Don't come too close, you don't wanna see my ghost @Versfolks.
O toque indelĂ©vel dos lĂĄbios alheios em sua fronte nĂŁo havia sido nada mais do que um mero detalhe de um sonho que acontecia na mente da neozelandesa. Mesmo que sua consciĂȘncia nĂŁo ditasse a situação, havia certo aconchego, uma sensação longĂnqua de segurança, a nostalgia de um beijo terno que Folks nĂŁo reconhecia, mas que, de algum modo inexplicĂĄvel, pudera sentir.
Era uma pena que nĂŁo pudesse falar sobre aquilo, ou sorrir com seu habitual sorriso fugitivo ou trĂȘmulo, ou brincalhĂŁo ao provocar aquele holandĂȘs com silĂȘncios propositais. Se Charlotte tivesse controle de si, teria pedido perdĂŁo. Teria chamado pelo nome dele ao invĂ©s de Edgar, teria feito de tudo para nunca deixar Jacobus encontrĂĄ-la naquela situação. Jacobus jĂĄ lhe salvava diariamente sem saber, a loira nĂŁo podia simplesmente colocar nas mĂŁos dele o dever de salvĂĄ-la conscientemente agora. PorĂ©m, incapaz de exercer controle sobre seu corpo ou alucinaçÔes, tudo o que restou para a garota fazer fora entregar-se ao peso absurdo em seus membros, entregando-se para a sensação crescente de escuridĂŁo quando Jake a pegou nos braços.
A neozelandesa nĂŁo assistiu a cena daquela vez. NĂŁo viu os esforços do rapaz em esconder os vestĂgios de sua fraqueza, tampouco lhe viu arriscar sua prĂłpria permanĂȘncia naquela escola ao chamar uma ambulĂąncia sem consultar qualquer responsĂĄvel. TambĂ©m nĂŁo o viu erguer seu corpo frĂĄgil nos braços e caminhar com ela para fora daquele lugar, enfrentando uma horda de curiosos. Por todos os deuses, se Charlotte pudesse ver aquilo⊠Certamente se ajoelharia, imploraria perdĂŁo por colocĂĄ-lo naquela situação. Juraria jamais deixĂĄ-lo encontrĂĄ-la daquele jeito. Mas ela era fraca e estava inconsciente, e nĂŁo havia nada em seu alcance que pudesse impedir Versnel em seu heroĂsmo. Ou da sĂșbita mentira.
Charlotte jĂĄ estava hĂĄ muito desmaiada, portanto, nĂŁo partilhou daquele segredo. Sheâs my girlfriend. Consciente, ela teria rido. Teria se envergonhado e desviado o olhar, fitado qualquer direção oposta em meio Ă brisa fraca do vento, e indagado se ele dizia aquilo para todas as meninas que encontrava inconscientes no piso de um banheiro escolar. Mesmo sabendo que jĂĄ teria internamente cedido ao sorriso do menino, e concordado em partilhar daquela fantasia. Qualquer coisa para que ele nĂŁo deixasse seu lado.
Os socorristas assumiram a responsabilidade assim que as portas da ambulĂąncia se fecharam quase tĂŁo depressa quanto levara o diretor da escola para atentar-se ao que havia ocorrido e voltar ao seu escritĂłrio, telefonando para os Folks. Charlie nĂŁo o culpava, era difĂcil lembrar que a garota tinha uma famĂlia. NĂŁo teria sequer se surpreendido com a falsa emoção na voz de Vincent, o pai, ao falar com o diretor. She passed out again? Alright. Anything else? Ok then, weâll see what we can do. E com uma nota continua a ligação acabava, enviando Charlotte para o silĂȘncio outra vez.
SilĂȘncio. Cortado apenas pelo som dos pneus na estrada, da sirene alta. Da chegada em um hospital. Charlie nĂŁo assistiu o enfermeiro pedir para Jacobus esperar, que mesmo sendo namorado da garota, precisava deixar cuidarem dela antes, mas que podia ficar na sala da recepção atĂ© que alguĂ©m lhe chamasse. Weâll do our best, Mr. Versnel, but she seems to be very weak and she needs proper medicine now. E assim a promessa de cuidador era quebrada por tabela, e assim Charlotte era separada. Sem Jacobus, sem Edgar. Sem consciĂȘncia em uma sala com a agulha fina novamente em sua veia, mas agora levando soro e qualquer bloqueador do que havia injetado. SilĂȘncio novamente. Sem passos, sem pessoas. SĂł o Ănfimo som do eletrocardiograma e as pulsaçÔes. Fracas, mas reais. Ela nĂŁo havia morrido, ainda nĂŁo era sua vez. O som era fraco, mas ficava forte. Uma nota mais alta por vez, um nĂșmero subindo cada vez mais, um sonho acabando aos poucos, e enfim⊠O despertar.
Charlotte abriu os olhos devagar, absorvendo de imediato a claridade cegante do teto acima. Se aquele era o cĂ©u, talvez fosse bom conter algum anjo capaz de restaurar sua visĂŁo. Mas as imagens acima aos poucos faziam sentido e o branco se tornava um azul claro, o cheiro de produtos quĂmicos se tornava o cheiro de um ambiente limpo. Cheiro de hospital. A sĂșbita noção das coisas atingiu a menina, e Folks se mexeu na cama tentando obter sucesso em enxergar algo com os olhos que se acostumavam aquele lugar, ao mesmo tempo em que um Ășnico nome surgia em sua mente, fazendo a menina entreabrir os lĂĄbios e, numa voz fraca assim como todos seus demais sentidos, indagar. âJake?â
Jacobus sabia que sua promessa nĂŁo duraria muito tempo, sabia que assim que a ambulĂąncia chegasse ao seu destino final ele seriam separados e ele teria que largar a mĂŁo de Charlotte que ele segurava firmemente durante toda a viagem. Ainda que ela estivesse desmaiada, aquela era a Ășnica forma dele provar que estava ali, mesmo que no fim daquilo ela nĂŁo soubesse quem havia segurado a mĂŁo dela o tempo todo. âWeâll do our best, Mr. Versnel, but she seems to be very weak and she needs proper medicine now.â Foi o que um dos enfermeiros disse enquanto afastava Jake, impedindo que o garoto passasse do corredor e o mandando ficar na recepção. Ele viu a maca se afastar e sabia que nĂŁo podia fazer nada a nĂŁo ser esperar.
