Acordei com um impulso assim que ouvi o toque do celular, respirei fundo e passei a mão pelo meu rosto ainda lamentando por ter que acordar tão cedo. A noite passada não foi uma das melhores, na verdade, foi a pior desde que cheguei aqui, fiquei a noite em claro tentando expulsar qualquer tipo de pensamento relacionado ao Pedro da minha cabeça. Lembro-me que logo depois que cheguei da escola me tranquei no meu quarto, dando a desculpa de que precisava colocar umas matérias em dia e é obvio que ninguém acreditou, afinal, ainda era o primeiro dia de aula. Depois que saímos da minha escola o Lorenzo notou que tinha algo errado, ficou insistindo durante minutos para que eu o contasse o que havia acontecido, mas preferi guardar apenas para mim. Expulsando qualquer tipo de pensamento do dia anterior da minha mente eu levantei, espreguicei e fui em direção ao banheiro. Tomei um banho rápido e coloquei uma roupa qualquer (http://www.polyvore.com/cgi/set?id=110783870&.locale=pt-br), fiz uma trança atrapalhada no cabelo e passei um gloss apenas para evitar que as pessoas reparassem minha boca seca.
Desci as escadas lentamente e encontrei o Lorenzo sentado na mesa acabando de tomar o seu café da manhã, assim que ele notou minha presença sorriu e disse:
- Finalmente a tampinha acordou – ele levantou e veio na minha direção dando um beijo em minha testa
- Bom dia para você também – eu disse e sorri sem mostrar os dentes
Sentei-me à mesa e tomei o café da manhã tranquilamente enquanto o meu irmão ia acabar de se arrumar. Quando finalmente ambos estávamos prontos fomos para o carro e rumamos em direção à escola. Assim que cheguei senti uma batida mais rápida no coração, suspirei e fechei os olhos contando até dez antes de sair do carro. Lorenzo percebeu minha inquietação e novamente perguntou se estava tudo bem e eu assenti apenas concordando.
Desci do carro e não olhei para os lados, implorei para que não encontrasse ninguém no corredor e minhas preces foram ouvidas, cheguei à sala de aula e a Isa já estava sentada na sua carteira, ela me abriu um sorriso enorme quando me viu e retribui, assim que sentei atrás dela ela se virou e perguntou:
- De onde você conhece o Pedro? – me assustei com sua pergunta e olhei para baixo.
- Eu não o conheço – disse tentando manter minha voz calma
- Claro que conhece Lu. Ontem ele não parava de falar de você e surtou quando soube que você é minha prima – ela balançou a cabeça negativamente e fez alguns gestos com as mãos à medida que ia falando
- Eu o vi no sinal quando cheguei à cidade, só isso – eu disse e peguei meu estojo, colocando-o em cima da mesa
- Ele está louco por você, tive que aguentar ele falando de ti o caminho todo até minha casa. Mas eu vou te dar um conselho prima, se você quiser dar uns beijinhos nele tudo bem, mas não se apaixone o Pedro não é para você.
Quando fui negar e deixar claro que jamais ficaria com o Pedro, o professor entrou e deu bom dia para a classe que respondeu automaticamente, era a minha primeira aula de História e eu gostei bastante, estava entretida com a explicação do professor e levei um susto quando alguém interrompeu a aula. Olhei para o lado e estava parado um garoto lindo, ele aparentava ter a minha idade e era o tipo de garoto “certinho” pelo qual as meninas eram completamente apaixonadas.
- Com licença senhor Knust, este é o Felipe Courson, será seu novo aluno – o diretor se impôs na frente do garoto e fez questão de apresentá-lo para o resto da turma
- Seja bem vindo, Felipe – o professor de História disse enquanto se aproximava dele – Pode entrar e sentar naquela cadeira – ele apontou em minha direção e só aí me lembrei que tinha uma carteira vazia atrás de mim.
Fiquei reparando o garoto por alguns segundos e ele era lindo, passei a mão no meu cabelo colocando algumas mechas atrás da orelha e voltei a olhar para a minha mesa. O Sr. Knust continuou sua aula e assim que bateu o sinal para trocar de professor senti alguém cutucando meu ombro e olhei para trás num impulso, encontrando os olhos do garoto novo.
