em nenhum outro lugar do planeta. Talvez o que eu venha a dizer agora te deixe intrigado, porque no fundo vocĂȘ sabe que Ă© verdade: vocĂȘ nĂŁo passa de um fraco, JoĂŁo. Por mais que os seus mĂșsculos saltem do seu corpo e vocĂȘ consiga levantar trĂȘs elefantes seguidos, vocĂȘ ainda continua sendo um fraco. EstĂșpido. Babaca. Covarde. E mais outros milhĂ”es de adjetivos chulos. Porque vocĂȘ pode fazer mil mulheres caĂrem de amores aos seus pĂ©s, mas tem medo de se prender Ă apenas uma. Se te perguntarem o significado da palavra âcurtiçãoâ, certamente vocĂȘ saberĂĄ responder. Mas e o amor, JoĂŁo? O que Ă© amor pra vocĂȘ? Acho que agora eu te encurralei em um beco sem saĂda. Por detrĂĄs de toda essa sua estrutura de homem-inabalĂĄvel, existe um menino que tem medo de amar. Eu sei disso tambĂ©m. O problema Ă© que o seu orgulho te consome da cabeça aos pĂ©s e vocĂȘ nĂŁo Ă© capaz de dar o braço a torcer. A sua aparente falta de sensibilidade me irrita. NinguĂ©m suporta conviver no mesmo ambiente que o seu por trĂȘs dias, mas olhe sĂł pra mim! Eu estou do seu lado a quase trĂȘs anos. E vocĂȘ nĂŁo dĂĄ valor a isso. AliĂĄs, vocĂȘ nĂŁo dĂĄ valor a nada, JoĂŁo. Isso tambĂ©m me irrita. VocĂȘ nĂŁo permite que ninguĂ©m descubra o que se esconde alĂ©m dessa nuvem cinzenta que te cerca, porque no fundo vocĂȘ tem medo da solidĂŁo. VocĂȘ tem medo de se entregar em um jogo no qual nĂŁo Ă© vocĂȘ quem dĂĄ as cartas, tampouco Ă© o dono da partida. VocĂȘ tem medo de que alguĂ©m goste de vocĂȘ apesar de todos os pesares. E eu gosto. Eu gosto da sua tatuagem tribal ridĂcula no ante-braço, da sua barba mal feita e da unha encravada do seu dedĂŁo do pĂ©. VocĂȘ nĂŁo merece, eu sei, mas isso nĂŁo Ă© motivo o suficiente pra me fazer desgostar. Mesmo que vocĂȘ xingue a sua mĂŁe, seja mal educado com o seu vizinho e se sinta bem em ser um completo filho-da-puta, ainda assim eu gosto de vocĂȘ. Na medida do impossĂvel, tudo o que eu mais queria era atravessar pro seu lado do precipĂcio e fazer com que a gente desse certo. O problema Ă© que eu nĂŁo sei ser a sua Maria, JoĂŁo. E o meu nome ainda Ă© BĂĄrbara.
Capitule (via capitule)