E foi sĂł entĂŁo que o desespero lhe atingiu, enquanto ele estava por perto sabia o que estava acontecendo com ela mas ver a loira em seu momento mais vulnerĂĄvel sendo afastada dele, mesmo com a mentira contada sobre um relacionamento inexistente entre eles. Jake se sentou em uma das poltronas, tentando se acalmar. NĂŁo adiantava nada ficar desesperado ou deixar que a ansiedade tomasse conta dele, apalpou os bolsos da calça procurando pelo celular e pelo maço de cigarro, sentindo ambos e se segurando para nĂŁo sair dali e se deixar entorpecer pela sensação de alĂvio que a nicotina lhe causava.
Primeiro porque poderia acontecer algo com Charlie caso ele saĂsse dali, segundo porque nĂŁo era uma boa hora para alimentar um vĂcio. Eles estavam ali por causa de um, ele nĂŁo podia se deixar levar e ser o prĂłximo a estar em uma maca por qualquer motivo. Ele tinha que se manter firme para que quando a neozelandesa acordasse ele pudesse ajudar. Enquanto encarava os minutos passando no relĂłgio da parede e era possĂvel notar a inquietação do garoto pela forma como balançava uma perna inconscientemente e tambĂ©m pela forma que as vezes bagunçava o cabelo deixando que o penteado que jĂĄ era bagunçado ficasse ainda mais. Definitivamente ele nĂŁo estava nem um pouco apresentĂĄvel para alguĂ©m que era herdeiro da mĂĄfia holandesa. Se ele nĂŁo conseguia lidar nem com uma situação como aquela, como conseguiria lidar com todos os tipos de situaçÔes que enfrentaria quando saĂsse daquela escola e tivesse que tomar conta dos negĂłcios da famĂlia?
Jake jogou a cabeça para trĂĄs na poltrona, deixando de encarar o relĂłgio para entĂŁo encarar o teto branco do local. Charlie despertava os instintos de proteção que existiam nele e ele realmente gostava da companhia dela, mesmo que Ă s vezes fosse apenas a companhia silenciosa dela. Como havia sido nas primeiras vezes que eles se esbarram nos corredores, atĂ© que ele finalmente conseguisse fazer com que ela falasse. E entĂŁo ele se lembrou da forma como ela estava quando ele a encontrou no banheiro e o tanto de protocolos que ele havia quebrado tentando esconder os rastros dela e ainda mentindo sobre uma relação para o diretor apenas para estar ali parado sem poder fazer nada. Esperando impacientemente e se sentindo totalmente inĂștil.
O holandĂȘs nĂŁo fazia ideia de quanto tempo havia esperado ali sem nenhuma notĂcia ou quantas vezes ele havia andando em cĂrculo naquela recepção e voltado a se sentar, apenas para mais uma vez repetir aquilo, mas parecia ter sido uma eternidade. E quando finalmente uma enfermeira apareceu, ele se levantou numa rapidez impressionante, pronto para perguntar sobre o estado alheio. PorĂ©m antes que ele pudesse falar algo, a mulher disse primeiro. âMr. Versnel?â E o moreno apenas balançou a cabeça concordando sobre a sua identidade, nervoso demais atĂ© para dizer algo que fizesse sentido. âEla acordou e chamou pelo seu nome. O senhor pode me acompanhar atĂ© o quarto, mas ela estĂĄ bem fraca. Ă melhor evitar agitaçÔes entĂŁo sĂł vai poder ficar por pouco tempo.â A noticia que ela havia acordado trouxe um alĂvio enorme para Jake e ele soltou um suspiro, junto de uma risada baixa. NĂŁo estava esperando que ela acordasse e lhe chamasse, mas de certa forma estava feliz em saber que a primeira pessoa que veio na mente alheia havia sido ele. âOkâ Foi a Ășnica coisa que ele conseguiu dizer e entĂŁo seguiu a mulher atĂ© o quarto alheio.
Assim que chegou na porta do quarto, ele entrou abrindo um sorriso ao ver os olhos azuis da menina mais uma vez. âHeyâ Disse baixo enquanto se aproximava de onde ela estava deitada. Jacobus que geralmente sabia o que dizer sempre, nĂŁo fazia ideia do que falar. NĂŁo tinha porque dar um sermĂŁo nela, mas ao mesmo tempo ele queria dizer para que nunca mais o assustasse daquela forma. E tambĂ©m existia a vontade de dizer que tudo ficaria bem, que logo ela sairia dali e que nĂŁo era pra ficar assustada. Mas a Ășnica coisa que ele conseguiu fazer assim que chegou perto dela foi pegar sua mĂŁo e depositar um beijo na parte de trĂĄs, voltando a abrir um sorriso. Deixaria que ela puxasse um assunto, se quisesse perguntar sobre o que houve ele responderia, mas se ela quisesse falar do cabelo bagunçado dele que estava ainda pior ali ou de qualquer outra coisa, ele responderia da mesma forma. Sem julgamentos, sem questionamentos sobre aquilo.














