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@camila-regis
um incêndio é mais importante que uma revolução
"O romance, cujos os primórdios remontam à Antiguidade, precisou de centenas de anos para encontrar, na burguesia ascendente, os elementos favoráveis a seu florescimento. Quando esses elementos surgiram, a narrativa começou pouco a pouco a retroceder em direção do arcaico; sem dúvida, ela se apropriou de múltiplas formas, do novo conteúdo, mas não foi determinada verdadeiramente por ele. Por outro lado, verificamos que a consolidação da burguesia - da qual a imprensa, no alta capitalismo, é um dos instrumentos mais importantes - destacou-se uma forma de comunicação que, por mais antigas que fossem suas origens, nunca havia influenciado decisivamente a forma épica. Agora ela exerce essa influência. Ela é tão estranha à narrativa como o romance, mas é mais ameaçadora que ele, e, de resto, provoca uma crise no próprio romance. Essa nova forma de comunicação é a informação.
Villemessant, o fundador do Le Figaro, caracterizou a essência da informação com uma fórmula famosa. "Para meus leitores", costumava dizer, "o incêndio num sótão do Quartien Latin é mais importante que uma revolução em Madri". Essa fórmula lapidar mostra claramente que o saber que vem de longe encontra hoje menos ouvintes que a informação que forneça um ponto de apoio para o que está próximo. O saber que vinha de longe - seja espacialmente, das terras estranhas, ou temporalmente, na tradição - dispunha de uma autoridade que lhe conferia validade, mesmo que não fosse subsumível ao controle. A informação porém, porém, aspira a uma verificabilidade imediata. Para tal, ela precisa ser, antes de mais nada, "compreensível em si e para si". Muitas vezes não é mais exata que os relatos antigos. Mas enquanto esses relatos recorriam frequentemente ao miraculoso, é indispensável que a informação soe plausível. Nisso ela se revela incompatível com o espírito da narrativa. Se a arte da narrativa é hoje rara, a difusão da informação tem uma participação decisiva nesse declínio.
A cada manhã recebemos notícias de todo o mundo. E, no entanto, somos pobres em histórias surpreendentes. A razão para tal é que todos os fatos já chegam impregnados de explicações."
Walter Benjamin, O Narrador - Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov, em Magia e Técnica, Arte e Política
Chungking Express (Wong Kar-wai, 1994)
embora um pouco burra, porque inteligente me punha logo rubra, ou ao contrário, cara pálida que desconhece o próprio cor-de-rosa, e tantas fiz, talvez querendo a glória, a outra cena à luz de spots, talvez apenas teu carinho, mas tantas, tantas fiz
ana cristina cesar
'Privado de interlocutor, Liévin prosseguiu a conversa com senhor de terras, tentando demonstrar-lhe que toda dificuldade adivinha do fato de não queremos conhecer as peculiaridades e os costumes do nosso trabalhador; mas o senhor de terras a exemplo de todas as pessoas que pensam por conta própria e isoladamente, era pouco propenso a compreender o pensamento alheio e particularmente tendencioso em favor do seu próprio modo de pensar. Fincava pé em que o mujique russo é um porco e adora porcaria e que, para retirá-lo da porcaria, se faz necessária a autoridade, mas esta não existe, é preciso um porrete, só que nos tornamos de tal forma liberais que, de uma hora para outra, substituímos o porrete milenar por um punhado de advogados e prisões, nas quais mujiques fedorentos e imprestáveis se fartam de boa sopa e ganham de graça os pés cúbicos de ar'
Anna Kariênina