Don't come too close, you don't wanna see my ghost @Versfolks.
As coisas não faziam sentido na cabeça de Jacobus, ele não conseguia entender o porque Charlotte estava naquela situação. As coisas só fizeram sentido quando a última palavra escapou dos lábios da loira antes que ela desmaiasse por completo no chão frio e Jake entrassem num desespero ainda maior. “Edgar”, foi a palavra que a loira disse. Pra alguém que não conhecesse ela, aquele nome não teria muito significado, mas para Jake, que já havia ouvido ela falando diversas vezes, sabia que o motivo daquela situação era o nome falado.
Jake poderia julgar Charlie por não aguentar a perda de alguém importante em sua vida, porque ele havia aguentado quando seu pai veio a falecer num acidente ainda inexplicado. A questão era que ele não a julgaria, ele não tinha porque a julgar. Cada pessoa lida diferente com a sua dor, Jake poderia ter entrado na mesma situação que ela, poderia ter se tornado um alcoólatra ou arrumado qualquer coisa que lhe fizesse esquecer aquela dor por algum tempo. Mas uma coisa havia lhe impedido de se jogar naquele buraco negro. Sua mãe e sua irmã precisavam dele. Ele havia se tornado o homem da casa no momento que o carro de seu pai bateu, ele havia se tornado o responsável por cuidar de todos ali. E ele não podia desapontar seu pai, não podia deixar sua mãe e sua irmã sem cuidados. Mas e se ele não tivesse ninguém que realmente importasse? Bom, provavelmente seria ele quem estaria desmaiado naquele piso.
As outras pessoas não pensariam igual a ele, qualquer pessoa que visse a situação de Charlie ali a chamaria de fraca, a julgaria, faria comentários horríveis sobre ela. E Jake faria tudo para que ninguém soubesse o tinha acontecido ali, ninguém daquela escola saberia. Ninguém julgaria Charlie, ninguém olharia diferente pra ela por causa daquele acontecimento. E foi por isso que ele levantou rapidamente, pegou o celular do bolso e discou o número da emergência, pedindo uma ambulância. No segundo seguinte após desligar o telefone, Versnel recolheu a seringa junto com todas as coisas que a loira tinha usado ali e jogou no grande lixo no fim do vestiário. Ninguém ia revirar o lixo, ou pelo menos ele achava que não.
Em seguida, voltou até a loira e mordeu o lábio inferior ao vê-la ali tão vulnerável. – Charlie, I don’t know if you can hear me…But just stay with me, ok? I’m here with you. – Sussurrou pra garota antes de depositar um leve beijo na testa dela. Pegou a bolsa dela no chão e então reuniu as forças que tinha para pegar a garota no colo e sair daquele lugar. Jake não precisou andar por toda a escola, antes que ele chegasse a entrada do prédio, passando por corredores com várias pessoas encarando a cena, os socorristas já entravam lá com a maca e ele deixou que tirasse ela do colo dele e a colocasse ali.
Seguiu atrás deles, mas um dos caras perguntou quem ele era antes que ele pudesse entrar na ambulância junto com a maca. Jake ficou sem saber o que responder, se ele falasse era só um amigo talvez o homem não deixasse ele ir junto, nem mesmo o diretor da escola liberaria já que misteriosamente ele havia aparecido ali. Foi então que no ato de cumprir a promessa que havia feito pra Charlie, ele mentiu. – She’s my girlfriend. – Disse rápido, estava nervoso demais. Não fazia ideia se sua fala tinha sido convincente ou não. – Eu que a encontrei no vestiário desmaiada, pelo amor de Deus…Só me deixe ir com ela. Ela não tem ninguém aqui, só eu. – Dessa vez a fala era verdade, Charlie não tinha mais ninguém ali. Seus pais estavam longe, só Deus sabia que horas ele chegaria por lá. O diretor encarou Jacobus e em seguida assentiu com a cabeça para o socorrista que deixou que ele entrasse na ambulância.
Assim que sentou, procurou a mão livre de Charlie e a segurou firme. Era o único jeito dele mostrar que estava ali cumprindo sua promessa. Jake só queria que ela acordasse, só queria ver aqueles olhos claros mais um vez.
O toque indelével dos lábios alheios em sua fronte não havia sido nada mais do que um mero detalhe de um sonho que acontecia na mente da neozelandesa. Mesmo que sua consciência não ditasse a situação, havia certo aconchego, uma sensação longínqua de segurança, a nostalgia de um beijo terno que Folks não reconhecia, mas que, de algum modo inexplicável, pudera sentir.
