❛ ┊˙ ˖ ☪ — empatia é algo difícil de ser explicada quando não habita mais resquício de humanidade sob a alma. cuja teoria é que esta dita palavra pernoita apenas entre os mundanos, indivíduos dotados da preciosa vitalidade e livre arbítrio. ter compaixão lhe parece exemplo notório de escolha: decidir dar importância aos sentimentos de outra pessoa ou não. pois desacredita na hipótese de que seres humanos são bons de natureza, porque o contrário parece justificar cada uma das desgraças da humanidade. humanos, almas ou anjos são seres egoístas. é algo que ( em sua concepção ) está intrínseco as suas respectivas essências. quiçá com exceção daqueles que estão no paraíso todos os outros são indivíduos potencialmente egoístas. pensando na perspectiva que melhor convém a eles. afinal, hobbes já havia declarado anos antes: o homem é o lobo do homem. porventura, as pessoas só são ( ou eram ) gentis umas com as outras pela possível existência do julgamento alheio, pois se estivessem totalmente isentos disso, certamente a verdadeira faceta seria manifesta. a nuança tão individualista que é aprisionada no âmago de cada qual. a questão é que os momentos antes daquela confissão são deletados de sua mente. o sorriso tão genuíno esculpido em sua face jaz morrediço, o olhar cálido direcionado a ela é substituído por outro. um de cerne tão bárbara quanto psicótica, pois os lábios desdenham riso mentecapto ao que ele começa a gargalhar. as mãos apoiadas na própria barriga enquanto o riso colérico ressoa, a respiração é descompassada porque ele quer chorar. tal que as lágrimas começam a deslizar pela face, mas não são pela risada tão bruta. é a lamúria por se sentir DILACERADO por dentro, fragmentado ao ponto de desejar a própria morte novamente. quiçá nem o próprio ácido que fora derramado sobre a pele arderia tanto, pois é a própria alma que agoniza implorando misericórdia por querer desacreditar daquelas palavras. ele está lutando contra a própria psicose. interrompe a própria risada apenas ao notar pela visão periférica que ela está se distanciando, fugindo de si após assumir que o havia destruído. seja por impulso ou pela cólera, minseok levantou-se para correr na direção alheia. pondo-se de frente a ela ao que as lágrimas ainda deslizam pela própria face. ❛ ——— não é justo você dizer algo do tipo e ir embora sem ouvir a minha resposta, uh?❜ o timbre é trêmulo por estar tão sôfrego por dentro, o coração flameja em seu peito em uma dor semelhante ao infarto. porém, ele mantém-se de pé perante a outra ao encará-la friamente. ❛ ——— eu nunca disse a você o que aconteceu comigo depois que você morreu, uh? você já ouviu falar sobre o versículo bíblico: “Não te digo até sete, mas até setenta vezes sete vezes”? ❜ o riso é debochado ao proferir aquilo, as costas das mãos hão de limpar as lágrimas que ousam tecer a epiderme. ❛ ——— os meus pais praticamente me torturaram todos os dias para que Deus me perdoasse pelo pecado de ter tirado uma vida. você já teve as costas chicoteadas? alguém já jogou álcool em suas feridas? porque eu já. eu sofri tudo isso por uma pessoa como você. ❜ esbravejou ao gritar aquelas palavras sem se importar se alguém iria ouvi-los ou não. ❛ ——— eu fiquei de joelhos e implorei o seu perdão várias vezes mesmo que todas as minhas memórias associadas a você me machucasse. porque eu me sentia culpado por ter tirado à sua vida. ❜ respirou fundo até invadir levemente o espaço pessoal alheio, as mãos tremiam ao lado do próprio corpo. ❛ ——— olhe para o meu rosto e lembre-se disso: VOCÊ destruiu a minha vida. completamente. cada sonho, cada conquista, o amor dos meus pais, o meu amor e consideração própria. tudo foi destruído por você. seria melhor que você morresse novamente, uh? porque eu queria realmente que você estivesse apodrecendo no inferno, saeron. ❜ o nome dela ressoa de seus lábios como se fosse uma toxina, uma peçonha que o corpo quer combater tamanho o asco a invadi-lo. ❛ ——— você realmente não é adorável. você é tão lamentável e asquerosa quanto o próprio lixo. faça um favor a si mesma, uh? a menos que queira sentir o meu olhar de nojo sobre você, não fique nunca mais na minha frente. espero que à sua eternidade seja condizente a tudo aquilo que você merece. ❜ deu-lhe as costas ao terminar de dizer aquilo, os passos doloridos ao se distanciar daquela que acreditou ser sua amiga.