- Oi, prazer, me chamo Felipe – ele disse assim que eu me virei
- Meu nome é Luísa – sorri sem mostrar os dentes
- Você é nova na cidade? Eu nunca te vi por aqui – ele perguntou
- Sou sim, me mudei faz apenas alguns dias – respondi
- Você é incrivelmente bonita – corei na hora que ele disse isso
- Ah, obrigada – respirei fundo e tentei não demonstrar a quão constrangida havia ficado
Virei-me para frente assim que ouvi a voz da professora de Filosofia, fiz um coque rápido no meu cabelo e comecei a prestar atenção em sua aula. A outra aula que tivemos passou voando e logo deu o sinal para o intervalo. Estava acabando de guardar algumas coisas na minha bolsa e a Isa me chamou para irmos para o refeitório, peguei minha carteira na bolsa e rumamos para lá.
Chegamos ao refeitório e fui até a cantina para pegar algo para comer e por falta de opção eu escolhi um hambúrguer e refrigerante, a Isa bateu os olhos no meu lanche e riu enquanto me perguntava onde estava a alimentação saudável.
Sentamo-nos em uma mesa e ficamos conversando sobre coisas desnecessárias, qualquer bobeira para não ficarmos sem assunto. Estava variando entre comer e conversar com a Isa até que um garoto bem bonito apareceu na nossa frente, ele era o namoradinho da Isa, vulgo Thiago.
- Oi, garotas – o Thiago disse enquanto dava um selinho rápido na Isa
- Oi, Thi – ela disse e retribuiu seu selinho, ele sentou-se na nossa frente
- Oi – respondi sem graça ao lembrar que ele era amigo do Pedro
- E ai, garotada – escutei uma voz vinda do meu lado esquerdo, era fácil de reconhecê-la, a voz mais rouca e linda que eu já havia ouvido.
- Eu sabia que você iria aparecer por aqui – o Thiago soltou uma risada baixa quando fez esse comentário
- Com certeza, ou você acha que eu perderia a oportunidade de chegar perto da Luz? – o Pedro disse em um tom brincalhão e eu senti minhas bochechas queimarem.
- Eu não me chamo Luz – disse bem ríspida
- Pedro, ela não é para o seu bico – escutei a voz da Isa dizendo
- Relaxa, Isinha – ele sorriu e sentou ao meu lado, continuei olhando para baixo fingindo estar mexendo nas minhas unhas – Você fica fofa quando está com vergonha, Luz
- Eu não estou com vergonha – olhei para o lado para encará-lo e ele estava fazendo uma cara tão debochada que fui obrigada a rir
- Eu te fiz rir – ele deu um tapa na mesa comemorando
- Não seja tão imbecil – eu revirei os olhos e ele continuou sorrindo
- Então você me acha imbecil? É a primeira vez que uma garota me chama de imbecil – ele olhou para o Thiago e sorriu – Eu disse que ela era diferente, mané.
- Com certeza. – o Thiago falou e dessa vez percebi que a Isa estava sentada ao seu lado – Você não vai conseguir levar a Luísa para a cama.
- Tem razão, ela não vai para a cama com você – a Isa disse debochando dele e eu comecei a rir.
- Do que você está rindo, Luz? – ele perguntou voltando sua atenção totalmente para mim
- Deixa para lá – dei de ombros
- Luz, eu não tinha reparado o tamanho do seu nariz – o Pedro disse enquanto olhava cada canto do meu rosto.
- Você está insinuando que eu tenho o nariz grande? – fiz careta e tampei o nariz
- Desculpe, não tive a intenção de te ofender – ele pegou o hambúrguer que estava na minha mão e deu uma mordida
- Garoto, você é muito abusado – balancei a cabeça negativamente e soltei uma risada baixa
- Abusado, imbecil – ele sorriu – Você definitivamente não gosta de mim.
- Com certeza não – sorri e tomei um pouco do refrigerante que logo foi tirado da minha mão parando na boca do Pedro
- Eu vou fazer você gostar de mim – ele sorriu e bebeu o resto do meu guaraná kuat fazendo uma careta – Esse guaraná é um lixo.
- Tomou porque quis – olhei para o lado direito e encontrei os olhos do Felipe me encarando atentamente.
- Aquele garoto realmente gostou de você. Afinal, o que ele te disse na hora que te cutucou? – escutei a Isa perguntando e a fuzilei com os olhos.
