nossa, faz um tempo que nΓ£o escrevo aqui, eu nem queria escrever aqui, afinal Γ© um perfil pΓΊblico que nΓ£o seria de bom tom usar como diΓ‘rio para uma pessoa pΓΊblica, mas tem momentos que precisamos escrever.
Minha avΓ³ sempre me ensinou da importΓ’ncia de escrever, e atΓ© sua morte ela escreveu, conversando com Deus. Para ela deus Γ© amor, e entenda que isso Γ© uma metΓ‘fora e nΓ£o que Deus Γ© um homem que te ama, mas que Deus Γ© a palavra Amor. Se vocΓͺ ama alguΓ©m ou a si mesmo Γ© amar a Deus, Γ© Amar. NΓ£o quero entrar nesse cunho religioso agora.
Ontem fui para minha terceira parada LGBT, e a primeira vez sem a minha vΓ³, na minha segunda parada ela ficou muito feliz por eu estar lΓ‘ e ocupar aquele espaΓ§o e lembro que tomamos um cafΓ© e contei para ela como foi. Ela tinha 80 anos. Aquilo para mim foi muito especial, ela como um todo Γ© muito especial para mim. Sinto muita falta dela, todos os dias que passa, eu sinto fome dela. E anestesiar essa dor jΓ‘ nΓ£o estΓ‘ funcionando mais.
Estou com suspeita de prΓ© depressΓ£o, o que Γ© doido, pois jΓ‘ estive depressΓ£o, mas dessa vez Γ© causada pela falta, pelo luto. E depois do fim de semana retrasado eu percebi o quΓ£o seria bom alguΓ©m do meu lado, um companheiro. Mas nΓ£o para jogar todos os meus pesos e problemas em cima de alguΓ©m, afinal nΓ£o seria nada justo, mas para realmente ver alguΓ©m que me enxerga e que por mais que distante fisicamente, que esteja lΓ‘ pra me apoiar ou enfim.
Parece bobagem, mas faz muito diferenΓ§a, e eu nem digo namoro ou relacionamento, eu digo mais companheirismo. Nada vai substituir minha avΓ³ ou meu avΓ΄, mas nem tudo precisa ter dor, pelo menos eu me recuso a acreditar nisso.
Γ gostoso conhecer alguΓ©m, um ser humano, que tambΓ©m te vΓͺ (emoriΓ΄), faz meus dias ficarem um pouco mais leves em meio de tanta dor. Mas atΓ© quando esperar alguΓ©m? O tempo nΓ£o espera ninguΓ©m se curar de luto ou de traumas, o tempo atravessa vocΓͺ estando pronto ou nΓ£o e muitas das vezes nos auto sabotamos quando algo de bom acontece, igual quando um cachorro que nΓ£o come a dias ganha um prato de raΓ§Γ£o e uma costela, obviamente o cachorro vai direito pra costela, mas antes de ir pra costela ele cheira e evita a costela e depois se joga no pedaΓ§o da costela e depois quando se acaba a costela, ele fica com a raΓ§Γ£o (a fome jΓ‘ nΓ£o Γ© a mesma quando se comeu a costela, mas a costela acabou, e ficou sΓ³ a raΓ§Γ£o)
Γ difΓcil encarar a vida adulta, ainda mais sendo jogada para ela, mas nΓ£o tem muito o que se fazer, a nΓ£o ser recomeΓ§ar, comeΓ§ar e continuar. DΓ³i um pouco quando a costela se acaba e vocΓͺ nΓ£o vΓͺ mais ninguΓ©m com outra costela, mas dΓ‘ pra se fazer grandes coisas com essa raΓ§Γ£o. No atual cenΓ‘rio da minha vida eu preciso continuar e como ter forΓ§as para continuar? Eu tΓ΄ num estado da minha vida, em que todas as minhas armaduras estΓ£o completamente desarmadas, nΓ£o tenho forΓ§a e nem energia para batalha ou porrada. Mesmo a minha vida e o meu profissional sendo sΓ³ isso, nΓ£o tΓ΄ conseguindo ter forΓ§as.
