Memories → Ciara and Mitchell
Ele manteve sua mão firme ao redor da maçaneta, com os olhos fixos na garota. Talvez tentasse se convencer de que a estava olhando em busca de uma resposta, mas sabia que não era verdade. O tempo todo em que a olhasse, em algum lugar, no fundo da sua mente, estaria lembrando-se de Callidora - e ver alguém tão semelhante a ela era reconfortante, ainda que não pudesse dizer o mesmo sobre a forma com que seus batimentos cardíacos aceleravam quando avistava a filha de Nyx.
Novamente, ele ralhou consigo mesmo, enquanto Ciara abaixava o olhar. Deixou-se observar sua postura, procurando lê-la, um instinto que havia desenvolvido com o treinamento. Parecia tensa. Seus dedos mexiam um com os outros nervosamente, e a alça de uma bolsa pendia de seu ombro. Mitchell franziu a testa. Não via por que ela estaria andando com uma bolsa pelo Acampamento.
O que estaria fazendo ali?
Não precisou esperar muito mais pela resposta daquela pergunta. Ele voltou a fitar seu rosto, sem encontrar seu olhar.
Sobre ela.
Sentiu um aperto em seu peito. Não sabia como falar sobre ela - e nem o que a garota queria saber. Temia que trocasse o pronome “ela” por “você”.
Ele engoliu através do nó em sua garganta e acenou com a cabeça para que continuasse, ainda que suspeitasse que Ciara não havia visto o gesto.
Tentou compreender a explicação da garota, com a testa franzida. Sabia que o fato de Ciara ser, aparentemente, a reencarnação de Callidora (aquilo ainda não soava certo) fazia com que elas tivessem uma conexão, mas ainda não sabia exatamente como ela funcionava. Também não entendia por que Ciara gostaria de estabelecê-la, de aprofundar-se nela. Apenas entendia que, qualquer que fosse a fórmula para isso, incluía Mitchell também.
Seus olhos prenderam-se aos delas, e sua frase ressoou em sua cabeça por alguns momentos. “Eu preciso de você”.
Ele fechou os olhos com força, contra sua vontade. Não podia dar ao luxo de entregar-se a emoções e memórias, não agora. Algo lhe dizia que teria muito tempo para isso depois.
Voltou a abrir os olhos, e afastou-se da entrada da porta, abrindo espaço para a garota.
- Entre - pediu, com a voz enrijecida pela tensão e pelo tempo que passara em silêncio. Quando Ciara entrou, ele fechou a porta, indicando com um gesto leviano a sua cama. - Pode se sentar… e explique-se.
Entrou, contando os passos, lentamente, tão hesitante que não parecia a garota confiante que seu pai criara com tanto carinho e esforço. Agarrou cada vez mais a bolsa que pendia ao seu lado, estava com medo, estava nervosa, e o pior... ansiosa. Como poderia explicar sua súbita vontade de ter alguma ligação com o garoto, sendo essa qualquer que fosse? Engoliu em seco.
Realmente, não deveria estar se importando tanto assim.
Mas se ele não aceitasse qualquer que fosse a resposta mentirosa que daria a ele? E se duvidasse da sua pessoa?
Ciara, controle-se! Gritou em sua mente, repreendendo a si mesmo por tanto nervosismo desnecessário.
Sentou na cama ainda tão hesitante quando entrara no chalé. Se acomodou, e ficou mexendo os pés fazendo as solas de seu coturno roçar no chão abaixo de si, era bastante interessante pensar em como qualquer coisa se tornava bastante interessante quando tinha que tratar de um assunto que deveria ser sério.
Com certa impaciência, puxou a bolsa bastante usada, e colocou-a acima da cama, ao seu lado, procurando abrir. Seus dedos estavam trêmulos o bastante para puxar o zíper e este escapar. Balançou a cabeça em negação e tornou a puxá-la, com a mesma impaciência que a fez tirar a bolsa de seu corpo. Assim que abriu a bolsa, levantou o olhar para fitar Mitchell.
Tinha que se explicar. Suspirou.
- Bem, eu ando sonhando, e cada vez é tudo tão real. A dor que sinto ao ser morta, tudo parece ser real. Mas os sonhos não são só aqueles flashbacks. Eles envolvem bastante coisa. Por exemplo, ontem eu sonhei que a... que ela chorava e pedia desculpas à você... sua versão antiga... ou sei lá, dizia que teria que participar da guerra, estava sendo obrigada já que seu pai havia sido morto. Na verdade... - o fitou com mais urgência. - Eu só queria ver se poderia parar com isso. - mentiu, ridiculamente, abaixando o olhar. - E tem a cicatriz... ela surgiu naquele dia do lago, lembra? É no mesmo lugar em que ela... é atingida. - deu de ombros, envergonhada por lembrar daquele dia. - Então resolvi pesquisar, e achei essa maneira. - sorriu amarelo.
Puxou, com força desnecessária, o livro da bolsa. A capa escura e que aparentava ser bastante usada surgiu. Estava tão claro que não havia nada de bom naquele livro - nada de bom aos outros, pois Ciara considerava aquilo uma coisa boa, por ser apenas o livro.
- Eu preciso... que confie em mim, que não conte a ninguém sobre esse livro, e que principalmente... que aceite me ajudar. - pediu, num tom quase manhoso. O que diabos estou fazendo? Suspirou. - Olha, eu sei que ficou tudo bem confuso, mas nem sei exatamente porque estou fazendo isso. Só preciso que aceite, sem fazer perguntas.
Ergueu o olhar para fitá-lo, nervosamente, esperando sua resposta, ou qualquer coisa que ele falasse.