- Nada demais – dei a ultima mordida no meu hambúrguer
- Quem é ele? – o Pedro me perguntou
- Um garoto que entrou na minha sala hoje, não o conheço – passei a unha de leve na minha bochecha
- Ele não para de te olhar – ele disse e eu dei de ombros
- Esse cara é aquele que vimos no supermercado aquele dia, Pedro – o Thiago falou de uma maneira ríspida e logo notei que havia algo errado.
- Aquele cara? – o Pedro perguntou num sussurro
- O próprio – o Thiago disse
- Quem é ele? – a Isa perguntou e como resposta recebeu um selinho do Thiago
Antes que pudéssemos insistir para que eles nos explicassem quem era o “garoto do supermercado” o sinal bateu e eu e a Isa fomos em direção nossa classe. Antes de eu entrar na sala de aula escutei alguém me chamando e virei para trás encontrando os olhos do Pedro.
- Luz, quero te pedir uma coisa – ele disse demonstrando preocupação
- O que? – perguntei sem entender
- Fica longe daquele garoto – ele respondeu
- Por quê? Não estou entendendo – o encarei durante alguns segundos e ele deu um beijo na minha testa
- Só fica longe dele – ele saiu de perto e deixou-me parada em frente à porta com várias perguntas.
Depois que avisei a Luz para ficar longe daquele babaca do Courson fui até o estacionamento e peguei minha moto, eu precisava sair daquela escola para pensar e arrumar uma maneira de tirar aquele idiota de perto da minha garota, pois sim, ela ainda iria ser minha.
Subi em cima da moto e rapidamente saí da escola, vaguei nos meus pensamentos me lembrando do dia que eu e o Felipe brigamos. Estávamos todos em uma festa na casa de um amigo, tinha várias garotas e era uma mais linda e gostosa do que a outra. Estava escorado no balcão fumando meu cigarro quando senti uma mão pesada no meu ombro, olhei para o lado e vi o Courson parado com um sorriso estúpido no rosto, ele aparentemente parecia ser um cara tranquilo incapaz de fazer mal para qualquer pessoa, porem, mudei de ideia assim que percebi quais eram suas verdadeiras intenções. Ele estava com um pacote na mão e me contou que havia acabado de drogar uma garota e estuprado a mesma, aquele pacote na sua mão era uma camisinha suja e cheia de sangue, senti meu estômago rodar quando vi aquilo. Eu não tinha entendido o motivo dele estar me contando aquilo, até ele me falar que o namorado da garota estava atrás dele e ele queria me pagar para que eu pudesse dar uma surra no cara. Obviamente eu não iria ajudá-lo, mas fiquei curioso para saber quem era a garota, foi nesse mesmo segundo que ele me apontou um homem de costas que era impossível de não reconhecer, aquele parado ali era o meu primo, Lucas Koller. No mesmo segundo percebi que ele havia estuprado a Fernanda que era como uma irmã pra mim, sem pensar duas vezes eu segurei o Courson pela manga de sua camisa e comecei a esmurrá-lo, ele tentou revidar, mas foi em vão, meus anos de Jiu-jitsu me ajudam a conter qualquer pessoa. Depois daquele dia da festa o Courson tinha sumido e um dia qualquer eu e o Thiago fomos até o supermercado comprar algumas coisas para o apartamento, mas fomos surpreendidos por quatro caras enormes na saída, eles nos pegaram e nos deram uma surra, eu nunca apanhei tanto em toda a minha vida, o Felipe foi tão otário que pediu para que os caras nos avisassem para ficar longe dele ou eles viriam atrás de mim novamente e isso me fez sentir ainda mais raiva desse otário, ele realmente não me conhece; Desde então eu e o Thiago o procuramos durante meses e não o achamos, ele tinha se mudado para alguma cidade que não descobrimos qual era. Na hora que o Thiago me disse que aquele cara que encarava a Luz era o “garoto do supermercado” eu tive uma vontade enorme de ir atrás dele naquele momento e matá-lo, porem, tive que me conter, eu não queria assustar a Luz logo quando ela estava sorrindo e me tratando bem. Meu ciúme de ter imaginado um garoto a encarando foi tão grande que não tinha reparado quem ele realmente era, se não fosse pelo Thiago me falando, eu não teria percebido que era aquele estúpido. Parei de dirigir assim que percebi que estava em frente ao apartamento, estacionei a moto e subi correndo para a o meu quarto, fui ao banheiro e passei um pouco de água no rosto. Sentei na cama e entrelacei minhas mãos e estava impossível pensar em qualquer coisa, fiquei imaginando a Luz nas mãos daquele idiota e só aí percebi que havia deixado ela sozinha na escola com ele. “Pedro você é burro para caralho”, pensei.