Minha avΓ³ se foi hΓ‘ quase um ano e para mim Γ© como se ela tivesse ido a horas atrΓ‘s, o luto nΓ£o Γ© uma linha linear, igual ao tempo.
Precisamos deixar muitas coisas com o tempo, e o destino com o tempo, pois o tempo sempre vai se encarregar de trazer amadurecimento e felicidade, por mais que nesse processo a gente sofra e sinta muito dor fΓsica e mental, o tempo Γ© a nossa ΓΊltima esperanΓ§a para um dia melhor.
E como um cachorro que sentiu fome por dias e nΓ£o foi cuidado por muito tempo, um conselho que eu diria para o meu filho e para mim mesmo no futuro Γ©; NΓ£o tenha medo de ser feliz!! Eu sei que Γ© difΓcil, se permitir ser feliz depois de tudo o que vocΓͺ passou, ainda dΓ³i essa dor, mas essa dor nΓ£o define com vocΓͺ! E nΓ£o precisa morrer com vocΓͺ! As cicatrizes ficam, mas o machucado nΓ£o precisa continuar! Se livra do machucado, se force aos poucos a isso, dΓ³i muito, nΓ£o desejo para ninguΓ©m. Mas nΓ£o podemos ter medo de ser feliz por toda a vida.
Um filme que veio na minha cabeΓ§a agora e que se encaixa exatamente no que eu tΓ΄ falando Γ© um filme do Jim Carrey, "Brilho Eterno de uma Mente sem LembranΓ§as", no filme depois de muitas tentativas e acertos a garota apaga o Jim de sua mente e ele fica com as memΓ³rias, mas ela nΓ£o, Γ© como se ele nunca tivesse existido para ela, um completo desconhecido, ele sofre um luto em vida, ela poderia ver ele, mas nΓ£o reconhecer ele. E sim, esse filme fala sobre a separaΓ§Γ£o amorosa, mas que tambΓ©m fala sobre o luto pela morte tambΓ©m, em algum momento ela matou ele, as partes em que ele vivia com ela, faz parte dele e agora ele procura em todos os cantos essa parte dele mesmo que nΓ£o existe mais nela e que no final do filme procura em outras pessoas. No filme, na ocasiΓ£o, a pessoa estΓ‘ viva, na realidade no luto da morte a pessoa nΓ£o estΓ‘ mais viva, entΓ£o ficamos vagando de um canto a outra tentando "resignificar" lugares, momentos, mΓΊsicas e procurando essa parte que jΓ‘ nΓ£o existe mais nas pessoas.
No comeΓ§o do luto, me peguei nessas armadilhas com os meus amigos, armadilhas nΓ£o tΓ£o boas, pois eles nΓ£o sΓ£o a minha vΓ³. Eu fazia a comida para a minha vΓ³ e fazia bastante comida pro dia todo, teve uma vez que fiz isso para os meus amigos e eles nem tocaram na comida. Eu montava uns imΓ³veis que a minha vΓ³ comprava pela shoppe, mesmo eu nΓ£o sendo montador, eu montava, teve uma vez que a minha amiga comprou um guarda roupa e deixou eu montar, ela falou pra eu deixar pra lΓ‘ pois eu estava demorando demais pra montar. Eu e a minha avΓ³ tinha muito companheirismo, tanto que ela me chamava "meu companheiro", talvez hoje, atualmente, eu esteja novamente caindo nessa "armadilha" de querer novamente ser um companheiro de alguΓ©m, mas que seja uma troca, via de mΓ£o dupla, igual quando a minha vΓ³ tinha comigo.
Γ difΓcil, a gente cai em muitas armadilhas, nunca Γ© fΓ‘cil pra quem nΓ£o tem dinheiro. Mas Γ© necessΓ‘rio aprendermos novamente a viver, mesmo que tenhamos que sobreviver no processo.
