“Conhecimento não causa o caos, ignorância causa. ” Lucy (2013)
O título deste post não é uma hipérbole, não é um exagero retórico, realmente vidas humanas estão sendo perdidas por negação da ciência. Ignorância mata.
No mundo subdesenvolvido, como os países miseráveis da África e da Ásia, a maior ameaça à saúde das pessoas é a subnutrição, as condições precárias de higiene, e a falta de acesso a tratamento médico. Em países não tão pobres, como o Brasil, uma parte significativa da população também sofre destes problemas, mas uma outra parte, mais rica, tem a vida ameaçada porque apesar de ter acesso à saúde, a esnoba. Toda negação da ciência é ruim. Aqui vou tratar mais da ciência médica, mas a atitude de negar, esnobar ou menosprezar o conhecimento científico infelizmente costuma ser aprendido desde cedo e aplicado à todas as áreas do conhecimento. É sempre assim, começa com criacionismo e teoria da Terra jovem, acaba não querendo vacinar o filho. Se as pessoas aprendessem a aplicar a dúvida crítica a todo conhecimento que recebem, como um robusto firewall, não teríamos os problemas que eu vou descrever.
Parece que chegamos ao final de um ciclo: A medicina foi da total precariedade, até fim do século XIX, quando ainda se confiava muito em remédios “da natureza”, e se desenvolveu rapidamente no decorrer do século XX. E agora as pessoas esnobam este conhecimento todo, e preferem as soluções “místicas” ou “naturais”. O que aumentou não foi só a pesquisa, mas a oferta dos frutos desta pesquisa. E não se engane, quem mais beneficiou a saúde no mundo não foram governos nem entidades altruístas, mas os gananciosos donos de laboratório que queriam vender o máximo de remédio possível. Claro que políticas públicas de saúde também são bem-vindas. No Brasil o SUS oferece tratamentos de saúde necessários e alguns medicamentos básicos. O serviço não é uma maravilha, mas decididamente é melhor do que nada. Só que algumas pessoas preferem ficar com nada.
…Mas eu não quero me entupir de remédios…
Ah se eu ganhasse um real para cada vez que eu ouvi essa frase…. Parece que virou uma espécie de virtude cívica não tomar remédios. Os laboratórios gastam bilhões em pesquisa, desenvolvem um medicamento que muitas vezes é barato, e que os nossos avós nunca nem sonhariam em ter, mas as pessoas não querem nem de graça. Dizem que quem toma remédio é igual a um drogado na cracolândia (a velha falácia da falsa analogia) ou que é hipocondríaco. Eu conheci gente que prefere ficar se remexendo três horas na cama toda noite do que tomar um remédio para dormir (ou tenta aplicar técnicas de “higiene do sono” que exigem eliminar cada fóton e cada decibel do quarto); ficar com o nariz escorrendo ou obrigar todos na sala a sofrerem sem o ar-condicionado, ao invés de tomar um antialérgico; e tem quem prefere ficar estourado e destratar os outros porque tem ansiedade e não quer tomar um remédio pra isso (alguém que eu conheço muito bem é assim, e é médica ainda por cima) e por aí vai. Isso sem falar dos que acham que é um sinal de “macheza” não usar da medicina para nada, o que está por trás do motivo pelo qual os homens vão ao médico muito menos que as mulheres, e morrem mais cedo. Com a questão dos remédios para males psiquiátricos, o problema parece ser mais grave ainda, por todo o tabu que existe ao redor de quem toma remédios psiquiátricos, sem falar no desconforto que causa a algumas pessoas o fato da consciência possuir uma matriz física, e um problema biológico alterar a mente.
Não, nem tudo se cura com boa alimentação e atividade física, esse mantra da sociedade moderna. Alimentação boa e atividade física não são essa panaceia, e para muitas coisas só remédio resolve mesmo, quando não intervenções cirúrgicas. E eu digo remédio de verdade. Porque além das pessoas que simplesmente não tomam nada, têm as que vão para tratamentos de mentirinha, e é aí que a coisa pega.
Existem exatamente dois tipos de medicina alternativa: A que foi não foi provado que funciona, e a que foi provado que não funciona. Quando um tratamento de medicina alternativa é provado, ganha outro nome: Medicina.
“…Mas esse remédio é usado na China Há Milhares de Anos…”
E certamente jamais curou nada que não fosse passar sozinho de qualquer forma, ou que pudesse ser resolvido simplesmente com descanso ou ajuda psicológica. Só para citar um exemplo, já foram feitos experimentos com acumpulturistas profissionais vs. pessoas espetando agulhas em voluntários aleatoriamente, e os tais profissionais curaram tanto quanto os amadores. Ah, os experimentos duplo-cegos, estes velhos assassinos de pseudociência.
E a homeopatia, esta velha pseudociência que se nutre de conceitos obscuros para prometer uma cura suposta cura inexplicável. Nenhum homeopático jamais conseguiu uma cura estatisticamente mais eficiente do que um placebo. Mas as pessoas continuam tomando, e no Brasil essa joça é até especialidade médica. Deveria pelo menos mudar de nome: “Placebologia”.
Um dos problemas do Brasil é a fé, é parte do que faz este país permanecer estagnado não apenas economicamente, mas intelectualmente. E, pior ainda, a fé, este velho hábito de acreditar sem evidências em afirmações que contrariam o bom senso, é tido como algo positivo, até mesmo necessário, não como o que realmente é: Um erro que a humanidade precisa superar. Junta-se ao bonde da pseudociência as orações, “cirurgias espirituais”, e toda essa baboseira.