Morrer. Antes, quando pensava naquela possibilidade, Saeron só podia notar ganhos. Não teria mais que lidar com pessoas irritantes, ou aguentar a pressão materna para ser perfeita. Quando estava viva tudo que queria era morrer e desaparecer. A pior coisa que ouve consigo foi, de fato, chegar ao limbo. Mesmo na morte ela teria que levantar, agir como se tudo estivesse bem, mesmo quando não estava. Aquilo era a coisa mais cruel que Deus poderia ter lhe dado. Por dias ela o xingou e tentou tirar de si aquilo que considerava um castigo, sua vida, ou melhor, aquela forma deturpada de morte a qual estava. Porém, com o passar dos dias, ela melhorou, começou a aceitar estar onde está, começou a ficar levemente feliz. E foi ai que deu de cara com Minseok. De começo, não se importou com o fato dele estar ali. Diversas pessoas as quais conhecia haviam chego aquele local em algum momento do intervalo de tempo. Mas o homem dizia ser ele o causador de sua morte, ele se desculpava. E aquilo machucou Saeron de uma forma que ela não poderia se livrar. Afinal, a mulher sempre soube quem era o verdadeiro assassino de si, não havia outro além da sua própria forma. Por isso, guardar aquilo por tanto tempo havia lhe consumido. Porque ela começou a se importar com Kang. E por que tinha de ser tão cruel? Por que o destino havia lhe levado a se jogar na frente do carro desse? Ela se questionava pois queria respostas. E, no meio de tudo, não conseguia falar, afinal qualquer restrinjo de verdade que Cheon dissesse poderia significar o fim de uma amizade. E um fato era que a médica se mostrava tão egoísta ao ponto de não querer perder uma amizade que ela sabia que uma hora iria acabar. Ali, pela primeira vez ela havia tido coragem. Em sua mente, repetia: Você tem que fazer isso. Pois se não fizesse tal ato, sentia que iria desabar. No final, mesmo sendo cruel, ela não queria perder Minseok. Se retirar havia sido um ato de medo assustada com o que poderia vir, com as respostas de ódio que iria levar. Ser atacada não foi algo que podia retrucar. Sempre soube que tal destino lhe esperava, sempre lhe preparou para aquilo. Porém ouvir as realidades, o que havia acontecido com o homem... Deus, ela preferia ter vivido na dor do que ter sido a causadora de tanto sofrimento ao outro. Dizer que as palavras alheias não doeram, seria mentir, doía como o inferno ouvir tais coisas. Porque sim, ela havia o destruído. Sim, seria melhor que ela morresse novamente. Saeron segurava as mãos ao lado de seu corpo, tremendo com lágrimas em seus olhos, esperando que o momento do término da fala alheia para que pudesse sofrer em paz. Mas uma frase lhe afetou mais do que as outras. Ela não merecia o inferno porque ela já vivia em um. E tal frase foi o que a fez se perder ao resto do monólogo alheio. Memórias voltando a sua mente. Em uma etapa de sua vida ela havia saído da felicidade extrema para aquilo, e nem ao menos sabia dizer o conjugado de emoções negativas que podiam lhe cercar. Cheon havia matado a pessoa que mais confiava após descobrir as atrocidades que ele havia feito e até hoje se questionava, havia sido em autodefesa? Em defesa da criança? Ou simplesmente havia sido ódio? Cheon havia sido considerava heroína quando tudo que queria era considerar a morte e matar sua criança. Ela foi obrigada a viver com algo dentro de si que lhe lembrava seus erros que a fazia se odiar cada vez mais. E ali, agora, vivia seu mais novo inferno pessoal. Ser a culpada da morte de uma pessoa a qual presa mais que sua vida. Não tinha o direito de ficar irritada, nunca teve. Porém o corpo se moveu por vontade própria, agarrando o braço alheio e olhando para Minseok, o rosto vermelho por causa de tantas lágrimas que Saeron havia derramado. — Eu não queria ter te destruído. Eu nunca quis que ninguém se machucasse, além de mim. — A mulher olhava para dentro dos olhos alheios, o corpo quente, como se tivessem lhe dado uma descarga elétrica. — Me desculpe por tudo que aconteceu com você, me desculpe por destruir sua vida. Mas sabe de uma coisa? — Ela hesitou, contar para alguém o maior segredo do mundo, aquilo que sempre escondia dos outros por medo que voltasse a ser consumida. — Eu não me arrependo do que fiz. Me arrependo de estar aqui, de ter matado minha filha, de ter ocasionado sua morte. Mas eu não aguentava mais. — Disse, entre os dentes, soltando o braço do homem, começando a apertar sua mão a ponto que as suas unhas ficavam marcadas na palma. — Eu não conseguia viver mais um dia e aquela foi minha única escolha. Se você quer que eu morra novamente? Ótimo, eu também. Porque mesmo aqui eu continuo querendo morrer infelizmente não é possível, eu já tentei. Mas se quiser, tudo bem, eu me taco de um prédio, entro na frente de um carro, tenho uma overdose de medicamentos. Isso irá te fazer sentir melhor? — E ela jogava as palavras, porque confessava a ele tudo que queria e não queria. — A verdade, Kang Minseok, é que eu não preciso ir para o inferno. Você aqui é o meu inferno. Porque te ver me faz lembrar o tipo de pessoa que eu destruí, a cada dia com você eu quero me matar mais porque acabei com alguém que eu não queria. Então se desculpas não bastam, okay, eu me vou alojar uma bala na minha cabeça para te fazer feliz. — E engoliu seco, mãos caçando algo para segurar ao ponto que sua mão já jazia machucada demais. — Só não fique sofrendo, porque a única pessoa que tem que sentir isso aqui, sou eu. Você deveria ser feliz, depois de tudo.