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@cleberjuhh
Há dias em que o tempo não passa, apenas pesa. Amanhece, mas não clareia, o sol parece tímido, como se também sentisse falta de algo ou de alguém. A casa respira em silêncio, um silêncio que não é paz, é ausência. Um som oco, como se cada parede guardasse uma lembrança, um rastro de voz, um perfume antigo que insiste em não se dissipar. A saudade é uma visita que chega sem avisar, senta no sofá e cruza as pernas disposta a ficar, ela fala baixo, mas fala o tempo todo. Tem o dom cruel de transformar os dias comuns em eternidades. Agora os domingos são só domingos, sem graça, sem cor e regado de saudade. Não há mais a pressa bonita de preparar as refeições, nem corpos suando por horas, nem o riso leve ecoando pelos cômodos. O relógio continua marcando as horas, mas nenhuma delas parece fazer sentido. É como se a casa tivesse perdido o ritmo e tudo o que restou fosse o compasso lento de uma espera que não se mede em minutos, mas em respiros. Há uma distância que não se explica no mapa, não se trata só de quilômetros, é feita de silêncio, de espaços vazios entre um pensamento e outro, de gestos que ficaram suspensos no ar. É um tipo de distância que dói por dentro, naqueles lugares onde as palavras não alcançam. Às vezes, quando o vento entra pela janela trazendo o cheiro da tarde, parece que ele sussurra um pouco do que ficou guardado, uma lembrança, um sorriso, um toque leve que ainda vibra na pele. E por um instante, é como se tudo voltasse a ser como antes: o mundo mais vivo, o coração menos só, mas o instante passa e o ar volta a ser só vento. A tristeza tem essa mania de se disfarçar de calma, a gente pensa que está tudo bem, até perceber que não há mais gosto no café e na comida, nem brilho nas manhãs, nem ânimo em acordar. E então ela se revela, silenciosa e densa como uma névoa que cobre tudo, até as lembranças boas. Há noites em que o sono não vem, não por falta de cansaço, mas por excesso de lembrança. É quando o corpo repousa, mas o pensamento caminha de volta procurando os rastros de algo que já não está ali. Nessas horas o coração parece uma casa antiga, com portas que rangem e janelas que batem, como se o tempo passasse por dentro dele em correnteza e ainda assim, há beleza nessa dor. Porque a saudade só existe onde houve e há amor e o amor, mesmo quando longe, continua sendo abrigo. Ele se esconde nas pequenas coisas, no som da chuva que cai, na roupa esquecida no canto, no travesseiro que ainda guarda o formato de um sonho compartilhado. Talvez seja isso: amar é aprender a conviver com o eco, com a falta que não se preenche, mas se aceita. Com o espaço que fica, mas não dói tanto quanto no início. Com o vazio que, aos poucos, se transforma em lembrança. E assim sigo entre o peso e a poesia da ausência, esperando o tempo devolver o que a distância me tomou. Enquanto isso, os domingos continuam chegando, tristes, preguiçosos e cinzentos. E eu continuo aqui tentando colorir o silêncio com lembranças, porque, no fundo, mesmo quando falta tudo, ainda sobra amor.
— A anatomia das falhas, o livro. Quebraram, D.
“Ultimamente ser louco é ser normal, assim vamos sobrevivendo aos dias, onde uma das maiores dificuldades é manter a sanidade nesse mundo de alienados.”
— Giulia S.
“Todos têm uma alma gêmea. E quando encontrar a sua, a sensação será igual a da primeira neve do ano. Você sai correndo para andar de trenó, sobe no morro mais alto que encontra, seu coração bate mais forte e você começa a soar. E quando você percebe, está rindo e chorando ao mesmo tempo. E não vai querer que isso acabe. É assim que deve ser um amor verdadeiro. Não podemos nos contentar com menos.”
— Two and a Half Men.
dor (s.m.)
é o ímpeto da angustia, agonia em diversas densidades, é o som de palavras duras ressoando o ambiente. A falta de afeto de quem nos afeta, é amor que não existe, à dois ou três. É a sensação nociceptiva contraindo o coração.
Às vezes ouço o ranger dos dentes atrás de mim, a morte impaciente à espera do momento certo que vou sucumbir ao inferno da minha mente. Vejo sua face refletida no espelho e o brilho da lâmina em cima da pia do banheiro, vejo os ansiolíticos no armário e a corda em formato de forca esperando para envolver meu pescoço em um abraço mortal, vejo sua foice prestes a cortar o frágil fio que me prende a esse corpo; Vejo então, ela ali me encarando, aguardando apenas um segundo de coragem que me falta.
– Em caso de emergência, puxe o gatilho.
“Regra número 1: a saudade sempre volta para apertar o peito e acertar as contas. Ela se infiltra nos meus sonhos, pelas janelas fechadas dos nossos olhos, e fica ali, quietinha, até se apoderar com força descomunal das nossas fraquezas. Acho que é assim que nascem as nossas lágrimas. Lágrima é a nossa saudade em estado líquido.”
— Eu me chamo Antônio.