Detenha-se
Eu não vou conseguir ser vulnerável diante de ti. E isso, meu bem, mais cedo ou mais tarde irá te machucar. Eu não sei precisar de outra pessoa além de mim. Os mares que cruzei, as terras que percorri, as guerras que enfrentei, as perdas que chorei, as palavras que engoli, os equívocos que tomei, os desafetos que vivi: tudo isso não me fez forte, me fez inquebrável. Eu não sei nem mais dizer se o que resta em mim de fato sou eu, ou se tudo que agora sou não passa de uma pequena parcela do que sobreviveu: o produto derivado, a lição recorrente, o vestígio que não desapareceu. Foram anos de relapsos, colapsos, para não tremer na base, não perder o foco, preservar o equilíbrio, aprender a me manter de pé mesmo com medo. Desconfio da minha sombra, que por muitas vezes me fez refém. Desconfio do meu reflexo, que por muitas vezes me colocou no lugar de réu. Desconfio até da minha voz, que por muitas vezes me disse coisas terríveis. Como não desconfiar de outras pessoas? E a culpa não é sua. É o meu senso de proteção gritando tão alto que, por tantas vezes, pode mais me atrapalhar do que me proteger. Eu sei. Levei muito tempo para ao menos gostar de mim, então, de certa forma, me apavora correr o risco de voltar a me odiar em nome dos outros, mesmo que eu venha a perder a oportunidade de aprender a me amar bem mais por causa de alguém que me ama de um jeito espontâneo, simples e verdadeiro. Detenha-se. Eu não sei precisar. Eu não vou pedir; eu mesma vou fazer. É costume, e velhos hábitos são difíceis de largar. E isso, meu bem, eu sei que vai de alguma forma te machucar.

