Era uma pena que não pudesse falar sobre aquilo, ou sorrir com seu habitual sorriso fugitivo ou trêmulo, ou brincalhão ao provocar aquele holandês com silêncios propositais. Se Charlotte tivesse controle de si, teria pedido perdão. Teria chamado pelo nome dele ao invés de Edgar, teria feito de tudo para nunca deixar Jacobus encontrá-la naquela situação. Jacobus já lhe salvava diariamente sem saber, a loira não podia simplesmente colocar nas mãos dele o dever de salvá-la conscientemente agora. Porém, incapaz de exercer controle sobre seu corpo ou alucinações, tudo o que restou para a garota fazer fora entregar-se ao peso absurdo em seus membros, entregando-se para a sensação crescente de escuridão quando Jake a pegou nos braços.
A neozelandesa não assistiu a cena daquela vez. Não viu os esforços do rapaz em esconder os vestígios de sua fraqueza, tampouco lhe viu arriscar sua própria permanência naquela escola ao chamar uma ambulância sem consultar qualquer responsável. Também não o viu erguer seu corpo frágil nos braços e caminhar com ela para fora daquele lugar, enfrentando uma horda de curiosos. Por todos os deuses, se Charlotte pudesse ver aquilo... Certamente se ajoelharia, imploraria perdão por colocá-lo naquela situação. Juraria jamais deixá-lo encontrá-la daquele jeito. Mas ela era fraca e estava inconsciente, e não havia nada em seu alcance que pudesse impedir Versnel em seu heroísmo. Ou da súbita mentira.
Charlotte já estava há muito desmaiada, portanto, não partilhou daquele segredo. She’s my girlfriend. Consciente, ela teria rido. Teria se envergonhado e desviado o olhar, fitado qualquer direção oposta em meio à brisa fraca do vento, e indagado se ele dizia aquilo para todas as meninas que encontrava inconscientes no piso de um banheiro escolar. Mesmo sabendo que já teria internamente cedido ao sorriso do menino, e concordado em partilhar daquela fantasia. Qualquer coisa para que ele não deixasse seu lado.
Os socorristas assumiram a responsabilidade assim que as portas da ambulância se fecharam quase tão depressa quanto levara o diretor da escola para atentar-se ao que havia ocorrido e voltar ao seu escritório, telefonando para os Folks. Charlie não o culpava, era difícil lembrar que a garota tinha uma família. Não teria sequer se surpreendido com a falsa emoção na voz de Vincent, o pai, ao falar com o diretor. She passed out again? Alright. Anything else? Ok then, we’ll see what we can do. E com uma nota continua a ligação acabava, enviando Charlotte para o silêncio outra vez.
Silêncio. Cortado apenas pelo som dos pneus na estrada, da sirene alta. Da chegada em um hospital. Charlie não assistiu o enfermeiro pedir para Jacobus esperar, que mesmo sendo namorado da garota, precisava deixar cuidarem dela antes, mas que podia ficar na sala da recepção até que alguém lhe chamasse. We’ll do our best, Mr. Versnel, but she seems to be very weak and she needs proper medicine now. E assim a promessa de cuidador era quebrada por tabela, e assim Charlotte era separada. Sem Jacobus, sem Edgar. Sem consciência em uma sala com a agulha fina novamente em sua veia, mas agora levando soro e qualquer bloqueador do que havia injetado. Silêncio novamente. Sem passos, sem pessoas. Só o ínfimo som do eletrocardiograma e as pulsações. Fracas, mas reais. Ela não havia morrido, ainda não era sua vez. O som era fraco, mas ficava forte. Uma nota mais alta por vez, um número subindo cada vez mais, um sonho acabando aos poucos, e enfim... O despertar.
Charlotte abriu os olhos devagar, absorvendo de imediato a claridade cegante do teto acima. Se aquele era o céu, talvez fosse bom conter algum anjo capaz de restaurar sua visão. Mas as imagens acima aos poucos faziam sentido e o branco se tornava um azul claro, o cheiro de produtos químicos se tornava o cheiro de um ambiente limpo. Cheiro de hospital. A súbita noção das coisas atingiu a menina, e Folks se mexeu na cama tentando obter sucesso em enxergar algo com os olhos que se acostumavam aquele lugar, ao mesmo tempo em que um único nome surgia em sua mente, fazendo a menina entreabrir os lábios e, numa voz fraca assim como todos seus demais sentidos, indagar. “Jake?”