Mesmo que seja verdade que algumas pessoas, como bandidos ou toxicômanos, só consigam viver sem perturbar a sociedade enquanto são religiosos, isto não diz muita coisa de positivo sobre a fé, na verdade é praticamente admitir que se trata de uma espécie de lobotomia.
O bom é que, normalmente, quando a doença vira coisa séria, as pessoas deixam os tratamentos alternativos somente como um mero complemento, enquanto fazem um tratamento médico de verdade (e claro, se melhorarem, vão dizer que foi o tratamento alternativo ou “a bênção de deus” que teve resultado, não o trabalho do desgraçado que estudou mais de oito anos da vida para salvar a dos outros). Pelo menos, até aí, a coisa é só uma perda de tempo e dinheiro. Mas sim, tiveram os idiotas que largaram tratamento de saúde para se tratar com terapias alternativas, e nem preciso dizer que fim estas pessoas costumam ter. Chega a ser tentador usar teorias de darwinismo social para dizer que é bom que os idiotas morram. Mas darwinismo social também é pseudociência, e olhe como matou.
O movimento antivacinação (antivaxxers) é uma das maiores boçalidades do mundo contemporâneo, e existe com força nos EUA, onde anda de mãos dadas com o fanatismo religioso, tanto que parece até que a bíblia proíbe as vacinas. Começou com um estudo fraudulento que ligava vacinas a autismo, e mesmo depois do pesquisador antiético ser desmascarado e descredenciado, o movimento continua, dentre seus proponentes está o comediante Jim Carrey. O que eu fico feliz é que aqui no Brasil não chegou com muita força o movimento antivacinação. Não o movimento novo, americano, mas no passado já houve um: Quando Oswaldo Cruz começou o movimento de vacinação no Rio de Janeiro, as pessoas estranharam aquilo e se negaram a tomar a vacina. Mas nesse caso, eu devo admitir que o governo agiu extremamente mal em querer vacinar as pessoas a força, e pior, sem fazer qualquer trabalho de ensinar sobre o que é aquilo. Se não tivéssemos um povo tão supersticioso, talvez não fosse tão difícil.
O movimento que nega que a aids seja causada pelo vírus HIV também é uma desgraça, chega a ser maldade ainda haver gente que divulga isso. O presidente da África do Sul, baseado – sem brincadeira – em pesquisas que ele fez na internet, pelas quais ele conheceu esta teoria conspiratória, cortou verbas do tratamento de soropositivos. E mais uma vez, a negação da ciência matou.
“…Mas a ciência vive mudando de ideia, as empresas farmacêuticas são capitalistas exploradoras, os cientistas são uns vendidos…”
Sempre o mesmo blá-blá-blá. Sim, os cientistas várias vezes erram, aplicam metodologias erradas, são desonestos…. Afinal eles são humanos. Mas não é a ciência que está errada, e sim alguns cientistas. Na ciência, aliás, os erros também são importantes. Na verdade, é a própria ciência, não qualquer outra instituição, que descobre os erros dos cientistas, pode até demorar, mas descobre. Felizmente, o fato dela não ser dogmática significa que mesmo um consenso científico de longa data pode ser desfeito se houverem evidências o bastante, e o próprio método científico foi se aprimorando com o passar do tempo. Na religião, por outro lado, chega a ser falta de educação falar que alguém está errado, ou colocar em cheque algo que as pessoas acreditam há muito tempo, mesmo que hajam fartas evidências de que ela estava errada. Entendeu a diferença?
“…Essa coisa de verdade e mentira é muito relativa…”
Esse é o pior argumento de todos. Sinceramente, odeio os pós-modernistas com suas teorias porra loca que querem relativizar o conceito de verdade, dizer que “tudo é relativo, nada é verdade, verdade é coisa de elites brancas dominantes, nada é certo nem errado”. Quando pessoas inteligentes, despidas de seus preconceitos e interesses particulares, trabalham para solucionar um mesmo problema, elas vão chegar mais ou menos às mesmas respostas. Diferenças culturais não são tão grandes assim, note que qualquer língua pode ser traduzida para qualquer língua, com uma ou outra palavra mais desafiadora, e equipes de pesquisa frequentemente envolvem pesquisadores de países diferentes, que podem trabalhar juntos e concordar em suas conclusões porque usam do mesmo método, e possuem mentes parecidas.
Infelizmente, o besteirol dos pós-modernistas fez com que as pessoas não levassem mais a sério as ciências humanas, aliás, quando as pessoas criticam as ciências humanas, normalmente o que elas estão criticando é o pós-modernismo, uma triste confusão. Dizer, por exemplo, que não se pode falar em verdade ou mentira em questão de fatos e interpretações históricas parece bastante conveniente para quem quer usar o posto de professor de história para professar ideologias. Já que nada é verdade ou mentira mesmo, então por que não ensinar a minha versão dos fatos? Não são todos assim, mas infelizmente, acaba que os bons pagam pelos maus.
A história não é escrita apenas por vencedores, e os historiadores não poderiam nem conversar entre si se realmente não existisse objetividade. Marxismo e sua redução de todas as relações sociais por conflitos de classes e busca de dinheiro também já ceifou muitas vidas.