Caso 505
Eu estava escutando 505 quando ela chegou, e eu me surpreendi ao vê-la.
Qual tinha sido a ultima vez que ela tinha se arrumado tão bem?
Isso me lembra de quando a gente se conheceu... Hoje ela está tão linda quanto naquele dia.
-Quer água? - perguntei
-Não, obrigado. - ela respondeu enquanto se sentava no sofá da sala
-Ok - sentei na poltrona na frente dela
Por que será que ela está assim tão arrumada? De onde ela vem? Que eu saiba, ela não saiu com nenhuma amiga…Merda…agora eu não tenho nem o direito de perguntar… Caralho… Isso me incomoda muito.
Ela foi direto ao ponto:
-então… você quer conversar?
-Pode ser - Respondi despreocupado e continuei - É… tá. Eu queria me desculpar por mandar você ir se foder… É que eu não quis dizer isso, não do jeito que você acha…tu entendeu errado. Tipo, eu não queria que vc, literalmente se fodesse, eu só disse tipo: ah vai se foder, sabe? Sem agressividade. Enfim, de qualquer forma, me desculpa, eu não devia ter feito isso. Eu entendo que errei.
-Mas… sinceramente, eu ainda acho que vc fez uma tempestade num copo d’água.
Depois de me olhar com um olhar frio e indiferente ela disse: - Tudo bem, a gente já discutiu sobre isso. - Ela fez uma pausa - Sabe… desde o começo a gente já sabia que não daria certo. Eu já tive outros relacionamentos e já sei mais ou menos como é depois do término, mas você não, então eu to um pouco preocupada… e também o Wendel e teu irmão já tinha me avisado que você era sensível desde o começo… Eu não quero que você fique mal. Você ainda pode me ligar se quiser.
Eu já tava odiando aquele olhar de superioridade no rosto dela, e depois que ela disse isso, eu tive que me controlar pra não mandar ela se foder pela segunda vez.
-Quê? Eu não sou sensível! Quem disse isso? meu irmão e o Wendel?! Eles nem me conhecem direito, não convivem comigo. Você sabe…- desisti de tentar me explicar -ah… Eu não vou ficar mal, não precisa se preocupar comigo. - olhei pra cara dela e sabia no que ela tava pensando e reclamei em pensamento enquanto dava um sorriso irônico : - Aquele dia eu chorei porque você chorou primeiro… Que merda, você melhor do que ninguém devia me conhecer… Na verdade você nunca me entendeu…Eu pensei que você me conhecia. - Fiquei um pouco decepcionado.
-Olha isso - Ela pegou o celular e me mostrou um post no facebook que dizia: Na vida existe dois tipos de amores: o amor da sua vida e o amor pra sua vida. - Ela então completou- Eu acho que é isso. Você é o amor da minha vida, mas não o amor pra minha vida… Eu amo você, mas a gente nunca vai dar certo.
Nós estávamos há 4 dias sem se ver ou conversar. Pra falar a verdade eu pensava que quando ela chegasse, depois que eu pedisse desculpas, ela diria que também errou e que nós falamos tudo aquilo apenas porque estávamos irritados. Depois nos entenderíamos e acabaríamos voltando como nas últimas vezes. Mas depois que ela disse essas coisas e com esse tipo de olhar, eu percebi que ela estava muito séria sobre isso. Por conta disso, a partir daí eu comecei a ficar muito preocupado e com medo de perdê-la. Mas ao mesmo tempo meu orgulho gritava me falando pra não me rebaixar, pois eu estava certo e isso me deixava ainda mais irritado.
- Isso não existe. Você tem que parar de levar essas frases de facebook a sério. Você deveria pensar um pouco por si mesma. Se você sente que eu não sou o amor PRA sua vida, então você nunca me amou, no máximo gostou um pouco de mim. Essa é a verdade: ou você mente pra vc mesma ou não sabe o que é o amor.
Ela continuou a me olhar friamente de cima e disse calmamente como se não valesse a pena discutir sobre isso:
-Tudo bem se você pensar assim.
Tirando toda a raiva que as palavras dela me causavam, eu estava morrendo de vontade de abraçar e beijar ela até que tudo ficasse bem novamente. Mas algo me dizia que dessa vez era diferente. Os mesmo olhos que um dia me fizeram acreditar que seria pra sempre, agora me diziam que dessa vez não tinha mais volta.
-Então é isso?… - Eu perguntei
-…Sim. - Ela respondeu sem emoção
A gente ficou se olhando em silêncio por um tempo, como se estivéssemos tentando descobrir o que se passava na cabeça um do outro, ou refletindo sobre tudo o que vivemos até que as coisas chegassem até ali.
-É… eu tenho que ir embora daqui a pouco porque eu ainda vou sair hoje. - Ela quebrou o silêncio.
Sair? Pra onde? - Pensei, mas guardei pra mim mais uma vez - Tá bom, vamos lá pegar as suas coisas. - disse com um aperto no peito.
Fomos até o quarto e eu peguei a sacola que tinha separado com as roupas dela. Ela estava parada observando o quarto.
Eu olhei para o colchão que estava no chão ao mesmo tempo que ela, depois disso nossos olhos se encontraram e… eu não pude deixar de pedir:
-a gente pode deitar aqui uma última vez?
Ela concordou com um olhar triste. Ficamos deitados olhando um para o outro mais uma vez, até que eu comecei a acariciar o rosto e cabelo dela enquanto fechava meus olhos, talvez, apenas para senti-la melhor, ou quem sabe, tentando ressuscitar os momentos bons em que ficamos assim.
- … Lembra? Quando a gente quebrou a cama?… - eu olhei pra ela
- … aham - Ela sorriu.
- Kkkk tu ficou desesperada. E pra piorar meu irmão chegou bem na hora kkkkkkkk eu tava sentindo que ele ia chegar…
- Kkkk - minha risada se confundiu com a dela até que o silêncio caiu novamente.
- Gabi...- chamei baixinho
- Oi?…
- Eu vou sentir muito a sua falta.
- Eu também vou. - Ela respondeu com um olhar melancólico
O ar parecia sumir e alguma coisa estava apertando meu coração com força. minha pupila dilatou e meus olhos se encheram de lágrimas. Minha vontade era suplicar pra ela não fazer aquilo. Afinal, eu ainda queria dormir com ela mais vezes naquele colchão no chão, e quem sabe, quebrar outra cama. Queria acordar ao lado dela de novo e de novo e repetir todas essas coisas clichês e chatas que todos os casais fazem… eu…só não queria deixá-la ir embora da minha vida.
No final, eu fiz um esforço enorme pra não piscar os olhos, porque eu sabia que se uma lágrima caísse, eu não conseguiria evitar as outras milhares, e ela então concluiria que eu era de fato sensível.
Enquanto eu ainda acariciava seus cabelos, me aproximei bem devagar de seu rosto. Quando cheguei perto o suficiente, perguntei quase sem voz:
-…Posso?
Ela balançou a cabeça em confirmação. Eu me aproximei com delicadeza, fechei meus olhos para sentir seus lindos e macios lábios de mulher e fiz o melhor que pude para entregar o melhor beijo que podia, um que a fizesse sentir todo o desejo que eu estava guardando dentro de mim naquele momento.
E ali então,demos o nosso último beijo:
- O beijo mais sem graça de toda a minha vida.
Fim.