Levantei da cama e saí correndo do apartamento, voltando para a escola. Eu não podia contar para a Luz o que aquele cara havia feito, ela não me conhece e tenho a leve impressão de que ela não acreditaria em mim. Eu precisava ficar mais perto dos dois, ficar perto o suficiente para não deixá-lo se aproximar dela. Cheguei ao colégio e fui atrás do Thiago, assim que eu o encontrei segurei seu braço e disse:
- Eu não posso deixar ele perto dela, cara – dei um murro na parede
- Pedro, fica calmo irmão – ele segurou meu braço – Nós vamos dar um jeito nesse babaca.
- Ele vai tirar a Luz de mim, ele vai deixá-la mal – passei a mão no meu rosto limpando o suor que estava pingando
- Pedro, que porra é essa? Tem um dia que você conheceu a garota e já está nessa viadagem, eu sei que a Luísa te trata diferente das outras e tenho a leve impressão de que se ela fosse para cama com você, você iria admirá-la ainda mais. O que diabos está acontecendo com você? – ele me perguntou quase gritando.
- Eu não sei Thiago, eu não sei – percebi que minha voz estava falhando – Eu tenho uma necessidade incontrolável de ficar perto dela, eu não sei por que, mas ela me faz bem só de estar do meu lado. Desde que a vi aquele dia não consigo tirá-la da minha cabeça – dei um tapa forte na minha testa – Eu não sei o que essa garota está fazendo comigo, eu só quero proteger e cuidar dela, eu quero que ela fique longe daquele imbecil.
- Cara, você ta apaixonado – o Thiago me olhou como se tivesse visto um fantasma
- To pouco me importando com o que eu estou ou deixo de estar, só preciso que você me ajude a pensar, preciso tirá-la de perto dele.
- Nós vamos pensar em alguma coisa irmão, eu te prometo. – ele segurou meu ombro
- Obrigado cara – abracei o Thiago
Fiquei sentado no pátio esperando que as aulas passassem logo para que eu pudesse conversar com a Luz e tentar arrumar alguma desculpa para fazê-la ficar longe dele. Tive várias ideias, mas nenhuma me pareceu convincente o bastante, então preferi deixar para pensar alguma coisa na hora. O sinal finalmente tocou anunciando o fim das aulas e eu fui para o corredor da sala da Luz e fiquei a esperando, joguei no lixo o cigarro que eu estava fumando assim que avistei seu cabelo loiro brilhante de longe, senti meu sangue ferver quando vi que ela estava rindo com um garoto e perdi totalmente a cabeça quando vi que aquele garoto era o Courson. Com um impulso fui em direção aos dois, a Luz deu um sorriso envergonhado quando encontrou meus olhos e o Felipe deu um sorriso debochado, não pensei nem duas vezes e empurrei aquele cara.
- Fica longe dela, seu imbecil – eu disse enquanto o Courson revidava o empurrão e me empurrava de volta
- Ela não é sua propriedade, Pedro Koller – ele sorriu e eu dei um murro na sua cara, a Luz deu um grito e correu para perto do imbecil
- Pedro, você está ficando louco? – ela me perguntou e percebi que algumas lágrimas escorriam pelo seu rosto, me senti muito mal por isso.
- Eu só quero te proteger – eu disse e ela pareceu não se importar com isso
- Fica longe de mim – ela gritou e chegou um pouco mais perto do Courson analisando seu machucado, dei um passo para bater nele novamente, mas senti uma mão familiar segurando o meu braço
- Não Pedro. Isso só vai afastá-la de você ainda mais – o Thiago falou e eu decidi ouvi-lo
- Fica longe dela ou eu vou te matar – avisei o Courson antes de sair com o meu amigo.
Depois de trocar alguns olhares com o Thiago eu decidi que já estava na hora de ir embora, fui ao estacionamento e antes de subir em cima da moto o ouvi dizendo:
- Eu vou cuidar dela – assenti com a cabeça e acelerei evitando pensar no que havia acontecido.