Na primeira depressΓ£o que eu tive, muito jovem, eu tinha o meu avΓ΄ que dependia de mim e que era minha Γ’ncora para eu nΓ£o ir de arrasta pra cima. E hoje, nessa prΓ© depressΓ£o, me dΓ‘ muito medo pois eu nΓ£o tenho mais ninguΓ©m como Γ’ncora, mas talvez o meu trabalho, a minha arte seja essa minha Γ’ncora. Mas como algo imaterial vira uma Γ’ncora?
Eu tΓ΄ fazendo uma residΓͺncia, no teatro do HeliΓ³polis, um teatro e um grupo que tem a minha idade, e que Γ© uma inspiraΓ§Γ£o e referΓͺncia a mim, e nessa residΓͺncia falamos sobre guerra e sΓΊtil violΓͺncia, ou seja sobre toda a minha vida. E a minha maior dificuldade, para alguΓ©m que estΓ‘ passando por um luto Γ© de expor para o pΓΊblico, ver e principalmente expor para que eu veja! Isso me dΓ‘ mais medo. Toda vez que eu estou em um processo artΓstico eu nΓ£o consigo separar para somente um canto da minha vida, pois eu como artista (ainda mais brasileiro) me afeto com um todo e entendo que cada processo Γ© uma fala de aprendizado, uma pΓ³s graduaΓ§Γ£o, um processo que a vida me colocou e que eu tenho que encarar.
Tem um trecho da residΓͺncia que fala "tempo dilatado, extenso, tenso, aquilo outrora afetuoso ganha matrizes violentos, violentos, mas, sΓΊtil. Nunca hΓ‘ sΓ³ violΓͺncia, a violΓͺncia precisa existir camufladamente, como no cotidiano corriqueiro dos covardes, dos canalhas que se escondem em pele de cordeiro" e para mim essa fala, esse trecho, define exatamente o que Γ© viver o luto, pelo menos estΓ‘ sendo para o meu luto, principalmente no comeΓ§o quando fala "tempo dilatado, extenso, tenso". Eu perco facilmente a noΓ§Γ£o do tempo, quando eu vejo se passou um ano sem minha avΓ³, sem partes minhas que reverberava em outras Γ‘reas da minha vida que sΓ³ eram possΓveis pela existΓͺncia dela. E como continuar com algo novo que se morre?!
Minha amiga Karina parou de fumar e para parar ela leu um livro de neurociΓͺncia e brizou muito nesse livro e levou a gente para essa briza, no livro ela explica das emoΓ§Γ΅es e dos efeitos que comida e outras substΓ’ncias causam no cΓ©rebro, como por exemplo pra uma pessoa em luto Γ© de bom tom comer bastante doce ou chocolate, pois aumenta a dopamina, serotonina e derivados. E depois que ela me levou para esse buraco da neurociΓͺncia e cΓ©rebro, eu me aprofundei mais a dentro sobre o luto para me ajudar, descobri que quando a gente perde uma pessoa ou animal muito prΓ³ximo, como foi no meu caso, a parte do cΓ©rebro que ativa Γ© a parte da fome. EntΓ£o, vocΓͺ nΓ£o sente saudades da pessoa, vocΓͺ sente fome da pessoa, pois Γ© algo que vocΓͺ se "alimentava" cotidianamente e que nΓ£o existe e nΓ£o tem mais, entΓ£o seu cΓ©rebro sente fome. E Γ© uma fome que vocΓͺ nΓ£o suple, vocΓͺ aprende a conviver com a fome e se alimenta do novo da vida.
Quando mais vocΓͺ amar alguΓ©m, maior serΓ‘ a dor fΓsica de perca. E se perder para morte, mais serΓ‘ a fome que vocΓͺ vai sentir.
Eu nΓ£o desejo a ninguΓ©m o que eu passei e o que eu tΓ΄ passando, pois como diria racionais "Queria que Deus ouvisse a minha voz, e transformasse aqui no mundo mΓ‘gico de Oz"












