raus aus den federn || 3rd person pov
[trinta e seis dias após o ataque. 16:15 da tarde.]
Nenhum dos dois sabia o que dizer. Ou o que fazer a partir daquele ponto em que os olhares finalmente se encontraram. Hansel havia esperado por tanto tempo, chegado quase a perder as esperanças de salvar Cleopatra que simplesmente congelara em seu lugar, próximo da cama onde ela estava. Epsilon por outro lado, havia acabado de despertar de um coma de quase quarenta dias; estava atordoada, perdida, dolorida e sem voz. Era mais do que esperado que reagisse daquela forma, e seu olhar azul novamente brilhante denunciava que já encontrava-se assim.
Sentado por dez segundos em seu banco ao lado da cama dela, Hans se levantou novamente, inquieto e talvez um tanto perdido. Olhou de volta para ela como se buscasse as palavras certas para dizer. “Água.” disse ele, de repente, como se uma maça tivesse caído em sua cabeça, o lembrando do que precisava fazer. “Vou te trazer água, tudo bem? já volto.” e assim ele desapareceu com passos rápidos e desajeitados na direção da cozinha, que para sua sorte era no cômodo ao lado. Suas mãos tremiam quando virou a jarra de água para encher um copo de vidro que havia pego dentro do armário. Estava suando frio, reparou ele ao retornar para perto da cama de Cleopatra.
A oficial de policia encontrava-se completamente aturdida diante da nova realidade. À poucos minutos atrás estava apreciando a paisagem de Gallica imponente e destruída, ouvindo aquela voz tão familiar que lhe ajudara e fizera companha tantas vezes... e então tudo fez sentido, de uma vez só. Era dele a voz. Do homem que voltara para perto de si apressadamente, com um copo de água em mãos e certo vacilo presente em sua postura. Cleopatra queria poder dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas sabia que sua voz não sairia. Ao vê-lo novamente, tentou sem sucesso, se ajeitar na cama para receber o líquido, mas logo fora repreendida e surpreendida com a pró-atividade do homem.
“Não se mova, por favor.” disse Hansel, deixando o copo ao lado da pequena mesa de cabeceira para tentar ajudar Epsilon. Sabia que não devia mexer nela, mas ficou tentado em ao menos ajeitá-la. Fez o melhor que pode e quando sentiu-se minimamente satisfeito, pegou a água novamente, levando o vidro calmamente até os lábios da policial. “Beba devagar... eu sei que suas cordas vocais estão ferrando você, mas é só pela falta de uso... logo voltará ao normal.” afirmou ele, enquanto ainda segurava a água para que ela bebesse.
Quando ficou satisfeita -por hora-, tocou no braço de Hans para que ele recuasse. O homem a obedeceu, deixando o vidro sobre a mesa novamente, porém ainda permaneceu na beirada da cama, observando Epsilon. “Eu vou ligar para os médicos que cuidaram de você, tudo bem? eles virão checar você.” avisou ele, pronto para fazer a ligação. “Não se preocupe, eles virão logo.”
Com um novo meneio de cabeça, Cleopatra decidiu esperar pelos tais médicos, afinal, diante de sua condição, não havia muito o que se fazer não era mesmo? Enquanto o homem até então, desconhecido por ela realizava uma ligação, Epsilon tentava organizar sua mente para ao menos se situar. Não sabia onde estava, isso era o fato talvez mais importante. Também não conhecia aquele homem, embora sim, tivesse a certeza de que era a voz dele dentro de sua mente durante os dias em que dormira profundamente. Quando tentava se lembrar de como havia ido parar ali, tudo o que encontrava era um grande borrão de imagens desconexas e sem sentido. A ultima coisa de que se lembrava, era talvez de estar indo trabalhar? mas isso era parte de sua rotina, de modo que não lhe ajudou muito a se situar. Tinha em mente ainda possivelmente fresca a memória do rosto do irmão, nada feliz como sempre; a face de Tarquinn Elric chorando, pouco antes de virar as costas e desaparecer na escuridão da rua à sua frente. Vozes desconexas, imagens sem sentidos.... sentiu-se cansada de tentar recordar alguma coisa válida. Naquele momento, não sabia distinguir o que de fato havia acontecido e o que não passara de um sonho.
O que lhe trouxe de volta no entanto, foi a voz de Hansel e sua nova aproximação. o Alemão sentou-se na beirada da cama próximo de Cleopatra, exatamente no mesmo canto em que passara o ultimo mês, todas as noites conversando com ela na esperança de acordá-la. Tinha uma expressão de alivio? felicidade? ela não sabia distinguir, mas havia algo ali com certeza. Cleopatra parou por um instante apenas para observar a figura do homem que visivelmente havia cuidado dela durante o tempo que estivera ali. Seus cabelos eram cumpridos e desajeitados, mas aquilo não era o suficiente para deixá-lo com uma aparência caótica ou desleixada. Não, na opinião de Epsilon aquilo não era o suficiente. Tinha também um par de olhos verdes quase transparentes, onde ela podia até mesmo enxergar seu próprio reflexo. Apesar de ser um completo desconhecido, ela não estava com medo. Não sentiu medo perto dele ou por estar com ele sozinha naquela casa.
Era como se o conhecesse à muito tempo, como se tivesse a plena certeza de que o homem não lhe faria nenhum tipo de mal, ao mesmo tempo em que deveria, afinal, seu instinto de policial sempre devia lhe preservar e não ao contrário, certo? Mas não era assim como se sentia naquele exato momento em que ele a olhou novamente e esboçou um sorriso discreto, como se estivesse com vergonha de sorrir mais abertamente. Cleopatra ainda o olhava quando tossiu e sem querer encostou sua mão na dele, que estava próxima. Hans sugeriu mais água e ela aceitou de prontidão, repetindo a mesma ação de anteriormente até que estivesse satisfeita novamente.
“Está sentindo alguma dor além dos músculos? Sente dor na barriga?” perguntou o homem, atencioso e avaliando a mulher que esforçou-se um pouco mais até que conseguiu retrucar um sim baixíssimo e rouco. “Você se lembra de alguma coisa, Cleo?” perguntou novamente, e a forma como havia lhe chamado pelo apelido fez com que Epsilon piscasse algumas vezes na direção dele. Ela suspirou, olhou ao redor e respondeu novamente um não baixo e rouco. “Tudo bem, isso é normal. Digo, depois do que aconteceu, é normal a confusão na memória.” explicou Hans, tentando ao máximo ser cuidadoso diante das informações que precisaria dar à ela. “O importante é que você está bem, e está segura. Tem minha palavra quanto à isso.” afirmou o homem, sem desviar o olhar dela e sem interromper o contato. “Os médicos estão vindo para ver como você está... eles cuidaram de você enquanto esteve aqui. Além disso, já avisaram seus irmãos de que acordou.”
Ambos sabiam da relação turbulenta dos irmãos Epsilons. Aquilo não era segredo para ninguém, de modo que nenhum dos dois se surpreendeu com as expressões em suas faces diante da nova informação. Hansel sabia que era um tópico delicado e que não queria soar intrometido em coisas que não lhe diziam respeito. Cleopatra por sua vez, não queria naquele momento, saber como seus irmãos estavam relacionados ao que lhe acontecera, mas não pode negar que saber daquilo aumentou um pouco a sensação de conforto? sim, porque no fim das contas era do seu próprio sangue que estava falando agora e mesmo que estivessem todos em caminhos diferentes, seguindo suas próprias razões, quando a coisa ficava feia, sabia que nunca seria abandonada por eles. Por qualquer outro, sim, menos por eles.


















