Existem muitas coisas que eu dissociei sobre você. Como as vezes em que você me deixou sem comida e sem dinheiro e foi passar o fim de semana na casa da sua nova namorada. Ou as vezes em que eu saía da escola e tinha que fazer as compras pra casa e trazer tudo sozinha de van, aos 15 anos, mesmo você sendo empresário e tendo um carro. Até mesmo o fato de eu ter que pagar todas as suas contas sozinha na lotérica no centro da cidade desde os 12 anos. Algumas delas voltam em momentos aleatórios do dia a dia, e eu quase me pergunto se eu não estou imaginando. Eu ainda tenho esse hábito terrível. Parece tudo tão longe, parece outra vida.
Mas também existem as coisas que minha memória suprimiu e eu só lembrei que haviam acontecido quando contaram pra mim (normalmente, a minha mãe): tipo o jeito que eu acordei no meio da noite até os 18 anos com pedaços de tijolo caindo do teto pelo meu corpo porque você nunca fez o acabamento do meu teto, mas meu irmão sempre tinha as versões mais atuais dos videogames. Ou o jeito que você nos deixou morar em uma casa sem nenhum móvel além das camas nos quartos por anos (após jogar todos eles fora porque um dia tinham sido da minha mãe) com carrapatos caindo pelas paredes e pulgas pulando nos nossos tornozelos, e você tinha tanto dinheiro mas nunca comprava o remédio. Eu nunca tive coragem de contar isso pra ninguém. Era tão embaraçoso. Eu estava tão à mercê. E às vezes eu ainda me sinto MAL por não ter conseguido acabar eu mesma com os carrapatos de alguma forma, mesmo que eles NÃO saissem com produtos de limpeza. Mesmo que eu não tivesse um real e também fosse impossível trabalhar. Eu me sentia eu mesma negligente por não ter feito nada. Mesmo que não houvesse nada que eu pudesse fazer. Eu só tinha 16 anos.
E já era dona de casa. Eu praticamente criava você, e não o contrário. E você ainda me fez sentir um lixo por não conseguir cumprir o papel que VOCÊ devia desempenhar. Era SEU dever. Não meu. Até arrumar sua cama era minha obrigação. Eu tenho dificuldade para compreender tudo que aconteceu. Perceber que nada daquilo era nem de longe normal ou rotineiro. Ou simplesmente 'daddy issues' no sentido mais comum da palavra. No sentido mais "meu pai nunca lembra do meu aniversário". É difícil conceber como uma pessoa pode se esforçar tanto para ser tão cruel. Como você pôde? Como você pôde, aos 10 anos, me obrigar a limpar larvas de uma panela de feijão só porque eu esqueci ela destampada, sabendo que era a coisa que eu mais tinha medo no mundo e, depois de eu ter limpado cada uma me tremendo inteira, ter ido te abraçar e pedir perdão e você dizer que não me perdoava? Como você pôde? Como você pode cruzar os braços e se recusar a me tocar quando eu tinha encarado meu pior medo pra me redimir pela sua decepção? Como você pôde, entre os 15 e 18 anos, ter me deixado comer comida estragada de propósito quando eu esquecia, eventualmente, as panelas destampadas e sabendo que eu não conseguia diferenciar? Como você pôde fazer piadas disso enquanto eu mastigava aquelas salsichas passadas e ria na minha cara? Como você pode esvaziar uma casa inteira, da qual você SABIA que ia se mudar, com seus filhos dentro dela, e deixá-la sem móveis nenhum e jogar boa parte da mobilia fora, na chuva, incluindo minha casa de bonecas de madeira, que minha mãe tinha passado um dia inteiro pra fazer pra mim e eu tinha guardado por anos ainda brincando com ela, mesmo já tendo 16 anos?
Todos os anos eu me forço a ir te ver no dia dos pais. Todos os anos eu fico aterrorizada de que, se não for, você vai morrer logo em seguida e eu vou me arrepender pra sempre de não ter 'te dado mais uma chance' ou 'passado por cima dessas coisas'. É o que as pessoas sempre dizem não é? E é o que minha mãe diz também, porque ela também teve um pai que fez coisas horríveis e que morreu de repente, e ela se sentiu mal por não ter magicamente, sem terapia, se curado de todo aquele mal e superado tudo, só pra ele morrer com a consciência tranquila, sem enfrentar nenhuma consequência ou remorso. Só pra tornar as coisas mais fáceis PRA ELE.
Eu odeio que meu cérebro tenha suprimido todas essas coisas e muitas outras, porque meu corpo ainda responde aos traumas de tudo isso. De vez em quando eu ainda fico tensa quando ouço um barulho de carro subindo a rua, porque acho que é o seu, mesmo que você não more aqui há mais de 5 anos. Eu ainda levo bronca da minha mãe por sempre, toda vez, cheirar a comida na panela antes de botar no prato. Ela fica possessa, e grita "Você acha que eu seria capaz de te deixar comer comida estragada?" e eu não tenho o que dizer. Porque é uma reação automática. Porque eu também não achava que você me deixaria comer. E você deixava. E ria da minha cara. Eu parei de tomar leite porque nunca sei dizer quando já está passando. Comecei a jogar leites bons fora e volta e meia só percebia que estava estragado na metade do copo. E minha mãe também brigava comigo por isso. Eu odeio porque, embora eu não lembre de muitas coisas, as respostas à elas ainda estão aqui e eu me sinto o ser humano mais podre do mundo por ter essas respostas. Porque parece gratuito. Parece que eu sou só uma mimadinha cujo mundo caiu porque o pai não lembrou do aniversário. Mas isso tudo vai além de negligência, não é? Vai além de esquecer o filho na escola algumas vezes porque está muito estressado ou não abraçá-lo o suficiente, porque você também nunca recebeu abraços o suficiente e agora não sabe como dar. Isso tudo se enquadra como maus tratos, não é?
Então por que eu ainda me sinto culpada de não querer te ver no dia dos pais? Por que eu me sinto ingrata de não querer viajar 6h de ônibus pra ver você se gabando pros parentes da sua esposa sobre como você foi um excelente pai e como é possível ver os resultados disso na gente? Por que eu me sinto infantil de sentir um pouco de dor ao ver você ser tão presente pras duas filhas da sua esposa, que tratam feito gato e sapato, quando você não me dá nem migalhas, até hoje? O jeito que você as trata sempre me faz perceber que não é que você não PODIA ser melhor, não é que você NÃO TEVE para dar. Você só... Não quis dar.
E eu achei que tinha superado isso. Normalmente, não penso em você. Te ver uma ou no máximo duas vezes no ano está bom pra mim. Mas não acho que consigo por mais um ano. Não acho que consigo fingir que nada disso aconteceu e que não me afetou só para deixar as coisas mais confortáveis pra você, só para você não ficar triste com um possível remorso, quando você nem ao menos tenta ser melhor. Quando você descartou a gente como se fôssemos um protótipo que deu errado e começou do zero com outra família, com filhos que nem são seus. Eu estou cansada depois de 23 anos me colocando em situação de desconforto e de morder caco de vidro só para você não ficar mal com suas próprias atitudes, que você não deixou de cometer. Eu estou tão cansada. Não é meu dever. Não é meu dever. Mesmo que você tenha feito parecer.