"Venho do século passado e trago comigo todas as idades”. Cora coralina
Fui de uma geração de navegadores intermediária, já tinhamos gps que marcava nossas coordenadas, velocidade, rumo. Isso era incrível porque daí "plotava" nas cartas náuticas papel, a cada 2h e viamos o avanço da navegação numa linha desenhada à lápis.
Antes de viver no mar li muitos livros de velejadores que navegavam, exclusivamente com sextante que dependia de ter um horizonte e céu com máxima visibilidade, um mar amigável para que pudesse fazer essa leitura, depois as tabelas, almanaque náutico, cálculos e só então vc teria uma posição para colocar na carta náuticas, ah claro que não em tempo real, se o navegador era muito bom, uma hora depois de feita a leitura conseguia saber onde estava há uma hora, esqueci de dizer que se tivesse um odometro desses que se joga na água era ainda melhor. Com a bússola vc tinha o rumo, mas vale lembrar que era preciso ter feito a aferição da mesma e fazer a tabela do desvio da agulha.
Nos anos 90 usavam o satinav, que era uma novela, porque tinha que pegar os 3 satélite para te dar uma posição e isso raramente acontecia, então entre uma evolução e outra os navegadores usavam os dois sistemas.
Já existiam veleiros com radar nessa época, tinham a tela verde e me lembravam muito o monitor de ultrassom dos anos 80, precisava ter olhos de águia e um pouco de pai de santo para identificar as imagens na telinha verde.
Quando comecei a estudar navegação na segunda metade da década de noventa, aprendi fazer navegação na ponta do lápis, cálculos de tudo, foram preciso muitas horas para que trigonometria esférica entrasse na minha cabeça, e dou o crédito para esse aprendizado ao meu sogro Ronaldo que tinha a melhor didática do mundo para ensinar, ele amava matemática, falava com tanta paixão que a gente se encantava com os números sem nexo à nossa frente, mas um dia ele me disse - vc só irá compreender navegação astronômica quando entender como chegar nas fórmulas e pra isso vou te apresentar a trigonometria esférica, se vcs acham que isso foi facil, não foi mesmo.
Três longas tardes de estudos para absorver, entender, aceitar e executar os cálculos. Todas aquelas frases e perguntas que fazíamos na escola quando adolescentes: - pra que isso, nunca vou usar, sou de humanas, não vai servir pra nada?
Bom, aquela adolescente que só gostava de livros e palavras, descobriu que não só servem mas como também poderia me mover pelas águas se usasse os números, paguei a língua mesmo, como se diz.
E foi aí que a física e a matemática entraram de volta à minha vida, mas agora como instrumento para minhas respostas, foi fascinante.
Minha navegação nessa época não era um horizonte infinito, conhecia e visualizava as margens das minhas águas navegáveis, minha lagoa que começou enorme no meu primeiro dia a bordo do laser velejando, ficou minúscula depois da trigonometria esférica.
Um dia fui para o mar, primeiro sem muita audácia com a costa à vista, estava treinando os cálculos navegação por estimativa, pontos de referências, luzes de faróis no meio da noite, com o sextante de plástico foi duro fazer as leituras, mas os cálculos já me deixaram muito feliz com o resultado, confesso que isso só acontecia raramente por causa da visibilidade.
Logo depois consegui comprar meu primeiro GPS um garmin etrex amarelinho, sem cartas , sem plotter mas que me fazia muito feliz, lógico que isso me trouxe um novo problema, pilha ( na época não existiam as recarregáveis) então era preciso ter um estoque delas, até que fiz junto com um amigo eletricista um fio para conectar no 12v do barco para qualquer emergência.
Mas além disso, ele ficava desligado o tempo todo só na hora de plotar a posição na carta era ligado por uns 15 minutos, vida econômica , tinha ainda um gerador de energia, painel solar flexível, para carregar a bateria do barco, no singular mesmo porque era uma só, não havia necessidade de mais, era só para luz de navegação à noite, radio VHF, nunca fui tão livre da eletricidade na minha vida.
Com tudo isso minha audácia tomou força e fui mais longe. Meus pensamentos eram só liberdade.
Hoje pensando nisso vejo que num barco de 22 pés, sem motor, no meio do mar, o que me dava coragem, autonomia e segurança era meu conhecimento, minha capacidade de me levar para qualquer lugar no vento.
Só vou comentar mais um detalhe, nessa época para se lançar no mar, a gente ia na véspera na capitania dos portos buscar uma carta sinótica, a noite assistia ao Jornal Nacional para ver a previsão do tempo, e se na sua avaliação mais a intuição dissesse que tudo bem soltava as amarras e partia com a primeira maré do dia.
Agora no século XXI, temos uma tecnologia que nos facilitou a navegação, trouxe mais segurança, temos AIS, plotter, apps de navegação e previsão do tempo, telefone satelital, rastreador e sem romantismos nostálgicos, dou as boas vindas à tecnologia, que claro nos custou ter que gerar e armazenar eletricidade, somos mais que viciados, somos "dependentes químicos " dela, mas é um preço possível.
Hoje tenho todas as idades da náutica adquirida através dos livros que li e estudei, das "horas de vôo " em cima dos cálculos e das experiências.
E essas são as faces positivas que o envelhecimento pode nos emprestar.
Quão importante é saber onde vc está?
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